Miniconto displicente


Os links

Porque era final de tarde, naquela hora em que o sol se abaixa e fere os olhos, foi difícil ter certeza no primeiro momento. Mas depois de alguns passos, abrigando-se sob o toldo da loja de tintas, pôde ver que o moço comprido do outro lado da rua era mesmo ele. Reconheceu-o, apesar dos cabelos mais curtos e da distância da rua larga, porque as costas tinham mantido a mesma curvatura adolescente - e o andar deselegante era inconfundível. Respirou fundo, diminuiu o passo, aproximou-se do meio-fio desbotado. Decidida, contornou um carro velho estacionado e olhou para os lados, balançando os cabelos um pouco mais que o necessário. Então ergueu o queixo, suspirou e seguiu. Enquanto atravessava a rua, engoliu a saliva para acalmar as batidas do coração que relembrava os meses de choro sobre o travesseiro de fronha bege, anos antes, enquanto ele circulava inatingível para ela, menina esquálida e "nova demais".

Cruzou a rua e, a meia distância, percebeu que precisava apressar o passo ou botaria a perder o encontro casual. Mas nem precisou levar o segundo pé à outra calçada, ele já tinha visto. Viu e fez uma cara de adulto bobo quando se surpreende com a sabedoria dos mais jovens - e a perspicácia dela jamais perderia esse instante de vitória. Foi o que bastou para que ela armasse seu melhor sorriso:

- Oi, tudo bom? - Sua própria voz a surpreendeu, firme, uniforme, clara.

A resposta demorou um segundo a mais que o normal e ela, que já festejava a revanche, quase quatro anos depois, quem diria, uniu os lábios num sorriso provocante ao mesmo tempo em que já voltava o corpo para o outro lado da calçada, fingindo pressa.

- Oi, respondeu ele, completamente perplexo. - Tempo que não te via...

- É, né? Pois é. - E seguiu, deixando para ele a visão das costas elegantes semicobertas pela cabeleira negra e cacheada.

- Tchau - balbuciou, ligeiramente mais curvado, acenando um tchauzinho que ela nem viu.

Não viu porque precisava logo seguir na direção contrária, escondendo o rosto que já se abria num sorriso vitorioso, exultante. E assim experimentou pela primeira vez a insubstituível sensação de virada de jogo. Entendeu, levando a mão à boca para se conter e controlando-se para não saltitar de alegria na calçada de sua pequena cidade, que tinha o mundo inteiro à sua frente. O mundo inteiro. Aprendeu ali, enquanto o sol descia mais e dourava a rua, que paciência joga a seu favor, uma lição que ela usaria com maestria em várias áreas de sua vida. Porque ela pensava amplo, com links.

Já ele ficou parado por alguns segundos tentando entender por onde andara nos últimos quatro anos e de quem tinha sido a ideia de ir buscar fora dali o rumo de sua vida. E seguiu, pensativo. Sequer lembrava para onde estava indo.

11 comentários:

Amanda disse...

Ritona, esse conto é seu? Pq ta em italico e tal... Seja de quem for, é muito bom! Adoro vinganças, hehehe! So que aquela musiquinha de baby baba, baba baby entrou na minha cabeça e estragou um pouquinho do prazer. :)

Lílian disse...

Menina muito magra, de cabeleira escura, pensando em links...Muito bom, cunhada!Narrativa delicada e agradável, clareza no explorar das sensações e expressões. Mais dela. Mas também dele.

Pessoalmente, sinto algo de confessional pelos ares dessa estrada (como já diria o Mário Quintana, pois)...rs... Grande beijo e, como diz você mesma, GO GIRL!

Love. Li.

Tina Lopes disse...

Perfeito, Rita, amei os "links" que tiram da narrativa a atemporalidade, dão um ar de "foi agorinha". Faz mais \o/

Borboletas nos Olhos disse...

Li ontem, mas fui deixando ele se assentar em mim, deixei o sorriso da menina ultrapassar a euforia inicial e ser também saudade do que nem existiu. Deixei a surpresa e lamento do rapaz virar enternecida melancolia. Tudo com sabor de dormido ficou ainda mais saboroso.
Faz mais \o/ [2 membros]

Rita disse...

Amanda, eu dei três pulinhos quando li seu comentário. :-) Sou boba, eu sei. É meu, sim, e adorei você ter gostado. Aí parei de pular e ri muito com a lembrança de baba baby, hahahaha! Thanks, ;-)

Lilian, não há nada confessional aqui não. :-) Muito obrigada pelos comentários generosos.Bj!

Tina, linda, obrigadíssima! Mais pulinhos. :-)

Borboleta, mais pulinhos, o/ Obrigada por ler, opinar e ouvir. Você é um anjo. Beijo grande.

Valeu, pessoas.

Rita

Angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Li ontem e tambem deixei-me digeri-lo por um diazinho. Uma DELICIA enquanto li, logo depois que li, e um dia apos ter lido. Apesar de nao ser de vinganca, admiro muito a menina com paciencia e que pensa com links... esse conto eh ficcao???? :)

Joana Faria disse...

Por coincidência, li esse conto logo depois de ter ouvido um comentário bem bobo e inútil do meu chefe. Desses que irritam bastante, sabe?

O timing não podia ter sido melhor. Terapia instantânea. Hahaha.
Fez o meu dia. GO GIRL!

Rita disse...

Anginha, obrigada, querida. É ficção, siiiimmmmm, :-)

Joana, que coisa boa, fico feliz por ter, de alguma forma, feito bem por aí. Obrigada!

Beijos
Rita

Rogério disse...

Já vi que é seu, mesmo. É por esse motivo que perguntei alhures se você tinha livros publicados. Talvez seja uma relação meio boba, mas tenho comigo que, quem escreve tão bem como você sobre o cotidiano, tem todos os ingredientes para a ficção.

Rita disse...

Ô, Rogério, obrigada! Mesmo, fico sem jeito diante de tanta gentileza. Quem dera, viu. Quem dera.

Abçs!
Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }