Morro dos Ventos Uivantes, antes tarde do que nunca


Sou uma leitora lenta. Não sei ao certo se sempre foi assim, mas pelo menos nos últimos anos tomei consciência de que levo tempo demais para concluir minhas leituras. Não há problema nenhum nisso, a não ser a consciência de que lerei menos livros do que gostaria na vida, mas isso ainda seria verdade mesmo que eu fosse uma leitora mais ágil. Talvez agora as coisas simplesmente funcionem de forma diferente de quando eu podia me permitir o luxo de esquecer o mundo até a página final. Comparo meu desempenho com o do Ulisses e me espanto com a rapidez com que as leituras dele avançam. Mas aí me lembro de um exercício que meu professor costumava fazer no curso do ano passado, quando pude ver, de fato, que não se trata de mera comparação com o ritmo de leitura do marido: fiz alguns testes para averiguar a velocidade de minha leitura e em todos eles pude ver que, realmente, avanço mais lentamente do que gostaria.

Seja como for, hoje concluí minha leitura de Wuthering Heights. O livro é tudo que imaginei e só lamento não tê-lo lido já no primeiro cursinho de inglês, quando "conheci" as irmãs Brontë - Jane Eyre, de Charlote Brontë, foi o primeiro romance que li em inglês e ainda me lembro das inúmeras consultas ao dicionário durante a leitura. :-)

Tanto já foi dito sobre Wuthering Heights que me sinto um pouco chovendo no molhado, mas fica o registro de que também me entreguei aos complicados enlaces das famílias Earnshaw e Linton e nas últimas semanas tive imenso prazer nos momentos em que me transportei para as duas propriedades onde se desenrola a trama de amor e vingança: Wuthering Heights, a morada dos Earnshaw, e Thrushcross Grange, o lar dos Lintons.

A história é contada a partir do ponto de vista de Ellen Dean, uma falante e articulada serviçal dos Lintons, que narra, para o Sr. Lockwood, locatário de Thrushcross Grange, a saga dos irmãos Hindley e Catherine Earnshaw, sua conturbada relação com o irmão adotivo, Heathcliff, e o envolvimento dos três com os vizinhos Edgar e Isabella Linton.

Tudo na história gira em torno da personalidade de Heathcliff, moldada sob a influência dos sentimentos negativos que o dominaram desde a morte do patriarca dos Earnshaw.  À frente da família, o enciumado Hindley passa a submeter Heathclff a humilhações de toda sorte, privando-o de educação formal, tratando-o não como um irmão, mas como um serviçal sem direito a usufruir dos bens da família, levando-o ao crescente sofrimento gerado pelo afastamento do mundo que cerca sua adorada irmã adotiva, Catherine. E embora Catherine também nutra por Heathcliff um sentimento maior do que ela mesma suspeita, os valores sociais de seu meio, além de seus próprios conflitos psicológicos, acabam por empurrá-la para o casamento com Edgar Linton e lançam Heathcliff em uma jornada pessoal de desespero e sonhos de vingança contra a família que, para ele, renegou-o como se dela não fizesse parte.

Se o sofrimento de Heathcliff faz dele uma figura amarga, capaz de infringir dor a qualquer um que se aproxime dele, a vida de Catherine ao lado de Edgar Linton também está longe de ser um sonho bom. Seus sentimentos por Heathcliff a enchem de culpa diante do sofrimento e amargura dele, seu casamento com Edgar é fonte de frustração e privações e, como toda heroína do século XIX que se preza, sua saúde é frágil como um galho seco. Tudo é dor, saudade, frustração e conflito, ó céus.

A história em si já oferece elementos suficientes para uma leitura pra lá de envolvente (o pessoal da Psicologia deve se esbaldar), mas há mais para se colher da escrita de Brontë - e nem falei das passagens que flertam com o sobrenatural, do amor que desdenha  da morte. Adoro a ambientação, com ricas descrições - mas sem exagero de detalhes - que nos puxam para dentro das páginas da história. A gente não lê, somente, mas passeia por aquelas paisagens, sentindo a dureza do inverno inglês ou apreciando a beleza de suas manhãs de primavera. O clima em Wuthering Heights é quase uma personagem da história, como se os lugares refletissem as alegrias e as penúrias de seus habitantes: o ar lúgubre das noites em Wuthering Heights ecoa a melancolia de Heathcliff, sua solidão de rejeitado, sua dor de amante renegado; as manhãs ensolaradas, por sua vez, sinalizam as novas gerações, a nova Catherine, a filha, que traz ao lugar a chance de uma vida menos contaminada pela vingança, redimida pelo amor que cura.

Gostei muito de ler o livro, espero ansiosa a nova versão para o cinema que, segundo li por aí, será lançada este ano. Lendo Wuthering Heights pude ver novamente amostras do que me faz gostar tanto do idioma das Brontë - impossível não ler e reler e se embalar com trechos como esse:

"I lingered round them, under that benign sky; watched the moths fluttering among the heath, and hare-bells; listened to the soft wind breathing through the grass; and wondered how any one could ever imagine unquiet slumbers, for the sleepers in that quiet earth."

