Tempo, tempo, tempo


Foi o ano da grande saudade, como eu nunca havia experimentado antes. O ano em que aprendi a conviver com o fato de que o telefone iria tocar menos e de que a pessoa que mais me amou na vida não está mais aqui. Foi o ano em que senti uma parte de mim se transformar de maneira tão intensa que não foram poucas as vezes em que o fôlego me faltou. Ano de muitas, muitas lágrimas.

Houve Paris, por um mês. Um mês de conhecer pessoas com quem iniciei contatos na blogosfera, um mês de passeios inesquecíveis, um mês incrível para as crianças. O mês em que decidi de vez que a língua francesa não sairá mais de minha rotina. 2011 marcou minha decisão de estudar pra valer e não mais abandonar meu curso de francês. Também houve a Itália, igualmente deliciosa, na viagem com maior número de malas de que se tem notícia. De novo, a doce e louca experiência de viajar em família. Adoro. Paris? Na gente, pra sempre.

Foi o primeiro ano de minha filhota na escola e seu desenvolvimento ao longo dos meses foi inebriante para nós, sua plateia deslumbrada. Para meu filho mais velho, foi o mergulho fundo no mundo dos livros, das descobertas que eles trazem, do encantamento diante dos porquês. Foi um ano de bicicleta, patinete, videogame, gibis, joguinhos de tabuleiro e bonecos irados. Foi um ano de infância, como deve ser. Lindos, falei?

Foi um ano de várias leituras excelentes, livros que há muito passeavam pela minha lista sem fim. Foi um ano de palavras errantes que ainda não sei direito para onde vão, se vão, o que será. 

Foi um ano no blog, mais um. Passo os olhos por posts de meses atrás e gosto do que vejo. Da interação, dos comentários, dos próprios textos, por que não? Não são pérolas e o mundo passaria bem sem eles, mas dizem certo tanto de mim, de minha rotina - vai ser muito bom lê-los daqui a algumas décadas. Foi o ano dos presentes trazidos por este blog: além de conhecer pessoas incríveis e receber mimos pelo correio, recebi propostas tão lindas, tão cativantes, que... que... conto depois.

Foi um ano de alienação. Um ano voltado para meu umbigo, afastada das grandes questões sociais e políticas do país. Com ressaca da campanha do ano anterior, com o coração quebrado e uma vontade danada de escrever, mergulhei em mim e me esqueci de tudo. Não há orgulho, mas também nenhum remorso. Tudo a seu tempo, ainda que sejamos nós os responsáveis por permitir que o tal tempo chegue. Entre mortos e feridos, salvou-me a timeline mais antenada da tuitosfera para que eu pudesse ao menos saber o assunto quente da semana.

Foi ano de cozinha e muitos bolos. Mais um em que experimentei o prazer de encher a casa com aromas que atraem todos para a mesa. Dentre os pequenos grandes prazeres da vida, cozinhar para quem amamos está ali, no pódio.

Foi mais um ano ao lado de Ulisses. De tudo que a vida me traz, é sua presença que me deixa assim: achando a vida boa.

***

O que pretendo em 2012? Cobrar-me cada vez menos. Uma das boas coisas que chegam com a idade: acolher com tranquilidade a ideia de que não precisamos saber tudo, resolver tudo, explicar tudo. Além disso, quero amar mais, brincar muito e escrever sempre. Ver de perto cada etapa do crescimento de meus filhos. Falar francês, cantar alto no carro até o motorista ao lado julgar que sou louca, ir mais vezes ao cinema com Ulisses, nadar, andar de bicicleta, fazer mais yoga. Não há grandes resoluções nascendo agora. Meus planos para 2012 já foram rabiscados ao longo deste ano que está indo embora. Agora é só arrancar as folhinhas. E torcer um tiquinho.

Feliz ano novo a todos os leitores do Estrada Anil. Muito obrigada por tudo, vocês sabem o quê. :-)



Box of silence


De vez em quando, se quero ficar um pouco sozinha, faço uma busca em minhas caixas de quinquilharias por papéis de origami. Dobro aqui, dobro ali e, mesmo que várias pessoas estejam à minha volta, encontro meu lugarzinho de silêncio dentro de mim. 


Hoje fiz essa caixa de origami e gostei tanto. Não só do visual, mas também do processo. O que me pareceu um megadesafio quando passei os olhos pelo tutorial* revelou-se bem mais fácil e gostoso de fazer. Parece ideal para embalar um presente para alguém querido, mas acho que essa vai ficar por aqui, com badulaques de pintura das crianças, ou, quem sabe, pequenos brinquedos, presilhas de cabelo, meias, bombons. Não importa. Sua função principal já foi cumprida com louvor. Caixa pronta, voltei ao barulho das crianças, renovada.



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* O tutorial mostra papel de origami mesmo, mas para a caixa das fotos usei papel de scrap, mais grosso, mais resistente. Um tiquinho mais difícil de dobrar e encaixar, mas o resultado valeu a pena. 

Drops, presentes, portais


Passei as últimas semanas com livros da Fal. Vou lendo e, em alguns momentos, ouvindo sua voz na minha cabeça. Nas crônicas curtas d'O Nome da Cousa ou nas esquinas cascudas da vida de Alma, protagonista em Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite, senti-me como se estivesse batendo papo com ela, a autora. Como se estivéssemos, as duas, pitacando sobre os desmandos de Alma ou nos reconhecendo no cotidiano esmiuçado em Cousa. Como quando visito o Drops, os livros de Fal me trouxeram necessárias porções de boas sacadas e um tanto bom de alegria. Sem falar naquele jeito bom que ela tem de dizer as cousas. Muito amor.

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E vocês vão me perdoar, por favor, sejam generosos comigo. Não me xinguem, não me rotulem de azeda. Sei, sei, sei que é preciso desligar um pouco e se desarmar, deixar o humor entrar e, relaxada no sofá, entregar-se à boa prosa. Tá. Tô fazendo tudo isso. Mas o Verissimo cansa minha beleza com velhos jargões batidérrimos, porque, ne, tava tudo indo bem na vida de Adão, mas ele ganhou uma mulher e aí tudo desandou (zzzz....), bla bla bla, e, de novo, bateu aquela vontade de largar suas crônicas e ir jogar videogame. Na segunda página. Tudo bem, tudo bem, vou ler tudo. Não precisa brigar comigo. Minha boa vontade com ele é enorme e gostei, por exemplo, das considerações sobre o tempo com as quais ele abre seu novo livro. Mas presenteei três pessoas com Em Algum Lugar do Paraíso nesse final de ano, tô ou não com crédito pra esperar um pouco mais de boas piadas? Às vésperas de 2012? Grata. ;-) (Eu sei, gente, que ele não se importa. Mas me deixa.)


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Ganhei mais um presentinho de Natal: este post fofo da Ju Finíssima. Como não amar? Obrigada pelo carinho, viu, dona Ju? 

