Estrada tão bonita

 

Eu caio muito, sou bem desengonçada. Tropeço na escada e bato nas quinas dos móveis todos os dias. Tenho manchas pelas pernas regularmente e até me espanto quando não tenho nenhuma, fico procurando, deve estar ali em algum lugar. Sendo um pouco mais generosa comigo mesma, vejo que nem tenho caído tanto assim ultimamente, com exceção da aula de yoga na segunda-feira passada em que praticamente não consegui me manter em pé. Nota mental: deixar o mundo do lado de fora da sala de yoga.
 
Mas é fato que coleciono algumas quedinhas memoráveis. Já mergulhei loja adentro e não foi bonito. Já despenquei na escada da escola, na quarta série, e acho que meus coleguinhas riem até hoje. Já caí na rua, correndo para pegar ônibus e vi todos os livros que carregava esparramados e pisoteados pela calçada. Já caí no supermercado e quase levei uma criança junto comigo - a criança e a mãe riram tanto que me contagiaram e nos divertimos muito às custas dos meus joelhos. Caí de novo, outro dia, no mesmo supermercado, mas sem levar ninguém ao chão, estou melhorando.

Mas há dias em que caio por dentro. E fico sentada olhando ao redor. Não há gelinho que alivie.

***

Tive o segundo sonho com minha mãe. Mas ela não falou comigo. Estava frágil, doente e eu a carregava no colo, como se ela fosse um bebê. Ela era muito pequena no sonho, como se as coisas estivessem distorcidas e eu fosse muito grande, tal qual um avatar do filme. Tudo era grande, exceto ela. Acordei e vi que tudo é grande, só eu sou pequena.

***

Vi Bravura Indômita e há uma cena no filme em que o céu aparece completamente estrelado, daquele jeito que só somos capazes de ver se estivermos bem afastados das luzes da cidade. Foi só ver aquele cenário e, apesar de estar chorando e torcendo, lembrei-me imediatamente da primeira vez em que vi o céu assim. Foi há muitos anos, eu namorava Odisseus, minha vida já era dele e nós estávamos indo para a Serra do Cipó, no interior de Minas Gerais. A noite caiu quando seguíamos por uma estrada de chão, longe de tudo. Longe. Era meu conceito de felicidade naquela época: eu e ele, longe de tudo. Lá íamos nós; e depois de seguir mais um pouco e mergulhar no breu, Odisseus percebeu a belezura acima de nossas cabeças, parou o carro e apagou os faróis por alguns instantes. E foi a primeira vez em que a expressão Via Láctea fez inteiro sentido para mim, porque pude ver a via. Láctea, sim. Fotografei com meus olhos e guardei em minha cabeça a imagem daquele caminho de estrelas que fica sobre as nossas cabeças e que quase nunca vemos. Não vemos a coisa mais linda do mundo apesar de ela estar ali em cima porque nossas noites não são mais escuras. E eu penso nisso como uma alegoria para muitas outras coisas. Não é raro ofuscarmos algumas belezas porque acendemos um montão de outras luzes. E é meio inevitável, talvez. Mas seria bom, muito bom, dar um jeitinho de ver a Via de vez em quando. É inesquecível e muda um pouco a perspectiva. De vez em quando é bom apagar a luz.

(E há quem discorde, mas eu acho que o Jeff Bridges tá ótimo.)

12 comentários:

Anônimo disse...

Lindo post Rita! Vou me reportar a parte mais engraçada do post. Acontece que eu sou super desastrada e acho que a queda mais ridícula e perigosa que sofri foi atravessando a rua, cai na faixa de pedestres, jogando os livros pela rua bem na hora que o sinal ia abrir.
Larissa

Angela disse...

Um sonho triste, abafado, mas lindo. Os papeis revertidos. No sonho, simbolicamente porem ao meu ver aconteceu um tanto na realidade. Quando voce me contou do dia em que ela foi levada ao tratamento intensivo, que Jr estava no quarto dela e observou algo incomum enquanto ela dormia... pensei nos bebes de D Bernadete, crescidos e la de ladinho dela, de olho enquanto dormia, que nem um dia ela fez enquanto voces dormiam: Observando, checando, prestando atencao se estavam bem. A sensacao dos papeis invertidos encheu minha mente aquela noite. Imaginei meu Max e minha Julia, um dia tendo tais cuidados cruciais comigo ou com o pai. Quando li o relato do seu sonho, foi disso que lembrei. Somos muito pequenas mesmo amiga. Mas mesmo assim, as vezes, conseguimos mover umas montanhas. Beijao.

disse...

Dei risada do teu post pq sou a rainha dos roxos. Tenho sempre um e o ultimo foi justamente ontem, quando me embananei toda com a catraca da empresa... mas cair no chao, nao caio nao, hehe...

