Certos sons



Eu gosto de chuva. Gosto do barulho, acho bonito, gosto do cheiro. Em casa, jogando baralho, dando risadas, com uma taça de vinho, gosto de chuva. Gosto da solidão que a presença da chuva traz. Um dia ensolarado nos convida a sair por aí encarando o mundo, mas um dia de chuva nos convida a olhar para dentro. E gosto muito desse olhar. Acho lindo quando o morro que vejo lá do meu quintal se esconde na neblina e anuncia a chuva que vai cair daqui a pouquinho. É bonito, como se o céu descesse um tiquinho. E aí acho bom estar em casa, sem pressa, a louca que curte chuva no feriado. Mas é que a musiquinha da chuva embala como nenhuma outra meus pensamentos misturados. Gosto muito da rua onde moro, com seus eucaliptos compridos que veem tudo, tão discretos. Gosto das palmeiras desmilinguindo-se no telhado lá atrás, insistindo em invadir as janelas, mais curiosas que o impassível ipê. Eles se lavam e se renovam em cada chuvarada e nem desconfiam que a chuva que bebem também me banha e me renova. Gosto da chuva e, como as plantas, preciso dela. Preciso que ela venha e caia barulhenta para que eu olhe com mais atenção para dentro e arrume um pouco as coisas. Que às vezes a gente é assim, tão simples.

***

Li uns textos ótimos por aí hoje, dia 08. Fiquei me perguntando, então, o que meu feminismo tem me trazido de bom. E a resposta vem quase instantânea: tem me trazido certezas. Hoje torço, como todo dia, para que cada vez mais pessoas enxerguem as benesses de uma filosofia de vida que prega igualdade, respeito e construção. Torço para que meus filhos encontrem lá na frente muitos frutos bons gerados pela jornada de homens e mulheres de visão que gritam todo dia que bom mesmo é caminhar junto, olhando pra frente, sim, mas também para os lados. Torço para que o machismo ainda reinante em tantos lares mundo afora vire coisa do passado, algo como máquina de datilografia ou fita cassete, e que a violência contra a mulher, desencadeada por posturas machistas e preconceito de gênero, tenha seus absurdos índices empurrados ladeira abaixo a cada dia. Como muito bem disse a Lola hoje, não preciso ser cachorro para defender que eles sejam bem tratados; não preciso ser vítima de preconceito ou de violência doméstica para enxergar o tamanho do problema. Nosso feminismo não precisa ser em causa própria - e essa pode ser sua maior beleza.

***

Amanhã é dia 09. Noventa dias "sem você". Até agora, apenas dois sonhos, bem curtinhos. Talvez seja porque sonho com você quase o tempo inteiro, acordada mesmo. Talvez seja porque simplesmente não me lembre dos sonhos quando acordo. Talvez. Seja como for, seguimos juntas, cada dia mais. Como se sua presença agora estivesse se misturando com minha pessoa. Descobri outras maneiras de conversar, a gente conversa e você me diz que o maior de tudo fica. Fica, sim, mãe. Mesmo assim, quanta saudade de você... É que tem essa coisa da sua voz, sabe, que, em certos dias, era um pouco como o som da chuva, tinha o mesmo efeito bom. Ah, se o sonho vier com o som da sua voz... continuo esperando. Vê se não demora, bonitinha.

9 comentários:

Vivien Morgato : disse...

Como sempre, textos delicados.
Espero que o sonho venha logo.;0)

Lílian disse...

Oi, Rita!

Ontem mesmo Pedrinho me perguntou sobre a chuva. Falou que gosta do cheiro - grama molhada, foi o que disse. Também gosto. Muito!

Eu, insone, a pensar no barulhinho da chuva. Acho que vou correr para a cama, bem capaz de o sono chegar.

Bons sonhos, tá?

Caso me esqueçam disse...

queria saber como voce tava. que bom que ja se foram 90 dias. e que bom que 90 dias nao mudou o que sempre houve de bom entre voces. acho bonitinho quando tu escreve pra ela. que terapia!

Danielle Martins disse...

Também gosto da chuva mas é um gosto meio melancólico.
Bjs!

janara disse...

Oi, sou uma apaixonada por blogs, e na busca de algum legal encontrei o seu, gostei muito, Sinto muito pela sua mãe. Também gosto da chuva, parece que renova, né? Ou que traz um presente do céu. Beijinhos, Janara.

Borboletas nos Olhos disse...

Eu gosto de chuva. Gosto do cheiro que a antecede e do odor que fica no chão depois que ela passa. Gosto do vento que a acompanha tantas vezes, meio cortante, indagador da nossa vontade de estar ali. Gosto de chuva como quem leva o sertão por dentro. Pra mim o tempo "está bonito pra chover". Como na música que tão lindamente a Bethania canta ("bonito pra mim é céu cinzento...).

E gosto de vir aqui e ver voc~e chovendo. Porque a dor não passa nunca o que fazemos é torná-la cada vez mais nossa, querendo dizer cada vez mais nós.

Affe, estou verborrágica, again.
Um beijo, baby

Rita disse...

Obrigada, Vivien. Beijinho pra vcocê.

Oi, Lílian. Viu seu livro no post que segue? Beijos!

Luci, é uma terapia, sim. Obrigada por lembrar, querida. Beijo.

Danielle, tem melancolia, sim...

Oi, Janara, seja bem vinda. Muito obrigada pela visita e pelo carinho.

Luciana, sabe que também acho que gosto de chuva por ser paraibana? Deve ser uma carência básica. :-D

Beijos,

Rita

Anônimo disse...

Rita,

Adoro ler as coisas que vc escreve sobre a sua mãe e acho muito linda a relação que vocês tinham (e ainda têm, porque relação boa/ruim com a mãe não acaba nunca!).

Sempre fico curiosa: você é filha única?

Um beijo,
Aline (da Julia)

Rita disse...

Oi, Aline. Obrigada, querida. Não, tenho um irmão mais velho que eu. E um sobrinho, fofo demais. :-)

Beijo
Rita

 
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