Nos jardins


Hoje minha prima Marina me escreveu para contar do sonho que teve com minha mãe. Até pouco tempo atrás, Marina morava na cidade onde nasci. As duas eram amigas, confidentes, parceiras. Minha mãe gostava dela como se gosta de uma filha. Marina a amava. Várias vezes minha mãe partilhou comigo suas preocupações, suas torcidas, suas alegrias pelas lutas e vitórias dela. E sempre vi minha prima entrar lá em casa lançando olhares de carinho para sua Tia Berna. Eu me lembro de quando ela nasceu. A diferença de idade entre nós duas não nos fez grandes amigas desde sempre, mas, depois que ela também se tornou adulta, reconhecemos com tranquilidade uma afinidade silenciosa, uma amizade que cresceria sem pressa. Minha prima me ajudou a me manter de pé e assim acompanhar o enterro de minha mãe, dividiu comigo as piores horas de minha vida. Nos dias seguintes foi ombro e ouvidos e toda carinho. A ela confiei objetos preciosos para nós: está com ela a velha máquina de datilografia, o abajur que enfeitava o quarto de minha mãe, algumas de suas roupas. Pedacinhos que compunham o quadro onde ela morava e que têm para nós valor inestimável. Ela nem sabe de minha gratidão, porque eu nunca conseguiria expressá-la. Mas torço que ela saiba do carinho, igualmente imenso. Com a despedida de minha mãe, ela perdeu mais que a companhia da Tia Berna; perdeu uma amiga valiosa que a amava com sinceridade, perdeu a companheira de confidências, a ouvinte atenta, a torcedora. Mas bem sabe que certas coisas podem ser mantidas conosco para sempre. Com sua permissão, relato o sonho aqui.

Marina foi até a casa de minha mãe, onde agora habitam seus pais. Logo na entrada, ouviu a voz de minha mãe, mas não conseguia vê-la. Voltou à rua e depois de algum tempo percebeu que a voz vinha do cemitério e para lá se dirigiu. Do cemitério, minha mãe a acompanhou até a casa e pediu que ela lhe mostrasse todos os cômodos, como faria com um estranho que nunca tivesse estado ali. As duas então entraram na casa, mas ninguém, além da Marina, via minha mãe. Seguiram comentários sobre alguns móveis, um birô que permanece no lugar de sempre. Minha mãe afirmou que tudo pode ser mudado, que ela  não precisa mais daquilo; e que não há motivo para preocupações outras porque ela não precisa mais respirar. Repetiu várias vezes que minha prima não precisa temer nada e que está muito feliz. Estava tranquila, brincalhona, sorridente, serena. Em sua mensagem, minha prima disse que o sonho era nítido, claro e colorido. E que minha mãe se despediu dela dizendo que nunca iria embora porque minha prima podia senti-la, para, logo depois, desaparecer como fumaça. Na porta do jardim.

Marina encerrou sua mensagem com as seguintes palavras: "Não sei nada sobre a vida. Mas cri em tudo que sonhei."

Também não sei nada, Marina. Só posso dizer que seu sonho está gravado em mim e que sou muito grata por você partilhá-lo comigo. E que eu gostaria muito de também sonhar assim.

4 comentários:

Caso me esqueçam disse...

quando o sonho eh bom, a gente sofre ao acordar! "felizmente" eu nao passo por esse perigo: pesadelo a cada dois dias :) (o de hoje foi assim, apesar de eu ter sonhado com a xara).

Borboletas nos Olhos disse...

Eu também não sei nada. Mas estamos aí, né, de não em não gente pode até fazer um sim.
Torcendo, baby. bjs

Angela disse...

Me emocionei Rita. Nao sabemos de nada mesmo. Um beijao.

Rita disse...

Luciana, pesadelo a cada dois dias??? Tensão, hein... será por causa dos desafios do curso? Se cuida...

Luciana Borboleta, beijinho.

Anginha, yeah, we never know. Como diz o Jack Johnson, we're clever, but we're clueless, we're just human. Bj.

Rita

 
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