O primeiro



Nós aproveitamos a manhã ensolarada de sábado ao ar livre, pedimos comida chinesa pelo telefone e nos entregamos à preguiça depois do almoço. Eu tinha tido outra noite ruim, com sonhos picados, sem sonhar com o que eu queria, acordando várias vezes durante a madrugada, de modo que estava quebrada e, mal terminei de almoçar, devorei um pedaço de chocolate e anunciei que tiraria uma soneca. As crianças ficaram pela sala brincando, Ulisses se esparramou no sofá para ver um filme qualquer e minha sogra ficou por ali. Subi. 

Fui para a cama com o livro que estou lendo, li algumas páginas e logo minhas pálpebras despencaram. Mas, de novo, nada de sono tranquilo porque o vizinho adolescente estava bravo com alguém e falava alto, os cachorros se assanhavam, o vento balançava a porta da sacada. Cochilo. As crianças gritavam, subiam a escada, entravam no quarto, batiam na porta. Cochilo. O vento outra vez, o vizinho xingando. Senti que estava perdendo o clima para soneca, já tinha se passado sei lá quanto tempo. Cochilo. Vento na porta. A tarde foi avançando e já não havia mais posição na cama. Comecei a pensar que logo teria de levantar para ir ao mercado e teria de dar adeus aos planos de um sono profundo. Preguiça. Cansaço. Calor. Silêncio. Adormeci outra vez. E aí aconteceu. Ela no meu sonho. 

Sonhei que estava em Esperança, no altar da igreja local para onde tinha ido fazer uma homenagem à minha mãe. Falei para o povo que estava lá, relembrando que ela era muito vaidosa e gostava de ser fotografada e que eu achava engraçado como ela tinha tantas fotos tiradas nos anos de sua juventude. Parte de minha fala era sem sentido e não recordo as palavras. Ao fim da homenagem, desci do altar e me encaminhei para o banco onde tinha visto que Arthur e Amanda estavam. Mas quando cheguei ao banco eles não estavam lá. Estavam ela e minha prima. Juntei-me a elas, conversamos algo de que não me lembro e logo o cenário mudou. Estávamos agora no interior do carro de minha prima, estacionando na frente da casa da minha mãe. Era minha prima quem dirigia, mas, ao mesmo tempo, estávamos as três no banco de trás, eu, mamãe e Marina (a prima). E eu passei o pente no meu cabelo, que no sonho era mais curto e mais claro. E minha mãe falou pra mim: vai estragar seu cabelo. Falou tranquila, toda conversadora. Estava bem, não estava doente, parecia feliz. Começamos a sair do carro e minha prima perguntou: as crianças ficaram em casa sozinhas? Minha mãe pareceu constrangida com tamanho descuido e começou a falar do restaurante que, no sonho, ficava ao lado da casa dela, comentando alguma coisa sobre a iluminação das mesas (!!!??). Minha prima repetiu a pergunta e minha mãe ficou visivelmente sem graça. Eu achei graça daquilo e, para salvá-la do embaraço, respondi: nada, ficaram com tia Maria, ao que minha mãe, completou rapidamente: é ficaram com Maria! Nós duas, cúmplices. E fim. 

Acordei imediatamente e um segundo depois me lembrei nitidamente do sonho e, ao contrário do que, até hoje, suspeitei que aconteceria quando sonhasse com ela, senti uma enorme alegria. Comecei a sorrir sozinha na cama e, à medida que repassava as imagens na cabeça, comecei a sentir uma vontade enorme de contar o sonho pro Ulisses que, como se soubesse, abriu a porta do quarto para avisar que precisávamos ir ao mercado. Encontrou-me com cara de tola, com um sorriso de orelha a orelha. 

- Acabei de sonhar com minha mãe.
- Ah, é?????!!! Parabéns!!

O resto do dia seguiu e, até agora, tenho uma cara boba e o coração leve pela primeira vez no ano. Vi seu rosto nitidamente, ela falou comigo, nós conversamos, tudo nos meandros do meu subconsciente, imagens confusas construídas pela minha cabeça. Não importa. Para quem não pode mais nem dar um telefonema, isso vale tanto que nem consigo dizer. Que tenha sido apenas o primeiro. 
  

16 comentários:

Iara disse...

Ô Rita, que coisa boa! Fico tão feliz por você. Faz parte do processo, né? De reconstruir sua felicidade com sua mãe presente, mas ocupando um outro lugar. Um beijo.

Isa disse...

Que lindo Rita, parabéns!
Fico muito feliz com teu sorriso. Que ele se repita sempre!
Gde bj,
Isa

Marina Teotônio disse...

Nossa Rita como estou feliz!!!!!!!
Imagino a tua alegria....Receba de cá um abraço enorme meu.E tenha certeza, é apenas o primeiro. BEIJOSSSSSSSSS

Angela disse...

