Pequenos leitores


Arthuuur, o almoço tá na mesa!

Meu filho aprendeu a ler com quatro anos e meio. Começou devagar, lendo palavras mais fáceis, juntando sílabas mais óbvias, deduzindo, adivinhando, associando. Ninguém parou para ensiná-lo, mas a avalanche de estímulos - contação de histórias na hora de dormir, letrinhas de brinquedo, exposição de palavras na escolinha, além de outras várias interações com palavras de todo tipo em rótulos, brinquedos, TV, etc. - unida à curiosidade aguçada típica da idade nem me deixaram ficar surpresa; parecia inevitável, ele mostrava sinais de que logo ficaria íntimo daquilo.

A coisa foi evoluindo a seu tempo, observávamos à distância, respondíamos às suas dúvidas e logo o Arthur passou a ler frases, pequenos parágrafos em livros infantis, mais e mais frases por aí. Hoje está com cinco anos e oito meses e há alguns meses tornou-se o que eu considero um leitor fluente (levando-se em conta a idade dele). Lê com desembaraço palavras de estrutura mais complexa, conta historinhas para a irmã (coisa-mais-linda-do-mundo), dá entonação adequada à maioria das frases, devora gibis, lê e entende regras de joguinhos, lê tudo que cai em sua mão e que tenha apelo visual conivente com sua cabecinha de idade delícia. Se isso é bom ou ruim, não sei, porque sou do tempo em que atingíamos esse nível de desembaraço lá pelos sete anos de idade e admito que ando um pouco apreensiva.

Em fevereiro Arthur ingressará no 1º ano, que agora corresponde à alfabetização, e junto com sua turma iniciará a "descoberta" da leitura. Fico me perguntando como será esse processo para ele, que já lê com fluência e rejeita um ou outro passatempo que classifica como “fácil demais, coisas da Amanda”. Sei que outra criança do grupo também lê e torço para que permaneça na turma, mas nem sei se isso fará diferença. Vários amigos do Arthur estão em níveis diferentes no que se refere à relação com a leitura e acho que tanto o Arthur quanto seus amigos estão em níveis adequados de desenvolvimento cognitivo para a idade deles, mais ou menos como quando caminharam ou falaram em tempos diferentes, uns engatinhando aos nove meses enquanto outros já davam os primeiros passos, ou falando com desembaraço enquanto outros, na mesma idade, mal balbuciavam sílabas - e hoje, todos interagem em harmonia. Acredito que daqui a alguns meses todos estarão em pé de igualdade no que se refere à leitura, mas meu receio é que, antes disso, o Arthur se sinta entediado diante de tarefas que lhe pareçam simples demais.

Folheando o livro novo, há alguns dias, meu pititico já ficou todo ouriçado para experimentar o traçado das letras cursivas e, brincando em casa, escreveu algumas palavras. Mas não sei se devo estimular isso agora, sob pena de, quando realmente chegar a hora de fazê-lo na escola, ela venha a se sentir desestimulado e se torne um aluno desatento. Mas também não sei se devo ignorar o fato de que ele demonstra interesse genuíno pela coisa, uai.

Talvez eu esteja viajando na maionese (ou talvez não esteja bem informada quanto à relação com a leitura por parte de outros coleguinhas seus), mas tanto o pediatra quanto minha terapeuta consideram meio precoce todo esse desembaraço - o pediatra chegou a perguntar como andava o relacionamento social com as demais crianças da turma, mas o Arthur não apresenta qualquer problema em relação a isso (salvo eventuais conflitos normais da fase). Se é precoce ou não, não sei, não tenho parâmetro, ele é meu filho mais velho, mas é fato que o mundo anda meio maluco e tenho a impressão de que as crianças se desenvolvem cada vez mais cedo. Daqui a pouco esse povo já nasce com livro na mão e dente permanente.

Desconfio um pouco desses saltos muito rápidos. Já me explicaram certa vez que o desenvolvimento de certas áreas do cérebro importantes na noção de lateralidade se completa ali por volta dos seis, sete anos, e que é isso que, em certa medida, vai permitir a aquisição da leitura e da escrita com naturalidade (desde que os estímulos existam), e que por isso não faz muito sentido esperar que crianças leiam antes disso. Mas o fato é que ninguém esperou nada do Arthur, o processo foi inteiramente seu e no ritmo dele; para o Arthur, ler é  uma brincadeira a mais. Na verdade, o maior salto de qualidade em sua leitura, se bem observei, deu-se nas férias, quando ele estava mais relaxado e passando mais tempo com a gente. Ele simplesmente gosta do troço.

