Grey hair


Quando eu estiver bem velhinha, se aos pouquinhos eu chegar lá, vou querer café quentinho, livro bom e um laptop. Uma casa com quadros e sala clara; um mato verdinho que eu veja da janela - pode ser pouco, mas precisa ser estrategicamente visível da janela, porque às vezes a ilusão já basta e me poupa de mudar pro campo. Um gato adulto, porque dos filhotes não vou conseguir dar conta, que se esgueire pela casa e me lembre daquele tempo em que eu não sabia inglês e chamava meu gato de Puppy. Fotos pela casa, telefone sempre à mão. Água morna na torneira para lavar minha caneca de chá de maçã e uma orquídea na mesa - precisa ser orquídea porque me esqueço de regar e ela vive bem com pouco. Objetos com marcas do que hoje chamo de tempo presente para que eu nunca me esqueça de que um dia tive crianças pela casa, além dos copos da minha mãe, para que eu nunca me esqueça de minha própria infância. No meu quarto quero uma TV e muitos filmes para eu adormecer no meio deles e depois precisar assistir a tudo outra vez.

Não vou querer despertador, acho que não vou ter pressa.

Quando eu estiver bem velhinha, vou querer saber apreciar minhas rugas e nelas ler meus tropeços, minhas vitórias, minhas risadas, minhas dores mais profundas. Meu tapete de yoga para eu alongar o que conseguir ou simplesmente para fechar meus olhos e me concentrar nas outras rugas, as do coração, da consciência. Quando eu estiver bem velhinha, vou me lembrar de coisas antigas e repeti-las a quem quiser me ouvir, muitas vezes, e espero que minha risada seja cheia de saudade, mas risada de verdade. Acho que vou gostar dos casaquinhos. E vou falar assim para os filhos, se eles vierem visitar: sua avó também usava.

Quando eu estiver velhinha, quero olhar em volta e achar que tá bom assim. E vou ver que você está ali ao lado e que ainda conserva esse olhar de homem bom, que sua alegria permanece porque vem do que você é e que a convivência só nos aproximou mais. E mesmo que a gente já tenha entendido que a dor faz parte da vida, quando eu estiver bem velhinha vou saber, já por muito tempo, que encontrar você me fez feliz para sempre, de um feliz verdadeiro que une as mãos na chuva, seja atravessando tempestades, seja dançando molhados na rua.

8 comentários:

Amanda disse...

Ai Rita, que lindo! Esse final com o velhinho do lado foi tão emocioante! Depois vc ainda tenta convencer a gente de que não é essa pessoa meiga e doce 24h por dia... Desse jeito a gente não acredita!

Pri Sganzerla disse...

Como não chorar lendo isso? Que texto mais lindo! Também acredito nessas coisas, também quero envelhecer com essa sensação... Apenas trocaria seus detalhes pelos da minha própria história porque, né, cada um tem orgulho do caminho que trilha. Que seus desejos se realizem - porque é nítido seu empenho em caminhar na direção deles. :-) Bjos!

Patricia Scarpin disse...

É tanto amor nesse texto que espirrou até um pouquinho aqui. Rita, querida, vc é demais.

Odisseus is lucky to have you.

xx

Borboletas nos Olhos disse...

Uma vez tentei escrever sobre como acho lindo, doce e necessário envelhecer. Devia ter esperado você escrever esse post e dado um belo ctrl+C...
Quando estou com o coração apertado demais, venho aqui e os nós se transmudam em lágrima ou riso. Quando o coração tá solto demais, venho aqui e recordo que existem rumos. Ou seja, essa estrada já faz parte do meu caminho. Ai, que brega! Borboleta, lado B (mas muito sincero). Bjs

Anônimo disse...

Q lindo, Rita. Eu q já considerava minha tarde de sexta perdida pra qquer coisa além do ordinário, me emocionei.
Adoro esse blog! É como um cafuné...

Ju Paiva

Anônimo disse...

Oi, Rita!!!

Hoje à noite, plantão. Eu sem exames, dando olhada na internet. E aí, SURPRESA!!! Puxa, certamente gostei do texto! Mas sou suspeitíssima para falar, afinal, lembrei na hora do "SIMPLES IDADE"...

"Se um dia eu ficar bem velhinha, eu queria olhar para trás e ver que deixei mais sorrisos que lágrimas naqueles que passaram por mim. Eu queria ter memória para lembrar das canções que quisesse cantar e, se não fosse pedir muito, que minha voz não vacilasse muito, para que elas ainda soassem bonitas a quem desejasse escutar... Voz vacilante eu só queria ter nas horas em que eu me emocionasse demais, porque eu também não queria deixar de me emocionar...

Se um dia eu ficar bem velhinha, eu sei que minha pele estará bem mais seca, com rugas por todos os lados. Na pele não tem tanto problema, porque eu não queria ser uma velhinha totalmente esticada. “Plastificada”. O que eu não queria era ter muitas rugas e secura na alma, porque assim ela iria parecer um deserto. E minha esperança é que, se um dia eu ficar bem velhinha, minha alma seja como um rio: de águas doces, profundas, transparentes e cheias de peixinhos coloridos..."

Que legal, pois foi justamente este o texto que a crítica literária comentou no jornal...

Agora não vai ter jeito: depois disso vc vai ter que botar uma foto do "Histórias de 'Mulherzinha'" no seu blog... EEEEEEEEEEEE!!!...


Fica na paz, cunhada! Bjus pra vc e para as crianças (grandes e pequenas) da casa e até breve!...

Lílian.
P.s. aproveite e diga que os livrinhor estão lá, na Catarinense...rs... MAIS BJUS!!!

Rogério disse...

Eu sou bem mais velho que você, mas nunca parei para me imaginar bem velhinho e o que gostaria de ter/ver/sentir nessa fase. Mas uma coisa bateu comigo: de vez em quando fico abraçadinho com minha esposa e, juntos, exercitamos a imaginação sobre como seremos, bem velhinhos (sim, nosso casamento também é para sempre).

Rita disse...

Posso falar uma coisa pra vocês? Este post me rendeu tantos comentários docinhos lá no twitter (além de vocês aqui), que minha sexta-feira ficou bem facinha. :-)

Amanda, sua meiga. :-D

Pri, muuuito obrigada. É por aí: fill in the gaps, preencha os espaços com seus próprios planos e vumbora! Bj!

Patricia, believe me, I'm the lucky one.

Borboleta, e eu que não posso mais ver vermelho que me lembro de você, hein? O que me diz, sua rubra?? Bj.

Juuuuuuuuuu, blog cafuné é a coisa MAIS LINDA desse mundo, adoreeeeiii!!! Thanks de montão! Bj..

Lilian, seu livro vou lendo aos pouquinhos, pegando carona na leitura do Ulisses, torcendo que ele suma logo das livrarias e que outras pessoas o conheçam (afe, é muito chique ter cunhada escritora). Em breve na disputadíssima lateral do blog, hohoho (#not para "disputadíssima"). Bj!

Rogério, sabe o que é engraçado: é quase um clichê, mas é um clichê delicioso. Olhar pra frente e saber que o que mais queremos ter se chegarmos lá é aquele/a que já está conosco agora... bom, muito bom. Parabéns pelo seu 'pra sempre', vida longa à caminhada de vocês. Abç!

Valeu pessoas doces.

Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }