Triz


A chuva nem estava assim tão forte, sabe. Mas já era noite, então a visibilidade estava péssima e era preciso atenção redobrada porque havia veículos e pedestres circulando bem perto. E os pedestres, vamos combinar, têm preferência absoluta, mas a água que caía nas cabeças parecia comprometer a orientação: ao invés de caminhar para longe dos veículos, alguns davam passos imprevisíveis, quase sempre rumo a um atropelamento ao contrário. Era preciso, na verdade, atenção triplicada: veículos, pedestres e uns poucos pedestres momentaneamente suicidas.

A manobra era arriscadíssima, qualquer deslize e a roda traseira do carro poderia a) ficar suspensa no ar, comprometendo a estabilidade física do veículo e emocional do motorista, b) colidir com outro veículo, c) atropelar alguém, d) subir o canteiro ou e) despencar de vez ladeira abaixo. Para onde se olhasse, vislumbrava-se uma opção côncava ou convexa demais, todas invariavelmente molhadas. Os ângulos disponíveis para circulação eram mínimos e o barulho ininterrupto que vinha do banco de trás funcionava como um perigoso elemento de distração em um momento onde atenção era tudo.

De repente, vários veículos começaram manobras semelhantes, disputando entre si o exíguo espaço disponível e elevando a níveis estratosféricos as chances reais de colisão. Parecia um balé molhado rumo à confusão. Era como se todo mundo tivesse decidido se mexer quando o mais recomendável seria ficar imóvel ou, no máximo, sinalizar para ajudar os que realmente precisavam se movimentar. O solo escorregadio parecia encomendado sob medida para avacalhar tudo de vez e o carro sempre se projetava um pouco além do pretendido, aproximando-se perigosamente das várias superfícies localizadas no nosso raio de ação. Vários “vai bateeer” foram vociferados ou engolidos entre dentes trincados, em meio à crescente tensão.

O estacionamento da academia onde as crianças fazem natação não é para os fracos. Mas o Ulisses conseguiu tirar o carro. E voltamos para casa ouvindo Zeca Baleiro.

***

"Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro: este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos"
Bandeira, Zeca Baleiro

(Nunca mais vou tirar do carro, assim, nunca mais.)

4 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Eu sou DOENTE por esse cara, DOENTE. Tenho liiiiistasssssss de canções preferidas e não começo o dia sem berrar um bom: "não tenho dinheiro pra bancar a minha droga, (...)Cansei de ser duro
Vou botar minh'alma à venda...
(...)Nada vem de graça
Nem o pão, nem a cachaça
Quero ser o caçador
Ando cansado de ser caça.."

E quanto ao carro+chuva+emoções à flor da pele...foi quase uma cena de abertura de um noir. Angústia, confusão, tensão!

Rogério disse...

No começo achei que tinha ocorrido algo de mais grave. Leitura correndo, e passei a imaginar que seria o relato de um sufoco no trânsito, universalmente caótico num início de noite chuvoso. Acabei abrindo um sorriso de quem foi passado pra trás, ao ver que era apenas a academia. Você me pegou.

Angela disse...

Maravilhosa peca de arte,
o seu post.

Quanto ao Zeca, Ju me deu Perfil da ultima vez que nos vimos e toquei todos os dias por uns dois meses. Rendeu otimos momentos. Dirigi para o trabalho me energizando com os acordes iniciais de Meu Amor Meu Bem Me Ame, no ultimo volume. Julia re-cantava pedacos de "Oh mama oh mama quero ser seu papa" olhando dentro dos meus olhos (imagina que gostoso) e logo quando chegamos de volta aqui Max comentava que era a musica que escutavam no Brasil, e perguntava se ela estava tocando la em Vovo Glauce naquela mesma hora. :)

Saudades hoje!

Rita disse...

Borboleta e sua capacidade de transformar posts em aberturas de filme noir. Sem mais.:-)

Rogério, gotta ya! :-)

Anginha, eu gosto muito da voz dele, sabe. E da irreverência, da variedade de temas que ele escolhe pras músicas, das parcerias e, claro, das letras. Ficou alguma coisa de fora? :-)

Beijos
Rita

 
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