Bits and bobs


Então, afinal, fui ver o Harry Potter. Não posso falar muita coisa, foi o único da série que vi até agora e o que ficou foi: é legal, sim, bem feitinho e tal. A história é bacana, com pitadas (generosas) de Tolkien e momentos cute cute. Mas não me vejo, ainda, lendo os livros da série. Talvez eu veja os outros filmes... será? Não sei. Mas para que ninguém me chame de ranzinza, digo que é bem bonitinho, sim, e que entendo all the buzz about it. Pronto, não sou mais tão herege assim. Já sei quem é o menino. Ah, e gostei bem da Hermione (olha, tenho até personagem favorita - sou quase uma expert).
:-)

***

Daí que abrimos a mochila que o Arthur sempre leva para a escola e o que há lá dentro? Um regador, claro. Um regador de verdade, não de brinquedo.

- Arthur, por que tem um regador na sua mochila?
- Ah, o G. me deu.
- O G. te deu um regador?
- É.
- Assim, do nada?
- Nãããão, não foi assim, do nada! Você me deixou na sala de aula, eu coloquei minha lancheira no cabide, entreguei a agenda pra professora e o G. me deu o regador. Um pra mim e outro pra H.
-...

E tudo bem. Mas, né, a curiosidade e tal. Liguei para a mãe do G.

- Querida, o G. deu um...
- Deu, deu sim!
- Ah...
- É que ele tem um daqueles e queria que os amigos tivessem um igual, para cada um cuidar de seu jardim.

***

Na loja de brinquedos, o Arthur me pediu para perguntar ao moço o preço de um alienígena qualquer. Um segundo depois, falou:

- Não, não precisa perguntar! Não importa o preço, esse quem vai me dar é o Papai Noel.

E agora? Olha pro lado, diz que “Ah, é!” ou vai logo dizendo que não é assim que a banda toca?

***

De manhã cedinho Amanda fugiu para nossa cama. Chegou lindamente descabelada, com aqueles cachos todos se engalfinhando em torno de seu rostinho de menina de Renoir, olhinho inchado - não só pelo soninho inacabado, mas também por causa da última peraltice. Escalou nossa cama e cavou um cantinho ali entre os travesseiros; deitou e voltou a dormir. Eu ainda tinha uns minutinhos para curtir aqueles melhores momentos da cama quando o dia nasce e fiquei por ali, entre cochilos rasos e conferidas no relógio. Uns dez minutos depois, Amandinha embarcou em um sonho bom e sua risadinha enquanto dormia foi a coisa mais gostosa ever. Fiquei olhando aquilo e pagaria caro para poder entrar naquele sonho e conhecer o motivo por trás daqueles giggles tão gostosinhos. Risadinha de prazer, como quando ela acha muita graça em alguma parte de um desenho animado. Ria, dormindo, enfeitando meu dia sem o menor esforço. Linda, apaixonante, minha menina.

Ajoelhou...


Foi só eu dizer que toparia qualquer negócio e o aniversariante tratou logo de se aproveitar da minha boa vontade, vejam vocês que descaramento. Conseguiu me arrastar, digo, levar ao cinema para ver a primeira parte da segunda saga do terceiro nível do sétimo livro que conta a história daquele menino-bruxo, como é mesmo o nome? Ah, isso, Harry Potter. Vou ao cinema ver isso aí. Sugestão de aniversariante não se discute.

Odisseus quarentão


Aproveitando a vida

Há um velho clichê que diz que a vida começa aos quarenta. Encaro como uma tentativa bonitinha de tentar driblar a ansiedade que nossa mania de juventude costuma gerar. Ei, não é de todo mau, esquenta não, o bom da vida começa agora. A verdade é que "o bom da vida" pode começar na infância, na juventude ou em qualquer outra fase da vida, dependendo de tantas variáveis que nem me arrisco a começar uma listinha. Por ora, basta que a gente saiba que cada um de nós pode ter muitos começos e recomeços e que o que importa mesmo não é o número de anos que marcam as velinhas no bolo, mas o que andamos fazendo deles.

