Do que existe



Há uma coisa que eu já queria ter contado a vocês antes, mas todas as vezes que começo a escrever sobre isso, sou tomada pela emoção de tal forma que preciso parar, guardar a história comigo mais um pouco e adiar o momento de transferi-la para cá. Já contei o fato a várias pessoas, porque me faz bem falar e porque acho que é uma experiência para ser dividida, já que pode fazer bem a outras pessoas um dia - assim como aconteceu comigo; mas ainda não consegui transcrevê-la aqui. Talvez eu o consiga agora. Quero contar a vocês o que aconteceu no dia anterior à morte de minha mãe.

A lembrança de alguns fatos daqueles dias, dos que vieram imediatamente antes e imediatamente depois, é um pouco confusa em minha cabeça. Lembro bem de certas coisas, de outras tenho mais impressões que lembranças. Então não sei ao certo como minha amiga Ângela ficou sabendo que minha mãe estava na UTI - não sei se ela leu aqui no blog, se eu liguei para ela ou se mandei um e-mail lá da casa da minha mãe. Mas o fato é que soube e na noite da quarta-feira, dia 08 de dezembro, ela me ligou.

Ângela me ligou porque queria se solidarizar com minha angústia, mostrar que estava comigo apesar da distância, torcer junto pela recuperação. Conversamos longamente, já que as visitas à UTI são limitadas e eu estava na casa da minha mãe enquanto seu corpo lutava com aparelhos e medicamentos para encontrar forças e seguir por aqui - não sabíamos ao certo por onde andava a consciência dela naquelas horas. Mas Ângela ligou, principalmente, para dividir comigo uma história pessoal dela e garantir que eu não deixaria de fazer algo fundamental.

Anos atrás, por causa de um acidente de carro, o pai da Ângela passou meses internado em uma UTI. Teve inúmeros ferimentos graves, inclusive edema cerebral, esteve em coma, mas reagiu, lutou e acordou. Infelizmente e de forma um tanto quanto inacreditável, depois de vencer um coma, sucumbiu a infecções que não puderam ser controladas e faleceu. E a Ângela me ligou para dizer que sua família costumava conversar com ele durante o coma, indiferente às evidências de que sua consciência estava adormecida, repousando para que seu corpo tivesse forças de se concentrar no combate ao edema e outras graves lesões. Eles seguiam conversando e, a cada visita, os papos unilaterais rolavam sem parar. Em um desses dias, o cunhado da Ângela, de forma brincalhona e tratando de estabelecer uma atmosfera positiva, desafiou o pai dela a se recuperar logo, já que havia muito a ser feito fora dali, ora, as meninas andavam às voltas com contas a pagar, coisas a resolver, e o senhor vai tratando logo de sair daqui ou pelo menos dê seu jeito e libere aí a senha do banco porque o a coisa aqui tá complicada e bla bla bla. No dia seguinte ou dias depois, não sei ao certo, no rodízio estabelecido pela família para que todos pudessem passar horas com o pai dela, a irmã da Ângela o visitou. Nesse dia, o pai delas deu sinal de melhora e falou ou balbuciou alguma coisa, aparentemente sem sentido, uma palavra qualquer. Ângela me conta que todos ficaram um pouco preocupados com possíveis sequelas geradas pelo acidente, já que o que ele dizia não fazia sentido algum - apesar de saberem que o fato de falar por si só já era algo a se comemorar. E a palavra foi repetida por ele, aqui e ali, durante as visitas que se seguiram.

Semanas após a morte de seu pai, Ângela e suas irmãs encontraram documentos, bilhetes, papéis guardados a sete chaves por ele. Precisaram, obviamente, remexer tudo, dar destino às coisas, resolver pendências. E eis que ali, em um pedaço de papel, estava anotada a palavra dita na UTI, a reação à brincadeira do genro: a tal palavra aparentemente sem nexo era a senha do banco, a resposta ao cunhado da Ângela.

Ângela já tinha dividido essa história comigo antes, mas ela fez questão de me lembrar disso naquele dia. E, como um anjo, ela falou assim no telefone:

- Rita, amanhã você entre naquela UTI e fale com ela. Não importa se ela estiver inconsciente, sedada ou semiacordada; não importa o que os médicos vão dizer a você, que ela não pode ouvir, ignore. Fale com ela porque a gente não sabe onde está a consciência dela. Ninguém sabe. Fale com ela o tempo todo, diga o que você estiver sentindo, o que você quiser dizer, dê recados a ela, diga que vocês estão lá com ela, esperando, o tempo que for, etc.

E assim eu fiz. No dia seguinte, usei todo o tempo de que dispus na UTI para tocá-la e conversar com ela. E eu nunca em minha vida vou conseguir dizer a Ângela, apesar de já ter tentado várias vezes nas últimas semanas, o quanto lhe sou grata por isso. Porque eu certamente diria uma ou outra coisa à minha mãe naquele dia, mas as palavras da Ângela e a lembrança do episódio com seu pai fizeram com que eu me concentrasse em não me calar. Então eu tentei tranquilizar minha mãe, disse-lhe que estávamos todos com ela, esperando, cuidando de tudo, que estávamos com muita vontade de que ela se recuperasse, mas que não havia pressa, que nós faríamos o que fosse necessário fazer. E que ela não reparasse, mas éramos todos chorões e que chorávamos, sim, mas que acreditávamos em sua recuperação. E lhe passei todo carinho que consegui passar, disse-lhe que a amava e escolhi as palavras mais doces de que consegui me lembrar e foi isso que dei a ela naquele dia.

