As mulheres sem nome que trago em mim



Há tempos em que me volto para dentro e me revisito, não necessariamente para entender, quase sempre para me reencontrar. São muitos os apelos para que eu me esqueça de quem sou ou do que tento construir de mim mesma e de vez em quando é preciso que eu feche os olhos um pouco. Talvez tudo se deva aos rótulos que vivem nos aplicando e, quando damos por nós, somos a mãe dos fulaninhos, a esposa do sicrano, a funcionária do setor tal, a filha da D. Beltrana. E mesmo que cada rótulo desses traga em si um pedacinho de mim, nenhum deles me define por completo. Tudo parece meio óbvio e sem muitas complexidades aparentes, salvo nos momentos em que precisamos lidar com um quando queremos nos esconder em outro. Então há momentos em que é preciso que eu seja a funcionária, mas eu quero ser só a mãe. E há momentos em que nada me define. 

Então hoje chegou março, o mês rotulado como sendo das mulheres. E eu gostaria de estar em um momento mais inspirado de minha vida para poder somar às muitas vozes afinadas que pretendem fazer do rótulo um excelente uso. Mas o fato de ter me despedido, há tão pouco tempo, daquela que foi até hoje a mais grandiosa mulher de minha vida anda me tirando a inspiração e, muitas vezes, a vontade de escrever. Tenho me esforçado para me manter atenta ao mundo, buscar minhas referências, meus vínculos, meus assuntos. Tenho tido algum sucesso e muitos fracassos, mas acho que até tenho me saído muito bem - se eu quiser chamar de "muito bem" o fato de conseguir tocar a vida aceitando que ela cumpriu sua jornada por aqui com louvor, deixando tanto dela comigo - o que é uma honra sem fim - e aceitando também que não é preciso entender para sentir. Ela vem comigo ainda que insista em se esconder de meus sonhos (continuo esperando, todas as noites).

Então março me disse hoje que seria legal refletir sobre meu espaço no mundo como mulher. Contudo, nesse momento, mais espero do que ofereço às valiosas ponderações feministas que certamente invadirão a blogosfera nos próximos dias. Ainda assim, esse olhar mais interiorizado que trago comigo tem me levado a enxergar algo que talvez nunca seja demais ressaltar: não há definição possível para alguém que está em permanente busca pelo crescimento. Não é possível me rotular ou me enquadrar em qualquer estereótipo fixado há séculos porque simplesmente eu não caibo ali. Certamente vou sobrar. Ou ser insuficiente.

Eu sou, por exemplo, a esposa de Ulisses, mas dizer isso é apenas uma gigantesca simplificação de minha relação com ele. Nós somos muito mais do que marido e mulher que dividem tarefas, contas, responsabilidades e carinho. Nós construímos uma vida juntos de forma tão unificada que mistificar nossa relação com clichês centenários não passa muito perto do que temos de verdade. Nós temos uma escolha renovada todo dia cada vez que a canção no carro nos faz dar as mãos e ter certeza de que já estamos na felicidade há muito tempo. Também sou a mãe do Arthur e da Amanda, mas por mais que esse rótulo me encha de orgulho e alegria e por mais que ele represente uma parte gigantesca da atual fase de minha vida, não existe um Rita-mãe dissociada da Rita-confusa, da Rita-insegura, da Rita-menina, da Rita-sonhadora, da Rita-frustrada, da Rita-apaixonada-deslumbrada, das Ritas todas elas. Então não me serve o rótulo de "mãe que é mãe faz isso ou aquilo". Eu não aceito nenhum rótulo de mãe ou supermãe porque tudo que ofereço a meus filhos passa necessariamente pela minha tentativa diária de aprender e crescer, sempre. Não pode ser perfeito, não pode ser cem por cento sublime. É aprendizado com tudo que o aprendizado nos traz, erros, acertos, quedas e triunfos. Em um grau infinitamente menor na escala, sou atualmente a funcionária do setor x, (e, na verdade, a partir de amanhã, serei a funcionária do setor y, desejem-me sorte), mas não sou dona do lugar onde trabalho e, acreditem, eu faria muita coisa diferente, se pudesse. Mas, assim como aquele menino Russo, não sou mais tão criança a ponto de saber tudo e aprendo o que posso, contribuo como der, mas que não pensem que me veem inteira quando me enxergam ali. Sou só um pedaço de alguém desempenhando um papel e estou tentando superar a fase de surtar por insatisfação. Próxima página, por favor. Ainda sou a filha da D. Beltrana,  mas por mais que eu a tenha amado e respeitado tanto, não sou sua cria somente, porque ela me fez crescer para saber voar sozinha e os rumos que escolhi são os meus e não os dela. Então, deixemos os rótulos pra lá e nos preocupemos mais em viver que em classificar. Acho que está claro que não rejeito qualquer um desses rótulos - todos verdadeiros - apenas ressalto que muitos estereótipos vinculados a eles não se encaixam em mim.

