Sem banho, cheia de ideias e nem aí pro Johnny Depp


Meu bairro está sem água desde a sexta-feira passada. O abastecimento foi cortado sabe-se lá por que razão e nossa caixa deve ter agora cerca de 200ml de água. Não dá para desperdiçar, vocês não acham? Então tomamos banho na casa do amigo, almoçamos fora, escovamos os dentes de forma alternativa, essas coisas. Tá bem divertido. Ainda bem que amanhã as crianças têm natação e podem tomar banho na academia. \o/Alegria é uma coisa relativa, gente. Nossa meta é fazer a água do cano da torneira da pia do banheiro durar até sábado.

***

Eu faço parte de uma lista de discussões. Se eu tivesse alguma noção, certamente seguiria calada, só lendo e refletindo e aprendendo porque há por lá muita gente boa cheia de ideias. Mas minha língua às vezes pula da boca e enlaça meus dedos e quando dou por mim estou lá, teclando meus pobres achismos. Essa semana tem sido especialmente rica por lá, porque tem rolado uma conversa muito pertinente sobre relações de poder e trabalho doméstico. E é sempre muito bom, ainda que difícil, às vezes, encarar um assunto que joga em nossa cara nossa posição de privilegiado. Faz pensar, repensar, revisitar um monte de conceitos. É algo tão naturalizado em nossa cultura o fato de contar com alguém para executar as tarefas domésticas enquanto fazemos qualquer outra coisa que muitas vezes sequer pensamos na enorme desigualdade social que sustenta a estrutura. Eu, que usufruo disso, com maior ou menor (des)conforto, lido com o quadro da forma que sei, tentando humanizar ao máximo minha relação com quem trabalha em minha casa (no meu caso em particular algo facílimo de se fazer porque tenho sorte e almas muito boas por perto). Mas ainda que eu adote essa visão sobre as relações sociais em minha casa, a discussão toda na tal lista tem me feito pensar muito sobre o assunto, tem me levado a reavaliar meu discurso e a trocar ótimas ideias com pessoas cujos argumentos me enriquecem demais. E, mais uma vez, tenho tido a oportunidade de relembrar que quem se prende a estereótipos desperdiça grandes chances de crescer.

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No sábado passado Ulisses sugeriu um cineminha com as crianças. Fui ao cinema comprar os ingressos para o dia seguinte. Como só havia uma opção de desenho animado dublado, nem precisei pensar muito: comprei ingressos para um tal Rango. No panfleto, apenas a inútil informação "dublado por Johnny Depp" - inútil porque, né, assistiríamos ao filme em português. Mas desenho, tal, tá valendo. E lá fomos nós com as crianças ao cinema ver Rango, aquele filme todo esquisito, cheio de personagens horrendos, facas, facões e revólveres, piadas "sutis" de duplo sentido (- " o que ele disse, mãe?" - "não sei, também não entendi, filho"), personagem se gabando de ter matado sete irmãos com uma só bala e coisas agradáveis como uma figurinha simpática que tem uma flecha cravada NO OLHO. Então, foi bem divertido. Tal qual a falta d'água aqui de casa (ah, o filme trata disso, da falta d'água). Enfim, nota mental: sempre ler sobre o enredo do filme antes de comprar a pipoca das crianças. Sempre.

14 comentários:

Ana Duarte disse...

Oi Rita!!! olha so eu a primeira a escrever aqui! depois de tanto tempo... como você esta?

Continuo lendo seu blog sempre, mas ando com uma preguiça extrema de comentar, e de escrever em meu próprio blog? hehe...enfim, é uma fase, espero que vá passar.

Rita queria tanto te escrever um e-mail com umas duvidas que tenho, mas ando um pouco tímida... sera que eu poderia? nao quero incomodar.

Bjos

Danielle Martins disse...

Até sua falta d´agua é coisa suave!
Bjs!

Anônimo disse...

Rita,

Vejo bastante gente se exaltar muito quando o ssunto são as empregadas domésticas. E acho que no fundo há um enorme preconceito rodeando tudo.

Concordo que as relações de poder podem ser muito desvantajosas para as domésticas. E concordo que tem muita gente que as explora.

Mas não consigo ver o que tem de tão errado dar emprego a uma pessoa, mesmo que seja para limpar sua casa, desde que não haja exploração. E que a relação de trabalho seja justa.

O ideal era que ninguém precisasse trabalhar como doméstica, óbvio. Mas, no Brasil, ainda precisa.

