De segunda a sexta



O dia parece feito em blocos: três pedaços distintos de tempo, separados por rápidos interlúdios de preparativos e deslocamentos. Manhã, tarde e noite, intercalados por cumprimentos apressados, avenidas rápidas ou estacionamentos complicados. Os blocos podem ser melhores ou piores, tudo depende mesmo da Lua, essa indecisa. Ou não, pode depender de mim, não decidi ainda. Mas hoje pensei que gosto mesmo é dos interlúdios, apesar de ter uma quedinha descarada pelo terceiro bloco, também.

Hoje, sob um céu nubladíssimo e preguiçoso, sobre um asfalto consequentemente ainda mais cinza, observei quase sem querer aquelas palmeiras do caminho, aquelas que parecem grades margeando a água da baía que dormia sem pressa, no nosso caminho para o segundo bloco. E vi que nosso caminho, olha só, é mais bonito que o bloco em si. Já sabíamos, tudo bem, mas hoje decidi subverter a minha relação com essas divisões de tempo, que às vezes saber não basta. De hoje em diante, o bloco vai ser tratado como aquilo que é: o pedaço de dia que me separa de nossos deliciosos interlúdios, que, por sua vez, a partir de hoje serão alçados à condição de chegada, não apenas de por enquanto. Porque, afinal, é no deslocamento que a música invade nosso carro e posso sentir sua mão e quase perco a hora de dizer “saúde”, porque você espirra no meio da música e eu preciso entender a letra. E também porque é no deslocamento que posso ver nosso filho correr no pátio antes da aula e ver que ele é o que as crianças são, descomprometido, leve e entregue. Nada disso há nos blocos. Pelo menos não nos dois primeiros, porque, como disse, o terceiro é mesmo aquela delícia toda.

Então tenho dito, a partir de hoje meus dias serão teoremas compostos de momentos ótimos, separados por dois blocos intrusos, porém necessários, onde o termo “necessários” não lhes confere nenhuma primazia. De agora em diante, será assim:

- Rita, o que você faz?
- Passeio pela cidade, todos os dias, feliz da vida, pra lá e pra cá.

***

E não por acaso, agorinha mesmo, enquanto escrevo, é sua voz que chega lá do quarto, são seus dedos que dançam as cordas e é sua presença que faz essa canção tão bonita.

3 comentários:

Bia, Desperate Housewife disse...

Ai Rita, me senti como vc. 3 blocos meu dia tb. (Esse comment pode sair truncado, toco sono).
1- Num dou conta do seu jeito doce de escrever. Vc é MESMO uma fada; ñ é desse mundo.
2- Hj, num desses deslocamentos, decidi ir pela cidade em vez de ir pela estrada, e ajustei meu olhar de "de casa" para "turista". Pude ver como moro numa cidade bonita. Valeu a pena!
Gde beijo!

Borboletas nos Olhos disse...

O tanto que gostei deste texto que nos convida a olhar de novo de um novo jeito. Que nos convida a olhar-te. E a nos olhar. Nus. Obrigada, baby, por saber tocar.

Rita disse...

Bia, sua linda, sua generosidade me deixa sem graça. Ainda bem que esses papos rolam por aqui, na segurança do teclado. Caso contrário, eu nunca mais deixaria de ficar vermelha. Você é um doce, muito obrigada.

Borboleta, obrigada você, né. Menina. Beijo grande.

Rita

 
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