Pequena Abelha


Não dever ser fácil (exceto para os gênios da literatura) criar bons personagens e, à medida que uma trama se desenvolve, mantê-los capazes de convencer os leitores de que são personagens, digamos, viáveis. Quem nunca leu um ou outro diálogo em um livro e pensou “hummm... é ruim, hein, que esse cara diria isso nessa situação”. Esse é um dos problemas do bom livro que acabei de ler.

Ao longo dos primeiros capítulos de Pequena Abelha, pensei ter comigo um livro daqueles, mas agora, finda a conversa, olho e vejo um bom livro apenas. O interesse permaneceu durante os onze capítulos, mas o arrebatamento das imagens que recheiam a primeira parte do livro diluiu-se consideravelmente à medida que cenários foram surgindo e o autor, aparentemente, foi perdendo o fôlego para as belas imagens e reflexões que deram o tom em boa parte da história. É fácil perceber que o forte de Chris Cleave não são os diálogos, mas as descrições e divagações metafóricas que usa para descrever a angústia de sua protagonista:

“Em seu país, quando vocês não são muito medrosos, podem ir assistir a um filme de terror. (...) O terror, o medo, em seu país é algo do qual você toma uma dose de vez em quando para se lembrar de que não sofre daquilo. Para mim e para as meninas de minha aldeia, o terror é uma doença e passamos mal com ele. (...) ... o filme na sua memória, desse não se pode livrar assim com tanta facilidade. Onde quer que você vá, ele está sempre passando dentro da sua cabeça. Portanto, quando digo que sou uma refugiada, você deve compreender que não existe refúgio.”

Em contrapartida, algumas cenas urbanas pautadas em diálogos supostamente dinâmicos e, hum, leves, soam Mariah Keyes demais pro meu gosto. Ou seja, são bem brochantes. E são em diálogos assim que um dos personagens absolutamente não funciona, pelo menos para mim. Ao final da história, fiquei com vontade de pedir “dá para explicar de novo qual era a desse cara?”.

Pequena Abelha me conquistou por causa da voz da protagonista. O livro é narrado em primeira pessoa, por duas personagens distintas. A primeira delas é Abelhinha, uma adolescente nigeriana que foge do horror quando seu país vira alvo do interesse de companhias petrolíferas e sua aldeia é destruída. Testemunha de atrocidades e atordoada por perdas pessoais, Abelhinha foge para o Reino Unido escondida em um navio de carga. Ela é o ponto forte do livro, sua voz é o que nos encanta e nos sustenta até o final da história. Temos vontade de conhecê-la, conversar com ela, abraçá-la, dizer que entendemos sua dor ou que pelo menos gostaríamos de ser capazes de entendê-la.

A outra narradora é Sarah, uma jornalista britânica, editora de uma revista londrina. Sua história se cruza com a de Abelhinha quando ela viaja com o marido para um curto período de férias em uma praia nigeriana. Sua voz é menos intensa que a de Abelhinha, mas ainda assim capaz de manter nossa empatia. No entanto, alguns diálogos entre Sarah e outros personagens urbanos são, para mim, o ponto mais fraco do livro, algo que li quase com pena de vê-los ali no meio daquela história interessante.

Acredito que o tema central do livro, a situação dos imigrantes ilegais no Reino Unido, seja muito caro aos britânicos que vivem às voltas com questões relacionadas às políticas de imigração. Gosto da maneira como a língua é apontada como um passaporte em potencial para a aceitação na cultura britânica; gosto da visão de mundo de Abelhinha, enriquecida por sua trajetória de menina estrangeira, ao mesmo tempo saudosa e fugitiva; gosto muito da forma como a dor a humaniza e aprimora sua capacidade de enxergar a beleza; adoro sua relação com a língua, sua consciência do poder que tem a linguagem. Gosto muito de várias imagens construídas ao longo da história, de novo, seu ponto forte.

Vale a pena conhecer Abelhinha, ainda que alguns diálogos sejam péssimos, ainda que nem todas as vozes sejam arrebatadoras. Vale a pena uma ou outra torcida de nariz, porque ao virar a página podemos ter o prazer de toparmos com coisas assim:

"Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi'."

É ou não é?

***

Pequena Abelha foi publicado no Brasil pela Intrínseca, com tradução de Maria Luiza Newlands.

6 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Vou ler de novo e, provavelmente, comentar de novo. Mas, por agora, um livro que tem esta frase: "Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi'." merece minha maior reverência nem que tivesse 800 outras páginas de Danielle Steel. Obrigada por partilhar e me inspirar.

Juliana disse...

olha, nem sei bem por que, mas tinha um pé atrás com esse livro. Li umas resenhas em blogs falando as maiores maravilhas; ainda assim não me convenci muito. Enfim, vai ver que eu tava intuindo esse probleminha que vc apontou.

Aliás, o que vc disse sobre o Pequena Abelha se aplica perfeitamente a um livro que li recentemente. Me perguntaram se eu tinha gostado e eu não não sabia explicar oque me incomodava. E o problema do livro era exatamente imagens lindas, mas diálogos apavorantes. Na verdade, a linguagem era bem pobre de modo geral. Daí e uficava pensando: putz, se alguém que escreve melhor pegasse a ideia dessa escritora,esse livro seria incrível!

Esse trechinho que vc destacou é mesmo lindo.

beijinhos

disse...

Adorei os trechos, fiquei com vontade de ler. Mais um pra minha listona que so' cresce....

E não sei por que, talvez pelo fato de também falar de uma menina na Africa que foge, lembrei de um livro que adorei: Mara and Dann, da Doris Lessing. Ja' leu?

E em tempo: amei a sua corujinha, viu? Tive que repetir o video sei la quantas vezes pq o Rafael AMOU.

Amanda disse...

Que otima critica, Rita! A verdade é que muitas vezes é dificil saber o que tem de errado em um livro, como a comentarista ai de cima falou. A gente sabe que tem algo que não vai bem, mas não consegue explicar. So um leitor com muita experiência é capaz de perceber exatamente o que é.

Eu prezo muito os dialogos e menos as divagações, então a menos que esse livro caia no meu colo, eu não vou lê-lo. Beijos!

Deborah Leão disse...

Pôxa, por mais que tenha gostado muito dos trechos que você transcreveu, acho que vou acabar não lendo o livro.

Esse tipo de problema - diálogos Mary Keyneanos - costuma me fazer brochar completamente, ao ponto de perder o gosto com o livro. Não sou de largar no meio, mas desencanto, e aí, já era.

Com tanta, tanta coisa pra ler, acho que esse aí vai passar batido...

Obrigada pela resenha, Rita, adoro o jeito que você escreve, como se estivesse batendo papo.

Rita disse...

Luciana, quero muito ver o que você vai dizer sobre o livro. Aguardo. Bj.

Juliana, se diálogos são importantes para sua empolgação com a leitura, ó, pópular. Beijo.

Dé, não conheço o livro que você mencionou, mas adorei você dizer que curtiu a coruja. :-D

Amanda, thanks. Para você digo o mesmo que para a Ju, porque, olha, achei bem fracos os diálogos (mas é aquela coisa, né, vai que você teria outro olhar...) Engraçado que acabei de ler um livro do Fernando Sabino e, mesmo não gostando de todos os contos, vejo a diferença gritante entre quem manja do babado e quem, a meu ver, tropeçou. Beijos.

Deborah, concordo com você, brocho também. E é isso, tanta coisa pra ler... só não larguei porque a história é boa e amei as descrições, principalmente nos capítulos narrados pela protagonista. Obrigada pelo comentário. Bj.

Valeu, pessoas.

Rita

 
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