Eu tenho uma pessoa ótima, com 2º grau completo, que já teve vários empregos como atendente em loja, atendente da C&A, atendente em mercearias de bairro. Ela me diz que trabalha menos e ganha mas lá em casa em comparação com todos os trabalhos anteriores. Uma atendente da C&A ganha pouco e trabalha final de semana, por exemplo.

Eu pago 2 salários + condução e GPS, ela entra as 8 e vai pra casa quando terminar o serviço. Agora o filho mais novo dela entrou na creche pública e ela tem que pegá-lo as 4. Em que outro trabalho ela ganharia o mesmo e poderia entrar às 8 e sair às 3:30h?

Eventualmente ela precisa ficar com minha filha se ela estiver doentinha e faltar a escola, mas eu não chego depois das 5 e se ela perder o ônibus, levo em casa. Sei que ela também tem filho e casa pra cuidar e não peço hora extra, mesmo quando eu preciso desesperadamente (amanhã, por exemplo, marido vai viajar e a Julia vai ter que assistir minha aula das 9 as 11 da noite. E eu nem cogitei pedir pra ela vir em casa, afinal ela tem os filhos dela pra cuidar).

Só pra comparar, o marido dela acabou de encontrar um trabalho como segurança. Entra as 6:30h da manhã e sai as 6:30h da noite. Mas como é segurança de escola, só pode sair quando não tiver mais aluno. Acaba ficando até 8:30, 9:00h. E ganha R$900,00.

Então, o que acontece é que as pessoas que tiveram menos oportunidades na vida têm trabalhos péssimos sim. Infelizmente ainda é assim. Mas não é só o trabalho de empregada doméstica o vilão.

Não sinto culpa em empregar alguém de forma digna. Não mesmo. As pessoas que acham o trabalho doméstico indigno também acham que o trabalho de limpeza nas empresas, escolas, etc. é indigno? E qual seria a solução? Acabar com trabalhos indignos? E as pessoas que não conseguem uma colocação melhor fazem o que da vida?

Vixe, virou um testamento rsrs

Um beijo,
Aline (da Julia)

disse...

Esse assunto de empregada domestica rende mesmo... num mundo ideal cada um limparia a sua propria casa. Aqui na França faxineira é luxo e elas são relativamente bem pagas, comparando ao Brasil. Nos nossos primeiros 5 anos de França nao tivemos faxineira. Até gravidona de 9 meses continuei limpando a casa... numa boa! A minha sorte é que eu e o marido dividimos igualmente as tarefas domesticas e assim nao fica pesado para ninguem. So' depois que voltei a trabalhar, estou pagando uma moça para limpar a casa 2h30 por semana. E mesmo assim é caro!

Nao acho errado ter empregada, desde que esta tenha todos os direitos e tenha um salario digno. Até porque uma pessoa sem estudos não tem tantas opções de emprego assim... se todo mundo resolver ter crise de consciencia, vai ser um problema! A soluçao nao é por ai'. Bom vai ser o dia que os filhos das empregadas terao acesso a uma boa educação e consigam bons empregos. Assim quem sabe acabe esse ciclo vicioso e possamos ter uma sociedade mais justa.

Borboletas nos Olhos disse...

1. Como se cantava no Castelo Ra-ti-bum: banho é bom, banho é bom, banho é muito bom (e lá vem o ratinho fofo)

2. Gentileza pra mim, por favor. Sem gelo. Merci.

3. Sempre ler o enredo ou sobre o enredo: inconteste.

No mais, a amizade de sempre, né ;-)

Anália disse...

Oi, Rita!

Sobre empregadas domésticas, a minha opinião é basicamente a mesma da Aline. (Aline, vc é a mãe da Júlia, que mora em Campinas? Lembra de mim?)

Quanto a Rango, tb caí nessa cilada. Tinhamos duas alternativas: Gnomeu e Julieta (que eu francamente não acho que seja grande coisa e que o Mateus se recusou terminantemente a ver pq "é de namoro, eca!") e Rango, que eu nem tinha ouvido falar... Mas ainda assim achei melhorzinho que "Tron, O Legado", onde eu realmente dormi, para vc imaginar o desespero.

Bjs,
Anália

Anônimo disse...

Rita,

Espero que você perdoe o uso da sua caixa de comentários pra conversar com a Anália :) Perdemos o contato há tempos!

Anália, menina, que coincidência!! Sou eu sim! Como vão vocês? Pelo visto você, assim como eu, ficou só no Mateus :) Me escreve no e-mail (alineccosta@yahoo.com.br) pra gente conversar um pouquinho. Saudades das nossas longas conversas...

Um beijo,
Aline

Rita disse...

