Nham!



Essa foi a minha cara durante todo o final de semana. Ou quase todo.



Não tive tempo de acessar o blog durante o final de semana porque estava comendo.

***

Uns amigos comilões nos convidaram para uma rodada de massas na casa deles no sábado à noite. Antes disso, no sábado à tarde, depois de experimentarmos o bolo com cobertura de canela que eu tinha acabado de fazer, Odisseus encarregou-se das compras no mercado enquanto eu dormia no sofá, quer dizer, tomava conta das crianças; eis que, no início da noite, meu valente dono de casa voltou com fome, tadinho. Como ele não tinha condições físicas ou biológicas de aguardar até o horário do jantar, tratou de “forrar o estômago” com um lanchinho. Quando dei por mim, havia um sanduíche com hambúrguer, queijo e salada na minha frente e eu não sei o que aconteceu, mas minutos depois o sanduíche desapareceu. (Nham!)

Mais tarde fomos ao tal jantar de massas e comemos, ó céus, comemos. Mas não assim até morrer, porque precisávamos reservar um espacinho no barrigão para abrigar uma porção de estrogonofe de chocolate – vou repetir: estrogonofe de chocolate – que outra comilona tinha levado de sobremesa. Sabe o céu? Pronto.

Aí no domingo pegamos leve e almoçamos um churrasquinho - e aí eu como pouco mesmo, já que carne não é lá minha paixão. Ainda bem. Porque no meio da tarde Jeanne chegou. Quem? Pausa para contextualização.

***


Durante vários anos de minha infância e pré-adolescência, o início das minhas férias de verão era marcado por uma questão existencial profunda: “mãe, esse ano eu vou para Maceió?”. É que meus padrinhos, os pais da minha prima Jeanne, moravam na "terra do sol” e a casa deles funcionava como um ponto de encontro das crianças/adolescentes da família que se reuniam para semanas de pa-ra-í-so. Férias sem uma passadinha, nem que fosse de uma semana, em Maceió não eram férias propriamente ditas, eram apenas um intervalo das aulas. Porque era lá que a vida acontecia para a parte barulhenta da família. Era na casa da minha madrinha que o bicho pegava. Era lá onde morava a diversão. Só lá era possível passar dias e dias na companhia de tantos primos que eu não conseguiria contar nem que tentasse, porque ninguém parava quieto. E foram várias fases, desde aquelas em que meninos e meninas não se misturam até as outras dos inesquecíveis bailinhos. Só na casa dos meus padrinhos conseguíamos transformar uma simples dormida na casa da prima em acampamentos dentro dos quartos, com comida escondida, filmes de terror, madrugadas compridas cheias de risadas abafadas nos lençóis e aquela sensação de que o resto do mundo não conhecia a verdadeira felicidade. Nunca parávamos de brincar, inventar, fazer festa, apostar com os meninos quem teria medo primeiro, confabular, fantasiar e passear – sempre havia um adulto corajoso, digo, gente boa por perto, disposto a nos levar ao cinema, à fazenda, à praia, ao passeio disso e daquilo, ao acampamento, tudo sempre com muito barulho. As férias de Maceió geralmente eram em janeiro ou fevereiro, mas ocupavam minhas lembranças até os outubros mais distantes. Era tudo de bom.

A comida era um capítulo à parte naqueles verões, naquela casa onde a mesa era bonita não só pela criançada bronzeada e barulhenta que a cercava, mas também pelos pratos coloridos, deliciosos e igualmente variados que compunham nossas refeições (até parece que eu era uma criança boa de garfo, mas pula essa parte). E quando não estávamos aprontando nada muito grave, a Jeanne inventava umas incursões à cozinha, território onde ela sempre transitou com a tranqüilidade de quem sabe misturar bem os ingredientes, e lá nós, suas primas, virávamos suas ajudantes para a confecção de tortas inesquecíveis e jantares, digamos, mais ou menos.

