A flor do meu umbigo


É claro que, vivendo no Brasil, eu não poderia deixar de saber e, por conseguinte, emocionar-me com o que ocorreu na Região Serrana do Rio. É natural que eu sinta curiosidade pela formação do ministério da presidenta, tendo eu me envolvido tanto na campanha como me envolvi no ano passado. É normal que eu tenha ficado feliz por minhas amigas que foram ver a festa da posse. Também é absolutamente banal que eu vibre com a alegria alheia, pensando na amiga que foi passear em Paris, na outra que está prestes a ter um bebê. Eu fiquei preocupada com a intensidade das chuvas aqui em Santa Catarina no último final de semana e isso também é perfeitamente aceitável. Etc.

Fiquei sabendo que anda rolando uma revolução popular importante na Tunísia e que ela pode gerar um processo antes impensável naquela parte do mundo, mas não parei para ler a respeito por mais que três parágrafos. Hoje alguém escreveu alguma coisa no twitter sobre um atentado em Moscou; uma colega comentou que várias pessoas morreram. Etc.

Tudo assim, superficial. Ouço falar, mas não me envolvo.

As boas notícias e as alegrias são mais fáceis, entram suavemente em minha cabeça, gosto de ver as pessoas bem. Mas não, não agora, pelo menos, não consigo me deter, naquele nível de detalhamento deprimente, nas notícias que envolvem tragédias e mortes e sofrimento aos montes. Eu não sei o que isso faz de mim, mas também não quero me questionar muito a respeito disso agora. Não acho que a minha dor é a maior do mundo - nossa, sei tanto que não é, sei, sim - mas ela é legítima e me permito a alienação que vem com ela. Não consigo agora sofrer por quem perdeu tanto, sou assim limitada. Como muito bem definiu a Amanda, ouvindo meus mimimis, meu mundo pessoal parou enquanto o mundo todo continuou girando, a mil. E até que eu comece a me refazer, sou essa coisa encerrada em minhas próprias saudades. Chame de egoísmo, eu chamo de perda.

Desconfio que o conforto da distância me permita a dormência: se, ao meu lado, alguém desmontar, talvez eu não sente para chorar e, afinal, faça alguma coisa. Mas ando fugindo do noticiário, numa vibe "não me contem, não quero saber".

Há vários momentos em que fujo do meu mundo, mas permaneço no meu umbigo. Tenho lido muito e apesar de a leitura ter seu lugar cativo em minha vida, percebo com nitidez o potencial de escape que ela tem assumido ultimamente. E aí pode ser sofrido, tenebroso, assustador, suave, engraçado, o que for - são outros mundos. Alimentam minha cabeça, suavizam meu coração.

O mergulho que dei em meu círculo familiar nas últimas semanas foi um prolongamento da despedida da minha mãe. Veio tudo junto, o passado, a infância, a casa, as pessoas, as cartas, as fotos. A imagem parece maluca, mas é como uma flor enorme que se abre e segue crescendo enquanto eu afundo nas pétalas e passeio por elas, tentando tocar minha mãe, sua vida, sentir ou intuir o rastro que sua passagem deixou. Eu toco as pétalas, fecho os olhos e ela vem.

E o mundo “verdadeiro” lá fora se apequena enquanto meu umbigo só cresce. Olho ao lado e só vejo a mim e os prolongamentos mais imediatos. Mas hoje acordei inquieta, com a sensação de que estou absolutamente alienada e perdida e desinformada e emburrecida. Não sei ainda o tanto que essa inquietação vai me resgatar do meu micromundo e me defenestrar vida afora. Mas é assim que me sinto hoje e gostaria muito de ser capaz de escrever sobre assuntos outros. Não é exatamente uma cobrança, que seria absurda e rejeitada de pronto. Mas pode ser um indício de que estou prestes a iniciar um doloroso processo de reconhecimento de que será preciso, cedo ou tarde, sair um pouco da flor. Ou, melhor, deixar que uma mão siga tocando as pétalas, enquanto a outra luta para afastar a cortina e me permitir dar uma espiada lá fora.

Ou, que nada, talvez amanhã eu acorde com o desejo de voltar a ser botão.
 

8 comentários:

Solange Danielle disse...

Rita gostaria que conhecesse meu blog,depois por favor me diga o que achou das minhas artes.
Abraços.Solange

Nardele disse...

Rita, você e sua habilidade de escrever macio, agradável e suave, mesmo o assunto sendo tão denso, e a dor, infinita.

Não se obrigue, permita-se passear pela flor, pétala a pétala, e tome seu tempo, o quanto precisar. Uma hora você vai sentir vontade de dividir seu tempo na flor com uma frestinha do mundo aqui fora, e vá fazendo tudo devagar, sem cobranças. O mundo não para mesmo, mas sempre se pode acompanhar as suas voltas por aí, sem perder muita coisa.

Beijo grande e carinhoso!

Nardele

José Fernando disse...

Oi Rita.
Eu acho que a gente pode dividir as notícias (as públicas e as privadas) em duas categorias básicas: aquelas de interesse imediato e as de interesse remoto. Morrerem 30 pessoas em Moscou pode ficar menos importante do que o aumento da tarifa do ônibus em Floripa. Depende de como esses acontecimentos nos atinjam. Eu também sofri uma enorme perda recentemente e nada no mundo ficou mais importante que esse fato. É assim mesmo. A barata semiviva na sua escada pode ser mais ameaçadora que um temporal lá longe.

Caso me esqueçam disse...

que nada, rita. eu seeeei que nao eh isso, mas pareceu que tu tava se explicando por estar ainda envolvida na perda da mae e nao na perda dos parentes das pessoas que perderam a vida no atentado de moscou. que umbiguismo o que? eh, o mundo deve parar mesmo pra quem perdeu alguem. e, sabendo disso, ninguem vai cobrar nada de ninguem...

Tina Lopes disse...

Sua linda, acredito que logo você vai estar generosamente, como sempre, envolvida com os problemas do mundo e dos amigos - uma capacidade sua que sempre me assombrou, positivamente, quero dizer. O tempo é tudo, permita-se ter o seu, não tenha pressa.

Angela disse...

Ha tempo para tudo. Agora o seu tempo eh para voce. Para mim tem sido assim ha anos (com algumas excecoes eh claro), mas antes disso houveram decadas que meu tempo era de todos menos meu. Nao me culpo. Nao se culpe! Acho que as mudancas sao mesmo necessarias para manter o equilibrio.

Borboletas nos Olhos disse...

Alguém pode chamer de egoísmo (você disse), bom, eu chamo sanidade e sensibilidade. A propósito, um umbigo lindo esse seu, viu. Bjs
PS. Não tem perigo de eu deixar de vir aqui, mesmo com SP à mil.

Fabi disse...

Rita, só consigo pensar no Quintana:

"A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais"

Se dê o direito de se isolar. Certa vez uma amiga disse (e mudou minha vida): "A gente precisa ficar bem pra ajudar quem não está".

Beijo, linda.

 
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