Bom, não somos robôs e as variações no desenvolvimento infantil podem ser imensas em um pequeno grupo de crianças. Mas aguardo com certa expectativa a primeira reunião escolar do ano porque quero me certificar de que a escola saberá lidar com os alunos que já conseguem ler antes mesmo do processo formal de alfabetização ter se iniciado. Enquanto isso, torço para que vocês venham aqui trocar ideias e dar pitacos, sejam ou não mamães.

E, sim, sim, sim, morro de babar com meu pequeno. Que mais posso fazer diante dele, quando corre os dedinhos sobre o índice do "grande e pesado" livro de histórias, primeiro murmurando e depois berrando:

O Amigo Perdiiido... huumm... A Estrela dos Desejos... nãããão... A Canção do Tatu... JÁ SEI! Essa, ó: Um Sapo no Céu! Pronto, escolhi.



12 comentários:

Angela disse...

Rita: Relaxa! Vai dar tudo certo e acredito que a escola va acomoda-lo. Pensa ai: escola tem bibliotecas cheia de livros, muitos e diferentes dos que o Arthur tem. Entao no pior dos casos eh so pedir para reservar um lugarzinho para que ele e o amiguinho escolham uns livrinhos para ficarem lendo enquanto o resto da turma aprende o be-a-ba. Aposto que vao providenciar algo e ele nao vai se entediar!

Quanto ao desembaraco precoce: Relaxa mais ainda. Simone comecou o jardim de infancia com 4 recem feitos, e aos 2 anos, segundo a minha mae, falava como um radio quebrado e era super precoce em tudo. Na minha opiniao deu tudo certo para ela! Eu tambem comecei o jardim de infancia com 4 anos recem feitos e com 6 ja tava pra la de alfabetizada. Nunca deu problema nenhum, nao que eu tenha notado.

O Max eh mais media mas a Jujuba esta na mesma linha da Tia Si, por sinal antes de ontem foi a consulta dos dois anos e a pediatra e ja comecou com as surpresas e o questionamento. Falou que a complexidade das frases, a auto seguranca, o nivel de entendimento, capacidade de seguir instrucoes e etc estao muito alem da sua idade. Eu tou achando tudo "muito otimo".

Voto por deixar Arthurzinho escrever sim em letra cursiva. ;) Desenvolver na velocidade da luz, se eh a velocidade que ele quer. Se deliciar com esse mundo que tem o privilegio de ja poder acessar. E se daqui ha uns dias quiser escrevendo os posts do Estrada, eu leio ihih! :) Beijo querida!

Anônimo disse...

Faço minhas as palavras da Angela e acrescento:
Estimule nele(s) o livre pensar, raciocínio crítico (adequado à idade, obviamente), sabendo, no entanto, que não importa muito o que ele vai aprender na escola, pois quando ele tiver 17 anos, mais de 40% do que ele aprender agora na escola, já não mais terá validade. As escolas não conseguem prever o futuro. Muitas das profissões que existem hoje não existirão mais daqui a 20 anos (quem estudou estenografia e fez curso de telefonista nos anos 60 sabe do que falo). As escolas não conseguem nem mesmo acompanhar o presente. A interdisciplinaridade NUNCA ocorre de fato nas escolas, mas sempre vende matrículas dizer que "temos um curriculum interdisciplinar". O que vejo sempre é um arremedo da coisa.

A leitura fluente e o raciocínio crítico para separar o joio do trigo tornar-se-á cada vez mais crucial num mundo "poluído com informações dispensáveis".

Vamos marcar um café e sobremesa? Uns alunos vão inaugurar uma "padaria/café" na Rio Branco em breve. Que tal?

Estou sempre lendo o blog aqui na moita.

Um abraço bem forte em você, no Ulisses e nos pequerruchos!

Nakereba

Borboletas nos Olhos disse...

Baby, eu nem devia repetir o que ja foi dito, mas repito. Relax. O Arthur cresceu entre livros, você lê com frequência, nada mais previsível que esse contexto o mobilize. O meu Samú desde dois anos deitava com os meus livros (de cabeça pra baixo, rsrsr) e passava vários minutos concentrado como se lesse alguma coisa. Claro que começou a ler muito antes dos coleguinhas de classe. Meu caso foi ainda "pior": a professora disse que eu era tão animada com leitura no jardim II (a série antes da Alfabetização) que por meados de abril me transferiu pra série seguinte. Resultado: terminei a escola um ano antes da média, tive um ano a mais pra me divertir na faculdade. Ou seja, curta, leia com ele, divirta-se.

