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As mochilas novas das crianças, Arthur levando tombo das ondas na praia, Amanda engolindo água salgada e se apaixonando pelo mar, o suco novo que virou moda aqui em casa - qualquer coisinha seria assunto para nossos telefonemas. Ao invés disso, sigo aos sustos, segurando a frase que quase me escapa: "vou contar a mamãe".

***

Acordei com um forte barulho no meio da noite. Não era nada, talvez uma porta tenha batido ou um carro passando pela rua, sei lá. Voltei a dormir. Quando algo assim acontece, encaro como uma segunda chance para que o sonho venha: tento me concentrar antes de adormecer para ver se sonho com ela. Ainda não consegui. Vinte e seis dias e ainda não sonhei com ela.

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Escrever me faz bem. São posts para mim mesma, no fundo. Agradeço a companhia - que adoro - mesmo assim. Vocês nunca foram tão bem-vindos aqui, cada comentário é como um abraço, mais um e mais um. Mas não reparem na falta de assunto. Não é depressão, mas passa por ali, por aquela região árida onde as futilidades parecem pó e projetos de vida soam nonsense. Eu consigo ler, tenho dado uma olhada aqui e ali, visto filmes e hoje fui à praia com Ulisses e as crianças. Mas o mundo é essa bola enorme pairando em um universo alheio a nossas perdas; e nós somos esses seres estranhos que, por alguma razão, acreditamos saber das coisas. Tadinhos de nós. Também não é amargura - sinto tanto amor, vocês nem acreditariam. Mas hoje olhei para o mar e ele me pareceu diferente, menor. O mar me pareceu menor. Imaginem.

Mas sigo, ainda que devagar. Arthur e Amanda correndo na praia eram como uma mão enorme me puxando pra frente. Quero acreditar que não poder contar pra ela vai doer menos. Que vai doer um pouquinho menos.

6 comentários:

Jux disse...

os sonhos virão, querida... no bálsamo certo e sereno... abraço-te sempre em sonhos, ainda que a realidade não mais venha a permitir tal ousadia... mas ainda assim abraço-te...

Borboletas nos Olhos disse...

Poxa, Rita, sabe que meu mar também fica miudinho? Eu achava que só eu sentia assim, tantos narram tudo ficando tão grande quando há saudade, angústia e/ou perda...eu não, parece que o mundo vira bila. Desencanta, talvez. Você conhece a canção A Estrada e o Violeiro? (acho que já linkei pra você, né). A estrada não tem pressa. Nem quem frequenta esta aqui, tão especial. Beijos, com o carinho e a amizade que você já sabe.

Fabi disse...

Rita, não repare a falta do que dizer pra te confortar. Leio cada post mais de uma vez e tudo que enxergo é amor. Tristeza também, mas um amor tão intenso, que não sei se vou sentir algo assim na vida. E isso não é um lamento: me faz bem saber que tudo anda tão errado no mundo, mas que ainda existe tanto amor.

Rita disse...

Jux, essa noite cheguei a sonhar que encontrava uma amiga que há muito não vejo e eu contava a ela que mamãe tinha ido embora. Ela ficava impressionada e tal... mas nada de sonhar com ela, como pode? Aguardo...

Luciana, eu estou pra te dizer que li no meu reader uma menção linda que você fez em seu blog.. li há alguns dias já e peço desculpas por não ter comentado. Nunca vou conseguir retribuir tanto carinho, estou endividada por muito tempo com muita gente... você é uma dessas pessoas. Um beijo grande pra você.

Fabi, querida, não se preocupe. Sinto muito carinho vindo das pessoas que passam por aqui, agradeço muito seus pensamentos bons. Existe muito amor, sim; muita saudade e um vazio enorme, uma vontade maior que eu de ligar pra ela, conversar, contar coisas. Beijo grande pra você.

Obrigada, gente.
Rita

Mônica Suñer disse...

Rita, pense no quanto você já disse à ela, no quanto realmente ela quis te ouvir e agradeça. Minha mãe é viva, mas nunca quis de verdade, saber o que eu pensava, o que queria ou como me sentia. Não realmente, não como faço com minhas filhas e como uma mãe deve ser. É uma pena. Não posso dizer que entendo como se sente, pois não seria verdade, já que nunca tive minha mãe como amiga, muito menos como companheira de jornada. A trato bem, somos cordiais, mas o vazio não preenchido, a ausência de uma mãe apesar de presente fisicamente não se apagam. Fique feliz, agraciada por tantas coisas boas que tem em sua memória para alimentar sua alma, mesmo estando sua mãe em outro plano. Bjs, fique bem.

Rita disse...

Mônica, não sei direito o que dizer em relação a sua mãe. Relações familiares são complicadas às vezes, eu mesma tive algo muito difícil com meu pai. Tento não idealizar nada, sabe. Família é assim mesmo, às vezes nos identificamos muito, às vezes não. Somos humanos, normal. Minha relação com minha mãe era especial por ser baseada em muito amor mesmo. Torço para que você consiga tocar suas relações familiares da melhor forma possível. Beijo,
Rita

 
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