Os anos se sucedem e as mulheres conseguem cada vez mais soltar os grilhões dos velhos conceitos criados para elas, mas sabemos que ainda há tanto, tanto chão. Hoje Ulisses e eu divagamos sobre o terrível poder das expectativas que herdamos sem perceber e que adotamos como se fossem scripts sem desvios possíveis. Como não se frustrar, hein? Então assim, meio sem muitas pretensões, desejando que o março nos traga ótimas e necessárias reflexões, deixo o convite a dar uma olhada nos rótulos que nos servem e incrementá-los da melhor maneira possível, mas também dar uma espiadela nos outros que poderíamos arrancar sem medo - e, uma vez sem eles, ter mais ganhos que perdas. É preciso coragem para se olhar e reconhecer que nem tudo que o mundo nos oferta nos cai bem e ninguém está dizendo que é fácil. Mas é bom e faz crescer.

De minha parte, descarto o rótulo de boa dona de casa, não me serve. \o/ Minha casa é o lugar de que mais gosto no mundo, mas não por ser certinha e organizadinha - não sei se é, talvez seja para alguns, para outros não. Mas o fato é que minha casa é o lar de duas crianças na primeira infância; também é o lar de quem não tem o grau de vaidade necessário à arrumação constante e à decoração impecável. Eu troco a mesa nova pela passagem de avião e se um dia a mesa vier não lamentarei nenhuma viagem adiada. Minha casa tem plantas e gosto muito delas - mas é honesto dizer que elas sobrevivem apesar de mim; mas plantas soltam folhas e sujam o quintal e algumas mancham as pedras e se um dia eu me estressar muito com isso há algo errado ou fora de foco. Etc. Minha casa é o lugar de que mais gosto no mundo porque nela reúno as pessoas que mais amo no mundo todos os dias. E isso a torna linda e cheia de luz - o que é muito bom, já que gosto de ambientes claros. :-) 

***

Além de casada com um, mãe de outros, etc., sou a cunhada da Lílian. E há semanas planejo terminar de ler seu primeiro livro, que insisto em intercalar com outras leituras, para escrever um post sobre algumas das crônicas contidas ali. Mas hoje decidi apresentar o livro mesmo sem ter terminado de lê-lo, como um símbolo de todo o papo em torno da mulherada que deve rolar esse mês internet afora. O livro está à venda em livrarias de João Pessoa (quais, Lílian?) e na Livraria Catarinense aqui de Floripa. Lílian e eu  temos visões distintas sobre muita coisa na vida, mas temos vínculos mais profundos que nossas divergências. Já somos bem grandinhas para amar sem precisar que o objeto do amor seja nossa cópia. Eu aprendo com ela. Lílian é forte, corajosa, vencedora. É inteligente e doce, generosa e cheia de energia (nossa, muita energia). Ainda me pergunto como ela escreveu o livro e desconfio que foi durante o banho, porque não imagino tempo livre em sua rotina. Mas enfim, Histórias de "Mulherzinha"... nasceu e traz crônicas divertidas, relatos pessoais mais ou menos intimistas, reflexões sobre sua religiosidade, sua caminhada como mãe, como filha, como mulher que lida com seus rótulos, aceitando-os ou descontruindo-os, que interroga o mundo.


Quem quiser uma palhinha da escrita da Lílian pode dar uma espiada num comentário inspirado que ela fez em um dos blogs da Borboleta hoje. Ouvi dizer que vai virar post, confiram lá. Eu gosto desse rótulo: cunhada de escritora, ui. :-D E esnobando como se espera de toda boa cunhada de escritora, hoho, digo que ouvi uma das crônicas em primeiríssima mão, lida pela autora muito antes da publicação do livro, na mesa de certa sala não muito perto daqui. Intimidade pouca é bobagem, é ou não é? E digo também que um post do Estrada Anil inspirou uma das crônicas, que amor... [Tá bom, parei, mode rasgação de seda off.]

***

Ontem tocou aquela canção no nosso carro e a mão dele apertou a minha no meio do trânsito. E sorri quando, nos últimos acordes,  ele verbalizou meus pensamentos: “nossa música”; eu estava justamente divagando sobre o tempo que nos separa daquelas semanas de reencontro e paixão desesperada, amor realimentado, certezas de futuros juntos e sementes muitas; ouvindo sua voz, sorri porque, né, nada nos separa daquele tempo, tudo ainda está aqui.

