A Ilha Sob o Mar




Foi Isabel Allende quem me mostrou que uma dor profunda gerada pela perda de alguém querido pode ter uma imensa força criativa. A leitura de seu livro Paula foi uma experiência inesquecível para mim e a porta de entrada para sua obra com suas histórias intensas cheias de personagens formidáveis (eu já tinha visto o filme A Casa dos Espíritos e já era apaixonada pela personagem Clara, personificada por Meryl Streep, mas nunca li o livro). As críticas recorrentes em torno de seu estilo supostamente próximo demais ao colombiano García Marquez não minimizam meu prazer em lê-la, seja porque ser parecida com Marquez é um incentivo a mais, seja porque vejo certo traço nas histórias de Allende que, para mim, confere-lhe brilho próprio e faz de sua escrita algo arrebatador. Mas confesso que minha admiração pela escritora Allende se mistura com a enorme admiração que tenho pela mulher Allende, pelo menos por aquela mulher que vejo em Paula e em A Sombra dos Dias, (sendo este último o livro em que ela nos conta como tocou sua vida após os fatos narrados em Paula).

Quando comprei A Ilha Sob o Mar, no aeroporto de Recife, no dia 07 de dezembro, não poderia imaginar que dois dias depois começaria a viver a fase mais dolorosa de minha vida. Mas lembro que, dias depois, quando tentei voltar a ler o livro, achei bom ter Allende como "companheira" nessa fase. Pode parecer um pouco de delírio demais, mas de certa forma foi meio simbólico tê-la segurando minha mão e me ajudando um pouquinho a dar um ou outro passinho no meio das minhas brumas pessoais. Ler qualquer coisa escrita por Allende após Paula é uma prova viva de que somos capazes de seguir em frente após perdas enormes e que a vida dá um jeito de nos chamar a seguir. Não tenho o talento de Allende, mas sei que a memória de minha mãe me inspirará todos os dias a tentar ser forte, boa, generosa e persistente. Posso não ser uma artista, uma escritora como gostaria, mas sei que a trarei para sempre comigo e que essa companhia me dará impulsos para muitos projetos pessoais. O maior deles é ser boa mãe, mas certamente haverá outros, também, a seu tempo.

Hoje concluí a leitura d'A Ilha Sob o Mar. Dessa vez a carga emocional de minha leitura esteve prejudicada pelo meu estado de espírito, mas ainda assim gostei muito da história boa, dos personagens possíveis e também dos improváveis. Como geralmente acontece lendo seus livros, aprendi um pouco de história, emocionei-me com algumas descrições de lutas homéricas travadas por algumas de suas personagens apaixonantes. E mais uma vez fui tocada por Allende que, desde Paula, prende minha atenção pelo coração (é o professor Harrison Cobb falando com Maurice, mas quem leu Paula sabe que é a mãe Allende falando):

"Todos nós temos uma reserva de forças inimaginável
que emerge quando a vida nos põe à prova."

A Ilha Sob o Mar será para sempre o livro que eu estava lendo quando minha mãe foi embora. Mas vocês encontrarão muitas motivações para acompanhar a história da escrava Zarité, suas lutas pelo amor, pelos filhos, pela liberdade, por sua dignidade, por sua crença; a história da formação da nação negra do Haiti, da miscigenação da vibrante Nova Orleans; a história do amor desafiante de Maurice, de seu enorme senso de justiça e igualdade.

Mas não seria Allende se não falasse das dores do mundo. E por isso lhe sou grata, também, por deixar ver que é possível transformar perda em aprendizado e crescimento. Assim é.

"Caminhando e caminhando pelo mundo, irá se consolar aos poucos, e um dia, quando já não puder dar mais um passo de cansaço, entenderá que não pode fugir da dor; é preciso domesticá-la..." 



13 comentários:

Isa disse...

Lindas as mensagens do livro, amei!
Lindo post, como sempre.
Gde bj,
Isa

charlles campos disse...

Cheguei aqui pelo blog da Caminhante. Até então via a Allende com certa reserva, pois gostei muito de "Paula" mas achei que ela perdera muito a verve escrevendo livros de culinária e aventuras do Zorro, mas seu post é tão bonito e bem escrito, que começo a cogitar uma nova chance à chilena.

