Do lado de lá


Hoje pela manhã o céu ficou encoberto na maior parte do tempo, mas depois as nuvens finalmente nos deixaram ver o azul. Soprava um vento insistente e cheguei a sentir frio em meus trajes de verão, os pés enterrados na areia fria, nem parecia janeiro. O mar estava agitado, lindo; nas águas quase ninguém, um veleiro branquinho e um barco de turistas longe o suficiente para nos manter a salvo da melodia que sacudia seus passageiros. Por onde meus olhos passeavam um surfista deslizava, vendedores teimavam, ondas incansáveis repetiam seu destino barulhento; tudo, enfim, normal e bom. Ao meu lado, compondo o cenário, Ulisses me fazia companhia em nosso programinha de férias curtas. Ouvia com atenção minha conversa de uma nota só, oferecendo seu tempo, seu carinho, seu amor, com verdade e vontade. Ele me diz que vou sonhar com ela, que talvez eu já tenha sonhado e não me lembre, que talvez seja um bloqueio psicológico comum ao luto. Eu falei que ontem, por duas vezes, tive de segurar outra vez o impulso de telefonar para ela, para contar das crianças. E ele falou, como um menino, cheio de sinceridade: quando isso acontecer, liga pra mim e me conta. Vou ouvir. (E rimos, né, de imaginar a situação: pego o celular, vou para o quarto e ligo para ele, na sala. Aí ele atende e eu conto algo que vivi com ele.) 

Ele também sugeriu que eu ligasse para minhas tias para contar o que quer que fosse, para não ficar com a coisa engasgada. Mas ele sabe que não é assim. Seja como for, tentei. Hoje liguei para minhas tias, a Tia Maria e a Marilinda, que também virou minha tia. Mas a nenhuma delas contei o que queria. Porque liguei e conversei, como tenho feito de vez em quando, mas eu sabia que se abrisse a boca para dizer que estava ligando para elas para contar algo que gostaria de contar a mamãe, cairíamos todas num choro de dor e saudade e o telefone seria desligado sem muitas palavras, como já ocorreu outras vezes. Então liguei e falei de outras coisas e estou agora dizendo aqui que o que eu queria mesmo era dizer que ontem Amanda foi à primeira aula de natação dela e mandou muito bem; que o Arthur também voltou à natação e adorou a nova turma; que elas vão saber disso porque alguém da família vai ler no blog e vai contar, mas que, se mamãe estivesse conosco, elas saberiam por intermédio da vovó Berna babona, cheia de orgulho; e que assim que eu conseguir vou ligar e contar.

Também liguei para Rosa e ela me disse que já sonhou com mamãe duas vezes. Que ela aparece bem e saudável, mas que as falas nos sonhos são incompreensíveis. Minha tia também sonhou com minha mãe falante e bem disposta, comprando uma blusa para o sobrinho. Aguardo, ansiosa e curiosa, a minha vez. 

10 comentários:

Iara disse...

Rita,

Só pra avisar que eu estou por aqui, viu? E sei que, se é claro que a vida nunca mais será a mesma, essa outra vida de agora, sem sua mãe, também vai se revelar boa a cada dia. Porque você vai, com a ajuda de quem te ama, construir essa novo jeito de viver, você vai ver.

Borboletas nos Olhos disse...

Eu acho que não dá pra ligar pra ninguém, né, porque ninguém vai fazer a pergunta que seria feita, ninguém vai dar a risada que seria dada, ninguém vai ouvir e gostar do jeito que seria gostado. Mas, se quiser, liga pra mim. Pra Iara. Pra Ju. Pro Ulisses. Porque ninguém ai fazer igual mas cada um vai fazer do seu jeito. Ai, não estou sabendo te dizer. Eu acho que cada amor é único (e de mãe, então) irreproduzível, particular. Não dá pra nunca ninguém ocupar o canto. Por outro lado tudo é amor, querer bem, carinho. E quem aprendeu a amar e ser amado não pode prescindir disso. Bom, eu continuo achando que não me expressei adequadamente mas sei que sua genrosidade vai se esforçar pra acolher o que - nós sabemos - é meu jeito estabanado de dizer que gosto de você e estou aqui pro que der e vier. Bjs (estou respondendo o mail)

Angela disse...

Resolvi comentar ao inves de ligar. Medo de te sufocar! Mas meu comentario virou email. Checa la... Um beijo.

Liliane Gusmao disse...

