Todo o romantismo de minha visita a Veneza

O último post da Mari Biddle me fez viajar no tempo e relembrar um rápido passeio que fiz por Veneza muitos anos atrás. No post da Biddle, ela descreve um superhotel de Las Vegas que reproduz a cidade italiana em um de seus cenários, com direito a céu, réplicas da arquitetura do lugar e, claro, suas gôndolas e gondoleiros. E achei graça da foto que ela usou para ilustrar o post (inclusive comentei sobre isso lá) porque nela o gondoleiro é muito mais "típico" que aquele que me conduziu em meu inevitável-superclichê passeio de gôndola. Aliás, minha visita a Veneza foi um divertido baque no ideal romantizado da cidade que habitava minha cabeça antes de pôr meus pezinhos lá.

Cheguei a Veneza com um grupo animadíssimo de turistas, na maioria australianos, conduzidos por uma guia neozelandesa que tinha tentado nos preparar para algo que talvez não tivéssemos em mente no momento em que planejamos nossa visita à cidade: a multidão. Veneza é destino de milhares de pessoas do mundo inteiro todos os dias, claro. Mas, né, a nossa visita é sempre tão especial que não pensamos muito nisso, mas sim na beleza dos mosaicos da Basílica de San Marco e nos românticos passeios de gôndolas pelo cenário d'O Mercador de Veneza. Então apreciei muito a boa intenção de nossa guia, mas me lembro que sua boa vontade não impediu de todo o choque. Era muita gente. Muita gente tipo feira, sabe. Mas turista animado é turista animado e a gente queria mesmo era tomar vinho na gôndola então quem liga pra multidão na piazza, certo? Certo. Eu, pelo menos, desliguei dos encontrões e tratei de babar com o que podia e, junto com dois ou três companheiros de aventura, separei-me do grande grupo e fui curtir o dia.

Lembro-me do céu muito escuro, da chuva que ia e vinha e dos pombos. Dos muitos pombos. Visitei a pequena parte da Basílica que estava aberta ao público, subi no Campanário para apreciar a vista da cidade e dei um basta aos grandes monumentos. Se havia mais, não sei, eu queria me perder pelas ruelas e parar diante das lojas de máscaras e o que mais eles vendessem. Em Veneza eu não quis museus ou galerias, quis respirar a atmosfera daquele lugar singular. Mas é óbvio que dei meu jeito de arrumar uma gôndola para flutuar pelos canais da cidade (não me lembro de ter sentido cheiro ruim) e acho que fiz isso logo depois de lavar o cabelo na pia do banheiro do restaurante que me franqueou a entrada: eu precisava me livrar da enorme cagada de pombo veneziano que ganhei no cabelo.

E então, quando dei por mim, lá estava eu na minha gôndola oscilante, olhando intrigada para o gondoleiro. Diferente dos caprichosos rapazes do hotel que a Biddle visitou, com camiseta listrada e chapéu panamá, meu gondoleiro era um sujeito vestido com desleixo e que falava sem parar, sem entoar uma peça sequer do cancioneiro popular de Veneza. Ora, bolas. Eu estava sob o efeito do vinho maravilhoso que rodava de mão em mão entre meus companheiros australianos - duas garotas e um menino - então achava tudo lindo, mas o gondoleiro, pelamordedeus, não tinha condições e destruía anos e anos de romantismo cuidadosamente alimentado por histórias fantásticas com cenários perfeitos. Até uma rosa nós tínhamos a bordo, era entrar no clima ou pedir o dinheiro de volta! Então pedi que cantasse alguma coisa, quando então o cidadão me perguntou de onde eu era. Após minha resposta, veio com: "Brazilian!! Okay: Madalena, Madalenaaaaaaa, você é mô bem querêêêêêêê.... Ô vô contá pa todo mundo, vô contá pa todo mundo, que só quero vocêêêêê..." Quer dizer, não era exatamente o que eu estava esperando. Mas imitei os meninos do grupo que viajava comigo: diante da multidão molhada e apressada na praça central da cidade, entreolhavam-se, abriam os braços em cruz, soltavam um profundo suspiro e declamavam um romântico "aaaah, Venice!". Então, ao som de Madalena, suspirei meu melhor "aaaah, Venice!" e passamos a brincar de vira-não-vira a gôndola. Bem romântico. E olha que minha adolescência já tinha passado há muito tempo.