Vim aqui rapidinho para ir dormir cedissimo, devido ao cansaco da viajem, e me deparei com essa boa noticia. Tinha te falado o quanto dormir e sonhar foi importante (confortante, aliviante...) apos a perda do meu pai. Muita cura acontecia naquelas horas de sono. Desejava o mesmo para voce, entao nao imaginas mesmo a alegria que essa noticia me deu. Esse comentario eh curto, mas aqui dentro minha alma esta em uma celebracao daquelas. Um grande beijo.

Borboletas nos Olhos disse...

Que seja o primeiro e que cada um deles vá deixando seu coração mais leve. Bj!

Caso me esqueçam disse...

que bonitinho! ooww, fiquei muito feliz agora de ler uma coisa tao positiva! de ler que você deu um sorriso! as coisas vao se encaixar pouco a pouco. espero que tua mae apareça muito nos teus sonhos, muito! cumplice, como sempre foi.

=******

Jux disse...

lindo lindo lindo!
E será o primeiro de tantos que virão...
beijo e abraço, querida Rita!

Liliane Gusmao disse...

Feliz que só por voce menina! Mais outros virão, sem dúvida, para esvaziar sua tristeza! Que lindo seu sonho, que bom que voce sonhou com ela! To feliz mesmo, por voce!!!
bjos

Mari Biddle disse...

Oi,Rita, leio e me emociono tanto, tanto...


Um beijo.

Nardele disse...

Rita, não sabia. Só hoje descobri, por causa do seu comentário lá no blog. Que o presente que foi este sonho se repita muitas vezes!

E não esqueça que você pode conversar com ela ainda, acordada ou dormindo, e continuar dizendo as palavras lindas e doces que a fizeram se sentir pronta e amada.

Nardele.

Rita disse...

Iara, muito obrigada. É isso, ela presente de outras formas. Há dias em que é mais difícil entender isso, mas vou caminhando. Bj.

Isa, obrigada, querida. Bj pra você.

Marina, viu só! Você e eu com ela lá, na maior falação. Só de escrever isso agora me deu um aperto no peito. Quando foi a última vez que nós três estivemos juntas? Bj...

Anginha, tive tanta vontade de te ligar, mas nem sabia por onde você andava. Que bom que você já leu e tá sabendo. Bj!!

Borboleta, obrigada! Tomara!!

Luci, né fofo? Eu e ela na maior cumplicidade, delícia de sonho. Adorei. Bj.

Liliane, muito obrigada por seu carinho e pela torcida, muito obrigada messssmo. Bj!

Mari, querida, a emoção rola aqui quando escrevo, viu. Você nem faz ideia. Bj.

Nardele, querida, eu sei que você não sabia; quer dizer, deduzi, você tava fora e tal. Até quando você me perguntou por que eu estava no hospital lá no twitter nem respondi porque você tava toda na vibe Paris e eu nem quis te alugar com meus receios. Muito obrigada pelo carinho, viu. Beijo grande.

Valeu, pessoas. Vocês sempre me emocionam com tanto carinho. Acho que nos próximos sonhos vocês vão estar todos lá. A maior galera.

Beijão!
Rita

Fabi disse...

Que notícia boa, Rita, que alívio! Você há de continuar sonhando com ela, sim, tendo-a ao seu lado da maneira possível. Que coisa boa, que bom sinal.

Nardele disse...

Sei que você sabe disso, Paris é uma cidade muito viva. E sendo assim, ela nos abraça com nossos deslumbres, nossos anseios, nossas dores e é capaz de catalisar tudo.

De alguma estranha maneira (ou talvez nem tão estranha, uma vez que os laços se criam não necessariamente na proximidade física) me sinto uma amiga sua, porque compartilho contigo meus pensamentos e leio os seus! Sinta-se, sempre, à vontade pra falar, sobre o que for, onde estivermos, eu ou você.

Um beijo grande e carinhoso! Com as minhas melhores energias,

Nardele

Rita disse...

Fabi, muito obrigada pelo torcida, querida. Beijo pra você.

Nardele, adorei seu comentário, querida. De verdade, muito obrigada. Conte comigo para dividir, sempre. Beijocas,

Rita

Rogério disse...

Sabe, Rita, em 1994 minha filha Ana Paula viajou para outros planos, aos sete anos de idade. Após curto período passei a sonhar com ela, e eram sonhos diferentes em que conversávamos sobre sua nova vida e meu estado de espírito, que não era nada bom. Os sonhos eram diferentes porque incluiam cheiros, toques sensíveis e um quê de realidade que desautorizava o sonho. Era como se eu tivesse ido visitá-la.
Lendo seu texto lembrei-me de minha baixinha (hoje os sonhos são 'normais'), e deixo aqui minha convicção de que foi, de fato, o primeiro de muitos 'sonhos' que você terá ao lado de sua mãe. Um grande beijo.

Rita disse...

Nossa, Rogério, nem sei o que dizer. Seu comentário me pegou no susto, nem concebo como se supera a perda de um filho. Muito obrigada por dividir sua experiência conosco. Torço para que seus sonhos e encontros com sua filhota sejam muitos e todos com muita paz. Abraços,
Rita

 
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