A Menina Que Não Sabia Ler



Responda rápido: quando você viu o título A Menina que Não Sabia Ler, de John Harding, você se lembrou de A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak? Bom, eu me lembrei. E foi só ver o título original de A Menina Que Não Sabia Ler (Florence and Giles) para confirmar a suspeita de que minha reação tinha sido prevista pela editora brasileira que certamente tem todos os dedos na tradução do título - títulos precisam vender bem, sabe como é, então se for possível dar uma forçadinha e ecoar um bestseller, melhor. Acontece que “A Menina Que Não Sabia Ler” tem muito pouco a ver com a história de suspense que é Florence and Giles e isso me irrita um pouco. Tudo bem que o título precisa ter lá seu apelo, mas dessa vez acho que forçaram a barra um pouco demais. Acabei de ler o livro e posso afirmar que a história é sobre a relação entre a menina Florence e seu irmão Giles, e não sobre o fato de Florence não ter permissão de seu tio para se alfabetizar - o suposto analfabetismo de Florence é um detalhe agarrado a unhas e dentes pelos tradutores do título. A arte gráfica da capa também passa longe de ser honesta com o leitor. Quem, olhando para aquela capa e aquele título, não vai pensar tratar-se de uma história que envolve muito a relação de uma menina com o mundo literário? Quem lê o livro, no entanto, logo vê que se trata de um escape que o autor encontrou para homenagear vários autores clássicos de quem obviamente é fã. E apesar de esse elemento estar presente na história, tem cada vez menor relevância à medida que a trama de horror se desenrola. (Li várias resenhas do livro em inglês, nenhuma faz qualquer alusão significativa ao fato de Florence não saber ler. Pois é, porque não importa muito. Mas para os leitores brasileiros, esse detalhe determinou o título da obra.)

Pelo menos a contracapa da edição brasileira mantém alusões ao fato de que o livro passeia pelo sobrenatural - a referência a Edgar Alan Poe e Henry James é mantida (afinal isso também vende, né?); ainda assim, lá está:

“Florence precisa encontrar muitas respostas - sejam elas inventadas ou não, e soluções nem sempre fáceis para proteger Giles, e o seu amor pelos livros, antes que alguém descubra quem ousou abrir as portas do mundo literário.”

Mas não se enganem. Pouco importa. Florence and Giles é uma história de suspense, uma trama de horror e manifestações sobrenaturais, algo a que a capa original do livro é bem mais fiel, com sua gralha negra (mencionada na história) remetendo o leitor ao famoso corvo de Poe, escritor mencionado várias vezes na primeira parte do livro.



Mas enfim, a história. A trama se passa em 1891, na Nova Inglaterra, Estados Unidos. Tudo é contado na primeira pessoa, narrado por Florence, uma garota de 12 anos que vive com seu irmão mais novo, Giles, por quem é fortemente afeiçoada, em um casarão antigo - daquele jeitinho mesmo, escuro, com paredes cobertas por espelhos e velhas fotografias, com madeira velha que range à noite e corujas que piam do lado de fora assim que a noite cai. Além das crianças, vive na casa um grupo de criados bondosos e ingênuos, entre eles uma cozinheira sorridente e um inevitável cocheiro. O responsável legal pelas crianças, tio delas, vive em Nova Iorque e pouco se relaciona com o grupo, o que não o impede de proibir Flora de se alfabetizar - sabe como é que eram as coisas, mulheres letradas eram um perigo à sociedade. Então.

Tudo vai muito bem, Florence dá seu jeito de regularmente visitar a enorme biblioteca da casa às escondidas, aprende a ler sozinha (ah, mulheres), inicia uma tímida amizade com o garoto da casa vizinha, toca sua vida. Até que Giles é enviado à escola, o que contribui para a melancolia da garota que conta os dias para tê-lo de volta nas férias. Acontece que Giles não se adapta ao ambiente escolar e logo Florence volta a ter a companhia diária do irmão. E aí entram em cena as preceptoras, as tutoras que vêm ao casarão para cuidar da formação e educação do garoto. Primeiro, há a Sra. Whitaker, mas algo sai errado e... bem, vocês vão ver. Depois, entra em cena a Srta. Taylor - sim, ela se veste de preto, é magra e de semblante severo - e aí o bicho pega, já que Florence vê evidências de que a nova preceptora tem péssimas intenções em relação a Giles e pretende, na verdade, afastá-lo dela. Até aqui, a história segue num ritmo tranquilo, com a rotina de Florence cercando a trama e preparando o terreno para o clima de suspense que se estabelece a partir da chegada da Srta. Taylor.

