Se Eu Fechar os Olhos Agora

Rita, você gostou do livro Se Eu Fechar os Olhos Agora, do Edney Silvestre? Ah, gostei, mas não amei, sabe como é? Sei. Por que será, hein? Acho que foi por causa das mulheres. Como assim? Ah, as mulheres no livro, reparou? Ou tá morta ou tá muda. Nenhuma define seu destino, toma as rédeas de nada. Todas exploradas, abusadas. Ou simplesmente caladas, o que não é pouco. É verdade. Mas o livro é bom. Né? Ah, sei lá. A história é boa. Mas não tem nada demais, também. Uma trama policial sem muitas camadas, sem grandes reviravoltas, mas bem costuradinha, isso é. A forma como a história é contada vale mais do que a história em si; nesse livro, quero dizer. É, acho que você tem razão. Pois é. E os homens, hein? Nossa Senhora! Tirando os meninos, tudo um horror. Pois, é, que coisa... Você acha que o livro queria só explicitar um discurso machista, mas, no fundo, criticá-lo, ou o livro em si é machista? Ah, eu acho que se o autor quisesse problematizar a coisa teria de ir bem mais longe e dar outras camadas às personagens femininas, porque do jeito que ficou, é complicado... até nos momentos mais ternos do livro as mulheres são descritas como objetos sexuais! Reparou? Reparei. Bom, eu terminei de ler com a sensação de que o autor idolatra o tal "universo masculino" (o que é isso? ah, sei lá, na falta de termo melhor. hum) e enxerga o mundo como algo totalmente dominado por eles, onde nós somos coadjuvantes e brinquedinhos para quando eles estão entediados. Serááá? Ah, eu achei, você não achou, não? Hum, é, pensando bem, ficou complicado. Tem uma freira, uma mãe intocada de quem não se fala, uma prostituta, uma assassinada e várias mulheres abusadas... é, complicado. Mas os homens também não são todos heróis, né? Não, de jeito nenhum; mas, para o bem, ou para o mal, dão as cartas durante praticamente toda a história. Pois é. Mas isso em si não quer dizer que a história tem um discurso machista, ora. Há grandes livros todos envoltos no tal "universo masculino" e nem por isso... Ah pois é, mas aí é que tá: grandes livros, com outros trunfos, outras riquezas. Hum, é. E o problema está no tratamento dado à voz das mulheres, né. É. Pode-se escrever um livro sobre a exploração da mulher sem se perpetuar o discurso machista, ora. Claro. Não é o caso, vamos combinar... Não, não é, não. Bom, mas valeu a leitura, né? Claro, sempre vale. Agora sei do que se trata, sei de que livro falaram tanto na época do Jabuti, lembra? Ah, é, todo mundo discutindo, dizendo que era melhor que o do Chico, mas que o Chico ganhou porque era o Chico. Pois é. Agora posso dizer que prefiro o do Chico, mesmo não achando lá grandes coisas também - mas é bem poético, hum, bem bom. É. Mas esse é bom também. É, legalzinho. O final é bem bonitinho. Verdade, bem docinho, né. É, isso, bem docinho. Beleza. E agora, vai ler o quê? Hum, uns contos do Poe. Hoje é noite de lua cheia, mas as nuvens estão bem carregadas, mal dá pra ver o céu: bem no clima. Boa leitura, então. Valeu.

"Uma mulher, aquele ser quase abstrato, formado pelas imagens de suas mães, estátuas da Virgem Maria, sorrisos prometedores de atrizes de cinema e traços imprecisos de desenhos de revistas eróticas..." (A frase descreve o que passa pela cabeça dos meninos protagonistas, mas também serve para definir de forma quase precisa o "universo feminino" - na falta de termo melhor - em Se Eu Fechar os Olhos Agora.)


9 comentários:

Rogério disse...

Tá bom, você me convenceu: não vou perder meu tempo com esse livro. Nas entrelinhas você disse que é chato, um tanto piegas, pega o machismo - mas só o machismo - de Homero, Horácio e outros menos votados, enfim, um porre.
Faz muitos anos que não leio nada do Poe. Acho que tá na hora.

Liliane Gusmao disse...

ai Rita,
Que desanimo esse livro... como foi que vc fez para chegar no final?

Angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Hhhmm quando voltar a ler um dia, esse ai nao vai estar na lista.

Mas preciso te contar que quando li o trechinho, ele me causou um impacto reverso. A vi como um snapshot do "universo masculino", mais especificamente o dos homens que se revelam fracos diante das mulheres, tao embriagados que nao conseguem ver a complexidade do ser. E principalmente que nao conseguem nem ser racionais, fazem qualquer coisa. Quando me deparo com alguns na vida real, me da um pouco de pena do coitado.

A tempo: como li o trechinho fora do contexto do livro, imagino que se tivesse o lido encaixado com o resto do livro provavelmente teria sido outra historia.

Beijos e saudades.

Borboletas nos Olhos disse...

Não gostei nadica de nada deste livro. E, pra ser bem honesta, gostei mais deste papo imaginário que você escreveu que da linearidade do livro. Não gostei quando li e fui desgostando em progressão geométrica toda vez que lia uma comparação com o do Chico. Mas, né, eu assumo, sou tendenciosa. Amigo meu não tem defeito, tem característica peculiar. E Chico Buarque é que nem a bailarina que ele descreveu, nem chulé tem. No mais, já pensou em ser crítica literária? Bjs

Deise Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deise Luz disse...

haha

Rita, adorei esse jeito seu de fazer a crítica do livro. Reproduziu fielmente o meu sentimento quando me perguntam sobre determinado livro ou filme e só o que eu consigo dizer é um: "É..."

Rita disse...

Boa noite, pessoas. Posso voltar aqui depois para trocar ideias sobre o livro? Adorei os comentários, prometo respondê-los depois. Dia longo, sorry...

Abraços,
Rita

Rita disse...

Voltei.

Rogério, estou lendo um conto chamado Manuscrito Encontrado Numa Garrafa. E aí a gente vê por que o cara é considerado mestre. As descrições são óóótimas... Abraço.

Liliane, eu até que segui sem problemas. Mas após terminar fiquei com aquela sensação esquisita... putz, há algo errado com esse livro... e quanto mais penso, menos gosto, hehehe. Doido, né? Bj.

Anginha, é, dentro do contexto do livro, a coisa não se desenvolve: fica ali mesmo, repetindo, reforçando e registrando o mundo claramente dividido entre os que fazem e as que enfeitam ou se submetem. :-/ Beijocas

Borboleta, bem se vê que você é megatendenciosa: crítica, eu? Ai, querida, não ofendamos quem sabe do babado... ;-) Thanks, anyway.

Deise, eu tive certa dificuldade de transcrever minhas impressões e comecei o texto como quem exercita mesmo. Ficou. Bom que gostou. Bj!

Beijocas
Rita

 
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