The light


Quando eu conheci o Ulisses nós éramos alunos do mesmo campus da Universidade Federal da Paraíba; eu fazia Letras, ele fazia Ciências da Computação. Aparentemente, nossa aproximação seguiu algumas etapas convencionais: olhares, uma dança, um primeiro beijo, etc. Aparentemente. Porque, na verdade, dentro de mim o vínculo se criou no primeiro olhar. Digamos que nunca tivéssemos passado daquele primeiro olhar, ainda assim eu me lembraria dele. É claro, e verdadeiro dizer, que o vínculo se aprofundou com o tempo e os acontecimentos, mas trago comigo um caso de amor à primeira vista. Eu olhei, vi e desejei desde o primeiro dia. Eu vi e quis pra mim já, ali, naquela hora. E, de novo, digamos que eu tivesse me decepcionado ao me aproximar dele, ainda assim traria comigo um exemplo de desejo imenso por alguém que nunca tinha visto antes na vida. Então foi tudo à primeira vista. Foi tudo na passarela do campus, a caminho da biblioteca.

Quando nos aproximamos e começamos a namorar, passei a experimentar um misto de felicidade e medo porque, com minhas manifestações mais ou menos intensas de baixa autoestima, não acreditava que meu caminhãozinho desse conta de carregar aquela areia toda por muito tempo. Tipo, eu não merecia. Meu primeiro namoro com Ulisses me mostrou que eu tinha conhecido alguém verdadeiramente diferenciado, uma pessoa luxuosa, no melhor sentido que alguém consiga dar à palavra. Eu me sentia profundamente feliz por ser capaz de enxergar além do homem bonito e inteligente que todo mundo via; eu conseguia ver o coração dele. Eu sabia. E por isso, também, lamentei tanto nossa separação anos depois. Porque não ia acontecer de novo. Não haveria outro e eu teria que dar meu jeito e aprender a viver sem.

Foi o que fiz. Guardei não sei como toda minha história com ele embaixo de camadas de caminhos alternativos. E fui cuidar da minha vida, fazer meus cursos, minhas viagens, minhas descobertas, conhecer outras pessoas. Lutei muito comigo mesma para assimilar a ideia de que encontraria a boa felicidade grande outra vez, em outras terras, outras almas. Fui uma garota esforçada e cheguei a acreditar durante certo tempo que, de verdade, tinha conseguido. 

Quando nos reencontramos, sete anos depois de nossa separação, vi o mesmo cara da faculdade. Vi que seus caminhos só tinham evidenciado sua força, seu jeito, seu sorriso. Era ele de novo, só que mais brilhante. Todo pra mim. Eu ainda não sei descrever. Ficamos juntos, dessa vez sem intervalos comerciais ou de qualquer tipo, e tratamos de fazer tudo isso que fazemos juntos todos os dias - the end, violinos. 

***

Hoje você está bem cansado, tem tido uma rotina bem puxada ultimamente. Você tem sido ombro e suporte muito mais do que talvez já tenha sonhado que seria, temos exigido muito de você, todos nós. Tenho andado escondida em certas dores e saudades, tenho me permitido ficar mais quieta, mais introspectiva. Tenho me permitido falhar porque não quero brincar de forte. (Não quero brincar de fraca também, mas vou levando, hoje assim, ontem pior, amanhã bem melhor, como der.) Mas não você: você tem sido forte todo dia, tem sido esse filho tão dedicado que é impossível não tocar nossos corações e continua, cada dia mais, sendo o melhor pai de que já me dei conta. Você segue escolhendo como ninguém as peças que usa para construir seu caminho e o faz com louvor. E continua gato, cheiroso e gostoso também.

Outro dia você se disse desanimado. Há dias em que é fácil se sentir assim: algo dá errado, tira o entusiasmo, emperra. Mas nós dois sabemos que ainda há muita água e muita ponte. E eu queria que você soubesse que hoje, vendo você se desdobrando mais uma vez, pensei em todo esse seu brilho e como você consegue transformar a vida das pessoas. Pensei em como sou sortuda nessa vida e mesmo com tanta dor consigo me sentir uma pessoa feliz e é só por causa de você e do que você trouxe à minha vida. Sei de meus valores, meus próprios méritos, mas ter você para dividir tudo comigo é, sim, a maior razão da consciência que tenho de ser tão feliz. Eu queria que você se lembrasse disso hoje, naquele trânsito infernal ou naquele compromisso que atrasa a tarde e bagunça o dia, ou na hora em que as crianças tirarem sua paciência, que você não está sozinho. Eu ando triste e saudosa, mas não largo sua mão por nada, você sabe que pode contar comigo.