***


Mas eu estava dizendo que Jeanne chegou. Depois de milhões de voltas daquelas que só o mundo dá, meus padrinhos se mudaram para Curitiba, quando eu já morava em Florianópolis há mais ou menos um ano. Olha, que legal, estávamos morando pertinho de novo. Mas a vida é o que é e só ontem, depois de quase onze anos de “vizinhança”, eu e Jeanne nos reunimos para trocar umas idéias outra vez. Veio com seu filhote fofo que, juntamente com meus filhos, tratou de perpetuar a tradição de que é brincando junto que a bagunça fica melhor.

E aí a comilança. Jeanne foi portadora de uma encomenda preciosíssima que minha madrinha mandou pra mim: um bolo de rolo, vê se eu posso com isso, com receita vinda lá das bandas de Recife, que virou especialidade da família nos últimos anos, produzido no restaurante que montaram em Curitiba e fornecido para vários pontos da cidade. E não é rocambole, não, o nome é bolo de rolo mesmo; atenção às diferenças técnicas, mas não me perguntem quais são.


O tal bolo de rolo é o suprassumo da delicadeza, como vocês podem conferir na foto que mostra o labirinto das mil camadas. E minha prima corta a delícia assim, em fatias bem finas – argumento que a gente sempre pode usar para comer inúmeras (são tão fininhas, não é?).


Bom, eu comi. Inúmeras. (É impossível olhar para a tal guloseima labiríntica e não tentar adivinhar como se enrola aquela coisa. A curiosidade da clientela já levou minha prima a um programa de TV local onde ela mostra o milagre da enrolação – quem quiser pode ver o vídeo aqui; vocês podem aprender a receita e ainda dar uma espiada nos meus padrinhos, minhas primas e no filhote da Jeanne, todos à mesa saboreando as delicinhas.) Mas eu não podia receber minha visita sem preparar pelo menos um bolinho, então eu estava desenformando um bolo formigueiro (porque crianças adoram, sabe como é que é) quando o interfone tocou. E aí faltou tarde para tantas guloseimas, porque a Jeanne ainda inventou uns bombons de bolo de rolo, onde isso vai parar, com cobertura de chocolate. Bombom de bolo de rolo. Socorro.


Em breve nos melhores cafés de Curitiba.


***


Não se consegue relembrar anos e anos de férias em apenas uma tarde, mas nós nos prometemos não deixar passar mais onze anos até o próximo encontro. Quero, assim que puder, visitar meus padrinhos, por quem tenho um carinho infinito – esse casal que se uniu com o dedinho de Dona Berna: minha mãe e minha madrinha trabalhavam no mesmo lugar e, com o pretexto descarado de visitar a tia, meu padrinho ia lá paquerar com a minha madrinha. O romance gerou uma família linda, um mar infinito de amor e generosidade e muita história boa pra contar.


Olho pra trás e vejo a criança que fui, com minhas tristezas e medos, minhas inseguranças enormes, minhas perguntas sem fim; também vejo minhas alegrias, meus sonhos inconfessáveis, minha vontade de voar. No meio disso tudo vejo aquelas férias, quadrinhos coloridos guardados com carinho em minha memória. Era muito bom. Melhor que bolo de rolo.


(Jeja, um beijo pra você. Mamãe teria adorado saber de sua visita.)



 

17 comentários:

Mari Biddle disse...

Rita, que delicia. Não sou fã de coisas doces mas, olha, me envia um pedaço desse bolo!

Tem tipo exportação?

bjs

Caminhante disse...

Restaurante em Curitba? ONDE?

Angela disse...

Hhhhmmm achei essa visita da Jeanne uma delicia (e olha que nao estou nem falando do bolo ainda), D. Bernadete iria mesmo ter amado. Como eh bom rever pessoas queridas, familia entao nem se fala, e que fizeram parte da tantas coisas boas de nossas vidas nao eh? Eu daqui que nem a conheco fiquei me sentindo bem.

