"Ninguém consegue botar só meia gota de café"




Aos pouquinhos vou entendendo que a saudade é parte de mim, que não vai passar, apenas vou aprender a olhar para ela como olho para minha sombra projetada na parede. Há momentos em que é forte e nítida, há outros em que permanece escondida à espera de um pensamento ou palavra que a faça surgir. Minha mãe permanece em mim como se estivesse viva e isso é uma nova forma de eu tocar a minha vida. Porque ela não está mais aqui, não faço ideia do que lhe aconteceu, não entendo a morte. Mas ela permanece em mim porque penso nela, lembro dela, carrego comigo esse carinho profundo que às vezes toma conta de mim tão inteiramente que me desconheço fora dele.

Aos poucos também vou entendendo que as lágrimas são infinitas. Já cheguei a pensar, sinceramente, que cessariam porque seria um absurdo se não cessassem. Mas hoje vi que não, que brotam como lavas quando falo de dezembro. Hoje vi que meu coração continua pesado, que o vazio é isso mesmo, vazio.

Também estou aprendendo que não posso substituí-la para ninguém. Ninguém pode substituí-la para mim.

Perdi minha mãe. Essa frase é estranha. Porque, de certa forma, não a perdi. O que trago comigo que me foi dado e ensinado por ela, das mais diversas maneiras e nas mais variadas intensidades, ficará comigo enquanto eu me dispuser a buscar dentro de mim suas sombras espaçosas. Então, em certa medida, não a perdi.

Ontem à noite tive um pesadelo e no sonho eu chamava por ela, procurava desesperadamente no meio da noite, mas não era seu quarto, era só o escritório e ela não estava aqui. Acordei e entendi e detestei. Senti cansaço de ter de me lembrar de novo e de novo que não está mais aqui. Eu não queria esquecer mais: foi embora, foi embora, foi embora. Porque se eu fixar bem isso não vou ter mais os sustos que tenho quando me levanto do sofá para telefonar para ela e aí me lembro.

Tenho exercitado as lembranças de momentos felizes. Tenho buscado momentos de relaxadas conversas, frases leves, bate-papo. E, principalmente, os raríssimos momentos de transgressões. Minha mãe era a pessoa mais correta e reta e certa e pontual e metódica que conheci. Então gosto de ficar procurando na memória os minúsculos deslizes que a tornavam uma destemida desbravadora de novas possibilidades. Como quando, dois ou três dia antes de ir embora, pediu que eu pusesse café no seu leite. Ela não podia tomar café há sei lá quantos anos. Nem acreditei. Pus um fino, mas generoso, jatinho de café em seu leite, feliz por poder lhe proporcionar o pequeno crime, mas falei "pus só meia gota, não se preocupe, pode tomar". Mas ela sabia mais: riu e falou "ninguém consegue botar só meia gota de café!" e tomou mesmo assim, enquanto eu descaradamente desconversava. Como eu não sabia de nada, achei que ela estivesse levando em conta meus discursos de "não se preocupe tanto". Eu não entendi naquele momento o significado de seu gesto. Se eu soubesse, teria feito mais. Teria lhe passado a xícara olhando no fundo de seus olhos de céu. Ela só pediu o café porque já sabia.

12 comentários:

Rogério disse...

Belo texto, com força e profundidade na medida exata de um amor ferido.
Se as pessoas possuem de fato alguma identidade em reações e sentimento, você está fadada a viver como eu, com uma saudade doída e gostosa, lembranças carinhosas e um pouco de raiva de algo abstrato. Ainda hoje, 17 anos depois, sinto o cheiro de minha filha. Não pense que isto é ruim; pelo contrário, é uma forma de estar com ela, e agradeço por isso. Não sigo nenhuma religião, então agradeço diretamente a Deus.
Também não entendo nada de morte, então me pergunto por que, poucos dias antes de 'viajar', minha filha me perguntou: você me ama?

lucieneteotonio disse...

Rita. fiquei imaginando ela te dizendo q ninguém consegue colocar meia gota de café kkkk e rindo . Que bom Rita que você tem muitas coisas pra lembrar ,isso é bom agora que ela se foi. mas você á tem nas suas inumeras lembranças .
abraço forte.

Angela disse...

Mais uma vez o comentario virou email. Beijo.

Angela disse...

Adiciono que alem de seu post, o comentario do Rogerio me deixou com uma sensibilidade a flor da pele.

Fabi disse...

Quando acabo de ler você falando da sua mãe, sinto vontade de dizer tanta coisa, mas não encontro as palavras, não consigo articular.

Queria poder fazer alguma coisa pra diminuir sua dor, mas só me resta comentar os posts e pensar "Deus, como ela é boa nisso de colocar sentimentos em palavras!".

Beijo, Rita, vai seguindo. Segue como puder.

Rita disse...

Rogério, acho que estou começando a perceber que essa grande tristeza vai aos poucos se acomodando e ocupando espaços em mim. E aí começo a reconhecê-la como parte de mim. E vou tocar minha vida, com o que ela me trouxer, levando comigo esse novo componente e tudo que ele me ensinar. Deve ser assim que você sente. Sei lá. Abraços.

Luciene, você sabia que ela até falou meio baixinho? Tipo "que ninguém nos ouça nesse nosso delito gravíssimo"... :-) Beijo procê.

Anginha, seu e-mail não chegou, tá? Beijocas, saudades.

Fabi, obrigada, seu comentário tão docinho. Obrigada mesmo. Viu? Também não sei o que dizer. :-)
Beijo grande.

Valeu demais, pessoas, demais mesmo.

Rita

Glória Maria Vieira disse...

Sua Mamis na foto, Rita?! Queeeeeee linda! *----------*

E mais um poste emocionante... ='/

Rita disse...

Glorinha, é ela sim. Obrigada, acho linda também, mas sou levemente suspeita.

Beijos
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Baby, linda foto, lindo (lindo, lindo!) olhar, um misto de doçura e sabedoria precoce num rosto tão jovem, linda e inteligente frase: "ninguém consegue botar só meia gota de café!" Lembrou-me Vinícius e sua fé na intensidade. Uma pessoa assim tão amada com certeza era generosa na sua entrega à vida. Quero meu leite com café. E quero me lembrar disso sempre e sempre. Grata por contar sobre tanta beleza. Bjs

Angela disse...

Reenviei.
Beijao!

Caso me esqueçam disse...

menina, eu nao vi muitas fotos da amanda, mas sei a cara que ela tera quando crescer. IGUAL! os olhos! nossa!

Rita disse...

Borboleta, muito obrigada, querida. Adoro a forma como você interage com os textos. Sua marca.
Beijinhos...

Anginha, recebi e respondi.

Luci, você achou? Ai, que delícia. :-)

Bjs...

 
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