Cerca de vinte minutos depois que saímos da UTI, ela foi embora. E para o resto de minha vida vou levar comigo a lembrança de pouco mais de uma hora de troca, porque vou morrer acreditando que ela decidiu parar de lutar e se permitiu ir e finalmente descansar naquele momento porque se sentiu amada, confortada e acalentada, inteiramente.

Anjos existem, sim. Tenho vários em minha vida. Há momentos em que eles me telefonam e fazem toda a diferença.

***

Se vocês não lembram ou ainda não leram, essa é a Ângela.


12 comentários:

Caminhante disse...

Meu irmão ficou na UTI um mês e depois foi para o quarto, ainda em coma, mas num nível mais superficial. Um amigo que tinha sofrido um acidente disse que o único conselho que ele poderia me dar era explicar ao meu irmão o que estava acontecendo, porque ele estava ali e passar confiança.

Quando meu irmão acordou, ele não sabia dizer como e porque, mas estava absolutamente consciente de estar num hospital e ter sofrido acidente. É importante sim, sempre.

Anônimo disse...

Rita,
Não estava conseguindo comentar os últimos posts. Me emocionei muito com todos eles. Você já assistiu Fale com ela? Eu considero um filme belíssimo.
Larissa

Glória Maria Vieira disse...

Ô minha linda! Que belo anjo caiu em sua vida, ein?! Lindo... lindo mesmo esse relato.

Angela disse...

Queria te assegurar que voce conseguiu sim expressar a sua gratidao, todas as vezes que conversamos nesse ultimo mes. Porem, caso nao lembre, voce me mandou um email, por nao ter conseguido falar comigo por telefone, poucas horas depois de ela partir. As palavras foram poucas porem o conteudo fortissimo e me causou um imenso impacto. Poucas coisas acontecem naquelas horas seguintes a partida de uma mae. Aquele email aconteceu, e eu entendi.

Sabes que tambem foi meu anjo muitas vezes nas ultimas decadas, e me sinto extremamente abencoada por isso. Envio aqui o abraco longo e apertado que ainda nao pude te dar.

Glória Maria Vieira disse...

Comentei essas duas linhas. Fechei a caixinha de comentários e resolvi voltar... Eu, até hoje, só perdi uma pessoa tão minha assim. Um amigo, sabe?! Eu tenho uma ideia do que seja o que você tá sentindo. Porque amigo e mãe não se comparam, claro. Mas eu não pude dizer a ele, mesmo se ele não pudesse ter ouvido, que eu estava ali pro que desse e viesse... fosse. Caso ele fosse como foi. Não me sinto amargurada por isso, porque ele sabia... Ele sabe o quanto de amor há em mim por ele até hoje e amanhã e depois de amanhã... e da mesma forma sua mamadi sabe e vai sempre saber...

É... Você é uma fortaleza, Rita querida!

Isa disse...

Que maravilhoso esse momento. Fiquei muito feliz em teres tido a Ângela que te deu essa força num momento tão especial. Sim, certamente sua mãe partiu por escolha dela, depois de sentir-se confortada por suas palavras.
Isso é puro amor Rita, grande bj pra vc!

Mari Biddle disse...

Rita,

li e nao tive como nao lembrar de dois filmes onde tem cenas de familiares conversando com seus entes querido em estado de coma. Sabe como nao tem jeito da gente nao fazer a associacao entre um filme visto e seu relato? Ainda bem que vc tem uma amiga tao especial pra te dar apoio e mostrar o quanto eh importante conversar com a pessoa que estah em coma mesmo que a gente nao saiba muito o que se estah fazendo ou se tem jeito correto de fazer.

Voce teve essa oportunidade de falar com sua mae e eu posso imaginar o quanto isso eh confortante.

Um beijo.

Rita disse...

Caminhante, já te agradeci e agora agradeço de novo por compartilhar sua história aqui. Bj.

Larissa, vi sim Fale Com Ela, há muito tempo. Gostei demais. Bj pra você.

Glorinha, obrigada por seu comentário docinho, viu? Te mandei um beijinho no twitter. Outro agora.

Anginha, amo você. Boa viagem de volta, cuidem-se.

Isa, obrigada. Obrigada mesmo. Bj.

Mari, algumas associações ocorrem imediatamente, né... E é isso, na verdade nunca vou saber. Mas posso acreditar, com força. E a história do pai da Ângela, do irmão da Caminhante e várias outras me dão motivos para isso; ela pode ter me ouvido, sim. Bj.

Obrigada, pessoas. Bom final de semana, fiquem bem.

Rita

lucieneteotonio disse...

É Rita DEUS coloca anjos (amigos) em nossas vidas para nos ajudar quando mais precisamos, como é bom ter amigos(anjos)ao nosso lado ,feliz aquele que tem pelo menos um amigo de verdade. bj grande.

Rita disse...

Oi, Luciene. Amigo é tudo de bom mesmo, viu. Torço que meus filhos façam grandes amizades vida afora e que sejam anjos de outras pessoas também. Beijoca, querida.

Rita

Caso me esqueçam disse...

ai, que post lindo, que mensagem linda! adorei, fiquei chorona de novo. eu acredito piamente que sua conversa esta relacionada a partida dela. eh assim. nao sei se ja te disse isso aqui, mas ha uns anos, ouvi minha mae dizer que meus avos, que estavam casados ha quase 60 anos, nao iriam viver muito tempo sem o outro. quando um partisse, o outro iria tambem. e foi assim: meu avô morreu. minha voh, que praticamente nao falava, disse "meu veinho foi embora". 8 semanas depois ela morreu.

Rita disse...

Luci, nunca vou saber exatamente o que ela sentiu de minha presença naquele dia; mas não saber pode ser algo bom, às vezes. Eu penso naqueles momentos e sempre acredito que nos comunicamos ali. Sempre.

Morro de saudades dela, Luci.

bj
Rita

 
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