Útero



Acho que a sensação de tranquilidade que experimentava no fundo da piscina vinha um pouco do som da água ao meu redor, ou do que a água fazia com os sons que me cercavam. Tudo em baixa rotação, câmera lenta. Meu "exercício" consistia em pôr a cabeça para fora da água, puxar o ar pela boca, sentar-me no fundo da piscina, soltar o ar, voltar. Levantar, encher-me de ar, descer, soltar, voltar. Com os braços abertos em asas, era como se eu bailasse ou voasse e aquele contato intermitente com os barulhos que vinham de fora evidenciava a calmaria lá embaixo quando tudo que chegava aos meus ouvidos era o barulho das bolhas que eu produzia e um som surdo de fundo. Eu subia no ritmo do impulso para buscar o ar, mas descia lentamente até me sentar e tocar o chão. Lá fora, gritos de crianças, vento, vozes. Lá embaixo, eu. O olho do filtro na parede da piscina era a única testemunha de meu voo-balé. Desde que acordara, muitas horas antes, tinha planejado um mergulho para me encontrar lá no fundo e naquele momento senti a felicidade tranquila de quem reconhece o bom. Experimentando aquele prazer muito íntimo, pensei que estava tendo a chance de voltar os olhos para dentro, como quando meditamos. Senti essa coisa cujo nome desconheço e que me mantém viva - minha consciência, meu eu, minha pessoa, minha vida. E lá no fundo pensava pela milésima vez que foi isso que escapou do corpo da minha mãe, foi isso que se apagou, foi o que se extinguiu ou se transformou sabe-se lá em quê, foi isso que se afastou dela, é isso que nos mantém conscientes, é isso que ela não tem mais.

O fundo da água foi minha pequena epifania num dia tão rico quanto simples. Passei parte da manhã sujando o chão da sala de massinha, moldando carrinhos, frutas e todo tipo de formas coloridas com as crianças, rindo de bobices; comemos barulhentamente; acampamos na cozinha tagarelando para sempre enquanto eu fazia um bolo que só foi para a forma depois que Arthur e Amanda o batizaram com seus dedinhos, pescando pequenas quantidades para lamber. Se minha mãe estivesse viva e pudesse usufruir desses pequenos eventos, tenho certeza de que seu sorriso viria fácil. Era disso que ela gostava, de gente perto.

Atualmente minha sogra usufrui de tudo isso. Está conosco, faz parte de nossa rotina, enche-nos de alegria com sua presença, nós que gostamos tanto dela. Mas apesar de também ela gostar de nos ter por perto, de amar seus netos como minha mãe os amava, de ter o privilégio de vê-los crescer como minha mãe adoraria fazê-lo, minha sogra anda triste, cabisbaixa, angustiada.  Acompanhamos sua brava luta diante do abismo da depressão e da ansiedade e temos certeza absoluta de que vamos vê-la recuperar o ânimo que, por tanto tempo, pelo menos para mim, foi sua marca registrada.  Mas no meio de tudo, sinto-me vazia.

Eu não me reconheço aqui, nesse ponto, agora. Não me reconheço cada vez que me calo ao invés de abraçá-la e repetir milhões de vezes, tantas quantas forem necessárias, que ela vai ficar boa, que tudo vai passar. Era isso que eu fazia antes de dezembro. Mas agora me sinto incapaz de lhe passar a força e o apoio que sei que, em condições normais, eu passaria para ela. Olho ao redor, vejo tudo que minha mãe adoraria ter, tudo no colo de minha sogra, e não sei o que fazer disso. Eu sei o que eu queria fazer: ter força e vontade de olhar em seus olhos toda hora e lhe dizer palavras de ânimo, empurrá-la morro acima, carregá-la nos ombros, se pudesse. Mas não tenho feito muita coisa além de torcer muito. Eu adoraria ver toda a dedicação de Odisseus se transformar em dança de comemoração pela total recuperação dela, mas não tenho mexido um dedo nos últimos dias para gerar conforto. Eu simplesmente ando morna, com culpa e saudade. Culpa por não ser a fortaleza que minha sogra precisaria que eu fosse agora, saudade infinita de conversar sobre tudo isso com minha mãe.

Hoje ela me disse que não sabe como dizer à minha mãe que sou agora sua filha também. Diante de coisa tão linda, de tanto carinho, de tanta ternura, abracei-a rapidamente, muda como uma porta fechada que nem o vento balança. Cruzamo-nos na escada e seguimos nossos caminhos, ela mais doce, eu mais pesada. Como posso me sentir pesada depois de tamanha declaração de afeto? O que posso fazer para não deixar que minha tristeza pela partida de minha mãe me impeça de me desdobrar para ajudar minha sogra que está aqui, completamente aqui, ao alcance da minha mão? E eu a amo tanto. Como fazê-la de novo deleitar-se com a riqueza de sua rotina e afastar a tristeza que vem sabe-se lá de onde? O peso que sinto diante do carinho dela nada mais é do que meu reconhecimento de que estou fazendo muito pouco. 