I just love it.

Wuthering Heights foi o único romance publicado por Emily Brontë. Segundo li, foi duramente criticado na época de seu lançamento, 1847. Somente muitos anos depois passou a integrar o reino dos cânones da literatura britânica e chegou a ser considerado a obra mais importante da literatura gótica daquele país. Para mim, uma história de amor, frustração e vingança, um romance psicológico cheio de diálogos que nos desnudam, pobres mortais errantes, ó céus, ó céus, e uma amostra saborosa de boa literatura. Você já leu o seu?

8 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Baby,
\o/
que post bom. Senti-me com o livro entre as mãos, de novo (que bom me poupou um releitura este mês).
Só uma ressalva, o clima em Wuthering Heights não é quase um personagem, eu considero um dos mais relevantes personagens.
Bom, eu não li nada tão denso hoje, mas me esqueci de mim nas cartas de Beuvoir ao seu Nelson. E, para dar o tom da melancolia, agorinha revi Mary e Max.

Angela disse...

Li sim, ha mais de vinte anos, em portugues. (O céus, ó céus, preciso comecar tudo de novo!) Nem seu post me fez lembrar a estoria, mas lembro que me deliciei. Engracado nao? Nao lembro da estoria mas lembro da sensacao causada.

Ah sou leitora lenta tambem. Tambem como devagar. Em ambos os casos, acho que eh por que fico me deliciando no processo.

disse...

Ja li ha uns 3 anos atras e vc me fez relembrar das emocoes q senti ao ler o livro. Nessa epoca eu
Vivia na biblioteca e lia todos os grandes classicos da literatura inglesa e francesa. Adoro!

Amanda disse...

Nunca li, mas ja confessei la na borboleta que não sou grande fã dos classicos. Mas sempre tem um que me surpreende!

Sou leitora rapida, adoro terminar um livro em um dia ou dois. Meu problema é que o intervalo entre eles têm sido longo demais!

*Sua fofa! Vc tbm é linda!

luci - caso me esquecam disse...

nao li o post. porque desde meus 15 anos que eu tento ler esse livro, mas nas tres tentativas, soh consegui chegar ate a metade. justamente ate a metade. nem lembro mais o que tem de tao chato na metade desse livro, mas eu emperro. da ultima vez que fui ao brasil, trouxe o livro na mala, ele tah aqui, olhando pra mim. soh vou ler quando eu tiver força no coraçao e souber que eu naaao vooouu parar na metade :(
ai eu volto aqui pra ler o post :)

Anália disse...

Oi, Rita!
Vc sabe que por muito tempo não soube dizer se esse era meu livro preferido, ou se Jane Eyre? Hoje eu tendo mais a Jane Eyre... Mas na adolescência, com os hormônios a mil era Morro dos Ventos Uivantes, com certeza!
Comprei agora na Saraiva uma edição em inglês com os livros das irmãs Bronte. Devia estar encalhado, paguei R$29,90, para vc imaginar é uma edição luxuosa, até com papel bíblia, que delícia! Da Charlotte Bronte eu só tinha lido Jane Eyre, mas ela escrevou alguns outros. Depois te conto.
Bjs,
Anália

Rita disse...

Luciana, além de esperar pela versão 2011 para o cinema, vou procurar outra mais antiga de que você falou. Depois te conto as impressões.

Anginha, não faz muitos dias, tive essa mesma sensação: alguém me falou dos filmes da trilogia liberdade, fraternidade.. e me lembrei do quanto gostei dos filmes. Mas, por mais que me esforce, não consigo resgatar partes da história, só as sensações. Meu diagnóstico: velhice, minha querida. Total. :-)

Dé, eu gostei bem do livro, viu. Classicão, inglesão e tal. Mas de vez em quando é tudo de que preciso. Beijo!

Amanda, já fui assim, de devorar os livros sem intervalo comercial, mas... né, sem chances. Espero ter vista boa na aposentadoria. Beijão!

Luci, juro que não há spoilers no post, mas entendo seus receios. Tomara que você leia um dia, mas bem sei que não deve ser em breve, com tanta leitura que a academia tá te exigindo. Mas livro é livro, né, sempre é tempo. O post vai ficar aqui te esperando. Beijo!

Anália, minha leitura de Jane Eyre foi feita em um tempo em o inglês começava a se tornar um idioma confortável. Talvez eu releia um dia. Sabe que também haverá uma versão para o cinema ainda este ano? Certamente alguma homenagem às Brontë, né. Beijão!

Valeu, pessoas.

Rita

Vivien Morgato : disse...

Querida, odeio o Heathcliff . É um - nunca sei se o correto é UM personagem ou UMA...)dos personagens que mais detesto, caho manhoso, pentleho..lia e pensava: vai carpir um quintal, seu bosta!
Mas ela também era uma pentelha...rs

beijos da leitora chata, rs

 
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