No meu caso, por exemplo, tive um dos meus principais começos aos vinte e quatro anos. Foi quando conheci você. Desde então, "a vida começa aos vinte e quatro" faz muito sentido para mim. Foi quando conheci você e toda a avalanche que veio junto que me senti viva como nunca nem supunha que me sentiria. Aos vinte e quatro anos, aprendi que meu coração era elástico e estava pronto para se expandir o que fosse preciso para abarcar tanto sentimento. Minha revolução não foi aos quinze, aos dezoito ou aos vinte e um. Meu nascimento para o vasto mundo dos amores e suas dores veio ali uns anos depois, arrebatou-me de minhas confortáveis certezas e me lançou numa estrada todinha nova - outra vida mesmo. Muito do que sou hoje nasceu quando vi você pela primeira vez.

E eu tenho cá comigo que sua vida também não começa nesta segunda-feira, no seu aniversário de quarenta anos. Tenho a impressão de que hoje você comemora mais essa jornada boa que temos desenhado juntos do que o início de uma nova fase. Desconfio que seus marcos também não venham na forma de números pré-definidos, mas na forma das conquistas boas, das decisões bem tomadas, dos passos que fazem de você o grande homem que você é. Olho por cima dos ombros para esse quadro que desenhamos ao longo dos anos e vejo vários marcos em sua vida, nenhum deles definidos pela idade, não; vejo vários determinados por seu brilho ou seja lá o que for essa coisa que você carrega com você - já celebrado por vários amigos, não só por mim - e que faz com que você deixe um rastro bom por onde passa.

Mas antes que alguém pense que isso desautoriza a comemoração, que faço pouco caso da data ou que acho que não há tanto assim para se badalar, grito que não, não é bem assim. Eu não conseguiria brindar o suficiente. Seu aniversário é o dia de festejar você, de comemorar sua vinda a esse mundo que, digo sem medos, seria outro se tivesse umas tantas meias-dúzias de você espalhados aqui e ali. Mas você, nessa maluquice que é a vida, é único e eu tenho esse tanto de sorte de fazer parte de sua caminhada. E eu ainda não entendi o que fiz para merecer tamanha ventura, mas enquanto as respostas não chegam vou me esbaldando e curtindo com o coração estufado de alegria - alegria que celebro todos os dias, bem sei, mas que hoje ganha ares de grande evento.

Então, se é assim, hoje comemoramos mais o que você tem feito dos seus quarenta anos do que os números que vêm de carona. Quatro décadas dessa presença que alegra, que faz bem. Ter você por perto é bom, simples assim, e essa riqueza vale muito, vale muito. Meu gatinho, se você quiser brincar de que a vida começa agora, eu topo. Se quiser festejar mais, estou aqui. Se quiser silenciar e refletir, fico quietinha. Se quiser dizer por aí que tem  um corpinho de trinta e nove, eu assino embaixo. Qualquer coisa, sou parceira. Eu, todinha em festa, estou comemorando a continuação da caminhada rumo ao que vier, que nem ligo o que seja, porque de mãos dadas com você não tem caminho nesse mundo que eu não tope seguir.

Feliz aniversário, quarentão. Te amo grande.

Quem não tem cão...

Lembram daquele ingresso que não ganhei? Era para o show do Legião Urbana, em algum dia do finalzinho da década de 80.

Uma turma de amigos foi ao show do Chico uma vez, há muito tempo. Minha mãe não me deixou ir.

Em algum momento dos anos 90, eu senti uma dor de cotovelo enorme por não ter ido ao show do Cure, no Rio.

Eu já saí de casa para ver um show com cinco bandas e só vi três delas, porque me perdi no caminho e cheguei pra lá de atrasada.

Certa vez, mais recentemente, comprei ingressos para o show do Cake e, quando estava começando a me arrumar para pegar a estrada, meu amigo descobriu que o show tinha sido cancelado.

Mas hoje tudo isso deixou de ter importância. Porque, tchan-tchan-tchan-tchaan!!, nós fomos para o show do Patati Patatá!


É, gente. A vida muda. ;-)

P.s. Foi legal pra caramba.

E depois?



Arthur, cinco anos, tem demonstrado cada vez mais interesse por questões abstratas e já começaram a surgir perguntas um pouquinho mais complexas do que "o que é turbina?". Muitas surgem no carro, nos papos a caminho da escola. Quando o bicho pega, rola uma certa torcida de minha parte para que o Odisseus responda primeiro e vice-versa...  Hoje foi assim:

- Mãe, esse jardim é tão bonito, né?
- O cemitério, filho? É, bem bonito ali.
- Aquele é o cemitério?!
- Sim...
- Onde... enterram as pessoas?
- Sim.
- Por que enterra, hein?
- Bem, nem todo mundo enterra. Tem gente que crema, que é como queimar, sabe...
- QUEIMA??
- É... e aí a pessoa vira cinzas que podem ser guardadas ou jogadas em algum lugar bonito e...
- Vocês dois vão morrer, não vão?
- Todo mundo morre um dia, filho. E todo dia nasce mais um monte de gente. É assim.
- Eu seeeeei! E o que acontece com as pessoas que morrem?
- Eh... na verdade, ninguém sabe ao certo. Tem gente que acredita que, quando a gente morre, vai pro céu. Tem gente que acha que nasce de novo...
- É! Eu acredito nisso aí! Que a gente cresce de novo.
- É, é uma ideia bem bonita, mas eu não sei se é assim e acho que não é, não. Mas tudo bem, é uma ideia legal. Normalmente, se as pessoas acreditam em Deus...
- Ah, eu sei, Deus, que morreu com o prego...
- Eh... acho que você tá falando de Jesus, mas... Bem, e tem gente que acha que morre e pronto, acaba tudo e...
- Pai, vamos brincar de adivinhar desenho?
-... (*ufa*)

E aí, como me saí? A parte que eu mais gostei foi brincar de adivinhar desenho. O Arthur ganhou, era Pokemon.

***

E tem o Rio, né. Tô torcendo.

***

Hoje foi dia de combate à violência contra a mulher: muitos textos bons blogosfera afora, muitos dados alarmantes por aí, muito machismo - ainda. Sigamos. A quem ainda não leu o post da terça, fica o convite. Se você é homem, tem um bom texto para você aqui - porque, na real, o problema é de todo mundo.


Distraída



Ainda não entendi direito o papel que meu pai teve em minha formação. Foi uma relação difícil, cercada por um distanciamento que parecia ignorar o fato de que vivíamos sob o mesmo teto. Não tive um pai que brincasse comigo na sala ou na praça, risadas divididas. Não tive sequer as discussões alimentadas por conflitos de gerações.

Só muito tempo depois, adulta e mais desconfiada de certas obviedades, mudei o ângulo e vi coisas que nunca vira antes. Mas né, a vida. Era meio tarde. Acho que passei tempo demais distraída. 

Hoje já faz dez anos que ele parou de lutar contra a doença que o levou embora. Ainda não desisti de tentar encontrar as tais respostas para os conflitos que nasceram lá na minha infância, até porque, ainda que aos pouquinhos, vou captando uma coisinha aqui, outra ali, então sei que vale a pena procurar.

Ainda outro dia, bem distraída que estava (olha, só), encontrei uma: aquela mania dele de roçar as juntas dos dedos na minha cabeça, quando voltava da rua e passava apressado pela sala, sem muita conversa, não era uma provocação para me irritar; era um jeito bem tímido de me fazer carinho. Eu nunca gostei daquilo, nossa, eu detestava. Mas, se fosse hoje, e ele fizesse aquilo com seus netos, é bem provável que eu explicasse aos meus filhos, assim:

- Ai, esse vovô tem um jeito tão engraçado de fazer carinho, né?

Porque hoje vejo muita coisa com outros olhos. Não sei se "acordei' ou se, na verdade, fiquei ainda mais distraída. O fato é que muitos quadros do passado mudam de cor com o tempo a ponto de, às vezes, eu nem reconhecer que foram pintados por mim.  

"E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te. "
Mário Quintana

Parem o mundo, os meninos precisam lutar


Meninos gentis? Onde esse mundo vai parar?!!

Vocês viram esse texto?

Como é que pode, né? Minha primeira reação foi de riso mesmo. Fui lendo e pensando “ele tá falando sério?”. Na verdade, a pergunta já me veio quando vi o título - que foi o que me levou a ler o texto, de pura curiosidade. É óbvio que o título me desagrada deveras... há nele, em poucas palavras, tanto do pior machismo patriarcal que ensebou a vida de tantas gerações - “o marido que queremos para nossas filhas”. Oi? Como se o autor fosse o dono delas, das filhas, e a ele coubesse escolher quem será o companheiro mantenedor de cada uma delas - já partindo do pressuposto de que elas vão querer se casar, lógico (mas, claro, que opções há? Imagina uma mulher sem um marido, horror dos horrores). Século XIX feelings.