Dica de filme anotada! Em abril minha sogra vem passar uns dias conosco e eu e maridao vamos fazer o festival do cinema! :)

Borboletas nos Olhos disse...

Baby, sorry, mas no quesito desastre ambulante você ainda tem muito que aprender. Olha, você já matou uma mosca com aquela raquete...eu até agora só acertei na minha dignidade e na minha própria testa, tá? E eu acho que ser tão grande e necessária no sonho é que nos dá a sensação de pequenez ao acordar porque, olha, a gente não consegue. No velório do meu avô vi que se precisava que eu fosse adulta e responsável como eu não sei se poderei ser algum dia.
E eu gosto do Jeff Bridges e a-do-ro faroestes. Mas estou resistente porque vi o original e ai ai ai que filme bom. Gosto muito, muito do John Wayne. Só pra finalizar, putz, que definição de felicidade fofa, porque você a sabe transitória.
Ficou imenso, mas você disse que eu podia repetir ;)

Tina Lopes disse...

Meu apelido na 5ª série era Azarão, sem mais. Ou ainda: numa consulta, uma ginecologista perguntou se eu apanhava do marido porque ela nunca tinha visto pernas com tantos roxos (queria denunciar o E!). That's me.
Quanto a sonhos, ai, tenho medo deles, os meus são sempre péssimos.
E a Via Láctea é um alento.

Mari Biddle disse...

Eu caia tanto quando era criança que minha mãe me dava um remédio do frasção rosa que dizia, era para fortalecer os ossos e eu parar de descambar por aí. Acho que funcionou. Na fase adulta eu só desmaio em todas as férias passadas na praia. Todas.

O céu estrelado do cerrado baiano. Inesquecivel.

Desejo sonhos bons e reconfortantes.

Beijocas.

Borboletas nos Olhos disse...

Sabe, vou começar a desenvolver uma tese positivista, só não sei qual..tipo, se A então B. Se você lê o blog da Rita e é fofa (afinal temos que ser modernos e multicausais), então você é um risco ambulante? desmaios, autoagressões, esbarrões e quedas...

Rita disse...

Oi, pessoas.

Larissa, precisamos ficar bem atentas quando sairmos as duas juntas na rua. Bem atentas. Bj.

Oi, Anginha ANIVERSARIANTE, tudo bem? O sonho certamente recupera um pouco do que foram os últimos dias de minha mãe, sim. Também a própria preparação para o funeral, como vi depois... Enfim, tô esperando o bate-papo que ainda não rolou. :-) Bj.

Dé, o lugar onde mais esbarro é a mesa do meu trabalho. Preciso dar a volta para chegar à impressora e de cada 10 vezes que me levanto, pelo menos 5 me carimbam. Bj.

Borboleta, ainda não vi o original - eu nem sabia que era um remake, shame on me - mas fiquei com bastante vontade de vê-lo. E agora, com sua recomendação, mais ainda. Beijocas.

Tina, eu me lembrei, enquanto escrevia, de ter lido em seu blog um post sobre algum momento de sua infância, você no quintal ou no telhado (??) olhando as constelações... vou lá procurar isso de novo porque me lembro que gostei demais. Beijinhos.

Mari, oi, menina. Bom saber que você parou de cair. E que papo é esse de desmaiar na praia. Fica na sombra, menina. :-) Beijocas!

(Borboleta, você viu? Que tanta gente desengonçada nesse mundo?)

Beijos, pessoas, cuidem-se.

Rita

Joana Faria disse...

O céu do Capão, região na Chapada Diamantina, na Bahia é assim: encantado, como você descreveu. Eu vi quando era criança e depois nunca mais vi igual. Estranho, né? Parece que eu só o vi o céu de verdade uma vez.

Obrigada pelo seu comentário lá no blog, Rita! Aquelas ilustrações são maravilhosas mesmo, não são? Queria eu conseguir chegar aquele nível... O livrinho está indo, devagar mas indo. Quando eu tiver desenhos prontos, começo a postar.

Beijo grande, querida. E muito amor pra você.

ps: Jeff Bridges rocks! :)

Tina Lopes disse...

Eu só quero deixar bem claro que não sou fofa! E o link: http://pergunteaopixel.blogspot.com/2010/12/ora-direis-ouvir-estrelas.html

Rita disse...

Oi, Joana. É bem essa sensação, né: o céu de verdade, hehehe. Mas ontem havia um lua linda por aqui, pelo menos. :-) Beijo!

Tina, voltei lá, sua fofa. Bj.

Rita

Pousadas Serra do Cipó disse...

Lindo post Rita!

 
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