Oi, gente boa.

Ana, viu que sua visita virou assunto do post de hoje? Não acreditei quando te vi aqui, menina. Foi muito engraçado. Estou aguardando seu contato, viu? estradaanil@gmail.com
Beijão!

Danielle, se eu te disser que a atendente da companhia de água não concorda com você... Não sei se fui muito áspera com ela, mas eu tava tão agoniada e ela me corrigiu numa coisa na hora da conversa por telefone e falei "meu amor (aff, ela deve ter detestado), não me deixe mais nervosa do que já estou com duas crianças em casa e sem água na torneira", COMO SE fosse culpa dela e COMO SE eu não já fosse a milésima pessoa a ligar pra ela hoje. E depois pus a mão na consciência e liguei pra me desculpar, mas era outro turno e ela não tava mais lá. Ela deve ter pensado, ai, gente grossa. E com razão, viu. Enfim.

Aline, oi. Li seu "testamento" (hehe) e, olha, tanta coisa pra dizer, viu. Esse é um assunto muito delicado pra mim, pq nem de longe eu me sinto confortável com o fato de que só tenho alguém para trabalhar em minha casa por causa do gap social. Mas é verdade, meio inegável, né. Tanto que em países com gap social menor, a coisa funciona diferente. Eu li muita coisa sobre isso essa semana e tenho pensado muito no assunto, mas não tenho nada definitivo em minha cabeça, a não ser a certeza de que se eu dispensasse minha empregada ela continuaria na camada social em que está, só que desempregada; e eu continuaria na camada em que estou, só que descabelada para dar conta de tudo, já que trabalho fora nos dois turnos. Mas isso não significa que acho tudo certo e tranquilo, sabe. O que tento fazer é gerenciar da forma mais humana possível, sempre tentando me colocar no lugar dela. Humanizar a relação. E, claro, garantir que seus direitos sejam todos respeitados. Enfim, uma das ponderações que fiz essa semana foi: eu disse por ai que "pago bem". Mas aí no dia seguinte refleti e pensei: quem está apta a afirmar isso ou não é ela; ela que tem que me dizer se acha se ganha bem, né. Sei lá, às vezes fica tudo muito unilateral nessas relações, sabe, a gente vê a nossa comodidade e mesmo que não tenha a intenção coloca o outro lado no automático. Estou revendo algumas posturas minhas. Mas não sinto culpa por tê-la em minha casa, não nesse momento histórico em que suas opções são iguais ou piores. Se algo melhor aparecer para ela, vou torcer por ela, sempre. Mas ouço com atenção a discussão toda, porque acho muito, muito pertinente. Adorei sua participação no pap e também o reecontro com a Anália, fiquem à vontade, beijo grande!

Dé, nem me fale o quanto rende, menina. Você tocou em um ponto interessante: eu posso contribuir para a formação do filho dela. Isso é muito, muito relevante e faz a roda girar. Quero preparar meus filhos para a independência e torço para que no país do futuro deles as coisas sejam diferentes. Ter alguém trabalhando em casa não significa não ter tarefas, né. Bj.

Lu, sua linda. Banho, yes! Ai o enredo... quase saí do cinema, viu. Bj.

Anália, toque aqui, pelo constrangimento no cinema, hehehe. Aff, eu não conseguia olhar para aquela flecha enfiada no olho, QUE HORROR!!!

Beijocas, pessoas

Rita

Angela disse...

Tenho uma pessoa que faz faxina de duas em duas semanas. Passa em media 5 horas aqui e ganha U$90. Eu arrumo a casa TODA antes de ela chegar, pois ela nao vem para arrumar, vem para lim-par. Nao vejo nada de errado. E se pudesse teria cozinheira. E so nao teria baba por que nao adianta, continuo achando cuidar de menino a coisa melhor do mundo e nao da para pagar para alguem se divertir por mim! ;)
Para mim a Aline tambem disse tudo.
(Ih que bonitinho o reencontro da Aline e Anália. Esse blog eh mesmo uma coisa de louco! :D )

Anônimo disse...

Rita,

Eu concordo que o gap social é enorme e muito ruim. Isso só se resolveria (a longo prazo) com educação pública de qualidade e incentivo de verdade para as famílias mais pobres manterem as crianças na escola como prioridade absoluta!

Mas do jeito que a coisa é, não adianta demonizar a profissão de doméstica. Porque TODAS as profissões nesta classe social são equivalentes. Falar só do trabalho doméstico é preconceito. O que tem que fazer é trabalhar pra profissionalizar o mais possível, ter sindicatos atuantes que garantam apoio em caso de exploração. Aqui em SP, hoje em dia, tem. Não sei em outras partes do Brasil.