Hoje, no fundo da piscina, entreguei-me ao jogo de sentir a vida e penso que, enquanto eu flutuava em meus devaneios, a presença de minha mãe me nutria e me preparava para seguir em frente. Era eu de novo no útero recebendo seus cuidados e me preparando para o mundo. O engraçado é que nunca estamos prontos.

12 comentários:

Gabi disse...

Oi Rita,

Descobri o teu blog pesquisando dicas de Londres com crinças e fiquei surpresa com tantas coisas em comum. Moro em Floripa e tenho dois pequenos, a Ana tem 3 anos e o Gui fará 7 quando estivermos em Paris dia 04/05 (o Artur faz dia 05/05, é isso né?)depois de passarmos uma semana em Londres. Nem preciso dizer que adorei teu blog e me reconheci nele, me sinto quase uma amiga.
Sinto muito pela tua mãe. O tempo vai ajudar a passar, sempre digo que um telefone no céu precisa ser inventado imediatamente, a gente acostuma com a ausência, mas, as vezes é bom trocar uma idéia, tirar uma dúvidar, dar um aló, enfim...Aguenta firme.
Um abraço
Gabriela

Angela disse...

Gente, Rita. Esse "exercicio" na agua faco tambem, no mar. Pensava que era so meu :D Uma das minhas maneiras de "apagar as luzes para ver as estrelas". Aquelas que moram dentro de nos mesmas e nos fazem mais felizes, completas ou satisfeitas quando meditamos. Alem daquelas outras que nos rodeiam de pertinho.
Torco com voce pela melhora de D. Teresa.
Um beijo.
p.s.: recebi a sua mensagem, e sorri quando voce falou que lembrou o dia todo. Nao deu para ligar, passei a maior parte da noite ajudando uma amiga a distancia. Mas nos falamos em breve!

Long Haired Lady disse...

que texto lindo!

amava minha sogra tambem, infelizmente ela se foi ano passado, ela tambem sofria de depressão.
é tão dificil ajudar em algo que nao se conhece.
tomara que ela consiga sair desse momento!

Tina Lopes disse...

(Eu tinha comentado antes mas o explorer me boicotou) Rita, impossível não lembrar da Juliette Binoche, na piscina, em A Liberdade é Azul. Sei bem a barra que é aguentar alguém depressivo em casa, mas o importante é você se permitir viver o seu luto, eu acho, sem culpa pela depressão da sua sogra querida, porque infelizmente, abraços e carinho não curam; aliviam às vezes, mas não curam. Também acho importante ver que a depressão não é uma negação da possibilidade da felicidade - então tua sogra possivelmente também vê e se culpa por não aproveitar o que tem, os netos, a vida, o amor que a rodeia. A depressão é íntima, pessoal, tem gatilhos que só dizem respeito à pessoa que sofre a doença, e por melhor que seja o ambiente, só muita força de vontade individual, terapia e medicamentos podem vencê-la, mesmo.

Borboletas nos Olhos disse...

meu comentário virou post, como você já sabe. Agora o post vira abraço.

Anônimo disse...

Eu fiz a mesma associação que a Tina lendo esse post, lembrei de A liberdade é azul também. E me lembrei também do quanto sua mãe desejaria estar ai, vivendo como a Dna. Teresa vive hoje, cercada de tanto amor. Eu penso que essa é uma fase que deve ser vivida, esse momento de luto é inevitável e que sua sogra apesar da depressão entende que você não pode ajudá-la tanto quanto gostaria.
Larissa

Lilian disse...

Querida Rita,


Ande sem pressa. Continue em seus exercios vitais de sumir para dentro e depois tomar ar aos grandes goles. Exerca o direito de viver seu luto, voce nao tem que dar mais do que pode, tampouco sentir-se culpada por isso. Ha tempo de dar, mas ha tempo de receber.

Ainda que sua maneira de enxergar a vida seja diferente da minha, uma vez voce disse que recebia palavras sobre Deus como um abraco. Pois saiba que elas podem ser exatamente isso: a Biblia diz que Ele nos esconde debaixo de suas asas (V. Salmo 91, se tiver uma em casa), como uma ave esconde seus filhotes.

Um abraco sob penas quentinhas e protetoras...

A saudade nao passa nunca, so vai se transformando em algo mais suave. Nossas dores nos fortalecem, sempre me impressiono em ver como isso pode ser verdade. Mas elas tambem podem ser chamados de Deus, pois aquela Palavra tambem diz... "Quando seu pai e sua mae te abandonarem, Eu te recolherei".

Tente uma oracao, uma conversa com esse Deus invisivel. A gente e racional demais, mental demais... E olha, nem precisa se preocupar em "o que vai falar" apenas tente entregar seus sentimentos. Em qualquer lugar de quietude, ate mesmo la, no fundo daquela piscina. Vc pode realmente se surpreender.

Beijo. E abraco.

Rita disse...

Oi, pessoas. Eu vou voltar aqui para responder cada comentário. Vocês são uns amores. Mas tenho tanta sorte que tenho amigos me visitando na noite de segunda-feira. o/ Então volto depois.

