Pequena divagação sobre os abismos


Uma terapeuta me falou que anda se assustando com o número de jovens que trata em seu consultório vítimas de ansiedade. De acordo com ela, atualmente há mais ansiosos que deprimidos por aí e isso estaria diretamente relacionado com a correria, a competição, as cobranças que impomos a nós mesmos todo santo dia. Penso sobre isso e acho que "é preciso" ser e ter tanta coisa nesse mundo que é mesmo um espanto que parte de nós ainda consiga controlar a tal ansiedade (na realidade, nós inventamos muitas de nossas necessidades, mas se acreditarmos que são necessidades...). 

Faço uma varredura rápida em minha mente e me lembro, sem qualquer esforço, de quase quinze pessoas (na esmagadora maioria, mulheres) que conheço e que já lidaram ou lidam com depressão ou ansiedade. É muita coisa. 

O que raios está acontecendo com o mundo? Por que tanta gente inteligente, com vida social e cultural ativa, perde as rédeas da ansiedade (certo grau de ansiedade é até bem normal e saudável, sim?), por que tanta gente é derrubada pela tristeza e desânimo profundos da depressão? E por que isso ocorre com tantas mulheres - ou minha amostra não é significativa? Não estou aqui, claro, procurando razões clínicas, pontuais, caso a caso. Estou me perguntando o porquê dessa aparente epidemia - aquela terapeuta me disse que é mesmo espantoso o número de jovens ansiosos em seu consultório, incapazes de tocar suas vidas porque têm medo, sem que saibam exatamente do quê.  

O que é isso? Que valores cultivamos que nos empurram para esses abismos? E quem está imune? 

9 comentários:

Tina Lopes disse...

Tá corrido aqui agora, mas vai meu pitaco: sempre foi assim, só que agora a ansiedade é reconhecida e tratada. Na minha infância as pessoas tinham crise de labirintite, enxaqueca, eram fracas dos nervos, bebiam pra firmar o pulso, fumavam pra relaxar e porque era chique, ou os dois pra dormir. As crianças eram enjoadas, não depressivas, os pais eram rigorosos ou estúpidos, nunca inseguros. Mais mulheres do que homens, claro. Mas era assim, de perto ninguém nunca foi normal e acho que viver sempre teve o peso do momento. Hoje se identifica a ansiedade, acho bom, desde que não se perca de vista quando a coisa for apenas labirintite, enxaqueca, desgosto. Besoca.

Juliana disse...

Como uma dessas mulheres que foi parar no consultório por causa da ansiedade, concordo com a Tina.

A gente tá vivendo num tempo em que as doenças " não palpáveis" são reconhecidas e diagnosticadas. E que bom que seja assim!

Minha vó tem há mais de 3o anos os mesmos sintomas que eu tive e não teve a sorte de esbarrar com um médico que levasse a sério os "seus chiliques". Nem ela própria consegue reconhecer que há algo de incontrolável e doentio no que sente.

Pra ser diagnosticada e receber tratamento, tive de dar um duro danado pra conseguir psicólogo com um preço que podia pagar e aturei muita crítica vinda da família mesmo. Eu queria entender como é que se pode achar que alguém que tem certeza de que está morrendo - sem estar- ou que para de viver por conta do medo está de " frescura".

( nem sei como ficou esse comentario , porque tô escrevendo na pressa - o trabalho tá me chamando aqui. Ignore os errinhoos, please!)

Beijinho

Angela disse...

Assim que li o comentario da Tina, lembrei da minha mae. Assim que li o comentario da Juliana, lembrei da minha irma. (por sinal, concordo com as duas)

Minha irma mais velha tem a sindrome do panico. Convivi com isso desde que eu era pequena, ha cerca de 25 anos atras. Ela de repente sentia que estava morrendo. Pulso aceleradissimo, respiracao faltando, pupilas pra la de dilatadas, panico. Mas nao estava, nenhuma vez. Como ela estava nos ultimos anos da escola e ja havia comecado a se envolver com serias atividades relacionadas a medicina (o que mais tarde cursou alem da odontologia), achavamos que as aulas estavam "impressionando" ela. Entre muitos ecocardiogramas e sessoes de terapia ela foi levando a vida, ate que um dia, apos uns dez anos, nossa mae (mae eh mae!) lendo a revistinha Saude aprendeu sobre a existencia da sindrome. Tinham acabado de por um nome no negocio. Ligou para a terapeuta e explicou o que havia lido. A terapeuta, e depois muitas outras, aprenderam sobre a sindrome. Ai veio pesquisas... tratamentos... internet... Adeus isolacao. Se hoje ela quiser, talvez possa ate ingressar em uma comunidade de quem tem a sindrome, e tomar um cafe com uma companheira/companheiro de batalha. Impressionada que nada, continua tratando de dentes, e quando o medico da equipe falta, costura maos estracalhadas. E minha mae, que eh so cuidados, no decorrer dos anos de vez em quando me lembrava: pra voce ver, na minha epoca se alguem tivesse isso, era tratado com "peia"!

Desculpa o comentario-post, mas me solidarizo muito com o assunto, e acho importante a divulgacao dessa sindrome e da vida que pode se ter mesmo com ela.