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Minha filha de quatro anos pega um longo cachecol, sobe na banqueta alta da bancada da cozinha e brinca de Rapunzel. A tarde inteira. Ela joga o cachecol como se fossem longos cabelos mágicos. Cria falas ou recita baixinho diálogos do filme Enrolados e vejo, a uma distância segura para não interferir no devaneio, toda a beleza da infância. Um cachecol, uma cadeira e um portal para outra dimensão, em um cantinho da minha sala. 

Rainbow shots



Meu filho Arthur e eu descobrimos que podemos colorir o mundo com as pontas de nossos dedos. Algumas esponjinhas coloridas, um lápis grafite para traços simples e nossos dedos são os itens de que precisamos para fazer ilustrações com altíssimo grau de fofura. 






A inspiração vem desses livros que a madrinha do Arthur deu para ele e para a Amanda na semana passada. Em minutos enchemos páginas e páginas de personagens, bichinhos, bichões.


Crianças podem se divertir muito com essa que é a verdadeira arte digital (hehe), mas acho cá com meus botões que todo adulto deveria aderir à prática. Pequenas doses de arco-íris inspiram, divertem e deixam a alma bem levinha. Experimentem. 



Eu me entretenho com figurinhas avulsas pelo puro prazer de carimbar o papel, mas o Arthur gosta de criar histórias. Como essa aí do cavaleiro medieval que vai salvar a princesa presa na torre, mas não pode entrar por causa do cachorrão que guarda os ovos de páscoa, etc. 
  


Cavaleiro medieval, ratinho com balões e Papai Noel em seu trenó, by Arthur. 

É só sujar os dedos e melecar tudo como se não houvesse amanhã, jantar, hora de dormir e outras coisas menos coloridas. 

                           



Sinceramente? Não acho que o mundo fique mais fofo que isso.






Minha memória continua ruim, mas as sobremesas ficaram ótimas



Receber amigos para a ceia de Natal é uma delícia. Curto tudo, desde a compra das lembrancinhas ou presentes, passando pela escolha das sobremesas à arrumação da casa. Há carinho em cada guardanapo dobrado. Passei  o dia de ontem em minha cozinha, entre açúcar refinado e raspas de casca de laranja, caramelo e flocos de aveia. Fiquei encarregada das sobremesas, da bandeja de frutas e da salada crua, o marido fez a farofa (delícia) com receita do pai dele, os amigos trouxeram os pratos principais da comilança. Cada família caprichou nos preparativos e nossa ceia ficou linda e muito, muito saborosa. Experimentei o melhor molho de laranja da Era Cristã, a farofa do meu marido poderia ser comida pura e não há beiço que não seja lambido depois de experimentar um bom crumble de maçã com maracujá - às favas com a modéstia. Seguindo a tradição que me persegue, mantive duas grandes bandejas de salada esquecidas na geladeira durante a ceia (já esqueci uma torta de morango durante uma reunião aqui em casa, no dia de meu aniversário) - sou dessas, passo longos minutos montando a salada que ficará ouvindo o burburinho da ceia lá fora enquanto ela mesma segue humilhada e desnecessária. O café programado para a madrugada também foi esquecido na cafeteira e nem pude estrear meu novo jogo de xícaras para cafezinho, ô, maldade.  

A passagem de Papai Noel foi ansiosamente esperada e barulhentamente "testemunhada" por todos. Arthur ainda está impressionado como os pacotes surgiram na sala, assim, do nada. Ele, que andava desconfiadíssimo desse papo todo de trenó e ho ho ho, aparentemente desistiu de questionar o mundo e mergulhou com gosto na fantasia. Com seis anos e meio, esse pode ter sido o último Natal em que ele de fato embarcou na lenda do Noel. Acompanhemos. 

A espera na janela.

Minha amiga está de mudança para Brasília, mas eu nem quis tocar no assunto. Só quis saber de papos leves e de aproveitar muito bem sua presença por aqui. Foi muito bom ter passado a noite de ontem com ela e sua família e pudemos ver que nossa sintonia segue firme e forte: compramos uma para a outra o mesmíssimo presente. \o/ Logo vamos trocar impressões sobre o novo livro do Veríssimo. 

Depois de uma semana para Saara nenhum botar defeito, a temperatura caiu um pouco e choveu durante a noite. Com exceção da chuva tamborilando lá fora, nenhum som vinha da rua, ou pelo menos nenhum som chamava nossa atenção. As luzes e a conversa solta da sala eram uma pequena ilha no meu quarteirão molhado e escuro. A noite foi boa. Passou pela minha cabeça agradecer aos amigos que estiveram aqui ontem pela presença de cada um deles. Talvez eles nem saibam da diferença que fizeram, do espaço que ajudaram a preencher. Deixei passar, no entanto. Eu não teria voz para concluir a primeira frase. Transformei minha gratidão em conversa fiada e atravessei o Natal com braçadas largas e firmes. Para meus filhos, sei que foi algo meio mágico e cheio de sorvete. Valeu muito.

Make it merry


Não tenho boas lembranças dos natais de minha infância. Nada traumático, simplesmente não era uma festa especial lá em casa. Minha mãe montava árvore, armava presépio, fazia cesta de Natal e tal, mas não tínhamos uma ceia festiva, troca de presentes com suspense, nada disso. O Natal virou um evento mesmo muitos anos mais tarde, quando ela passou a organizar uma baita ceia para as crianças que foram chegando na família, netos de seu irmão. Eu já era adulta e passei a curtir muito esses momentos que já marcavam, para nós duas, reencontros muito esperados, visto que eu já morava fora de casa nessa época. Foram meus melhores natais aqueles, com o pacote completo: comida gostosa, família reunida por vontade e saudades, criançada. Tudo mudou quando ela ficou doente demais para fazer as celebrações. Passei um Natal longe dela quando Amanda estava com 3 meses e adiamos a viagem que sempre fazemos no final de ano. Do ano passado nem me lembro, acho que estava anestesiada. Enfim, esse é o primeiro, de verdade, sem ela. 

Meus planos incluíam dormir cedo e pensar pouco. Mas uma amiga que está se mudando de Florianópolis sugeriu que passássemos juntas, as duas famílias, e achei uma ótima forma de me despedir dela, que vai deixar muitas saudades por aqui. Vai ser uma maneira de garantir que as crianças tenham uma noite divertida também, então vou fazer sobremesas docinhas e nossa árvore tá bem linda. Meu coração meio apagado se balança diante de tantos olhinhos brilhando por aqui, não posso negar que eles me resgatam com maestria. 

Teremos nosso Natal do jeito que for, com saudades e novas despedidas. Com barulho e luzinhas piscando. Com presentes e farofa. Sempre vou associar as noites de Natal às ceias que ela organizava, cheia de orgulho por abrir sua casa para aqueles que ela amava tanto. Sempre vou me lembrar assim, de sua casa bem cheia, da mesa grande da sala repleta de pratos pontualmente servidos, dos inevitáveis e infinitos amigos secretos, de seus comentários no dia seguinte "deu tudo certo". Sempre vai ser um pouco triste. E bonito também. 