Durante boa parte da leitura, nem levei o texto exatamente a sério, fiquei procurando o turning point, o momento em que o autor do texto revelaria o gancho da piada e eu entenderia a crítica. Mas que nada. Era isso mesmo: onde é que esse mundo vai parar, com esses meninos que não brincam de armas (e de brigas - as melhores “formas masculinas de diversão” de que se tem notícia!), com esses homens que não sabem mais mandar em nada e esse bando de mulheres que não vão mais achar quem as sustente! É o fim do mundo! Ou, em bom latim, mimimi, quero mandar de novo, sozinho.

Gente, o país elegendo mulher pra presidência e ainda tem homem preocupado porque não vai mais achar um troglodita “rijo” pra mandar na filha. E, claro, para arrastar as coisas pesadas, né, o maior sonho de toda mulher quando o assunto é relacionamento amoroso.

Talvez ele não saiba, mas o mundo está cheio de homens bem resolvidos, gentis, antenados e que recebem de braços abertos os debates propostos pelo movimento feminista, por uma razão muito simples: eles entenderam do que se trata e sabem que todos saem ganhando e o mundo, consequentemente, só melhora. Menos para aqueles que, em 2010, ainda estão esperneando pelos "ideais de masculinidade"... é, aí acho que não tem jeito mesmo. O mundo tá virando uma desgraça.

***

A semana de combate à violência contra à mulher tenta alertar para os altíssimos índices de violência doméstica contra mulheres... algo me diz que ensinar filhos a cultuar a imagem do homem machão não é uma boa pro mundo. Por que será, hein?

Arte, beleza e felicidade



Blue dancers, Degas

A Nardele perguntou o que faz a gente feliz pra valer - não aquela felicidade momentânea de comer sushi, mas aquela que nos dá a sensação de que a vida vale a pena. Eu falei por lá, entre outras coisitas, que fico feliz de verdade com a criação, e é mesmo.

Não preciso ser a criadora, eu me contento em admirar os feitos alheios. E a pergunta da Nardele, que li cedinho, antes de sair pro trabalho - as crianças esticaram o soninho hoje, embaladas pela chuva tilintando na janela - passou o dia na minha cabeça, tilintando também. E por causa disso, tive vários meio-sorrisos desenhados no rosto ao longo do dia. Porque toda vez que eu pensava em coisas que me fazem ver sentido na vida, sentia uma pontinha do prazer que sinto ao me colocar diante dessas mesmas coisas.

Dans la prairie, Monet

E como o mundo é vasto e a história da humanidade já vai aí com seus arquivos bem gordinhos, a fonte da alegria é infinita. Há um prazer que carrego comigo que vem lá da infância e preservá-lo causa quase tanta alegria quanto aquela que sinto diante de uma obra de arte que me encanta: a capacidade de me deslumbrar. Porque a verdade é que sem ela, eu sequer enxergaria a tal beleza que, para mim, dá sentido à vida. Então eu ainda ando por aí chorando à toa, encantada com canções, filmes, versos, histórias bem contadas, palavras bem combinadas, desenhos impossíveis, telas, passos esvoaçantes, sinfonias de outros mundos, textos que nos desnudam, construções que me embasbacam. E esse deslumbramento todo é feito daquela mesma matéria que gera o amor pelas pessoas, é o que trago de melhor em mim. A arte me faz feliz. Pertencer à raça humana que carrega consigo sua inesgotável capacidade criadora me faz feliz. Eu gosto de ver criações, coisas que antes do Fulano ou da Fulana não existiam. Eu me encanto e me emociono com o trabalho dessas pessoas. Gosto de arte porque gosto de gente.

Esse deslumbramento infantil que alimento todo dia me permite cair de amores de novo, de novo, de novo. E me faz viajar ad infinitum. Então quando vejo o quadro, imagino que antes ele era uma tela branca; uma tela branca que o artista transformou naquilo. E fico pensando que o mundo ficou mais bonito porque Rafael existiu, porque Bach compôs, Marquez escreve e Gaudí desenhou. E também porque Lily Allen tem aquela voz, Morrissey canta aquelas coisas e o cara do Cake usa aquele timbre. E meu marido faz umas canções tão lindas que dão dor no coração e aquela amiga faz aqueles bolos bonitos, aquele cara conta umas historinhas que fazem a gente querer a infância outra vez, alguém pega um pedaço de pano e transforma em uma roupa linda e uns caras um dia inventaram a internet. A beleza invade nossa vida toda hora, se a gente puder ver.

The Lady of Shallot, Waterhouse

Então é isso, o que me faz feliz é o encantamento.

E chuva tilintando na janela, também.

Tá tocando no nosso carro. Há dias.

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A Borboleta está a mil na campanha da semana. Passem lá. ;-) 

O bicho-pau



Na noite de sexta-feira, quando as crianças já estavam na cama, o Ulisses encontrou na garagem um bicho-pau. Capturou o esbelto, colocou em um saquinho (não se esqueceu de fazer um furinho para o bicho respirar - bicho-pau tem nariz?) e guardou para mostrar as crianças no dia seguinte.

No sábado, Ulisses se esqueceu completamente da história.

Hoje pela manhã, lembrou-se. Pegou o saquinho onde o Sr. Magreza aguardava pacientemente, e o apresentou às crianças. Alguns "olha!" e "legal" depois, libertou o compridão lá na calçada.

Mas, ai que lindo, à tarde ele voltou para visitar as crianças, cheio de saudades. Grudou na janela com olhar pidão (juro que vi o olhar pidão dele) e ficou ali, observando as crianças. Esses animais são uma graça, né? Tão simpáticos.





Troféu Sem Graça Nenhuma para o Ulisses que, enquanto eu fotografava o bicho, fez cócegas na minha nuca. Claro que tomei susto. Pateta. 

Chamou?



Mais detalhes no blog da Niara.

***

Update: acontece que inspiração vem quando quer, eu não consigo encomendar. É possível que ao longo da semana eu consiga trazer algo útil ou relevante ligado ao tema da campanha, mas é possível que eu me limite a reverberar o que de bom eu ler por aí. De qualquer maneira, o selinho indica que apoio a campanha como instrumento válido de conscientização e combate à violência.

"Não é sobre você"


Convido a todos que passarem por aqui a ler o excelente artigo publicado pelo Idelber hoje. É longo, demanda um tempinho, mas vale muito a pena. Diz tanto, com tanta sensibilidade e clareza de ideias que é um quase um pecado não ser lido. Até o fim, com o coração aberto.

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Quem gosta de Clarice, dá uma espiadinha no post de ontem, aí embaixo.

A bruxa


“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

A minha tradutora é a Clarice Lispector.

Primeiro vieram os sustos, lá atrás. Eu lia e pensava gente, essa mulher é uma bruxa! Como ela pode saber? Aí segui um pouquinho mais adiante e percebi que Clarice sabia da gente - e das mulheres, em especial. Clarice parecia saber tudo sobre as confusões de quem percebe os muitos dramas da linguagem. Descobri-la foi um alento enorme para mim que, aqui e ali, sentia muita angústia ao perceber que nunca conseguiria dizer tudo: não há como dizer tudo, há tanto que a linguagem não alcança...

Clarice via isso e ia além: explorava essa lacuna em sua escrita, com maestria. Sofria os limites até forçá-los e enfim quebrar as fronteiras - sua escrita desafiava a linguagem, desnudava as palavras, revelava a farsa da expressão precisa. E que coisa boa foi ler aquele turbilhão de conflitos expostos de forma tão rica e tão cheia de camadas. Ao mesmo tempo em que Clarice expunha os dramas dos limites das palavras, mostrava que conseguia extrair delas muito mais do que se supunha possível.

Ler Clarice foi irreversível: de certa forma, nunca mais me senti sozinha; e nunca percebi de maneira tão clara a imensidão da solidão de cada um, preso que estamos aos nossos laços com a linguagem.

(Clarice gostava do silêncio, do não dito, das entrelinhas. Ela sabia que ali pairavam nossas melhores chances de ir além, de chegar mais perto do que sentimos.)

Quando abro um livro de Clarice, recosto-me na cadeira, respiro e deixo o livro entrar. Entrego-me, completamente: “viver ultrapassa todo entendimento”. E vou lendo e curtindo aquela tradução de mundo que está ali. Uma bruxa, essa mulher.

“... mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que Ulisses inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente - mas dessa vez não havia sequer o que contar.” (Em Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres.)

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler ‘distraidamente’.” (Em Para Não Esquecer.)

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. O que te direi? te direi os instantes.” (Em Água Viva.)