E até quem me vê
Lendo o jornal
Na fila do pão
Sabe que te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena.



8 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Esse não é o verdadeiro comentário, li sem poder ler, com pressa e com fome das suas palavras...então, só pra constar: se isso é esperar mais que oferecer, baby, quanto você tem pra dar, hein...

Lílian disse...

Oi, Rita!

Não tem sempre aqueles dias em que as nossas dores resolvem doer um pouquinho mais do que "normalmente"? Pois...

Hoje foi dia de dor no corpo - que até aqui sempre foi mais fácil de driblar do que todas as outras - e estava eu lá, deitadinha, quando você ligou, contou da Borboleta e depois contou de "Mulherzinha". Foi ali que dei tanto sorriso que até me esqueci do que estava doendo - no corpo ou em tudo o mais que ele pode guardar.

Claro que eu não poderia ir dormir sem vir ler o seu post. Claro que eu não poderia deixar de fazer meu "comentário-carta" e agradecer pelo 'forte', e 'doce' e por todas as outras coisas que nem sei se sou tanto. Meu muito obrigada! Mas, a sério, de tudo o que li, o que mais gostei foi a sacada de ter escrito "durante o banho".
COMO FOI QUE VOCÊ DESCOBRIU??? BONITINHAAAA!!!!

:-)))

Bem, daí só sei que foi melhor ainda, porque dei mais risada, as dores passaram como que por encanto e, se amanhã doer outra vez, trago à memória tudo de novo, sorrio de novo e vou celebrar mais um dia!

"(...)Rio. Sorrio. E entendo que sorrisos são as nascentes destes rios."

Ri, chorei, me emocionei.
Eu não sou escritora. Mas o livrinho foi minha catarse, e nasceu com o maior carinho que eu pudesse ter em tantos e tantos dias. Vai ver que, como o Uli me disse lá naquela sala bem longe daqui, meu "timing" é meio diferente. Vai ver...

SAUDADES. LOVE YOU.

Lílian.

Long Haired Lady disse...

se eu for me rotular, me mato!
se for ver meu proprio valor vou precisar de uma lente de aumento gigante...

só posso fazer por mim é viver e tentar ser feliz, porque não faço a diferença...

Barbara Manoela disse...

Obrigada por me lembrar que, apesar da sociedade insistir em me rotular, sou mto mais do que isso.
bjs
Barbara Manoela

Borboletas nos Olhos disse...

Sabe, eu sempre explico pros meus alunos que a identidade é como uma cebola, somos inteiras em cada camada, mas não somos aquela camada. E não há caroço, não há essência, é a própria existência (ou seja, cada camada da cebola) que é a própria cebola. E, claro, eles não entendem nada ;)
Mas se eu entregasse este texto juntinho com as idéias de cebola (e eu agora lembrei do Schrek)aposto como eles iriam sacar.
Gostei tanto! De como você sabe falar de companheirismo e desejo juntinhos, de saber da sua perfeita casa imperfeita, dos rótulos todos, lindos e insuficientes, mas seus e admiráveis cada um deles mas não congeláveis.
E,claro, que presente que é a Lilian, my lord! Já disse que ela é tudo? Pois é.
E, por fim, que lindo é ter a trilha sonora o amor. Lindo mesmo.
Ai, agora comentei \o/

Rita disse...

Luciana, você sabe, né. Então tá. Bj.

Lilian, antes tarde do que nunca. Eu sou a maior atrasilda mesmo, mas finalmente está aí. E que bom saber que as vendas andam bem por aí. E que você anda toda animada para posts (a estrada é sua, fica o convite). E que pude aproximar você da Luciana, um luxo de pessoa. Aguardo instruções sobre a técnica do banho. O laptop fica dentro do box? Beijão!

Long Haired Lady, acredito que as coisas sejam um pouco diferentes: talvez você não precise de lentes de aumento para enxergar seu valor, apenas menos cobrança ou mais generosidade consigo mesma... tô só especulando... :-) E, acredite, você faz a diferença, sim, certamente. Beijocas.

Valeu, pessoas.


Rita

Sardenta disse...

Rita, adorei seu post. Eu me sinto assim todos os dias...

Lindo, lindo!

beijos

Rita disse...

Barbara, muito obrigada digo eu, atrasada, por sua visita, né. Beijo grande, entre aí e fique à vontade.

Sardenta, muito obrigada, querida.
Beijo

Rita

 
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