E o suspense vem: caminhadas noturnas pelos corredores à luz de velas, sons inexplicáveis, canções de ninar do outro lado da porta, diálogos nervosos, feições fantasmagóricas, visões intrigantes, suspeitas terríveis, acidentes. O fato de tudo ser narrado por Florence nos leva ao limbo entre a realidade e a imaginação da garota, elemento bem explorado pelo autor. Como leitores, nossa relação com a história passa inevitavelmente pelo olhar de Florence e nossos medos e sustos são os dela, o passado nos chega através da memória dela, só vemos o casarão com seus cantos escuros através dos olhos dela e é ela quem nos mostra os riscos que cercam o pequeno Giles... e tudo caminha para um final surpreendente. Parei. Há vários pontos que eu adoraria comentar com outros leitores, mas não posso fazer isso aqui, sob pena de vocês me deletarem. Por isso já empurrei o livro pro Ulisses e vou esperar que ele leia para trocar umas ideias - quem já leu aí levanta a mão.

Harding tem pelo menos um mérito: consegue atiçar nossa curiosidade, de modo que esse é um livro para ser lido rapidamente: um capítulo chama outro e mais um e logo devoramos tudo. Outro mérito é ter me deixado com uma vontade danada de ler Henry James outra vez. Sobre as várias semelhanças (obviamente propositais) entre elementos de Florence and Giles e o famoso The Turn of the Screw, leia aqui e em muitos outros lugares internet afora. Ah, e não esqueça: na próxima vez que você estiver sozinha ou sozinho em casa e precisar se olhar no espelho, preste bem atenção: nunca se sabe quando você pode ver mais do que seu próprio reflexo... uuuuuuhhhhhhh... Boo!

“E lá estava, ainda, seu reflexo preso no espelho, com a cabeça para trás,
rindo um sorriso terrível, silencioso.”

***

(Antes de (re)ler The Turn of the Screw, o livro do Edney Silvestre escorregou na minha mão. Vamos a ele então.)

7 comentários:

Juliana disse...

os livros e suas traduções... hehe

ah, rita, eu acho o título do livro do edney uma coisa linda. Já estive pra comprá-lo diversas vezes.

Amanda disse...

Que palhaçada essa tradução, heim? Seria muito mais apelativo pra mim o titulo original e principalmente a foto original do que aquela foto breguinha da menina. Mas sua critica me deu vontade de ler! Vou procurar por aqui! Beijo!

Glória Maria Vieira disse...

Oia mesmo, viu?! Malandragem das "boas" essa tradução. Mas mesmo assim, você conseguiu manter a vontade que eu já tinha de ler esse livro que, assim como você, Rita, lembrei logo da Menina que roubava livros que nunca terminei se ler. AUSHUAHAUHUSHUAHSH =/

N.B.: Você quase conseguiu me assustar. Foi por pouco, viu?! KKKKKKKKKKKKKKKKK Sua danada!:p

Iara disse...

Rita escrevendo sobre livro é sinal de que tá na hora de discutir o "Bartebly, o escrivão". Hein? Hein?

Bjão!

Rita disse...

Juliana, o título é bom mesmo, né. Estou gostando, comento depois.

Amanda, eu também prefiro de longe a capa original, sem comparação. Bj.

Glorinha, eu gostei de A Menina Que Roubava Livros, gostei mesmo. Achei uma ótima sacada a história ser narrada pela morte. Nossa, lembro que curti muito. Beijinho procê e... boo!

Iara, prometo ler nessa semana, pode ser? Assim que eu terminar dou um toque, combinado?

Beijos, meninas. Viram que sonhei com minha mãe?? Tô toda boba.

Rita

Rogério disse...

Parece que eu só chego atrasado, mas chego. À parte a malandragem da editora na titulação da obra, pelo menos não se trata de mais um daqueles papagaios de pirata, que tentam 'pegar o vácuo' do sucesso alheio. Falo do Código Da Vinci, que teve vários filhotes, todos menores, mas com o título fazendo alusão: "Entendendo o Código Da Vinci", "Decifrando o Código Da Vinci", e por aí vai. Tem também alguns títulos que pegaram carona de "A Cabana". Comecei a ler um, mas parei. Não era apenas um autor menor, era um autor horrível. Mas você atiçou minha curiosidade sobre essa menina que não sabia ler. Depois discutimos.

Rita disse...

Oi, Rogério. Também não aguento as "caronas". Há dezenas de títulos sobre Código Da Vinci e o livro seguinte de Brown, Símbolo Perdido, teve "caronas" publicados ANTES do lançamento do livro! A Cabana achei péssimo e também larguei na metada sem dó. E agora me lembro de ter visto dois ou três livros que narravam incríveis sagas de família que criam cães, logo depois do sucessode Marley e Eu. :-)
Abraços
Rita

 
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