Porta aberta


 
Blue

Ontem você veio e se instalou. E não importa o que eu faça, do que fale, o que leia, você está aqui comigo e não me deixa divagar muito. Ando falando de outras coisas, estrelas e tal, e a tudo você assiste impassível, espaçosa e quase tangível. Você não faz nada, só se manifesta, meio disforme, em minha mente. Você ocupa tudo e eu preciso falar de você. Preciso verbalizar isso para que você se torne mais perceptível para outras pessoas e, através da troca, eu possa moldar essa sensação, transformá-la em algo diferente de tristeza.

Então vou falar assim: lembro-me de que você colocou o pacote grande com a boneca no pé da minha cama na noite de Natal. Eu fingi surpresa no outro dia, mas eu vi a hora em que você entrou no quarto, eu ainda estava acordada. Achei bonito aquilo. Agora você também chega ao meu quarto à noite. Seria tão bom se fosse sua consciência, de alguma maneira. Seria tão bom se fosse mais que a minha saudade insistente. Eu não fingiria surpresa nenhuma. Eu diria assim: entre, fique aí.

***

Do que mantém a leveza:

Vira e mexe alguém sempre acaba falando que é preciso fechar a torneira ou apressar o banho porque a água do planeta um dia acaba. E aí:

- Vem, Amanda, vamos lavar as mãos.

Ela vem, repara que o sabonete líquido do recipiente está quase no fim e me avisa:

- Olha, mãe, vai acabar o sabonete do planeta.


5 comentários:

Blog disse...

Olá, Rita, boa noite. Esta é a primeira vez que passo por aqui e veja que coincidência: o post, na minha leitura, fala sobre as lembranças de um pai. Falo coincidência porque hoje, aos 28 anos, vivo a expectativa de finalmente conhecer o meu. Acabei de criar um blog para dividir um pouco essa experiência. Quando puderes passa por lá: www.blogdafilha.blogspot.com

Claudia Serey Guerrero disse...

lindo, me arrepiei!! linda sua Amanda que quer salvar o sabonete do planeta! ;) Beijinhos, Claudia

Borboletas nos Olhos disse...

Eu passo os dias agora recordando, sabe. E é engraçado porque uma coisa puxa outra e eu vou lembrando de coisas do outro avô e as avós e assim tem hora que eu tô rindo sozinha ou aos prantos, também só.
E, olha, a Amanda não fica atrás em fofura, viu? Ainda bem que água e sabonete podem (espero que não) acabar, mas o estoque de owwwnnnsss e ooohhhhssss, eu acho que não se esgota.
Beijocas

Anônimo disse...

São sempre lindas as recordações da sua mãe, e isso é tão bom, a saudade dela é acalentada por lindos momentos vividos.
Larissa

Rita disse...

Blog, na verdade falo de minha mãe, de quem me despedi em dezembro. Vou, sim, visitar seu blog. Obrigada pela visita e parabéns pelo grande encontro. :-)

Claudinha, obrigada. Economize o sabonete, tá. Bj.

Borboleta, meus prantos também sozinha, na maioria das vezes. Beijo grande, linda.

Larissa, obrigada. Ela faz tanta falta, né? Beijinho procê.

beijos, gente, e vamos economizar sabonete, hein.

Rita

 
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