Como alguém disse nos comentários, se todos aderissem à esta revolta contra ter alguém pra "limpar a sua sujeira" e demitissem as domésticas, qual seria a consequência social disso?

Um beijo,
Aline

Rita disse...

Oi, Anginha.

Acho que o que está me fazendo refletir sobre o assunto nem é o lance do "errado" ou "certo", sabe. É mais uma tentativa de encontrar mecanismos de tornar a relação mais vantajosa para o lado de lá. Beijão.

Aline, também acho que oferecer boas condições de trabalho e salário decente sejam uma forma efetiva de contribuir para que as futuras gerações das famílias de trabalhadores de baixa renda tenham outras opções. Mas enquanto isso se forma, quero humanizar o que tenho agora, sabe. Nem cogito despedir ninguém, tenho uma boa funcionária e acho que ela tem um bom emprego (mas é bom conferir com ela, hehehe), tudo na medida do possível. E, como disse lá na lista, imagine se eu puder pagar alguém para trabalhar na minha casa, alguém que não teria outra opção que não algo semelhante ao que posso oferecer, mas não o faço; daí temos uma desempregada a mais e eu aqui gastando meu dinheiro com meu umbigo, ao invés de oferecer renda a mais uma família. Quer dizer.

Beijocas,

Rita

Rogério disse...

Andei conversando sobre isso com minha esposa, e chegamos a uma conclusão semelhante a de muitas aqui: não temos que sentir culpa. Lá em casa a Mariene é como alguém da família. Pagamos um salário de dar inveja a qualquer terceirizado, a respeitamos como o ser humano que é, e sua jornada de trabalha é bem legalzinha: chega entre oito e nove da manhã e vai embora por volta das 15:30h. Ela tem uma filha, que conheci recém-nascida e hoje está com 10 anos. Dos cadernos aos livros e mochila, nós fornecemos todos os anos, sempre com a estampa da Barbie, que ela adora. Vez por outra a Dany vem nos mostrar o boletim, e ficamos com a certeza de que de certa forma estamos contribuindo para que a filha venha a ter uma vida melhor que a da mãe. Pelo que você falou, é mais ou menos isso que acontece em sua casa. Então, Rita, desencana. Em meu trabalho vejo como as terceirizadas são tratadas. Não tem comparação.

Anônimo disse...

Rita,

Exatamente! Vc resumiu meu pensamento!

Mas infelizmente, com o que elas ganham não dá pra pagar escola particular, e escola pública, pelo menos aqui, não tem bom ensino. Assim o gap social se perpetua :(

O que tinha que haver era ação séria do governo pra recuperar o ensino público. Porque as universidades públicas são tão boas e o ensino fundamental e médio públicos em geral tão ruins? Porque os salários dos professores do ensino fundamental também são péssimos, desestimula, falta formação continuada, falta tudo :(

A irmã da minha cunhada é professora do município e com uma matrícula ganha exatamente o que eu pago pra minha empregada!

E não bastaria só dar ensino, tem que fazer campanha de educação das famílias, porque a maioria quer é que os filhos terminem os estudos o mais rápido possível pra irem trabalhar e ajudar em casa. E dar condições pra estas famílias bancarem os filhos na escola até mais velhos.

Enfim, tem pano pra manga ai :(

O diferencial dos países em que há menor gap social é esse: acesso a ensino de qualidade pra todos.

Um beijo,
Aline

Rita disse...

Oi, Rogério e ALine,

Olha, dá para fazer uma rede inteira só para discutir esse assunto. E acho a discussão muito boa, tenho aprendido muito com algumas coisas que tenho lido - mas tenho lido muito absurdo também. Eu tendo a concordar com o pensamento de vocês, mas entendo quando leio que há muito mais complexidade na história toda; a questão de gênero por exemplo, muita cara ao movimento feminista. É uma crise mesmo para as mulheres de classe média o fato de que o espaço que elas conquistaram no mercado de trabalho veio, muitas vezes, atrelada ao emprego doméstico que, via de regra, transfere as tarefas para mulheres de baixa renda. Não há troca, sabe: eu conquisto o mercado de trabalho também; marido, você limpa a casa também. Claro que aí me refiro aos homens que não participam da rotina doméstica e que são a única razão para muitas mulheres optarem por uma empregada. Não serve para mim, mas o papo me interessa muito. Enfim, vamos fazer um café né, gente; isso vai longe.

 
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