Espero um dia voltar a Veneza, dessa vez com o Ulisses, para trocar um beijo ou dois em alguma pontezinha daquelas e assim resgatar anos e anos da imagem romantizada que larguei por lá naquele dia. :-) 

6 comentários:

Angela disse...

A minha visita a Veneza foi encantadora. Havia gente mas nao multidao, e ate hoje tenho como um dos lugares que mais curti ter visitado. Porem... tambem houve surpresa, em forma de enchente. Na epoca que estava la, ela estava alagando praticamente todos os dias. Entao entramos em um restaurante gracinha e sem janelas e quando saimos havia uns 20 centimetros de agua nas ruas, subindo bem rapidinho. Depois de tentarmos varios caminhos tentando chegar na ferry relativamente secas, vi que o pessoal que estava saindo do trabalho usava limícolas, algumas ate o fim da coxa. Foi quando falei para a mamys, que tem fobia de agua (mas quis ir), que tinhamos que ir pela agua mesmo. Ela apertava o braco de Pete quase o esmagando, e falava: "Eh aqui Angela, eh esse o meu fim. No Mar Adriatico." O panico era enorme e ela nao estava brincando nao. Espero voltar la tambem, com o Max, que outro dia estava aprendendo sobre pontes e sobre a Italia na escola, e foi ver as fotos de mama e dada em varios lugares de la. No fim, ele pediu para eu leva-lo to the water city. (e por falar em lindindinhos...)

Clara Gurgel disse...

KKKK...Adorei o gondoleiro!! Pude vê-lo na minha frente cantando...

Borboletas nos Olhos disse...

O último post da Mari e este seu me fizeram lembrar que ainda preciso de tempo e dinheiro nesta vidinha, ai ai ai...
Adorei o gondoleiro (2).se não dá pra ter o de lencinho vermelho no pescoço e boina, que seja um que canta em "português", rsrs.

Mari Biddle disse...

Gente, quer dizer que a réplica ficou melhor que peça original. AHAHAHAHAHAH!

E o povo da fake Veneza estavam pagando 16 contos de dollar pra dar uma voltinha na gondola. Tinha um safoneiro e todos cantavam. E eu pedindo aos céus que me dê a chance de um dia visitar a verdadeira Veneza. Tsc, não sei se vc preparou meu espirito ou se destruiu meus sonhos romanticos, Rita.


O 'Madalenaaaaaa!' já entrou pra história. ahahahahahah

Caso me esqueçam disse...

bom, rezo pra que a cidade nao afunde antes de eu colocar os pes nela, mas ela tah looonge de ser o meu proximo destino turistico. alias... vendo minha conta bancaria, eu tou longe de qq viagem. ppff...

Rita disse...

Gente, ando atrasando as respostas aos comentários, mas não é por falta de vontade de papear, tá. Sorry.

Anginha,
sua mãe foi uma heroína, alguns medos não são fáceis de enfrentar, né. Bom, eu adorei minha visita atrapalhada com zero romantismo e muita risada. Toda uma Veneza por explorar com a pessoa certa, hohoho. Bj!

Clara, você não imagina a peça, guria... :-)

Luciana, o mundo é grande, amiga, tanta coisa pra ver, né... enfim, sigamos. Bj.

Mari, mantenha seus sonhos e, a julgar pela comentário da Ângela, seu espírito aventureiro também - e descubra que Veneza está lá pra você. :-)

Ai, Luci, tudo tem seu tempo, viu. Pra frente. Houve um tempo em que a única passagem que eu conseguia comprar era o ticket do ônibus pra faculdade. Lotado e atrasado. E nem eram em francês as minhas aulas. (essa sou eu tentando te animar) :-/, que dizer, :-D

Beijos, lindas!

Rita

 
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