“O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” (Em Água Viva)

***

Não desisti de Stendhal. Pode parecer que nem estou mais lendo, mas estou, sim. É que outubro foi monotemático e novembro tem sido disperso. Mas quero avançar e concluir a leitura de O Vermelho e o Negro nas próximas semanas. Ninguém perguntou, mas eu quis dizer. As coisas por lá são assim:

“Quanto a ela, não o podia olhar sem enrubescer, e não podia passar um segundo sem olhá-lo. Ela percebia a própria perturbação; e o esforço que fazia para escondê-la ainda mais a aumentava. Só uma vez Julien levantou os olhos para ela. A princípio, a Sra. de Rênal admirou-lhe a prudência. Breve, porém, vendo que aquele olhar não se repetia, alarmou-se: “Será que não me quer mais?”, pensou ela.” - Hehehe, ai, ai, as angústias do jogo da conquista. Sem saudades. :-)

Desconstruindo a meiguice e distribuindo felicidade


Tenho muitas cores dentro de mim.

Hoje li no blog do Alex Castro uma coisa que caiu como uma luva para algo que tenho pensado em dizer aqui há dias. O Alex escreveu o seguinte:

“A gente raramente sabe quem é. "Ser" é um processo dinâmico e virtual de negociação entre minha própria auto-imagem e todas minhas outras imagens que circulam por aí (...)”.

Se fosse possível, o Alex teria me ouvido dizer “putz, é isso mesmo”. O processo é dinâmico porque cada dia somos um; rola uma negociação o tempo todo porque, ao mesmo tempo em que nos expressamos dessa ou daquela forma, vem o outro, interlocutor, ler e enxergar essa expressão com os olhos dele/dela, obviamente. E aí, cara pálida, a miríade de resultados é simplesmente infinita. E a pergunta “sabe a Rita?” pode até ser respondida com um singelo “sei”, mas saber mesmo, olha, nem eu, viu. E tudo bem, a coisa pode ser menos esquizofrênica do que parece; é a vida mesmo, e sua beleza vem muito daí, dessa indefinição. Eu, de minha parte, gosto muito dessa coisa de não saber direito o que esperar das pessoas, especialmente de mim mesma, porque surpresas muito boas podem ocorrer sempre. E quem precisa de rótulo é maionese.

E aí tem o blog e as pessoas que passam por aqui e, claro, criam suas impressões a meu respeito. E há, por outro lado, as pessoas que me conhecem pessoalmente e que também leem o blog e a) confirmam impressões; b) descobrem coisas sobre mim que sequer suspeitavam; c) percebem que minhas colocações são muitas vezes “editadas”, conforme minha vontade. Um exemplo da opção c é a listinha dos dois posts anteriores a este: certamente há muitas outras coisas que gerariam “ooohs” e “aahhhs” surpresos para incluir na minha lista de “eu já...”, mas, sim, selecionei o que quis. E tá valendo porque, no fim das contas, selecionamos o que queremos mostrar para os outros o tempo todo, nas relações pessoais, no trabalho, na internet. Selecionamos o que queremos ver de nós mesmos todos os dias. Viver é essa arte da seleção, também.

A vontade de tocar nesse assunto foi vindo e se instalando a partir de comentários feitos por pessoas que passam por aqui e com quem tenho me relacionado virtualmente nos comentários, nos posts, em blogs por aí, no twitter, enfim. Palavras como doce, suave, meiga têm sido usadas reiteradamente para me descrever e é claro que fico feliz com essas descrições. Se vocês pudessem me ver cada vez que leio essas impressões verbalizadas com palavras tão... doces, saberiam que minha boca sempre desenha um sorriso de satisfação. Mas, e eu sei que vocês sabem, ou pelo menos cogitam, que não sou doçura, meiguice e suavidade o tempo todo. Talvez eu o seja na maior parte do tempo que dedico ao blog, mas certamente não o sou na maior parte do tempo que passo ao largo da blogosfera - ou seja, na maior parte do tempo de minha vida. E eu tenho essa mania - tenho mesmo - de respeitar muito quem vem aqui e reserva uns minutinhos do seu dia (gente, no mundo de hoje!) para ler o que escrevo sobre florzinhas, crianças, receitas, política, whatever, então eu preciso dizer que, sim, às vezes sou bem doce. Mas é só às vezes. Muitas outras vezes, sou azeda pra caramba.