Agora, vou te falar, conheco tantos ou mais homens quanto mulheres deprimidos e/ou ansiosos. Talvez por que conviva bem mais com os primeiros, nao sei. Tratados/as tradicionalmente ou usando bebida, fumo, jogos, o diabo a quatro, como escape. Me considero uma sortuda por nao ter vocacao para deprimida, e muito muito muito menos mesmo para ansiosa. Aprendi que precisa de muito para por a velha abaixo... MAS, uma vez quase fui, e desde entao ganhei serio respeito pela Dona Depressao. No processo aprendi que tem gente que tem depressao cronica, desde novinhos, a vida toda, independente do que esteja acontecendo de bom ou de ruim. Me impressiono demais com as pessoas que convivem com isso. Sao, ao contrario do que nos eh visivel na superficie, mesmo uma fortaleza.

Tina Lopes disse...

Voltei um pouquinho porque é preciso ponderar, também, que por ter sido "descoberta", a ansiedade virou vilã da hora sendo que, como você diz, até um certo grau ela é saudável e normal. Daí momentos de crescimento, como estudar com mais afinco, enfrentar dificuldades familiares etc. são "resolvidos" com remédio. Aí não dá. Não sou a favor da medicação precoce, a não ser em casos extremos. É como a discussão sobre o uso de Ritalina (sempre penso em vc qd escuto esse nome, olha que injustiça) pra crianças hiperativas - em que momento se apaga um traço de personalidade ou se cura uma doença? Enfim, difícil.

Juliana disse...

Bom senso e discernimento sempre, né, tina!
Ao mesmo tempo que essas doenças vêm sendo tratadas com seriedade, tudo tb é motivo pra se tomar remédio. Aí, é como vc disse: em vez de se aprender a lidar com o medo,em vez de tentar enfrentar com maturidade o fracasso, vamos enfiar remédio goela abaixo.

No caso das crianças, é ainda pior, porque a escola do jeito que vem sendo há séculos é capaz de " enlouquecer " qualquer um, inclusive os professores.

Esse assunto é bom demais, hein ,rita! Pena que eu não possa ficar por aqui, tagarelando mais.
beijinho!

Caminhante disse...

Os psicanalistas comentam (não sei se todos, mas muitos deles que nem tinham relação uns com os outros) que a síndrome de ansiedade é a histeria do nosso século. Isso é dizer que ela sempre esteve por aí, de alguma forma.

Por outro lado, eu acho que vivemos uma pressão cada vez maior. Eu lembro que eu olhava aqueles programas sobre o Japão, falando da importância que é colocar a criança num bom pré-primário pra determinar que as escolas sejam cada vez melhores; aquilo parecia tão distante... Hoje eu vejo que a gente se encaminha pra esse modelo, onde você tem cada vez menos tempo pra ter dúvidas. Desde criança é importante aprender inglês, informática, boas notas no segundo grau. Já adultos, nos fins de semana, fazemos pós, aprendemos uma terceira língua, não podemos ficar para trás. Antigamente bastava um diploma. Agora não se pode parar nunca.

Rita disse...

Tina, Ângela, Ju, Caminhante,

eu me senti como se estivéssemos numa mesa conversando sem pressa, cada uma pitaqueando com suas experiêncis, seus "causos". :-) Gostei tanto dos comentários, todos relevantes e bem ricos - chega a ser uma pena mesmo que o post não tenha sido assim um post de verdade. Foi mais um pergunta jogada pra cima e que vocês transformaram numa papo muito rico. Obrigadíssima.

Às vezes acho mesmo que tudo sempre esteve por aí e, à medida que a ciência avança, vamos dando nomes aos bois. Por outro lado, também acho que nosso mundo megacompetitivo é um convite aos surtos mais variados, juntamente com as pressões impostas a muitas mulheres, ainda. A Ângela falou em proporção igual de homens e mulheres, mas eu gostaria de ver um levantamento estatístico sobre isso, viu, meninas. Suspeito que, apesar de muitos homens também enfrentarem os tais abismos, o número de mulheres com quadros de depressão e afins é bem maior. E, se eu estiver certa, gostaria muito de saber o porquê disso. Mas enfim, elocubrações...

Mais uma vez, obrigadíssima pela companhia ilustre e pelo papo bom.

Beijocas
Rita

Daniela disse...

Depressao? Presente.

È uma doença muito comum na minha profissao. Fui tomar posse e mais da metade das pessoas assinalaram SIM no quadradinho que perguntava se já tinhamos tido doenças emocionais e passamos por tratamento psiquiátrico. Sei que tem se tornado bastante comum em geral, mas igual professor nunca vi.

N fatores eu poderia listar e me dá muita pena não fazê-lo mas estou usando internet emprestada e saindo pra procurar apartamento...rs

Só quero dizer que concordo sim que acontece mais em mulheres e a Marta Suplicy no seu livro (da década de 80!!) "De Mariazinha a Maria" dá uma insinuada boa de porque esse tipo de doença atinge mais as mulheres.

Concordo também que sempre existiu, mas também é verdade que agora como nunca. Acho que se aliam os dois fatores: doenças emocionais são agora reconhecidas, deixaram de ser frescura. E também esse tempo em que vivemos é de muitíssima pressão.

Beijos, queridoca

Rita disse...

Oi, Dani, vizinha da Dilma. ;-) Tudo bem?

Eu não sabia desses índices altos em sua profissão. Concordo com você e acho que suas colocações fazem sentido: sempre houve, mas o mundo atual dá um empurrão básico. Também não sabia do livro da Marta (como você pode ver, não sei muita coisa). Mas sei que ando com saudades dos seus textos. Beijocas, viu.

Rita

 
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