Bj
Rita

Rita disse...

Oi, Gabi! Que bom que você me encontrou! :-) Fique à vontade, os posts de abril e maio são praticamente todos escritos em Londres, época em que fizemos um curso e passeamos muito por lá. Londres é maravilhosa para crianças, vocês vão fazer um passeio e tanto! Muito obrigada pelo carinho e pelas palavras em relação à minha mãe. Apareça mais vezes, vou adorar trocar ideias com vocês. E não deixe de anotar as dicas de Paris - posso precisar depois. ;-)Bj!

Anginha, eu poderia ter ficado naquela brincadeira por horas. Impressionante como me voltei toda pra mim. Muito bom. E, ei!, hoje D. Tereza está ótima. Agora há pouco me falou que nem quer dormir, para aproveitar que está se sentindo bem, a bonitinha. Estamos na torcida para que seja a chegada da grande virada. Bj, ex-aniversariante. :-)

Long Haired Lady, muito obrigada. Que pena que sua sogra também precisou enfrentar essa barra. Essa vida é meio esquisita às vezes, né? Beijinho.

Tininha, linda. Damned explorer. Adoro os upgrades que você dá nos meus textos: ora Mrs. Dalloway, ora Juliette Binoche... :-) Passei o dia tentando me lembrar do enredo de A Liberdade é Azul - o que é estranho, pq me lembro de ter adorado o filme.. ou seja, preciso ver de novo. Mas, sim, captei a referência. Assimilei cada palavrinha do seu comentário, estou consciente de que tenho direito ao luto e de que não há muito o que eu, sozinha, possa mudar na história. E sei que dias melhores virão. Pra frente. Bj.

Borboleta, post de volta pra você, hoje, sua linda.

Larissa, sei que vocês que a conheceram entendem perfeitamente o que sinto, porque vocês sabem o quanto ela valorizaria brincadeiras com as crianças no chão da sala. Estou, sim, vivendo meu luto e sei que há tempo para tudo. Mas, né, há dias em que queremos consertar o mundo. Ai. Beijo.

Lilian, precisamos de muitos e-mails para esse papo, né. Mas olha: sua mummy hoje está ótima e toda serelepe. Foi ao cinema, fez as unhas, brincou, sorriu, fez planos. Olha, que coisa maravilhosa. Vamos todos dormir na expectativa de que amanhã seja um prolongamento disso tudo. Quanto às questões mais filosóficas, que tal um sushi, né? Uma bandeja bem grande, porque o papo vai longe. :-) Mas agradeço MESMO o carinho de suas palavras. Você sabe que não vejo as coisas como você, que a Bíblia não é um livro que me sirva de referência; você sabe que, se eu acreditasse no Deus em que você acredita, eu não me entregaria a ele, mas pediria uma explicação bem boa para o sofrimento de minha mãe e de tanta gente mundo afora. Hoje a prima de uma colega-blogueira morreu no parto. O bebê sobreviveu e crescerá sem a mãe. Eu não penso que ela está com Deus. Nem que ela gostaria de estar seja lá onde ela estiver agora. Eu penso que ela gostaria de estar com o bebê dela, cuidando, amamentando, sei lá. Mas, né. Ninguém explica. Ninguém explica. E, pra mim, a fé tem somente o poder de amenizar a dor. Não é pouca coisa, não. Mas só funcionaria para mim se eu não pensasse em mais nada. Eu não consigo. Enfim, divago. Fiquei muito triste pela minha colega. Mas quero que você saiba que minha angústia vem da saudade, física mesmo, de ouvir a voz de minha mãe. Não é falta de fé que me angustia, Lilian, querida. Não é. É saudade. Um beijo grande procê, sua fofa.

Rita

Lílian disse...

Bonitinha... vou aguardar o sushi. Beeeeem grande. E, claro, jamais disse que você não tem fé. Mas um dia, talvez, valha a pena não pensar em mais nada e orar. Não pensar em mais nada, mesmo. Como disse, acredito em respostas surpreendentes. E também em buscá-las de coração, mesmo que elas nunca cheguem por completo. Fé também é um pouco isso...

Mais beijos.


P.S. Não, não, fofa não... Me faz lembrar do tanto de quilos que ainda preciso eliminar!!! kkkkk!

Rogério disse...

Estive longe e sem acesso à internet. Só agora tento tirar o atraso. Rita - alguém já disse isso - você deve se permitir o luto, que não tem prazo para terminar, cada caso é único. Percebo que você está sendo injusta consigo mesma, porque não está deixando de dar carinho e atenção à sua sogra. A questão é o limite, nós temos circunstâncias limitadoras que não nos permite ir além. Talvez o exercício na água (vou tentar fazer isso aqui em casa) seja uma fonte de início de 'cura' para sua tristeza que, sei, é muito grande. Fique em paz.

Rita disse...

Oi, Rogerio! Muito obrigada pelo comentário e pela atenção. Um pouco de culpa acho que sempre vou sentir. Mas estou levando em conta tudo que está acontecendo e tentando digerir melhor os fatos.

Valeu,abraço!
Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }