Uma noiva animada, um livro bom e um tiquinho de Sampa


A primeira decisão que tomei foi não levar o livro que estava lendo comigo, porque não consigo gostar dele (perdão aos amigos queridíssimos que o deram de presente ao Ulisses - a amizade é a mesma e o Ulisses ainda não leu, então desconsiderem minha opinião, sou só uma intrometida que abriu o presente antes do dono). Então minha missão número um era comprar um livro no aeroporto. E aí comprei. E prometo um post sobre ele em breve.

Viajar com Ulisses tem sempre uma pitadinha de emoção. Dessa vez foi assim:

- Não vamos de taxi, vamos deixar o carro no estacionamento do aeroporto; é só um dia, fica baratinho.
- E se o estacionamento estiver lotado quando a gente chegar lá?
- Não vai estar lotado de jeito nenhum.
- E se estiver?
- Não vai estar lotado de jeito nenhum.

Estavam lotados o do aeroporto e todos os outros das proximidades. Aí deixamos na única vaga do estacionamento rotativo e não ficou tão baratinho. 

Seguimos para São Paulo, só nós dois, meio leves demais sem nossas crianças, cada um com a cara enfiada em seu livro. Chegamos a uma Sampa friorentinha, nubladona. Após o check-in a jato no hotel, almoçamos com alguns amigos e aquecemos a voz para as conversas que viriam. Algumas poucas horas depois fui direto para a câmara de tortura, digo, para o salão de beleza. Lá encontrei uma noiva tão tranquila quanto eu e uma mãe da noiva tão nervosa quanto uma noiva. Também havia irmã de noiva, cunhadas, sogra, primas, tias, cada uma empenhada em suportar, digo, curtir todos os passos que compõem o ritual de preparação para o que a noite traria, enquanto os homens da família curtiam com os amigos uma tarde de papos e cerveja. Quer dizer. Né? Enfim. 

Pausa: por que eu não estava com eles no bar, ao invés de estar no salão? Olha, na boa, não sei. Boa pergunta. Mas vamos à tortura, digo, ao penteado.

Eu queria um coque, sabe. Por nada, só para experimentar. Eu disse lá que era para realçar não sei o quê do vestido, mas era mentira, era só por curiosidade mesmo. Mas meus cabelos são longos e eu vou dizer a vocês quantos grampos o moço simpático colocou na minha cabeça para segurar a escultura que ele montou com minhas madeixas: trinta e cinco. Até aí, tudo bem, quem se submete aos 500 graus do instrumento de tortura que ele usou antes de me espetar não reclama de ir dançar com uma cabeça que jamais passaria pelo detector de metais. Mas eu não esperava que alguns desses grampos fossem intracranianos, sabe. Na boa, seria mais difícil me escalpelar ontem à noite. Mas matei minha curiosidade. E foi interessante observar toda a técnica de manuseio de cabelo que ele empregou enquanto esculpia minha cabeleira; quanto mais ele torcia as mãos e arranhava minha cabeça com as pontas dos grampos, mais eu imaginava "gente, imagina o trabalho do Michelangelo para fazer o Moisés..." 

Saí do salão com cabelo de oscar e olhos com todos os tons de azul, voltei ao hotel para me fantasiar, digo, me arrumar e encontrar um marido absolutamente relaxado, sem metais na cabeça nem tinta nos olhos, que se aprontou em dois minutos. Quer dizer. Né? Enfim.

Como foi a festa? Normalmente, não aprecio cerimônias de casamento. Todo o simbolismo religioso que não me diz muita coisa, toda a história da noiva de branco sendo entregue pelo pai ao marido é demais para minha cabeça de aspirante a feminista, etc. Mas não era meu casamento e tudo que estava ali faz parte, de alguma maneira, da vida de pessoas de quem gostamos muito, então me senti muito feliz por poder ver de perto uma festa que teve momentos muito emocionantes. Vi amigos queridos muito felizes e isso sempre faz bem. E se um dia eu deixar de apreciar a Ave Maria de Gounod por estar em uma cerimônia religiosa não haverá mais salvação para mim. Que. Coisa. Linda. Sempre me emociono, sempre, toda vez, toda vez, toda vez.

Depois a cerimônia acabou e fomos juntos festejar o casamento da noiva mais animada da história desse país, comer a comida mais saborosa do mundo inteirinho e desmanchar todos os penteados (não há grampo intracraniano que resista a um bom DJ), amarrar as barras dos vestidos e tomar outras decisões elegantes, vocês nem imaginam. Resumidamente, a festa foi fantástica, animadíssima, linda, tudo de bom. Adorei ter ido, fez um bem enorme para minha cabeça pesada e meu coração saudoso. Foi bom, muito bom. 