Muito ruim a constatação de que ninguem nunca a subtituirá. Da separação, a ligação que acabou neste plano. Quando meu pai morreu senti com horror esta certeza da separação eterna, mas aos poucos aprendi a me comunicar com ele de outra forma. Não tivemos eu e ele a relação que tinhas com tua mãe ainda mais que quando ele faleceu eu era muito jovem...
Entendo sua ansiedade pelo sonho, mas isso é uma faca de dois gumes. É facil dizer daqui relaxa e espera, mas né? Ele virá! E enquanto isso sonha acordada como disse a Márcia. Não se cobre, não se frustre...
Fico menos triste sabendo que talvez essas palavras sejam um alento...
beijos

Marina Teotônio disse...

Rita, desde que ela se foi visito teu blog como se eu estivesse ligando pra ela como forma de ouvi-la através de tuas palavras. Choro quase todas as vezes, mas, só hoje consigo comentar algo...e percebo que continuo ainda sem conseguir dizer nada. Ontem a noite começamos a brincar de MASTER, e surgiu uma grande curiosidade: - Além da edição que tia comprou, as outras foram vendidas para a academia de letras???
-Também não consigo te dizer o quero, mas, ao menos, tento. Amamos você e sua preciosa família.

Luciane Curitiba disse...

Oi Rita. Que coisa boa ter um "porto seguro" pertinho, né?! Tudibom! E então vc tem dois nadadores em casa agora? Que legal!! Imagino a Amanda de maiô e touca...fofuxinha. E o Arthur, ajuda a irmãzinha na piscina? Aqui em casa temos novidade também: um cachorrinho. . .aeeeee. Tem noção da alegria da Leticia? Lembra do desenho da "Felícia", que esmagava os animais de tanto que gostava? Então, é ela!! Beijo no seu coração, menina. E beijo na crianças. E abraço no Ulisses.

Joana Faria disse...

Uma vez eu li que nós podemos sonhar com símbolos que representam uma pessoa amada. Num momento dificil da minha vida, eu sonhei diversas vezes que estava embaixo da água, mas não me afogava. Pelo contrário, era como se a água fosse um manto e eu me sentia segura e tranquila lá embaixo. Hoje eu interpreto esse mar como a minha mãe e a sua proteção.
Presta atenção nisso, nos símbolos. Talves ela já esteja aparecendo nos seus sonhos em outras formas.
Beijos e força...

Rita disse...

Iara, tenho exatamente esta sensação: a vida agora será diferente e vou aprender a viver com isso. Sei que você está aqui e fico muito sensibilizada com tanto carinho, viu? Bj!

Luciana, tadinhos e tadinhas de vocês agora, servindo de ombro para tanta choradeira. Mas é como você disse lindamente lá em seu blog: há momentos de cuidar e momentos de receber esses cuidados, né? Espero ser capaz de retribuir tanta solidariedade vida afora, viu. Beijão.

Anginha, li seu e-mail, vou te ligar. Bj.

Liliane, obrigada por suas palavras tão carinhosas, querida. Estou tentando controlar a ansiedade, mas à noite tudo fica diferente. Tive outra madrugada difícil, acordo e não quero voltar a dormir com medo de sonhar com outras coisas, com medo que ela não apareça de novo... até que desmaio de cansaço. O calor também não tem ajudado... Bom, aos pouquinhos devo relaxar e deixar que os sonhos venham, espero. Beijinos procê.

Marina, que bom você aqui, tomara que seja um entre muitos comentários, uma forma boa de "ouvir" vocês. Minha dívida com você é tão grande que nem consigo dizer. Você sabe. Muitas saudades aqui, viu? Ih, ela gostava do Master demais, era fera! Guardem nossos lugares quanfo formos aí! Beijo!

Luciane, a Amanda é louca por cachorros, mas não queremos mais um. O nosso é grande, então ela ainda não brinca com ele sozinha. Paciência... mas se um dia ela encontrar o cachorrinho da Leticia vai esmagar todinho. :-) beijinhos!

Joana, sabe que eu não tinha pensado nisso... vou tentar ficar atenta, apesar de saber que não vou sossegar enquanto não visualizar o rosto dela em sonho. Mas agradeço demais o toque, viu, mesmo. Beijo grande, querida.

Obrigada, pessoas..

Rita

Mônica Suñer disse...

Rita, muitas vezes, aqui com a casa cheia, ligo para o marido para papear... e ele está apenas no escritório, aqui em casa mesmo. Não acha tal fato absurdo, bate papo, ri, escuta minhas bobagens ou choro e muitas vezes, depois que desliga, vem dar um beijo pessoalmente. Sabermos que temos isso é maravilhoso! Liga, nem que seja para a sala. Bjs

Rita disse...

Mônica, é tão bonitinho todo mundo dizendo "liga pra mim, vou adorar". Ai, é um carinho sem tamanho, viu. Beijo grande.
Rita

 
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