Mosca morta



Não, não jogo tênis.

Hoje confirmei minha tese (facilmente contestável por quem quiser fazê-lo, tô só puxando assunto; na verdade, não há tese alguma) de que criar dois filhos é mais fácil que criar um só. Da hora em que acordaram de manhã até agora, início da noite, Arthur e Amanda brincaram o dia inteiro. É muito bom brincar com eles, mas também adoro vê-los brincar sozinhos, desenvolvendo seus códigos, suas normas, resolvendo pequenos conflitos, enfim, ensaiando, né. Gosto demais. Descontando-se os intervalos para almoço, lanches e banho, foram longas horas de espalhação no tapete e interação ininterrupta. É bem verdade que se eu tivesse um só filho ou uma só filha ninguém teria atirado o trinco da porta na cabeça do outro, mas esse foi o único percalço do dia - felizmente sem grandes consequências, já que "largou" é um verbo mais apropriado para descrever o que aconteceu do que "atirou" - e crianças que brincam sozinhas também se machucam (olha eu aí forçando para segurar a tese inexistente, perceberam?). Houve sermão, confisco de brinquedo e castigo.

(Durante o castigo do mais velho, presenciei uma cena daquelas que, aí sim, só mesmo com dois em casa: enquanto ele, proibido de brincar por alguns instantes, sentado para refletir sobre o que havia feito, etc., amargava aqueles momentos sem graça, toca o telefone. E fiquei ali pendurada com a amiga num papo bom, sentada estrategicamente próximo à porta do escritório, de modo que conseguisse ver o ambiente do castigo e os movimentos da outra. E eis que presencio uma cena de contrabando de brinquedos: esgueirando-se pelo corredor, de quatro como um gatinho, Amanda levava um livro e um quebra-cabeças para o irmão que estava impedido de circular. As risadas abafadas e as carinhas de espertice mereciam um filminho caseiro. Eu não deveria admitir assim em público, mas por alguns instantes fingi que não vi porque a cena tava fofa demais. Por isso que sociedade fica daquele jeito depois, né. Shame on me. Tudo bem, tudo bem, depois dei duro e acabei com a festa.)

Então, findo o castigo, bonde seguindo, voltemos à sala. Como estavam os dois entretidos, apesar do brinquedo confiscado, e o marido tinha saído em um passeio com minha sogra e familiares que estavam em visita por aqui, joguei-me no sofá para conversar com Catherine Heathcliff. Com a chuva despencando lá fora (que não chegou a melar o tal passeio do marido, pois estavam no outro lado da ilha) e o vento uivando pra valer (e enlouquecendo nosso cachorro), ler Wuthering Heights parecia a pedida ideal para minha tarde dominguenta. Perfeito, pensei. Mas aí veio a mosca.

Ó senhor, eu sou uma moça limpinha, não havia comida na sala, a casa estava toda fechada por causa da chuva, what the hell! A princípio tentei ignorar, dar uma abanada aqui outra ali quando fosse preciso, seguir com a leitura e a preguiça. Mas foi impossível manter a pretensa indiferença, porque aquela era uma mosca obstinada. Aliás, típica. Não tive alternativa senão fechar o livro após dois parágrafos, bufar, xingar baixinho por causa das crianças e sacar o supermatador elétrico em forma de raquete. E, olha, eu queria ter os reflexos de uma mosca, viu. Mas se o lance é ser obstinada, presente!, cá estou. Zup, zuup, zuuup, acertei, e deixei de ser a única mosca morta deste domingo, fritei a danada! Fri-tei, perdoem-me as defensoras e defensores da ideia de que não se deve matar nem mosca. Eu mato moscas. Preferia não matá-las, é verdade, se pudesse optar por nunca vê-las, mas se invadirem meu espaço, sorry. (Muitas vezes vou errar as raquetadas, mas desistir, jamais. Quer dizer, desistir, só de vez em quando, nos dias de pontaria ruim - a maioria deles.)

E pude enfim retomar meu livro, para, duas páginas depois... cochilar com ele despencado no nariz. A culpa foi das TV que as crianças ligaram e que me embalou, não do livro, claro está. Mas nem tudo estava perdido porque dois minutos depois meu cachorro enlouqueceu pra valer e me acordou de vez. Outra meia página vencida, marido voltou cheio de eficiência, deu banho nas crianças e nos mudamos para a cozinha para encher a barriga, falar mal das moscas, trocar informações sobre passeios e castigos, anoitecer juntos.

A noite já chegou mais cedo por causa da chuva e das nuvens negras, os pequenos baixaram um pouco a pilha, o sofá agora é do marido. O livro me espera, o calor me derrete e há vários assuntos me cantando para um post. Mas sentei aqui e antes que conseguisse escrever a primeira linha sobre um assunto sério, pensei que refletir demais hoje seria quase uma mancha nesse dia tão largado em que a maior aventura foi matar uma mosca.  Deixa assim.


5 comentários:

Angela disse...

A coincidencia hoje ficou por conta de voce e Max. Como te falei "esquentou" e fez sol hoje, abrimos as persianas todas e o solzao aqueceu uma mosca e uma joaninha que deveriam estavam hibernando por algum cantinho super secreto da casa hermeticamente fechada ha meses (geralmente entre as storm windows e as janelas em si, que Pete abriu hoje para consertar nao sei o que...). A primeira a aparecer foi a mosca. Max privado de brincar com besouros e insetos ha meses resolver capturar a pobre, que estava super lenta e acabou partida no meio (eu horrorizada). Ja a joaninha teve mais sorte e esta em um container enorme (da ate para ela voar!) com UMA folha seca, na qual o Max esta esperando ela por ovos... hhamn!
Ih dia bom esse nosso ;)

Amanda disse...

Com certeza duas crianças são melhores do que uma! Endosso sua teoria! Tomo conta de duas crianças de 3 e 4 anos até 17h30 da tarde. Nessa hora os pais de uma das crianças chegam e eu fico sozinha com a outra até 19h30. São as duas horas mais longas do meu dia, pq ela quer brincar comigo de escolinha o tempo todo! Quando estão os dois juntos eles correm, dão risada, brincam, esquecem que estou ali. Tão mais simples!!

Tata disse...

nem te digo q ando precisada de um diazinho assim... meu dia de mosca morta. ;-)

Borboletas nos Olhos disse...

Baby, vim aqui. Não li, confesso, com a necessária atenção pra fazer um comentário adequado. Apenas vim até a beira da Estrada, ver a vida passar e sentir-me viajante. Porque, sabia eu e confirmou-se, setir-me-ia melhor. Um beijo agradecido pelo seu carinho

Rita disse...

Oi, pessoas.

Ah, Anginha, nunca vou me esquecer do contrabando de brinquedos, coisa mais absurda de linda. :-)
Ei, mantenha-me informada do destindo da joaninha,tá? Fiquei curiosíssima.

Amanda, eu gosto de brincar, mas gosto muito de ver os dois no mundinho deles também. A viagem vai longe e se a gente estiver por perto fazendo alguma coisa, sempre dar para pescar um ou outra frase hilária... hehe. E, claro, não há adulto que tenha o pique deles para tanta brincadeira, então é tudo de bom ter mais de uma criança por isso também. Bj.

Tata, qualquer hora em que as três pimentas estiverem mergulhadas no mundo delas, você se joga no sofá também. :-)

Borboleta, se eu soubesse uma palavrinha boa para te dizer hoje, juro que ela estaria aqui agora. Só mando força, tá? Beijoquinhas.

Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }