Together



 
Alerta vermelho: post com grau altíssimo de corujice, só leia se estiver vacinada/o.

É uma notícia velha, mas preciso registrar para a posteridade.

Na semana passada, a Fada do Dente veio e deixou uma moedinha sob o travesseiro do Arthur. Era de pequeno valor, porque a Fada entendeu que era apenas um gesto simbólico, ela não tinha associado o dinheiro ao poder de compra, mas à comemoração somente. Há fadas bem ingênuas, ainda. Eu tinha dito ao Arthur que, se a fada viesse, ele poderia abrir o cofrinho dele, juntar a nova moeda às outras e comprar o que quisesse com seu dinheiro. E assim foi.

Era sábado e eu fiquei em casa fazendo um bolo, enquanto todo o restante de população da casa foi à loja de brinquedo. Então eu não estava lá, mas vou contar a coisa como o Ulisses me disse que aconteceu.

O Arthur tinha cerca de trinta e sete reais em moedas que eu havia colocado em uma niqueleira que herdei da vovó Berna (depois de retiradas do porco-cofre). Com a niqueleira na mão, ele passeava pelos corredores, escolhia um brinquedo e perguntava ao pai se conseguiria pagar por aquilo e se sobraria algum dinheiro para dar um presentinho para a Amanda. O Ulisses me disse que a ideia veio do próprio Arthur e que, por causa dessa decisão, ele deixou pra trás vários bonequinhos e carrinhos escolhidos pelos quais até poderia pagar com seu dinheirinho, mas que não o deixariam comprar outra coisa para a irmã. Em certo momento, ele escolheu uma boneca para ela, que custava dez reais. Andou por algum tempo com a boneca na mão, procurando pelo brinquedo que seria dele. (Pausa. Ulisses me contou que, a essas alturas, Amanda reclamava que não tinha gostado da boneca, enquanto ele explicava que seria um presente do mano e que quando ganhamos presentes não escolhemos nem pitacamos nada.) Então Arthur finalmente viu um Homem de Ferro. Pronto, achou. Trinta e cinco reais, mais ou menos.

- Dá, pai?
- Dá, filho. Não dá para comprar outra coisa pra Amanda, mas dá pra pagar com seu dinheiro, sim.

Olhou mais um pouco. Um Homem de Ferro menor. Vinte e nove reais.

- Dá, pai?
- Dá, filho. E ainda sobra.

Arthur pegou  o Homem de Ferro menor, circulou mais um pouco e encontrou um pote de massinha pula-pula não-melequenta, pelo qual a Amanda morreu de amores, por cinco reais, olha que menino de sorte. E rumou satisfeito para o caixa, entregou a niqueleira para o moço e me encheu de orgulho, fim.

Eu vivo me perguntando se estou agindo de modo a passar para os meus filhos a noção de que as coisas não estão ali sempre à mão, que é preciso conquistá-las; mais do que isso, pergunto-me se consigo demonstrar que coisas importam menos do que parece. Em episódios assim, vejo que é possível que estejamos caminhando bem. Seria absolutamente comum e aceitável se o Arthur só se preocupasse com seu próprio presentinho, já que ele tem cinco anos e os pequenos são egocêntricos, sim. Mas, assim como no episódio do chocolate no primeiro dia de aula, Arthur pensou na irmã e eu acho isso um indício muito, muito bom.

Generosidade, filho. É por aí, sempre. Generosidade. Te amo demais, seu pititico.

10 comentários:

Juliana disse...

ah, esse arturzinho fofo!

Clara Gurgel disse...

Com certeza vc está no caminho certo sim,Rita. Aqui em casa tento seguir pelo mesmo caminho também com os "meus rapazes". Bj!
Ah, comentário atrasado. Me identifiquei muito com o post do primeiro dia de aula das crianças. Também levei uma "esnobadinha" do Davi, o caçula que vai fazer três anos mês que vem. Da porta da escola já virou para trás e disse: "Tchau,mãe!" rsrsrs...mas eu persistente e me achando "altamente necessária", entrei!

Anônimo disse...

Ai que coisa mais linda!!
Larissa

Lílian disse...

Oi, Rita!

Gostei tanto desse post! Vou te falar sobre o que isso me fez lembrar:

Quando a gente vai ao homeopata ele nos faz um monte de perguntas para que, segundo a especialidade médica, consiga reconhecer nosso "constitucional". Coisas do tipo...

- Você prefere doce ou salgado?
- Frio ou quente?

E assim por diante. Até que chegará a uma perguntinha básica:

- Gosta de ajudar os outros?

E a maioria responderá: "sim, claro, gosto muito".

- Então conte sobre alguma vez que você ajudou a alguém.

E muitos ficam: bem... bom... peraí... IIIIh, não lembro agora.

Generosidade é mesmo coisa prática. E fica na memória. Estou super-orgulhosa de que o Arthur já tenha o que contar, se for passar por uma consulta destas.

Beijo, cunhada! E super ARROXO no pititico. Rs...

Danielle Martins disse...

Acho que já disse que sua família é linda e isso é mérito seu!Todos os motivos para se orgulhar!
Bjs!

Borboletas nos Olhos disse...

Eua ia dizer que sua família é linda e o Arthur é fofo, mas já disseram.
Ia dizer que o mundo fica mais generoso por pessoas como vocês, mas já disseram.
Ia dizer que esse caminho que você traça ao educá-los leva longe, mas já disseram.
Digo, então, apenas: que bom que você registra! Além de se tornar memória concreta ainda nos dá o prazer ;)

Angela disse...

Que lindo o seu homenzinho de bem Rita... Me encheu de alegria. Beijocas para todos.

Rita disse...

Juliana, não é? Brigadinha, viu?

Ah, Clara, eu também dou a maior fingida de que sou indispensável e ainda digo "fique bem, filha" quando vou sair... (morri de rir com seu comentário)

Larissa, meu fofo!! :-)

Lilian, obrigada, querida. Pois é, o Arthurzinho já tem papo pra contar mesmo. Achei lindo porque foi absolutamente espontâneo ele nunca seria cobrado a comprar nada para a Amanda no dia do dente DELE. Sem condições, babo mesmo, tô nem aí. Bom saber que não estou sozinha, hahahaha. Bj!

Danielle, muito obrigada, linda. Mas vou te contar um segredo: o Ulisses é todo generoso assim, sabe. E os filhos vão na linha, grazadeus. Eu? Nada, na hora da fome hoje, devorei uma barra de cereal SOZINHA e nem ofereci a ele que estava DO MEU LADO!! Aff, tenho muito que aprende com o Arthur. :-)

Borboletilda, pórepetir, hohohoho... Bonitona, obrigada.

Anginha, seu afilhado tá indo bem, querida. Beijocas!

Tchau, pessoas.
Rita

disse...

Engraçado, pq a gente vai lendo o seu blog, conhecendo as crianças e se sentindo meio "tia", sabe? Com o maior orgulho dos sobrinhos qdo vc conta essas historias. Fofo demais o Arthur!

Rita disse...

Obrigada, Tia Dé. ;-)

 
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