No final das contas, o que mais quero, mesmo, é que meus filhos tenham boas lembranças da infância. Incluindo os natais, por que não?

***

Quero também que toda essa gente maravilhosa que passeia por essa estrada tenha um ótimo final de semana, curtindo o Natal na medida que interessa a cada um. Com mais ou menos simbolismo, mais ou menos significado, não importa. Que seja, sim, com alegria. Feliz Natal, gente. De coração. 

The rest


Ando devagar porque meu casulo não é muito grande. Movo os membros com cuidado para não tropeçar em nada ou quebrar alguma peça mais delicada, sabe como são os cristais (e algumas taças de memória são muito valiosas). Olho pela janelinha minúscula e o que vejo até me interessa bastante, mas ainda não me fascina a ponto de me arrancar daqui. Daqui a pouco, só um pouco mais. A temperatura anda agradável, a melodia é da melhor qualidade e os cheiros, ah, os cheiros são inebriantes. Além disso, posso cochilar sem pressa, adormecendo devagar enquanto a página desliza sobre meu colo - ando ousada, lendo apenas coisas simples que sorvo preguiçosamente. Meu casulo tem cabelos com cheiro de morango, pés descalços e mãos dançarinas. Tem também uma tristeza que certamente não seria bem compreendida da calçada pra lá. Porque é uma tristeza bonita, então convém apreciá-la um pouco mais, quase em silêncio. Minha mente está assim, aos cochichos, prestando atenção e tentando ouvir o som que vem do peito. Enquanto ouço, vou pintando um mundo mais colorido, de traços simples e com menos barulho. Quando decidir abrir a porta é certamente para lá que vou.

Ever and ever


Ufa. Vou poupá-los dos detalhes da minha faxina que começou ontem no minuto em que pus os pés em casa e ainda não acabou. Basta dizer que depois de faxinar muito a casa finalmente ficou suja. Aí foi só começar a limpar. De modo que voltei, mas continuo praticamente offline. E férias das crianças também significam menos tempo disponível para navegar na rede, mas disso não reclamo. Aliás, não reclamo de nada, tá tudo certo. Adorei visitar a Paraíba mais uma vez, apesar de cada ida lá agora ter um gosto inevitável de sombra. É diferente, meio oco. Assim como também é diferente voltar e não ligar para avisar a ela que a viagem de volta foi boa, que correu tudo bem. Mas foi muito bom ver a família, ver meus filhos interagindo com os primos, curtindo o avô, comendo comidas que eu comia na minha infância (nesse caso, falo só do Arthur, já que a Amanda costuma se manter em terreno seguro e só come o que já conhece). O ponto alto da viagem, contudo, foi mesmo o último dia.

Só na véspera de voltar para casa pude me encontrar com a Ângela, que veio ao Brasil passar o final de ano com sua família. Veio com seu marido e os dois filhos. Eu ainda não conhecia a pequena Julia, que não era nascida na visita que a Ângela fez a Floripa, em dezembro de 2007. Amanda tinha então 3 meses, era um bebê glutão; Arthur tinha dois anos e meio e ensaiou um entrosamento com o Max, o filho mais velho da Ângela, então com um ano e meio de idade. Mas agora foi diferente. Agora foi farra. Por um dia somente, mas mesmo assim. Foi a primeira vez que conseguimos fazer algo que desejávamos há um tempinho, botar os quatro juntos e deixar rolar. E foi lindo de ver.

Ver nossos filhos brincando juntos tem um significado enorme para nós duas. Costumo pensar na Ângela como uma espécie de alma gêmea. É tão fácil me comunicar com ela. Tão fácil explicar as coisas, tão confortável discutir, papear, argumentar: a gente sabe uma da outra. Nossa sintonia é algo doido mesmo. E o amor é enorme. Eu morro de saudades dela, gosto tanto de tê-la por perto. E aí teve toda a doida história de amor entre ela e o marido Pete (incluindo um namoro à distância por cinco anos), que acompanhei por um tempo até que eles finalmente ficassem juntos; houve minha odisseia com o Ulisses e ela é minha melhor testemunha, foi meu ombro tantas vezes. Então no domingo, durante o almoço num restaurante meia-boca, com garçons esquecidos e numa mesa sem talheres, o Pete perguntou se, algum dia, anos atrás, eu seria capaz de sonhar com aquela cena. Nós quatro e os filhos, ali, juntos. Não, Pete, nem em meus melhores sonhos. Cada reencontro nosso com eles é especial (essa foi apenas a terceira vez, com ou sem filhos, que nós quatro conseguimos nos reunir), mas dessa vez teve um gostinho a mais. Esse gostinho aí da foto:

Max, Arthur, Julia e Amanda.

Passamos o dia na praia, assando as crianças, comendo castanha na beira dessa piscininha infantil que integra o restaurante cujas mesas não têm colheres para servir o arroz. O sol de João Pessoa iluminou nossas conversas, o dia passou lindo, azul. À noite nos reunimos outra vez, já com saudades. Ver a mãe da Ângela mexeu comigo demais, minha mãe gostava dela e, principalmente, sabia o quanto eu gosto da Ângela. Ela teria ficado muito feliz com essa foto aí de cima. Dissemos um até já, torcendo que nossas crianças voltem a se ver em breve. De qualquer forma, é muito bom saber que, não importa quanto tempo passe até nosso próximo encontro, o carinho sempre vai estar lá. Multiplicado por quatro, aliás.

***

Mais de uma vez Ângela e eu dissemos viver em universos paralelos, onde a vida de uma reflete a da outra. Vamos contar uma coisa, a outra viveu algo parecido. Agora temos Arthur e Max, com entrosamento instantâneo; e Amanda e Julia com a mesma personalidade forte (tão lindo chamar birra de personalidade forte, né? acho fofo...). Ou seja, não parece faltar assunto no horizonte, né, Anginha? ;-)

Só emoção - fui sorteada no Fina Flor!


Gente, minha vinda ao Nordeste esse ano foi cheia de emoções. Assim que chegar a Floripa, desfazer malas, arrumar tudo, etc., conto como foi meu último dia por aqui, ao lado de amigona do peito que não via há quatro anos. Por enquanto, poucas horas antes de ir para o aeroporto, vou só contar que fui sorteada na promoção do Fina Flor!! Ai, povo, corre lá pra ver meu nominho saindo no papel (tão emocionante - nunca ganho nada em sorteios!) e ouvir a voz doce da Ju. 

Ju, querida, eu adorei, você nem faz ideia. Vou pensar com muito carinho nos nossos presentes e assim que puder, cutuco você no twitter. Beijo grande, muito obrigada!