***

Em um tempo em que você andava por aí, longe de mim, e eu habitava o reino dos caminhos incertos, uma canção me lembrava, de vez em quando, daquilo que eu tinha escondido no quartinho mais escuro do meu coração. Vinha pela voz do Morrissey e dizia assim: there is a light and it never goes out. Serve para o que sinto, sempre serviu. Mas serve também para o seu brilho. Dias melhores virão. Vumbora.

8 comentários:

Angela disse...

Eh um iluminadao mesmo. Ta certa. Tambem temos estado cansados do lado de ca. No nosso caso o agravante principal eh de natureza bem diferente, sao protusao discal de dois discos mais uma hernia em outro disco, eh dor que nao acaba mais em Pete. A dor ja esta completando o segundo ano, entao ele esta desgastado e eu tambem. Mas, de uma coisa tenho certeza, sempre haverao dias (ou tempos) melhores, nada eh para sempre, nem as coisas boas nem as coisas ruins. Beijao para todos!

Anônimo disse...

Rita, eu preciso falar contigo com urgência. Meu e-mail é murghana@gmail.com, você pode me escrever pra que eu te responda com o assunto? :(

Formas do Dizer disse...

Rita que lindo o nome do seu blog. Singelo como suas palavras. Parabéns.

Lílian disse...

Oi, Rita!

Eu, sem inspiração nenhuma, parecendo que levei uma surra depois da terapia não-convencional feita por uma japonesa para dar conta de minha dor (que já atravessou um ano inteirinho).

Daí li o texto (de teimosa, não aguento mais ficar deitada,embora esteja proibida de ficar muito tempo sentada) e imaginei vocês dois ocupando um dos pratinhos de uma balança. No outro pratinho, um amor com peso muuuuito grande. Tão grande que vai servir pra levantar os dois, ali do outro lado.É só dar um tempinho...

Vou confessar: fui ler e achei meio brega... Mas não vou mudar nada, tô tacando a culpa na dor da coluna!

Beijo, flor!

PS. Eitcha, tem mais gente com dor na coluna nesta coluna, né? Vou mandar a japonesa para eles...rs... Dessa dor eu entendo!

Fabiana disse...

Você acaba comigo. É incrível. Não dá o segundo parágrafo e já 'tô chorando. É um dom, um poder isso. Não desidrato assim lendo nenhum outro blog.

Veronica Serey disse...

Rita,
Quando li sua estória com Ulisses viajei no tempo. Parecia que eu estava escutando "mô" prá cá, "mô" prá lá. Os dois sempre grudadinhos por todo o campus. Era uma grude mesmo, kkkkk. Mas, realmente era amor demais e cantado aos quatro ventos. Que bom que assisti aos muitos episódios de carinho entre vocês. Compartilhei felicidade e dores também. Mas esquece essa parte...esqueci pronto!!!! Fico muito feliz com sua felicidade, mesmo sabendo da profunda dor que ainda sente. Ainda bem que você tem o amor de sua vida juntinho para dividir um pouco essa tristeza. Fico feliz também por ser sua amiga, apesar da distância. Sempre conta comigo, tá?
Beijo grande
Verônica - CG

Juliana disse...

Ah, Rita, assino embaixo do que a fabiana disse. Eu simplesmente me debulhei em lágrimas lendo isso, num Lan house.hehehe

Lindo e ponto.

Rita disse...

Anginha, tadinho do Pete! Sabe que morro de medo de ter hérnia de disco - é que todo mundo que conheço e que tem o problema reclama horrores do troço e imagino que deva doer muito... torço por melhoras, viu. bj.

Murghana, tudo resolvido.

Formas do dizer, muito obrigada, viu. Fique à vontade, venha sempre.

Lilian, hahaha, num tá brega, não. Tá bem docinho. Obrigada. E cuida bem dessa coluna!

Fabi, você é um doce! Muito obrigada, fico feliz que você goste daqui, demais. Beijo! E num chora não! :-)

Verônicaaaaaaaaaa, adoro quando você comenta aqui. Nossa, você participou daquela fase totalmente!! Ainda sou grata pelos ouvidos sempre dispostos a aguentar minhas ladainhas. E, sim, faz toda diferença do mundo ter alguém com quem dividir a dor. Sua amizade vale muito pra mim, você sabe disso. Abraço grande!

Juliana, ah, que bonitinha você também! Chora não, gente, que coisa! Beijo grande e abração: que se é pra chorar, que seja junto, né??

Adorocês tudo.

Beijo
Rita

 
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