Patricia Scarpin disse...

Rita, super me identifiquei com o post de hoje - acho que já te contei que minha mãe me alfabetizou em casa, aos 4 anos de idade (talvez ela não agüentasse mais ter que ler pra mim o tempo todo? haha). No pré (que na época era apenas 1) e na primeira série eu ficava ajudando os amigos, pois já sabia aquilo tudo. Vai ver foi daí que surgiu a minha vontade de ser professora.

Beijo!

Amanda disse...

Ai Rita, que orgulho desse Arthurzinho! Adoro criança que gosta de ler! Acho que eu era a unica na minha familia. Olha, consigo entender muito bem suas inquietações, acho que o sistema educacional esta um pouco ultrapassado, tratando todas as crianças como se elas se desenvolvessem ao mesmo tempo. Mas bom, ouça essa galera ai de cima que tem experiência na coisa, pq eu fico aqui so de achômetro mesmo. Beijo!

Tina Lopes disse...

Amore, eu acho q a Nina tá adiantada demais pro nível dos colegas e a história é igualzinha a do Arthur, o interesse em casa e tals, mas eu também não adianto etapas porque não sou professora. A tal da letra cursiva, por exemplo, tem jeito certo de aprender a traçar, e se a gente ensina errado depois é uma desgraça pra consertar - não q seja um drama, mas pra eles sabe como é, tudo pode virar um pequeno drama. Tenho uma prima q reprovou 2 vezes em matemática por causa das divisões; ela chegava em casa, o pai explicava o método curto, na escola, o longo. Tilt total. Mas no geral, tem que relaxar mesmo. Se ela gosta dos Mitos Gregos e da história da Chanel eu não vou obrigá-la a ler só Patinho Feio etc. Já vi mães loucas da vida pq em contação de histórias de livrarias os filhos aprenderam folclore popular (coisa de capetinhas e sacis). A gente tem que acompanhar e estimular, acho que só não dá pra ser técnico demais, fazer as vezes de professor, em casa. É como lição de casa; me falam, ah esse ano vc vai passar a ter q fazer lição com a Nina. Fazer lição? Jamais; só acompanhar. Se ela não souber fazer, reporto, mas não ensino nada que seja absolutamente pedagógico. A gente em casa tem q ensinar a viver e a entender o q está se vendo em casa mesmo. A escola é q ensina técnica. Ixe, exagerei. Bjks mis.

Anônimo disse...

Rita,

Faz alguns meses que comecei a ler seu blog (que adoro!), mas é a primeira vez que comento, porque a identificação foi muito grande neste post.

Minha Julia, agora com 9 anos, começou a ler exatamente na mesma idade do Arthur e da mesma forma, sem a gente tentar ensinar, simplesmente juntando as letras e de repente, puf! Estava lendo!

Não tivemos nenhum problema na fase de alfabetização, em parte, acho, porque a escola dela é show de bola e soube lidar direitinho com o assunto, não a deixando sem estímulos que fossem realmente desafiadores pra ela.

Isso é uma coisa importante, senão fica chato pra criança. Na escola dela eles têm o que chamam de projeto complementar, que serve pra ajudar as crianças fora do padrão (abaixo e acima da média). Quem precisa de reforço porque está mais lento, tem, e quem está rápido demais também.

Hoje, aos 9 anos, a Julia é uma leitora voraz, já devorou os 7 livros do Harry Potter, por exemplo. Cada livro do Harry Potter, nas férias, ela lê em menos de uma semana. Lê também em espanhol fluentemente, já que o pai é argentino e ela ganha livros dos tios. Suspeito que vai ler em inglês cedo também, porque eu e meu marido lemos e temos muitos livros, ela já anda curiosa.

A consequência é que ela escreve melhor que muitos dos meus alunos universitários rsrs Tem gramática praticamente perfeita, concordância, coerência nos textos.

Mas a parte emocional às vezes é complicada sim. Principalmente porque, no caso dela, que é de dezembro, está adiantada na escola, e tendo sido alfabetizada tão cedo, nunca me deixaram segurá-la um ano.

Ela faz 10 anos em dezembro, alguns amigos já estão fazendo em janeiro. Na idade em que está faz uma enorme diferença, de maturidade e até de ter ou não malícia pra certas coisas. Ela é bobinha, algumas amigas estão anos luz mais espertas.

No caso do Arthur, se ele estiver com crianças da idade certa, imagino que isso não necessariamente prejudique o lado emocional.

Um abraço,
Aline

Rita disse...