Quanto ao bolo de rolo, UFA, foi por pouco que nao tive um ataque de Eu Quero. Esse post ha uns meses atras teria sido meu fim! Eh que tenho loucura por bolo de rolo. Ju sabia entao quando aterrisei em Salvador ele ja estava la me esperando... E quando cheguei na minha mae tambem. Eu trouxe dois de volta (no meio de outros R$250 de comida), tenho os comido toda manha e noite. Porem, esse ai esta pra la de especial, e NUNCA os vi tao fininhos. Fico pensando no gosto bom da goiabada, no que esta me parecendo a quantidade perfeita. Voi ficar aqui imaginando o sabor que essa harmonia deve dar, espero um dia conseguir faze-lo!!!!

Beijaozao.

Amanda disse...

Gente, eu quero muito esse bolo!!!!!!!!!!!!! E nunca vou conseguir fazer um troço desses! Olha meu desespero!

Tbm tenho muitas boas lembranças das férias de verão. A gente sempre viajava com as amigas da minha mãe que tinham filhos da minha idade. Uma delas é minha melhor amiga até hoje! Tão bom ser criança, né?

Danielle Martins disse...

Seu poste foi uma DELÍCIA de ler e ver! Beijos!

Borboletas nos Olhos disse...

Por partes, claro...uma Jeane pra você, uma pra mim. Que bela sintonia, fiquei toda emocionada. Depois, preciso saber como é o estrogonofre de chocolate, me conta vai, please. Terceiro: adoro bolo de rolo. A vó da minha cunhada mora em Escada (perto de Porto de Galinhas) e é a especialidade do local. Eu não sou tão fã de doces, mas esse bolo de rolo sempre me comove às lágrimas com sua delicadeza. Mais: meus padrinhos são vizinhos da minha mãe...ah, é tão bom, tão terno. Mais ainda: adoro as lembranças da infãncia, pode ser tudo desvirtuado pela memória, mas é tão intenso. Para terminar: eu só vou sossegar quando provar seus bolos, tá. Vou começar a juntar milhas pra ir pro sul...posso?

Caso me esqueçam disse...

QUE TORTURA, RITALICE MARIA CAVALCANTI!

maldade :(

acredita que eu odiava esse bolo de rolo quando era pequena? achava nojento mesmo. da noite pro dia comecei a gostar e hoje, quando olho pra tras, passo a me detestar por ter vivido tantos anos da minha infancia negando essa maravilha. agora tenho vontade de comer e tou longe da boa mae que cozinha. oh, ceus! (nao, nao da pra eu fazer sozinha, eu sou uma mula na cozinha) :/

Daniela disse...

Gente, bolo de rolo é o doce que eu mais gosto no mundo TODO, ever

Bombom de bolo de rolo!! Socorro mesmo..haha

Eu vou muito a Curitiba. Endereço do restaurante faz favor?

Rita disse...

Mari, vou dar a dica à minha prima e já vejo as manchetes: bolo de rolo conquista o mundo, etc. Beijo!

Caminhante (e demais curitiban@s): vou ficar devendo o endereço do restaurante (por enquanto, sei que fica no Centro), enquanto a minha prima não me manda por e-mail, mas já digo que ela disponibiliza um telefone para encomendas e entrega EM CASA! Não sei se isso se aplica a todas as regiões de Curitiba, mas sempre se pode tentar. Quem quiser, é só pedir o fone no TWITTER (@rita_paschoalin), beleza?

Anginha, hehehe, agora que você falou, lembrei nitidamente que você adora o bolo. :-D Na boa, eu não era tão fã. Mas DESSE... e tá quase acabando. BUAUUAAAAAAAAAAAAAAAA!!! :-(

Amanda, também acho que não dou conta de fazer. Sou uma tragédia para enrolar essas massas, quebro tudo. Enfim. Sempre tem a minha prima, né? ;-)

Danielle, que bom que gostou, obrigada!