Hoje voltamos para nossos filhotes fofos de quem estávamos com uma saudade insuspeita para quem só tinha viajado ontem. Trocamos abraços barulhentos e curti o resto de meu fim de semana esparramada no sofá revezando colo e cafunés.

Não deu para ver a lua, mas não deixei de dizer aos noivos que eles escolheram a noite da lua enorme para se casarem. E lá no meio da muvuca, enquanto a noiva se esbaldava ao som de um sucesso que eu nunca tinha ouvido na vida, disse a ela que desejo para eles a felicidade que tenho com Ulisses. Eu tinha comentado isso com ele durante a festa, do luxo que é poder desejar isso para alguém. Hoje no ônibus que nos levou ao aeroporto, fiquei sem saber direito como dizer a ele do prazer que é olhar a cidade cinza e bege com ele ao lado, meu braço no dele, o mundo passando pela janela e eu me sentindo do jeito que me sinto quando estou com ele. E ele então comentou sobre a dor de morar na rua e eu, que já estava sem entender por que cargas d'água sigo pelo caminho que sigo em um mundo tão confuso, nem soube o que dizer. Pessoas moram na rua enquanto eu sigo para pegar o avião que me trouxe de volta para minha sala quentinha. E fico me perguntando sobre a parte que me cabe nessa carga que é ver aquelas pessoas morando na rua. A festa foi boa, mas viver não é fácil, não. Se a festa de ontem fosse um pó, eu gostaria de pegar um punhadinho desse pó e espalhar sobre aquelas calçadas. Mas não posso e é preciso enfrentar meus pobres pensamentos confusos.

E isso me traz de volta ao livro que estou lendo, de cuja história prometo tratar em um próximo post.


9 comentários:

Amanda disse...

Adorei esse post! Grampos intracranianos que não passam em detector de matais, ahahaha! Muito bom! Que bom que curtiu a festança! Mas ca pra nos, faltou uma fotinho do penteado, né? ;)

Marcia disse...

Querida Rita!
Eu te amo muito e para todo o sempre.
:-)
Fiquei muito feliz com a estoria da viagem e da festa, voce estava precisando "chacoalhar" um pouco a tristeza.
Quando chegar vou invadir sua casa procurando migalhas dos seus deliciosos bolos caseiros...
Beijos amiga querida, te envio meu carinho.

Lílian disse...

Oi, cunhada!

Eu, de plantão. Intervalo. Ler seu post. Tão bom!

Bem, sou de opinião contrária. Amo festas de casamento. Tenho a esperança de que, por debaixo de todas aquelas camadas de flores, toalhas e copos cintilantes as pessoas querem celebrar a decisão de ficarem juntas. E aí chamam as pessoas que gostam (bem, tem gente que faz também os convites por "obrigação", é mesmo meio difícil fugir deles. Como foi que vc falou? NÉ? ENFIM?... kkk...).

Já viver na rua, não tem jeito. Ou a gente se arma de amor, se engaja e arregaça as mangas para ajudar de algum modo prático ou a cena continua virando trailer de filme ao qual assistimos, inertes, das nossas janelas fechadas. Devidamente protegidas com película anti-UV, anti-agressões e anti-pessoas. O resto vai virando retórica e a vida vai seguindo...

Enfim. Né?

BJUS em tooooodos!!! Saudades...

Borboletas nos Olhos disse...

Eu não sei comentar o post. E não queria deixar de comentá-lo, porque ele me diz muito. Então...

a) eu ri da viagem com emoção. Delícia, mantém o coração acelerado, a mente esperta, a espinha ereta e talz.

b) Uma das melhores coisas de cortar o cabelo é que, com certeza, estaria no bar. Mas já tive meus momentos escultura de grampos e, j=hoje, cirurgia intracraniana é fichinha porque, pelo menos, tem anestesia (sorry se alguém ler esse blog e tiver passando por isso).

c) Eu gosto de casamentos, não necessariamente da cerimônia. Gosto da coragem, da confiança, do desapego que acompanha um: vou te amar pra sempre e quero sempre estar contigo(comentei isso a pouco tempo, acho que foi no blog da Mari, acho). Os parangolés dos rituais tem lá uns probleminhas, rsrs. Adoro a parte da festa \o/

d) que luxo seus votos de felicidade. E, sim, Ave Maria de Gounod é de arrepiar.

e) a lua teve efeitos insuspeitos (ou suspeitos) em mim.

f) o resto do post é pro dia do café. Tenho tentando dar conta disso de tantas formas quanto idades eu já tive. Da mais absoluta indiferença ao mais engajado cotidiano. Incluindo projetos sociais, extensão na Universidade e PJMP.

PS. Gostou da imagem lá? eu também, rsrs.

Anônimo disse...