\o/

Conchas



Há muitas ranhuras na casa onde morei no início de minha juventude. Leva tempo para remover toda a areia. 

***

Não havia marcas na areia porque eu tinha caminhado pela linha espelhada onde morrem as ondas. Entoando sua canção de sempre, a água do mar massageava meus tornozelos e apagava meus rastros. Com o frescor dos respingos em minhas pernas, tentava apreender tudo de uma vez: o verde sem fim, o azul sobre ele, o balanço de dois barcos pesqueiros corajosos diante do mar imenso, dezenas, centenas de pequenas conchas espalhadas na areia brilhante, as cócegas do vento em minha testa, as mãos das ondas em minhas canelas, palmeiras e mesmo os prédios para além delas. Tudo cabia, não havia sobras naquela manhã quente de verão.  Minha pele absorvia os raios e eu sabia que mais tarde, naquela noite, ela seria morna e levemente rubra, como minha alma naquele mês. Meus cabelos se embaraçavam e cheiravam a sal, meus olhos bebiam tudo que viam como se pudessem hidratar minha vida com aquele cenário. Parada, meus pés afundando na areia movediça que cedia ao vai e vem das águas, mirei as cabeças que pintavam o mar da praia vizinha e me senti grata pelo vento que carregava as vozes para longe de mim. Olhei para minhas mãos. Seis conchas se amontoavam e tilintavam, todas já lavadas ali mesmo, nas ondas que se quebravam aos meus pés. Três praticamente idênticas, com manchas uniformes em vários tons de marrom e preto, uma rosada como romã, uma perolada como cetim e outra bege, áspera, grande, ocupando metade da palma de minha mão. Uma concha é uma ex-casa e gosto de pensar que alguém partiu porque ficou grande. Ou porque sua forma não o permitia mais viver ali. Ou porque a vida é assim mesmo e conchas cumprem seu prazo de validade para depois serem levadas à praia onde compõem aquele quadro que me enebriava. Revirando meia dúzia de conchas abandonadas em minha mão, pude perceber que, apesar de tê-las banhado cuidadosamente minutos atrás, muitos minúsculos grãos de areia ainda incrustavam suas finas ranhuras. Pensei que tudo bem, algumas casas precisam de tempo para ter todos os rastros apagados, enquanto seus ex-moradores exploram outros chãos, outras casas. E as marés garantem: é tudo a mesma areia.


Ela e o oxe


Leio o blog dela. Gosto muito, seja pelas gargalhadas, seja pelas reflexões, ou pelos socos. Ou puxadas de tapete. Ou por links impagáveis que só ela traz. Leio o blog dela. Leio os tweets dela e é tão bom, como se ela estivesse ali, no telefone. De vez em quando ela está no meu skype e todo mundo sabe por causa das minhas risadas. Ela entrou na minha vida, explico depois. Agora estou lendo os livros dela. Falo depois. 

Terminei esse aqui:

O nome da cousa, Ed. Komedi.

E estou agarrada com esse aqui:

Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Ed. Rocco.

***

Do sotaque:

Em poucos dias o Arthur já falou "oxe!" mais vezes do que eu, paraibana, que vivi aqui por quase 26 anos. E eu, com marido mineiro, criado entre Juiz de Fora, Manaus e João Pessoa, olho para meus pequenos catarinenses e morro de rir dessa minha família de brasileiros. Adoro salada.


Maresia



As férias já me deram:


Canjica, tapioca, cuscuz e arroz de leite;
A manga mais doce;
O mamão mais doce;
O abacaxi mais doce;
Campeonatos de esqui, dardos e descidas de corredeiras (kinect);
Saudades;
Flores;
Sorvetes;
Cinema;
Rede no jardim;
Mar verde, areia limpa e céu azul;
Muitos, muitos primos;
Lágrimas e mais flores;
Fins de tarde mirando margaridas brancas e pensando que a vida é maluca;
Mimos e bolinho de goma;
Biscoitos da minha infância que ainda têm o mesmo sabor;
Sotaques;
Jujuba;
Dias e dias sem maquiagem, sem salto, despenteada;
Relógios esquecidos;
Crianças dormindo tarde;
Conchinhas catadas na areia e, com elas, memórias tão antigas quanto o cheiro da maresia.




(Há amigos queridos a caminho. Mal posso esperar.)



Casa grande

Olá, mundo virtual, tudo bem? 


Então ficamos, as crianças se apresentaram e valeu muito a pena ter adiado a viagem por um dia. Não só porque a apresentação foi bem boa mesmo, mas principalmente pela alegria das crianças. Amanda estava linda de Chapeuzinho Vermelho, seguiu a coreografia com graça e perfeição, e a fantasia é atualmente sua roupa preferida. Arthur foi uma entre as muitas araras azuis de sua turma num número inspirado no filme Rio e, olha, vê-los dançando com samba no pé (imaginem) foi a coisa mais divertida ever. No dia seguinte, embarcamos para o Nordeste.

Viajamos no dia 09, um ano depois de me despedir de minha mãe para sempre. Entrar em sua antiga casa, onde hoje moram meus tios, foi uma prova de força. Sua poltrona mudou de lugar, muitos móveis são diferentes, as plantas estão maiores e sua voz não ecoa mais aqui. Mas é ela em cada canto. Em cada lugarzinho. 

O cemitério agora faz parte de meus passeios e as crianças gostam muito de encher o túmulo de flores. Amanda leva flores "para ela não morrer mais". Arthur já entende que viramos pó e que o amor fica. 

Minhas crianças estão certamente passando as melhores férias de suas vidas, cercados de primos por todos os lados. Agora que a idade já os permite interagir nas brincadeiras mais elaboradas, a identificação aparece e o entrosamento da criançada (são seis ou sete crianças pela casa o dia inteiro) me traz ótimas lembranças de minhas próprias férias de infância - e sei que estão felizes.

A conexão anda lenta, não sei o que se passa no resto do mundo, nos outros blogs, na minha timeline do twitter. Minha conta de e-mail vai explodir. Sei que logo vou matar todas minhas curiosidades, mas, por ora, estou curtindo tios, primos, sombras de minha mãe pela casa, tapiocas, canjicas, jogos e muita conversa. Toda pequena alegria vem seguida de "ela adoraria". Todos dizem que Amanda é a minha cara, da mesma forma como diziam que eu era a cara dela. Gosto assim.


Minha saudade tem forma de vontade de conversar. Penso nela caminhando pela casa, como fazia antes de ficar tão doente a ponto de não poder fazê-lo. Penso nela dando ordens, guarde isso, calce o chinelo, feche a torneira, vá ao banco, venha cá. Penso nela babando os netos, feliz com minha chegada, lamentando minha despedida. Penso nela falando alto, chamando para o jantar, vendo o jornal e dizendo que o mundo está perdido. Penso nela logo ali naquela mesa, bebendo café com leite. Falando ao telefone, Ritalice chegou. Cheguei, mãe. E essa casa nunca foi tão grande.

