Os detetives, as flores, a sola do sapato e a Borboleta


Para ela.

Hoje choveu o dia inteiro, ora forte com barulho de cachoeira, ora fininho como um lamento. Foi um daqueles dias que aprecio com força: vou para a sacada, vejo a chuva escurecendo a rua no meio da manhã e despencando sobre os eucaliptos, fecho os olhos e sinto seus cheiros; volto a abri-los, olho para os lados e vejo meus amores. Alguém diria que estou velha, mas aviso que meu gosto por dias chuvosos vem desde a infância. E, claro, se eu estiver no trânsito vou torcer pelo sol, mas em pleno sábado de preguiça e abraços, ah, fico com ela.

Hoje, quando olhei para o lado, vi um casal de detetives. Enquanto a cidade se encharcava, minha pequena examinava com a lupa (que o mano herdou da vovó Berna) um pobre besouro caído no chão da sacada, debatendo-se de pernas para cima. Ao lado dela, o tal mano desenhava o besouro aumentado pela lupa e, logo depois, exibia satisfeito seus desenhos para mim. Enquanto isso, ela já seguia para outro cômodo e berrava pelo ajudante: "detetive manoooooooooo, vem!". Passaram boa parte da manhã assim e colecionaram nos preciosos registros uma formiga grande, uma lagarta que só viram pelo vidro da porta, duas casinhas de maribondo, uns tantos besouros, um mosquito e uma baleia "de brincadeira". Eu falei que estavam brincando de cientistas, mas eles insistiram que quem usa lupa é detetive.

E só escrevi isso aqui agora para que eles possam ler um dia quando, por alguma razão, suas memórias tiverem selecionado outras lembranças para o rol das mais vívidas. Quero que saibam que estavam especialmente charmosos andando pela casa, com lupa, caderneta e lápis na mão, examinando nossos minúsculos inquilinos.

***

Ao lado do restaurante onde almoçamos hoje, há um garden center. Adoro o lugar, passeio por lá de vez em quando. Hoje havia muitos crisântemos e eram tão lindos quanto simples. Se pudesse, teria comprado alguns e levado ao túmulo de minha mãe. Lá não anda caindo a chuva daqui, talvez eles sentissem rapidamente o efeito do calor, mas eu adoraria poder levá-los lá mesmo assim. Hoje pensei tanto nela, tinha várias coisas para contar, pequenas novidades desimportantes que nos deixavam penduradas no telefone em dias molhados como o de hoje. Mas não me sinto triste. Hoje não. E é engraçado isso.

***

No final do dia tentei provar um par de sapatos em uma loja, mas o sapato sequer entrou no meu pé, apesar de ser de meu número. Percebendo que eu tinha desistido do produto, o vendedor lançou mão de um argumento, digamos, curioso: "ah, esse você não pode perder, o solado é vermelho, tá super na moda." Né? Sou uma tola mesmo, o solado era vermelho, gente. Como deixei passar? E se eu cair de pernas para cima, como o besouro, e todo mundo perceber que meus sapatos não têm solado vermelho?

***

Hoje é aniversário da Borboleta. Ela havia pedido para que alguns amigos escrevessem posts temáticos em seu blog durante a semana que antecedia o dia de hoje. O meu foi esse. Hoje ela deve estar longe da blogosfera, acabando-se em festa. Torço para que seu dia tenha sido do jeito dela: vibrante. Sua amizade tem se mostrado coisa valiosa. Para a esvoaçante amiga, todo meu carinho.

5 comentários:

Angela disse...

Mais email... OK, talvez me apresse no negocio do skype. Beijao!

Jemima disse...
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Danielle Martins disse...

Tão gostoso passear por suas palavras...
Bjs!

Borboletas nos Olhos disse...

Voltei! Mas ainda sem muito fôlego. Coisas demais por aqui. Nem te conto (no sentido bem nordestino de: assim que a gente se encontrar vai ficar sabendo tin-tim por tin-tim). Eu brincava de detetive e seguia pistas. E a Amanda deve ser parente distante da minha irmã que um dia resolveu que ia fazer Administração e quando foi perguntada sobre o que ela ia administrar, ela não titubeou: o mundo!
Beijocas, minha linda

Rita disse...

Oi, Anginha. No aguardo...

Danielle, obrigada, querida. Mais gostosa ainda é a companhia de vocês, acredite. Beijão.

Borboletante aniversariante esvoaçante, como vai? Quero saber tudo, no detalhe! ;-) Beijocas!

Beijos, pessoas.

Rita

 
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