Abraço.

Palavras Vagabundas disse...

Rita, amo Isabel. Conhecia a Casa dos Espiritos há muitos anos e o ano passado li Paula, sou mãe e tenho duas filhas, já viu chorei baldes...
Já tinha curiosidade sobre A Ilha sob o Mar, desde do Flip, depois do que escreveu vou correndo ler.
bjs carinhosos
Jussara

Glória Maria Vieira disse...

Ai que lindo! Mais pra frente, lerei todas as indicações possíveis de leitura que você e a Juh dão, viu?!

Amo Marquez! Ele é fantástico. E olhe que nem o li o tão famoso "Cem anos de solidão" ainda... Mas Memórias de minhas putas tristes e até mesmo Ninguém escreve ao Coronel, que não é lá essas coisas, cativaram-me por demais.

/que bom vê-la assim...Buscando força, inspiração na lembrança amorosa que tem de sua Mamadi.

Tenho lido seus postes. Verdade que não tenho comentado. Mas é culpa sua, viu?! Tem me feito chorar e roubado minhas palavras, Dona Rita linda!

Mari Biddle disse...

Rita, o livro vai fazer parte de um ritual entre você e a forma de lidar com a perda da sua mãe. Acho importante vc ter escolhido a leitura de determinado livro pra lembrar de sua mãe, pra marcar o tempo. Eu também tinha um pé atrás com a Allende. Ainda bem que não tenho mais. Vou add mais esse livro a lista.

Um beijão pra ti.

Borboletas nos Olhos disse...

Gosto tanto de Allende. Gosto tanto da alquimia que você faz entre palavra e sentimento. Você me faz lembrar o que deve ser lembrado e até esquecer o que precisa ser esquecido. E isso tem sido tão importante nestes últimos tempos. Precisava que vc soubesse. Bj

Rita disse...

Isa, obrigada, querida. Se quiser o livro, é só falar.

Charlles, adoro quando a Caminhante traz alguém aqui, é uma honra... Ainda não li os livros de culinária da Allende, e acho que as aventuras de Zorro fazem parte de uma série para adolescentes, não é? Bom, eu sugiro nova chance, vale a pena. :-)

Jussara, querida, estou para lhe agradecer por palavras bem-vindas em momentos difíceis... obrigada, viu. Quero muito saber o que você achou depois que você terminar de ler, tá?

Glorinha docinha, adoro quando você comenta, mas sei que você também passeia em silêncio e quero que fique sempre à vontade. Vou gostar de saber o que achou do livro quando ler, tá? Bj!

Mari, é isso mesmo, esse livro vai ser sempre lembrado por mim como o livro que li nessa fase de minha vida. Sempre. Espero que você goste dele também. Bj.

Luciana, também gosto muito de Allende. E de você. Bj.

Beijos, pessoas, espero que gostem do suco que sugeri no post de hoje...

Rita

Anônimo disse...

Eu só li um livro de Isabel Allende, A filha da fortuna. Também é um livro cheio de emoção e de dor, por isso entendi perfeitamente a relação que você fez entre o momento e essa leitura.
Larissa

Rita disse...

Oi, Larissa. Lê Paula e me conta o que acho depois...Bj!

Rita

Claudia Magnólia disse...

eu, que sou doidinha para ler esse livro, diante do seu texto, fiquei com vontade de ler Paula. Farei isso ainda este ano.

Beijo, adorei o seu blog. Vou voltar.

Rita disse...

Oi, Claudia, seja bem vinda, volte sim, vou adorar. E leia Paula, sim, não vai se arrepender. Beijos,
Rita

Caso me esqueçam disse...

esse eh daqueles posts que eu nao leio com medo de ver o que nao devia (mesmo sabendo que voce nao conta nada, sei la). camilo leu esse livro um dia desses. inclusive, voces leram a sombra do vento quase ao mesmo tempo que ele! ele adorou. mas como ta em espanhol e... yo no hablo espanol, vou deixar pro futuro...

Rita disse...

Luci, pergunta ao Camilo o que ele achou de Florence and Giles e o que está achando de Se Eu Fechar Os Olhos Agora, tá? ;-)

Bj
Rita

 
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