A caixa e a casa



Hoje comprei uma caixa para guardar as correspondências que troquei com minha mãe ao longo dos anos e que foram guardadas por nós duas. Ela manteve meus cartões de Feliz Aniversário, Natal e Dia das Mães em meio às outras cartas, algumas delas plastificadas, além de alguns envelopes vazios dentro dos quais certamente seguiram muitas fotos das crianças. Aqui, guardei seus cartões, um telegrama enviado no dia da defesa de minha tese (que acompanhava flores), além de todas as cartas que ela me enviou enquanto eu morava ou estudava longe dela. 

As cartas que me foram enviadas por ela estavam guardadas até esses dias em uma bolsa plástica juntamente com outras cartas e cartões que, por diversas razões, acho válido manter. A razão para guardar as dela é óbvia: eram dela, eram palavras dela para mim. E essas cartas têm sido um tesouro valioso, fontes de risos e lágrimas, registros de um carinho infinito que me abraça cada vez que reabro os envelopes vezes e vezes sem fim. A partir de agora, as cartas dela e para ela habitam juntas a mesma caixa. Será meu refúgio em momentos de solidão - doloridos, mas ainda extremamente necessários.

Engraçado como nunca tive noção do volume dessa correspondência acumulada ao longo dos anos: entre cartas, cartinhas e cartões, são dezenas de mensagens, relatos, desabafos. Outros se perderam de alguma forma, porque tenho lembranças de uma ou outra carta que não encontro mais. Mas o que ficou me ajuda a ouvir a voz dela e, principalmente, traz à minha memória momentos em que ela estava feliz, descontraída, leve. Os registros de dor, tristeza ou saudade também são vários e igualmente caros para mim, porque me lembram que fui sua amiga, sua confidente, sua filha. E que ela sabia que eu a ouvia.

O cartão mais antigo data de 1976, quando eu tinha quatro anos. As mensagens mais recentes foram feitas por aqui, neste blog, e devo em breve vinculá-las à tag Berna, o apelido carinhoso com que sobrinhos, cunhadas e netos a chamavam. A carta mais recente enviei com o leque de presente em junho. Entre as últimas que ela me mandou, há uma de 2005 em que ela enviou os nomes de avós, bisavós, etc., que compunham parte da "árvore genealógica" do Arthur, que nasceria em breve. Não houve muitas cartas nos últimos anos, infelizmente.

***

A partir de hoje meus tios passam a morar definitivamente na casa que foi dela. Desejo que sejam muitos anos bons, com casa cheia de filhos e netos alegrando o espaço construído e sempre mantido com zelo pela Tia Berna. Desejo (e sei que será assim) que seu nome seja falado todos os dias com carinho e ternura, eternizando-a no espaço que ela escolheu para criar seus filhos, sofrer suas dores, ler seus livros, receber seus amigos, trabalhar, oferecer os inesquecíveis jantares de Natal, distribuir os presentes ao pé da árvore, assistir suas novelas e seus noticiários, rezar e torcer por todos nós. Envio daqui todo meu carinho e infinita gratidão por estarem comigo em fase tão cheia de desafios. Sejam felizes e tenham certeza de que ela abriria um sorriso tranquilo diante de notícia tão boa. Em meu coração, não há maneira mais viva de mantê-la na casa.

8 comentários:

Caso me esqueçam disse...

transcreve uma parte de uma carta pra gente. adoraria conhecer tua mae!

Borboletas nos Olhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Borboletas nos Olhos disse...

Rita,
este momento que você está passando me faz pensar muito...em você, em mim, nos meus afetos, na minha mãe, na sua mãe, na minha forma de fazer vínculo e lembrar das pessoas. Acho linda, dolorosa e inspiradora a maneira como você narra/vive. Eu não terei nada disso, sabe. Não tenho papéis, poucas fotos, nenhuma carta. Fico aqui pensando no que vai ocupar este lugar. Eu não sei. Sinto um pouco de medo.
Enfim, sinto saudades de você também. Já escrevi muito que queria que as letras fossem como um abraço. Hoje desejo que um beijo, às vezes, pudesse ser uma letra.

Rita disse...

Lucianas, saudades de vocês duas, viu? Fazendo esforço aqui para voltar a papear... voltar a ler vocês que me dão tanto prazer e me acrescentam tanto... Vou virar PhD em saudades... Beijinhos, suas lindas.

Rita

Anônimo disse...

Oi Rita, não posso deixar de te falar que essa mudança não está sendo tão fácil para nós, e sabemos o motivo, mas apesar da saudade da nossa "Tia Berna",estamos conseguindo cumprir esta missão da melhor maneira possível,as vezes com o coração apertado,mas com a certeza de que nunca a esqueceremos, quando nos referimos onde seus tios estão morando, sempre vem a seguinte frase:"Estão na casa de Tia Berna".
Um abraço apertado, lembranças a Ulisses, beijão para as crianças.Nilma

Rita disse...

Nilma, querida, tão bom ver você por aqui. Estou cheia de saudades de vocês todos, de nosso café (o da Rosa, claro), da mesa onde sempre cabe mais um... Preciso te contar sobre uma carta em que mamãe fala do seu meninão e do primão dele... aguarde. Beijo grande,
Rita

lucieneteotonio disse...

Rita , tenha certeza que tia Berna será lembrada por todos nós, todos os dias, e que naquela casa ela nunca será esquecida. um abração estamos aqui se você precisar.

Rita disse...

Luciene, que surpresa boa ver você aqui! Tenho lido sobre os meninos - seus filhos e sobrinhos - nas cartas dela, qualquer dia te conto. Tenho certeza de que ela será sempre assunto por aí. Estou com saudades de todos, por favor diga que mando beijos e abraços aos menininhos e meninões. Beijo grande pra você,

Rita.

 
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