Update


Adiamos a viagem por um dia. Minha Chapeuzinho Vermelho e meu Pássaro vão se apresentar.

:-)

Coragem


Contei as horas durante o dia para poder dizer "estou de férias". Quando o final da tarde veio, segui para o colégio das crianças para buscá-las. Lá conversei com a professora de meu filho e meu coração se quebrou em mil pedacinhos ao saber o quanto ele se sentiu chateado durante o penúltimo (ou último) ensaio antes da apresentação do final do ano. Ele não irá participar do evento que encerra o ano letivo, na próxima quinta-feira, dia 08. Nesse dia estaremos voando para o Nordeste, para a casa de minha mãe. O dia seguinte marcará um ano da morte dela e planejamos a viagem para estar lá na sexta-feira. Ainda não sabíamos da data da apresentação das crianças quando compramos as passagens, nem sei se teríamos feito diferente se já soubéssemos. Estar ou não estar lá no dia 09 não muda muita coisa, mas eu quis assim por razões que eu mesma desconheço. Agora lamento tanto privar meus filhos da festinha de encerramento na escola. Seria a primeira apresentação da Amanda, que, segundo a professora, tem na ponta da língua a musiquinha e na ponta dos pés cada passinho. Seria um momento especial para o Arthur, todo empolgado, ele que tem cantado a música tema de sua participação há semanas. Morro de pena. Eles já sabem. Fazem bico, mas logo mudam de assunto, desconfio que sofro mais que eles - não consigo evitar. O Arthur participou de quase todos os ensaios, mas as professoras que estão organizando entenderam que ele não deveria participar dos últimos para não confundir os colegas que o seguiriam na apresentação. No ano passado, não pude estar presente; enquanto ele dançava, eu acompanhava minha mãe na UTI, torcendo, esperando. Não quero que eles percebam o quanto estou triste pela infeliz coincidência nas datas, talvez nem tenha para eles o peso que suspeito. Enfim. Estou de férias.

***

"Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e cacos. Passado e futuro. (...) Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos. Livre."

Hoje concluí a leitura d'As Meninas, de Lygia Fagundes Telles (Ed. Rocco). Lia, Lorena, Ana Clara; e Lygia, conduzindo com suas letras afiadas as vidas dessas meninas, dando-lhe cargas pesadas demais, humanas demais. É tanta angústia e, talvez por isso, tanta beleza. Porque não é mesmo assim, há um punhado bom de beleza na tristeza? É o que dizem. É o que nos diz Lorena com seus amores invisíveis e suas histórias que não sabemos se são ou não são; ou Lia, com seu mundo todo por transformar e tantos inimigos no caminho; ou Ana, que prefere olhar pro lado e imaginar cenários. Ou eu, que leio, sinto e acho mesmo que a tristeza pode ser uma semente. E que a ampulheta quebrada é uma linda imagem.


***

Eu vou. Vou com medo, muito medo. Mas vou. Vou entrar na casa que ela construiu, onde morei, onde cresci, de onde parti com sementes nos bolsos. Não há ampulhetas quebradas, o tempo escorre e escapa, sim, mas dentro de mim: volto e toco meu passado. Não é a própria definição de coragem, enfrentar nossos medos? Eu vou.

Ao alcance do abraço



Em pé: Iara, sua amiga Margareth e Bia.
Sentadas: Mari, eu, Lu e Dani.
Ao fundo: um monte de gente que a gente não conhece.


Meu voo saiu cedinho. Li um pouco no avião, dormi outro tanto, ouvi um bebê chorar, pensei nos meus pequenos dormindo em casa. Um pouco manhosa por abrir mão de um domingo com minha família, segui para Brasília. A ideia era passar o dia batendo papo com amigas que, até então, conhecia de blogs e tuitadas, pessoas cuja companhia aprendi a curtir de longe, que têm me brindado com papos deliciosos (como se conversa nesse mundo, meldels), risadas, textos lindos, lindos, lindos. Pessoas a quem chamava de amigas, sem nunca ter tocado ou olhado no olho sem a intervenção do skype. Pessoas que já moram no meu coração (oi, Lu, tudo bem?), que admiro há meses (e aí, Iara?), gente de cabeça boa e coração largo. Fui.

No aeroporto me esperavam Bia, Iara e Lu. Três blogueiras que para mim agora têm vozes e trejeitos, sotaques e risadas sonoras, balançadas no cabelo e histórias, histórias, histórias. Foi muito bom conhecer todo mundo. Encontrar a Lu, por exemplo, foi mais que conhecer pessoalmente alguém cuja afinidade já se revelara na internet. Encontrar a Lu foi como reencontrar uma velha amiga, como se ontem estivéssemos nos vendo pela milionésima vez. Um presente que esse blog me deu, pra toda vida. E cada um delas me trouxe mais: a espontaneidade da Iara brilhante, a voz gostosa da Bia com sua caaaalma, delícia. Mas ainda tinha mais. 

Depois do café da manhã na padoca, seguimos para um restaurante onde iríamos encontrar ainda a queridíssima Dani e a poderosa Mari com seu filhote lindão. Passamos praticamente o dia inteiro sentadas conversando sobre tu-do. O dia passou voando, a chuva molhou a cidade, o campeonato de futebol acabou e a gente lá, papeando. Conhecer Dani (doce doce doce) e Mari (atacada e sangue bom) também era desejo antigo e elas são, sim, uns amores. Meu povo, como tem gente boa mundo afora. 

Foi pouco tempo, mas foi muito bem gasto. Voltei com a certeza de que esse blog é algo muito valioso. Quando comecei, nunca imaginei que meu caminho fosse se enriquecer tanto. Beijo, meninas.

_____

Nota mental: pegar o telefone dos amigos "antigos" que moram em Brasília. 


Colo


E eis que dezembro chega com suas sombras. Costumo fazer pouco caso do calendário, mas dessa vez não tive chances. Dezembro chega e seus dias se anunciam pesados. Hoje ventou muito forte nesta ilha, ventou muito mais dentro de mim. Arrastada para o último dezembro, revivo hipnotizada esses dias em que, um ano atrás, eu tinha tanta esperança. 

2011 foi um ano de montanhas russas. Dos penhascos mais profundos cavados pelas saudades e solidões de janeiro, fui alçada por mãos generosas para uma superfície que ainda me é tão cara. Minha vida segue sem minha mãe, mas dizer isso é tão difícil. Do que é feita essa magia da linguagem? Por que expressar uma dor que mantemos nas gavetas da alma nos faz chorar tanto? Minha vida segue sem minha mãe, escrevo e me vejo descendo os declives novamente. Tanta falta. O telefone tão mais quieto.

Na semana que vem vou rever nossa casa, onde passei parte de minha infância, onde cresci e de onde parti deixando a mãe mais saudosa do mundo torcendo por mim. Não há preço para isso, ter alguém a quem você possa sempre atribuir torcida constante, suporte, porto. Seu amor chegava aqui em ventos bons, em palavras certas. Seu amor me dava um conforto indescritível. Seu olhar de mar me dava o mundo, fui muito, muito amada. 

Há algumas semanas me cerquei de fotos antigas, molhei muitas. Selecionei algumas em que ela aparece com pessoas que fizeram parte de sua vida, imprimi um pequeno álbum para que amigos e parentes próximos possam guardar de lembrança. Sempre me impressiono com a quantidade de fotos que ela tirou em sua juventude, em um tempo onde "tirar um retrato" exigia agendamento com um fotógrafo e uma boa dose de produção beirando o cinematográfico.  Sempre gostei dessas fotos antigas, dos lenços no cabelo, da cintura marcada, dos sapatos altos ressaltando suas pernas torneadas, tão famosas na cidade. Olho e tento associá-las às histórias que ouvi na mesa da cozinha: teria essa foto sido tirada no tempo daquele namorado especial? seria essa a amiga mais querida? com que sonhava essa moça bonita? onde comprou esse tecido? quem costurou esse vestido? a que festa iria? Tanto assunto. Poderíamos ficar naquela mesa por anos, o mundo girando ao nosso redor, a tagarelice ininterrupta: ela, orgulhosa de seus feitos, narrando tudo com brilho no olho; meu coração prestando atenção.

2011 trouxe projetos que já contei a ela inúmeras vezes em minhas conversas inventadas. Trouxe viagens divertidas que teriam gerado horas infinitas de papos ao telefone, muitas recomendações e preocupações com os netos soltos "nesse meio de mundo". Trouxe muitas lamúrias também e a tudo ela teria ouvido com paciência e solidariedade. Não mais. Perdi minha torcedora mais fiel, minha amiga mais verdadeira. Perdi e agora renovo lembranças, invento conversas, choro todas as lágrimas que me cabem, espero paciente o coração se desapertar - e ele volta ao ritmo, a vida é tão generosa comigo. Mas ficam as sombras dessa saudade sem fim, dessa pintura incompleta, uma história inacabada. Insisto em lembranças boas, choro quando as difíceis me dominam, lamento, supero e choro tudo outra vez. Dor faz parte da vida, carrego a minha da única maneira que sei, um jeito que aprendi: dando-lhe colo quando ela me pede. 

As fotos me olham, ouvem caladas e enxergam fundo dentro de mim.

Berna, tão linda.




 

Como réveillon




Faz dezessete anos que conheço você. Já aprendi que contar assim, em números, mal toca a superfície do que realmente significa ter você em minha vida há tanto tempo. Deixemos os números de lado então. Quero medir em aprendizado. E em ternura. Quero medir em generosidade, em grandeza de espírito. Quero medir assim, de braços totalmente abertos esperando seu abraço quente, e, então, minha cabeça em seu peito: ali, onde a vida é calma porque seu amor me preenche. Posso brincar disso a vida inteira só para redescobrir com um sorriso tranquilo o que já sei desde o dia em que vi você pela primeira vez: não há como marcar exatamente o espaço que um amor assim ocupa. Não há. Porque começou com um susto, um salto no peito, uma reviravolta na alma, uma respiração suspensa, a Terra em dúvida: como seguir? E se não? Depois veio a tempestade boa, a chuva grossa caindo na minha cara e eu olhando pro céu e me encharcando inteira de você: sempre. E aí tudo se misturou, susto, tempestade e toda a bonança, o amor semeando um tanto de cada, todo dia, e nossa vida se faz. E te amo mais. E mais. E sonho com você, mesmo tendo você dormindo ao meu lado, porque o amor faz assim, exagera. E fica isso, essa festa, essa alegria de toda hora se lembrar e pensar, ai, que bom, ele está aqui. Eu pensava, lá atrás, como seria bom seguir junto; como seria bom descobrir o mundo com você, construir nossos castelos, lutar nossas batalhas. Pensava, imaginava, mas, no fundo, não fazia ideia. Não poderia jamais imaginar essa alegria constante, esse prazer sem fim que é dividir a vida com você. O que desejo para você em seu aniversário não difere muito do que desejo todo dia, você sabe. Nossas festas na alma ignoram o calendário. Mas é tão bom ter um pretexto oficial para paparicar você, quem resiste? Desejo um dia de amigos e abraços, de telefonemas doces e palavras boas, de criança em seu pescoço beijando suas bochechas e gritando rá ti bum papai papai, de bolo e tim tim. Desejo saúde, mais e mais, luz, amor imenso e alegrias infinitas. Desejo que eu tenha a honra de celebrar ao seu lado cada um dos muitos aniversários que virão. Desejo que você se sinta tão amado que lhe faltem as palavras - naqueles momentos em que seus olhos dizem tudo. E meu mundo parece um céu de réveillon. 


Feliz aniversário, meu amor, minha vida, Ulisses.


Te amo.
Rita


29/11 - dia de festa

Pula!!


O final de semana tem sido emocionante. O momento mais light do sábado já foi uma manhã cheia de emoções daquelas que ninguém suporta. Ninguém, salvo pais e mães babões que se deslocam para a escola do filho em plena manhã de sol para ver os pimpolhos cantar e exibir os trabalhos feitos em sala de aula ao longo do ano. Depois de uma manhã de óóós e áááás entusiasmados, acabou-se a tranquilidade.

Passamos boa parte da tarde e da noite descendo corredeiras alucinantes em um botinho sem qualquer segurança e sequer colete salva-vidas. Pulamos de cachoeiras impressionantes e, olha, nos saltos mais ousados chegamos a surfar nas nuvens. Entre uma corredeira e outra, experimentamos um carrinho rapidão que nos conduz por um trilho cheio de obstáculos. Para não perder a cabeça ou um pé, toda atenção é pouca. Quem escapa ileso pode experimentar alguns minutos em uma cela de vidro posicionada no fundo do mar e se defender de tubarões que a toda hora ameaçam quebrar o vidro... etc etc etc etc. Todos molhados de suor, ofegantes, gargalhando. Uma família inteira e mais uma porção de amigos viciados no fabuloso kinect. Acho que nunca mais vou pegar num controle remoto de videogame na vida. (Pra quem ainda não conhece - eu mesma só conheci o troço na semana passada - o kinect é um jogo que dispensa o uso de controles; todos os movimentos dos jogadores são captados por uma câmera que nos lê e, assim, os personagens na tela somos nós. Olha, delícia.)




Não sei voar, mas...


Minha filha adora bichos, plantas, terra. As flores são suas cúmplices e os cachorros seus amigões. A natureza é o reino onde ela saracoteia absolutamente à vontade. Então uma declaração de amor dessas tem muito peso e me sinto muito honrada:

- Mãe, eu amo você, as borboletas e as abelhas. 
<3




Quando o melhor é perder a piada


É tremendamente fácil, no meio em que vivo - na minha família, no trabalho, entre amigos - esquecer por completo a questão da violência contra a mulher. Não vivo em uma família com histórico de violência. Sou casada com um marido feminista (né, mô?), não convivo atualmente com nenhum casal que tenha enfrentado qualquer conflito desse tipo, não falo sobre o assunto no trabalho, não testemunho casos de agressão. A violência contra a mulher é praticamente invisível, parece mesmo que inexistente, nos espaços por onde normalmente circulo. Não fosse a internet, a mídia em geral, eu poderia apostar que o troço é coisa do passado. É só me manter desatenta.

Na chegada desse 25 de novembro, mais um dia de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, quase desisto de escrever sobre o assunto, já que dezenas de ótimos textos vão pipocar internet afora nas próximas horas. Tanto será dito, muito melhor e mais embasado do que quaisquer dados que eu queira apontar aqui. Quase desisto. Até que me lembro: das sutilezas. Das piadinhas. Das falas carregadas de misoginia que escapam quase sem querer e, puf, arregalam meus olhos. E ainda que os piadistas jamais cometam um ato sequer de violência física, ainda assim contribuem para a banalização do tema e o conforto dos que vão além da agressão verbal. A violência não nasce do nada. Antes da mão erguida, do gatilho puxado, existe o discurso. Um homem que mata pela "honra" não inventou o motivo de seu crime sozinho, em sua cabeça desocupada e mal resolvida. Ele encontrou no meio social em que está inserido o suporte para levar seu machismo a limites insustentáveis. Ali, na aura que se mantém em torno de piadas e discursos machistas. Ali, numa sociedade que parece moldada para enxergar o corpo da mulher com uma única e insubstituível função: satisfazer os desejos masculinos. Ali, no mundo que ainda hoje, em 2011, celebra a virilidade dos garotos e julga com dedo cristão a sexualidade das meninas. Ali, na vida que diz ao agressor, todo dia, que ele detém os poderes sobre as escolhas de sua companheira. 

Não dá para fazer pouco caso do poder da palavra. Nossas falas moldam nossas vivências porque nos representam e disseminam nossas convicções, opiniões, acertos, equívocos. Indo mais longe, posso cometer um crime com minha boca ao proferir uma fala racista; posso caluniar; posso ferir; posso humilhar. Ou posso ser mais sutil e "apenas" preparar o terreno para que as assertivas mais violentas encontrem espaço e se consolidem. Assim, posso fazer piadinhas misóginas e, literalmente, rir da desgraça alheia. Porque a misoginia muitas vezes está na base de muitos casos de agressão à mulher. Posso difundir piadas de cunho machista, pseudomoralistas, e perpetuar o controle social sobre o corpo da mulher, sobre sua sexualidade, tolhendo seu direito inalienável de vivenciá-la como bem lhe aprouver. Posso oprimir com piadas. Posso quase justificar agressões. 

Há alguns meses, não me lembro se através da lista de discussão das blogueiras feministas, ou se através da minha ótima timeline no twitter, conheci um site que divulga a articulação de um grupo de homens engajados em diminuir os índices de estupro e agressão doméstica. Acredito que esse é um momento mais do que oportuno para divulgar o site Men Can Stop Rape. É uma boa hora para difundir a ideia de que homens sensíveis ao tema têm um papel fundamental na diminuição da violência contra a mulher. Juntos, podemos avançar no combate ao discurso misógino e machista que, muitas vezes, alimenta a triste cadeia de agressões diárias que vitimam milhares de meninas e mulheres mundo afora. Quem se detém por um minuto a analisar os números horrorosos dos índices de agressão doméstica não tem dúvida: piada machista não tem a menor graça.  



Le coucher de soleil


Imagem: Le Petit Prince, online.

Sigo lendo Le Petit Prince em minhas aulas de francês. Já avisei ao meu professor que posso ser Miss Aluna, porque, né, toda miss que se preza adora o livro. À medida que avanço na história vou me lembrando porque gostei tanto nas vezes em que o li há zilhões de anos. E vou amando de uma maneira toda nova porque, mon dieu, que idioma lindo. O Pequeno Príncipe adora o crepúsculo. Mas Le Petit Prince ama le crépuscule. Crépuscule - muito amor por essa palavra já queridíssima em português, mas que, em francês, carrega todo o lirismo desse mundo. E dos pequenos mundos do petit prince

Então no capítulo seis ele fala de seu amor pelo pôr do sol. E de como o pôr do sol alivia sua tristeza. Fico imaginando a cara do Exupéry criando essa pequena passagem e sorrindo: "uau, fiz um troço lindo!". Quase levito: de repente, ele quer ver o pôr do sol. O aviador responde: é preciso esperar. Mas esperar o quê, pergunta o príncipe, intrigado. A hora do pôr do sol, ora. Ah, é que no pequeno planeta onde o pequeno mora não é preciso esperar. O planeta é minúsculo e, se você quer ver o pôr do sol de novo e de novo, basta mover a cadeira um tantinho mais pra lá. E mais pra lá. E assim ele segue amenizando sua tristeza.

E um dia, ele viu o pôr do sol quarenta e três vezes. (*suspiros*)

E não há dias em que veríamos mais e mais? Se pudéssemos? 


Cores de pele




Na escola onde meus filhos estudam o lápis de cor bege é conhecido com cor de pele. Eu estranhei a primeira vez que ouvi o termo, mas não dei muita bola. Achei esquisito, mas deixei pra lá. O tempo vai passando e o que nos incomoda cedo ou tarde se torna espinhoso e a gente verbaliza. Então num dia qualquer falei para os meus filhos que aquela denominação estava errada, o nome da cor é bege. Ou rosa clarinho, como quiser. Qualquer coisa, mas não é cor de pele. Porque pele pode ter várias cores, tanto mais num país arco-íris como o nosso. A pele pode ser vermelha, marrom, preta, branquela ou amarela. Pode ser bege também. E pode vir em muitas nuanças. E brinco e digo que o marciano é verde, olha aí, bege não serve. Nenhuma cor é colorida o suficiente para merecer o título de cor de pele. Não aqui, nesse país. E vou aí na campanha, porque acho que é importante. De vez em quando, eles repetem: cor de pele; vou lá e digo nananinanão, isso aí é bege. Tanta gente diria: "que bobagem".

Daí a filha de 6 anos de minha amiga voltou para casa chorando porque ela estava "namorando" o (único) amiguinho negro da turma e suas amigas tinham dito que ela não podia fazer isso. As amiguinhas estavam pressionando. Não pode. Porque ele não é "cor de pele". Esse episódio, que gerou um nó no meu estômago e indignação na minha amiga (que conversou com a professora), é um grito pra mim. Um grito de que não, sinto muito, eu até gostaria que fosse bobagem, mas não é. É a bolha. A grande bolha opaca que nos impede de ver além dela. Meus filhos estão crescendo com o pé nessa bolha. Então o assunto me interessa demais e o dia da consciência negra é muito meu também. Porque a gente precisa, por muitas razões, passar aos nossos filhos um discurso que não exclua ninguém pela cor da pele. E, quase desnecessário dizer, não estou demonizando as crianças da turma - elas apenas reproduziram um lógica muito clara para elas. Estou, sim, salientando o que um episódio como esse evidencia: é muito mais do que ser politicamente correto. Muito mais. É da infância de qualquer cor que estou falando. (Eu ia falar do fato de o garoto ser o único negro na turma, mesmo levando em conta o fato de que moro no sul de maioria branca. É maioria, mas não é quase totalidade. Eu ia falar, mas vou só ecoar a Iara.)

Outros textos da blogagem coletiva pelo Dia da Consciência Negra aqui.

E, professores, atenção: é cores; no plural. ;-)





Para as montanhas


Não sei o que passa na cabeça de um criador de roupas infantis ao conceber uma blusa para meninas entre 6 e 10 anos com bojo na altura do peito. Simuladores de seios. Eu já tinha visto gente falando do assunto no twitter, mas nunca tinha visto uma peça dessas. Ontem vi. Fui comprar roupas para meus filhos e estava aguardando a moça do caixa fechar a conta. Daí fiquei com aquela cara que a gente faz enquanto faz contas mentais, tentando calcular se o vestido maravilhoso de florzinhas vermelhas tá num preço razoável. Enquanto fazia contas, olhava ao redor, espiava uma arara e outra. Aí vi as tais blusas. Minúsculas, em estilo tomara-que-caia, com bojo. A palavra freak me veio instantaneamente à cabeça e tenho certeza de que fiz uma careta. Fui até o cabide e examinei, tamanho 6. Peguei a blusa e perguntei à gerente, que estava ajudando a moça do caixa, se ela me permitiria fazer uma crítica, bem na boa. Ela disse um claro! bem animado. Então falei que achava um absurdo elas colocarem aquele tipo de roupa à venda. Que aquilo erotiza a infância, que uma menina de seis anos não tem seios (grandes!) e não há razão para que finja que tem. Ela me respondeu dizendo que eu estava com a razão, mas que outras mães gostam e compram e bla bla. Bom, eu não esperava grandes respostas dela, queria mesmo era registrar meu desconforto diante daquela coisa triste.

De lá para a loja de sapatos. Até a vendedora me oferecer uma sandália de salto para minha filha de 4 anos foram, no máximo, cinco minutos. Olha, Brasil, que saco.

Bem na semana em que minha filhota chorou porque ela não usa batom, mas a Fulaninha, a Cicraninha e a Beltraninha, todas de 4 anos, usam.

Vontade de sair correndo.


Beleza interior e meu piloro centrado


Daí que na semana passada tive maus momentos. Uma dor forte, na altura da garganta, resolveu me tirar o sossego. A suspeita inicial foi, como já falei, mais uma laringite para minha coleção. Eu havia acabado de curar uma, achei que tivesse voltado. A médica que me atendeu nessa última laringite tinha sugerido que eu procurasse um gastroenterologista, para dar uma conferida na extremidade do esôfago. É que, durante a laringoscopia, ela tinha percebido o senhor esôfago levemente irritado (laringoscopia: o nome é feio, mas o exame é tranquilo; o médico enfia um tubo láááá na sua garganta enquanto segura a ponta da sua língua para poder enxergar o âmago do seu ser - como falei, bem tranquilo). Bom, quando a dor pegou pra valer, fui a outro otorrino que confirmou o diagnóstico do primeiro: garganta okay, esôfago estranho. Tá bom, tá bom, vou ver um gastro.

Fui a uma médica que me ouviu atentamente e fez o que todos os gastroenterologistas fazem, pediu uma endoscopia. Enquanto isso, eu já tomava um remédio para controlar a acidez que, de acordo com a suspeita dos dois otorrinos e da gastro, seria a causa da tal irritação do esôfago. No final de semana a dor pegou pra valer. Na segunda-feira senti uma melhora considerável e fiz a tal endoscopia (zero stress, apaguei com a anestesia e acordei me sentindo ótima). Fiz um hemograma completão e hoje voltei à médica para saber da endoscopia. O resultado foi muito bom, mas não conclusivo. A endoscopia revelou uma gastrite levíssima, coisa tola que o remédio para controle da acidez já vai resolver. Revelou também que meu esôfago é lindo de morrer, todo preservadinho e tals, um fofo, nem sombra da irritação observada pelos otorrinos. De quebra, fiquei sabendo que tenho o piloro bem centrado - não me perguntem - além de outros detalhes legais, como não sei o quê preservado e não sei que lá sem alterações. Enfim, sou linda por dentro, coisa que o hemograma corrobora com meu colesterol bonitão. Mas. Tem um mas. A dor não veio do nada, segundo a médica. Eu até já tive uma dor que não era dor, mas não parece ser o caso dessa vez. Porque é possível ter a doença do refluxo sem que seu esôfago exiba as cicatrizes. E apesar do hemograma ser simpático, existe uma infecção mequetrefe na parada, cuja localização desconhecemos (sinusite ou qualquer coisa nas vias respiratórias descartadas). Então sigo tomando o tal remédio, evitando café e chocolate (oi?), tomando um antibiótico para a infecção e aguardando o desenrolar da tal dor que agora se resume a um leve incômodo. Essa sou eu, de piloro centrado, linda por dentro, com uma dor misteriosa na garganta.

Às vezes acho que já vi esse filme. Nossa cultura de tomar remédio talvez me impeça de ser mais paciente, esperar e não tomar o antibiótico, suspender o controle de acidez e ver qual é. Não ouso, sigo o fluxo. Em meio a tudo isso, uma médica com atendimento completamente acima da média (pelo menos para mim). Consulta detalhada, com atenção ao meu histórico e ao de minha família, papo olho no olho, paciência, pontualidade. O retorno manteve a qualidade da primeira consulta. Saí do consultório com o número de seu celular para avisar sobre o resultado do raio-x que ela pediu para descartar infecções no sistema respiratório. Tentei ligar, mas ela  não pôde atender; uma hora depois me ligou de volta e me pediu para mantê-la informada nas próximas semanas. :-) Olha, só em final de gravidez uma médica me pediu para  mantê-la informada. Enfim, sigamos.

Daí você descobre que toda fruta que você ama é ácida, que consegue viver bem com um café (com leite) por dia e com várias toneladas de chocolate a menos por semana. Não vou reclamar*, não enquanto tiver meu piloro bem centrado.

***

* Eu vou reclamar, sim. Quero meus cafezinhos no meio da tarde, buá. 

 
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