Rita,

Na última vez que tivemos um festão destes, eu me rebelei e passei a tarde no bar com os homens. E o resto da tarde no hotel, namorando o marido, que não é sempre que posso me dar ao luxo de passar uma tarde na cama sem criança junto :)

Eu sempre penso nisso que vc falou, para os homens é TÃO mais fácil. Eu andei horas no shopping pra escolher um vestido pra missa, um vestido pra festa, sapato, etc. O marido sacudiu o (único) terno, uma blusa pra missa, outra pra festa, o mesmo sapato "de terno" e estava pronto.

Aos poucos eu vou me rebelando contra esta ditadura, cada dia um pouquinho mais e mudando algumas coisas.

Beijos,
Aline (da Julia)

Rogério disse...

Nada contra as mulheres - muito pelo contrário - mas todo dia dou graças a Deus por ter nascido homem. Cortar os poucos fios que me restam é algo que me tira o humor, ainda que dure prosaicos 20 minutos. Acho que não te contei, mas sou músico (amador, felizmente) e toco violino. Eu e minha turma já arrasamos casamentos alheios, e uma peça sempre presente é a Ave Maria de Gounod. Além de belíssima, é uma delícia de tocar. Sobre os moradores de rua, passei muitos anos tentando consertar o mundo. Não que tenha desistido, mas a idade (sou cinquentão, mas com um corpinho de 49) acabou por me tornar mais realista, ao ponto de conter minha compulsão de abraçar o mundo e contentar-me com o que é possível. Triste realidade, esta nossa. Por favor, dê uma olhadinha no recado que deixei no post em que você fala do livro de sua cunhada. Quando tiver um tempinho, dê uma passadinha no meu blog. Um grande abraço.

Rita disse...

Ois!

Amanda: sou tímida. :-/

Marcia, segue a torcida aqui, viu. Bj.

Lilian, fazer festa é uma coisa. Eu não gosto é da cerimônia religiosa, só isso. Nem do lance do branco, como se a mulher precisasse de símbolos de pureza, blergh. E nem do pai "passando" a bola pro marido. E nem da igreja abençoando uma união que não tem nada de intrinsicamente religioso, mas enfim... Entende? De celebrar, brindar, enfeitar com flor, tô junto. Bj!

Luciana, eu gosto da festa, não da cerimônia religiosa, mas se tocar a Ave Maria, opa, póchamar pra eu chorar. :-) Viu que votos bonitinhos de felicidade? Amo! Hehehe Beijos, linda.

Aline, minha meta para a próxima festa é fazer minha própria maquiagem, usar cabelos soltos e passar a tarde com os homens das famílias. o/ Quer dizer, depende! Se forem chatos, vou pro salão, néam... Bj!

Rogério, oia, um músico! Que legal. Nossa, violino é tudo nessa vida, né. No casamento que fui rolou até harpa pra garantir as lágrimas. E eu vi seu recadinho! Nossa, nem sei o que dizer, muito obrigada pela gentileza. Vou visitar seu blog, sim.

Abraços, pessoas (na correria porque tô lendo um livro bom demais)

Rita

Angela disse...

Adorei o post super movimentado! Adoro casamentos, de qualquer jeito e religiao, gosto dos rituais diferentes das pessoas e culturas e religioes diferentes e nao sei explicar o por que. So nao consigo me imaginar sendo uma noiva nos proximos 200 anos, por isso eu e Pete demos so uma passadinha no cartorio, custou U$20 e quem pagou fui eu entao digo que comprei ele la naquele dia. :)

Ai o tedio do salao, a ultima vez que tive uma maratona dessas foi para o casamento da minha cunhada, ha mais de dez anos. O negocio foi todo entrelacado, durou seculos. Ficou muito bonito mas nao fiz aquilo de novo nunca mais. Hoje em dia arrumo as criancas e me arrumo no caminho, no carro. Saio de casa so de vestido e bobs mornos no cabelo. Maquiagem, sapato, brincos, hidratante, tudo acontece no carro e quando estamos chegando tiro os bobs e passo os dedos no cabelo. Pete morre de rir todas as vezes.

Como voce, ainda nao consegui processar com serenidade coisas do tipo pessoas morando na rua. Alem de tantas outras coisas por ai.

Mas o que me tocou mesmo foi seu comentario sobre os votos de felicidade. Toda vez que falam mau de homem e de mulher e de casamento e que nunca acontece assim ou assado, lembro de voces dois e penso com meus botoes: acontece, sim.

Um beijao!!!

Rita disse...

Anginha, eu posso VER você se arrumando no carro com as crianças. Tão eficiente. Invejinha. Eu posso LEMBRAR como se fosse hoje do vídeo do casamento de vocês e a imagem mais forte, além da beleza do casal, é a da aliança grande. :-) E posso dizer que gosto dos rituais, mas não gosto da igreja oficializando nada. MAs vou lá, se é de amigos, e torço e me emociono, etc. Assim, bem incoerente. Beijo.

Rita

 
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