Para onde?



Ando perdida de mim. Não sei onde me coloquei, em que prateleira. É possível que eu tenha me derrubado sem perceber e esteja agora coberta de pó, num cantinho escuro atrás do móvel. Mas não em uma queda rápida, assim, zás, tum. Foi em câmera lenta e às vezes acho que ainda estou caindo para me perder mais Talvez nem seja um cantinho, mas uma passagem. Talvez eu pare e retorne depois, empoeirada; talvez eu descubra outro caminho e não volte mais. Mas agora não sei de nada. Se caída ou caindo, se voltarei ou não. Olho para os lados, quase curiosa, mas não reconheço muita coisa. Algo me anestesia enquanto caio.

Tenho planos que não executo e decisões inertes, como todo mundo. Tenho meus buracos e minhas construções inacabadas, como qualquer um. Não há nada muito exótico ou distinto a meu respeito, é só uma menina caminhando, com cabelos soltos. Mas eu gosto de fantasiar a estrada e às vezes ela tem tons de anil como um céu sobre Gaza: é bonito, mas é triste. Guardo alguns desenhos lindos para a beira do caminho, mas alguns passos são sempre mais urgentes, mais importantes, alguns até indispensáveis, veja bem. Há milhões de perguntas e meu único consolo é que a estrada não tem fim, então trago os desenhos no bolso, quem sabe.

Há alguns momentos, muito breves, em que percebo pequenas luzes. São intermitentes, como minha crença nelas. Elas se escondem também, mas sempre voltam. Posso brincar de que são estrelas e colocá-las lá em cima, para que eu não me perca mais. Mas isso é só mais uma ideia.

E há momentos em que desejo que tivesse me quebrado toda, mas que aquela camada mais profunda tivesse ficado intacta. Então ela sairia, avaliaria os pedaços todos de uma perspectiva toda nova e montaria tudo de outra forma, com os ajustes que jamais poderei fazer. E seria eu de novo, mas pelo menos as cicatrizes seriam fresquinhas.



8 comentários:

Angela disse...

Sensacao familiar... O nosso eu apos uma life changing experience... Nem pior, nem melhor, apenas diferente. Um beijo e que as luzes venham em maior quantidade e frequencia. Sei que virao!
(obrigada pelo email, vou checar sim)

Rogério disse...

Adoro sua pena, essa capacidade maravilhosa de poetizar a vida.
Assim fez Frederick Chopin, naturalmente em outra linguagem, considerado o poeta do piano. Você já publicou um livro (ou vários)?

Borboletas nos Olhos disse...

Que suas letras são lindas eu sempre digo. Mas nem sempre lembro (acho que nunca antes na história desse país, rsrs)de elogiar a incrível sensibilidade que você usa pra obter a ilustração mais pertinente e sutil. Não é óbvia nem gratuita,nunca, e hoje menos que sempre.
E eu muitas vezes pensava nas dores como um espelho espatifado e me inquietava em como juntar os pedaços. Daí eu pensei que talvez eu não fosse essencialmente o vidro, mas a moldura.
Beijos minha linda

Ana Duarte disse...

"Talvez eu pare e retorne depois, empoeirada; talvez eu descubra outro caminho e não volte mais. Mas agora não sei de nada. Se caída ou caindo, se voltarei ou não."

é exatamente isso Rita, escrevi seu e-mail antes de ler este post. E ele traduz tao bem meu sentimento...Incrivel! Obrigada

bjos

ps: escrevi um "livro" nessa estrada ;-)

Lílian disse...

Lindo post, delicados comentários, bela junção com a música. Muitos gostam bem mais de Mozart, mas sempre preferi Chopin.
Bjus, cunhada.

Rita disse...

Vocês são uns doces. Volto aqui, depois. Bjs.
Rita

L I S disse...

Rita, entrei no teu bolg, "por acaso"...talvez tenha sido a cor anil...que me encantou.
De mim...sobrou a camada mais profunda...e aos poucos avalio cada pedaço...............LIS

Rita disse...

Voltei.

Anginha, obrigada, querida. Por tudo. Bj.

Rogério, quanta generosidade de sua parte. Obrigada, mas não, não publiquei nada, só escrevi tese e esse blog. Mas vou guardar seu comentário muito, repito, generoso com muito carinho. :-)

Borboletilda, olha quem fala de imagens bem escolhidas! Ah, vou lá comentar no seu blog isso, viu. Beijinho.

Ana, bem vinda ao clube das "que despencam". Vumbora. :-)

Lilian, eu fico com os dois. Gulosa, eu. Bj.

LIS, seja bem vinda(o). Fique à vontade, venha sempre. Abraços.

Valeu, pessoas boas.

Rita

 
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