Borboleta, como nesse mundo você arruma tempo para comentar nos blogs quando TODO MUNDO SABE que você está a mil pela terra da garoa, hein, hein, hein? Quanto às milhas, É CLARO! Bj.

Luci, hahahaha, morri de rir com meu novo sobrenome. Eu também não era grande fã, mas depois desse, menina do céu, sem condições. Chama a mãe, Luci. Bj.

Daniela, você voltou!!! Vide resposta ao comentário da Caminhante aí em cima, tá? Quando tiver o endereço do restaurante, passo pra frente.

Beijocas, pessoas. Adivinha o que eu comi no jantar?? Laraliralila....

Rita

Jeanne disse...

Oi Rita,

Voltei a ativa....já estou em casa. O endereço é: Dr. Faivre 41 Centro. Próximo ao Hospital de Clinicas. Beijos....Jeja

Rita disse...

Valeu, Jeja! Obrigadão!

Beijo
Rita

Cléa disse...

Amei,saber do encontro de vcs. Ainda mais com esse delicioso bolo de rolo. Que SAUDADES.

BEIJOS
Cléa

Rita disse...

Ah, Clea, nem acreditei quando vi você aqui. Ontem falei com Verônica e ela me disse que tinha conversado com você. Saudades, sim, seria ótimo se você também tivesse vindo junto. Vi as fotos do Natal em Curitiba e vocês estão todos lindos. Mande beijos para o Fabrício e para seus filhotes.

Preciso agradecer por seu abraço naquele dia e, segundo Verônica, meu telefone vai tocar. Estou aguardando.

Beijos
Rita

Janeide disse...

Oi Rita
Amei seu Blog. Serei leitora assídua.
Não pude conter as lágrimas ao ler esta matéria... tantas lembranças... Esperança... sua mãe... Maceió... infância das minhas filhas... férias maravilhosas que vivenciamos juntos naquela casa que vc descreveu com tanta propriedade.
Adoro comer... escondo esse bolo de rolo e esses bonbons quando são enviados para mim. Amo essa família! Ela é parte integrante da minha vida.
Deus abençoe vc e sua família.
Janeide

Wanessa disse...

Oi Ritalice! Aqui é Wanessa, filha de Janeide. Tudo bem?! Está lembrada? Mamãe me enviou um e.mail com o seu blog, em particular o post do seu reencontro com Jeja. Lindo demais, você descreveu com perfeição tudo o que vivemos.Tenho certeza que todos nós temos o mesmo sentimento em relação àquela época. Bom, há tempos tenho o desejo de escrever para Ana Maria Braga contando um pouco da história deles e a forma como conseguiram se reerguer, através também do "bolo de rolo" e esse bombom maravilhoso. Gostaria de pedir permissão para usar parte do seu texto, ou quem sabe, você mesma possa escrever ao programa, enviando juntamente o link da entrevista que foi passada em Curitiba. O que você acha? Acredito que todos eles merecem demais esse reconhecimento por serem quem são e por tudo que nos proporcionaram. Por favor me escreva! Um beijão, Wanessa. E.mail:wanessa_silva_@hotmail.com

Rita disse...

Ah, Janeide, você não faz ideia de como fiquei feliz com seu comentário. Fiquei muito emocionada porque você falou que se lembrou de minha mãe e aí viajei na memória para outros tempos em que ela ainda viajava comigo pra lá e pra cá. Tanta saudade, Janeide, você nem sabe. Espero ver você por aqui outras vezes, mamãe ficaria muito feliz se soubesse... Um beijo grande, querida.

Wanessa, sua linda, a quanto tempo, gente. Claro que me lembro de você, né. :-) Vou te mandar um e-mail. Mande um beijo grande para Waleska, tá?

Beijos, lindonas!
Rita

Rita disse...

*"há quanto tempo" (antes tarde do que nunca, errinho corrigido). ;-)

 
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