Aaawwwww!!!! Obrigada por comentários tão ricos! Volto aqui amanhã para respondê-los devidamente. Li todos atenciosmante. Obrigada, de novo, mesmo. Beijos!

Rita disse...

Oi, Anginha.

estou tranquila, sim, Anginha. Mas fico me perguntando se ele vai ficar entediado ou simplesmente tranquilo - essa é toda minha apreensão...Quanto à letra cursiva, não vou convidá-lo a nada. Se ele demonstrar interesse de novo, converso com as professoras: as aulas já começam no próximo dia 7. :-)

Nakereba, muito interessante seu comentário em relação às profissões. Mas, sabe, minhas apreensões e questionamentos são mesmo voltados à aquisição/fixação da leitura e da escrita como algo bom, gostosos, sem sacrifícios. Porque, né, isso estará na base seja qual for o rumo que ele tomar. E fico muito feliz em vê-lo tão confortável em relação a isso e não quero que um afastamente maior em relação ao grupo seja uma faca de dois gumes. Porque é claro que gosto que ele já leia tão bem, mas não quero que isso o entedie nas aulas ou que atrapalhe, em qualquer nível, seu relacionamento com os colegas (espertíssimos também, mas que têm uma relação com a leitura um pouco mais incipiente ainda). Quanto ao café com sobremesa, YES, let's do it! Mas, poxa, preciso do número do seu telefone, né! Vou dar meu jeito, aguarde. :-)

Borboleta, também tive essa experiência de mudar de turma, mas não acompanhei e voltei - lá pelas primeiras séries também. Não quero, de jeito nenhum, que o Arthur passe por isso, sabe. Valorizo muito o convívio com crianças da mesma idade, acho que pode interferir nas relações sociais futuras, vai saber. (Mas tudo "no relax" que ser humano não tem bula, sacumé, né? ;-)

Patricia, sua precoce. :-) Pois é, também me lembro de que eu "tomava a lição" de alguns alunos que ainda não liam muito bem lá pela segunda série. Mas não sei se os professores ainda fazem isso... Bom, vou conversar com as professoras e veremos. Bj!

Amanda, não é fofo? Depois te conto como a escola vai entrar nessa história. Bj.

Tina, adorei seu comentário, guria, tão bom. Estou levando em conta suas observações e vou conversar com as professoras.E sabe o que pode acontecer: tudo ser bem mais suave do que estou pensando; por exemplo, todos os coleguinhas do Arthur podem começar a ler dentro de um ou dois meses e aí, pimba, todo mundo junto, né não? Porque, afinal, a série vai ser voltada para isso, para ensinar a ler. Natural que funcione, ora. Quanto aos interesses do Arthur, ainda são as historinhas infantis e os gibis. Inclusive gibi não entra naquela cota de brinquedo, sabe ("não, hoje não é dia de comprar brinquedo), pediu revista, ganhou. E também não vou fazer lição, de jeito nenhum, é ruim, hein! :-D Já fiz muitas, todas as minhas, agora é a vez dele. Beijocas!

Aline, seja muito bem vinda, bom saber que você anda por aqui. Muito obrigada por seu comentário, torço para, em breve, falar o mesmo sobre a escola do Arthur. E que delícia sua pequena leitora, hein! Nossa, é tudo de bom não ter problemas para escrever ou lidar com leituras desafiadoras. Na boa, mais de meio caminho andado para o futuro dela, no que se refere a estudos. Quanto à parte emocional, é como falei na resposta ao comentário da Borboleta, acho o convívio com crianças da mesma idade muito importante. Mas ela conta com você, que está ciente da situação e pode dar dicas e suporte fundamentais. Beijo, volte sempre, Aline.

Obrigada, pessoas, você são tudibom.

Rita

Marina Teotônio disse...

kkkkkkkkkk
Se o Arthur não gostasse de ler, não teria o sangue de vocês minha linda!!!! hehhehheh
E se ele não estivesse tão a frente, da mesma forma...

Bj grande!

Rogerio disse...

Rita, sinceramente não tenho opinião formada, já que nunca estudei psicologia, psicopedagogia e afins. Mas devo dizer que achei muito legal seu filho ser fã dos livros. Existe o risco de ele se sentir desmotivado, por já saber a matéria. Fique atenta quanto a isso, o resto ele sabe.

Rita disse...

Marina, sua sumida! Tá tudo bem aí? Nem vou falar nada da sua babação. Beijocas, não suma! Saudades...

Rogerio, vou ficar atenta sim. As aulas voltam na semana que vem, estamos curtindo o fizinho da folguinha deles. Abç!

Rita

 
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