Espero não insultar a inteligência de ninguém, eu sei que vocês sabem que ninguém é só azedume, ou só doçura, ou só calmaria, ou só tempestade, cem por cento do tempo. Ninguém. Só em Hollywood é assim, e nem sempre, veja lá. Mas ao ver tanta gente se referindo a mim como “a mãe dedicada”, “a garota meiga”, “a pessoa doce”, “a pessoa mais paciente e centrada que conheço”, etc., sinto uma urgência gritante de, ao mesmo tempo em que agradeço tanta gentileza, dizer que, sorry, mas tenho lados bem menos elogiáveis. Mas quero dizer mais que isso: quero dizer que gosto muito desses outros lados. Eu gosto de ser misturada. Eu não suportaria ser certinha, uma coisa só. Eu morreria de tédio.

Talvez a vontade de gritar "ei, eu sou chata pra caramba, às vezes” ou “rá! se vocês soubessem das minhas crises de mau humor!” tenha sido reforçada por alguns riscos que andei correndo. Acompanhem: a Amanda fez outro dia um post sobre construções culturais; lá, ela meio que dialogou com um post que eu tinha escrito, tocando nas construções sociais em torno das relações mãe/filhos; a Iara, que também escreveu sobre o tema, comentou no blog da Amanda assim: "eu acabei não falando lá na Rita, que não quis parecer inconveniente (poxa, ela é uma mãe tão apaixonada e fofa!) mas a gente sabe que os nossos relacionamentos também são construções culturais"!!! Gente, eu achei a coisa mais docinha, um baita cuidado dela e tal, mas... eu quase fui excluída de um debate bem bacana por causa da imagem docinha. Vocês percebem o meu drama, oh, céus?

Daí outro dia a HG comentou assim: “Não consigo te imaginar no carnaval de Salvador!!! Desculpa! Mas vc me parece tão tranquila que aquela agitação toda parece não combinar....”. E, olha HG, eu vi na hora minhas amigas companheiras de ladeiras Olindenses morrendo de rir e queria muito ver a cara da minha mãe vendo alguém me descrever como "tão tranquila"... E então pensei “não posso deixar a minha querida leitora HG no escuro”: eu adorava carnaval. Eu estou de folga, é verdade, há anos, mas não há festa que seja mais a minha cara e acho que meus amigos e amigas “dazantiga” concordariam comigo. Mas eu sei de quem é a culpa: é da foto do perfil do blog, eu sei. Ninguém que não me conheça pessoalmente pode fazer um juízo muito justo daquela foto. O que se vê é só... meiguice, não é? Rostinho sereno, olhando pro mundo, pensando no azul, ah... Gente, eu não tenho outra. Eu fico péssima em fotos, naquela pelo menos não assusto os leitores. Mas seria mais adequado, eu sei, uma seleçãozinha de fotos: com raiva, com tédio, com dúvidas, com mau humor, com riso frouxo, etc. Mas, né? Menos, então uma já tá bom - e, por falta de material melhor, escolhi a meiga. Mas não se enganem.

Por fim, sem ansiedades. Não há como me mostrar aqui por inteiro e é claro que não quero ou pretendo fazê-lo - e seria mesmo impossível, visto que nunca estarei "pronta", seja lá o que isso signifique. Mas queria mesmo dizer que adoro os elogios docinhos de vocês, bando de lindos e lindas, mas que seria muita cara de pau de minha parte não avisar que, ei, é só um lado e que em certos dias ele nem aparece. Há dias em que tudo que sinto é que sou uma mulher imensa, com tantos lados e planos incompatíveis que parece que nunca cresci. E que a sensação de ser incompatível é uma das coisas mais preciosas que quero carregar comigo até o último minutinho de minha vida - que, espero, será longa porque, caso contrário, estou ferrada.

Dito isso, reforço que adoro o carinho que vocês me fazem cada vez que vêm aqui e que minha vida ficou, sim, mais doce depois que passei a escrever este blog. Mas aí o mérito é muito de vocês.

***

Ah, falando em doçuras: olha aí o que ganhei da HG e do seu Travessia.



Fazer feliz - pode existir efeito mais precioso? HG já sabe que não cumpro muito bem as regrinhas dos selos: preciso indicar seis, indico sete; precisa dizer uma frase, digo duas ou nenhuma, enfim, uma rebelde, rá! Hoje vou me agarrar ao tema do selo e indicar para vocês um blog que me faz feliz porque me proporciona momentos de muita... como direi... doçura! Isso. De novo, Patricia, o selinho vai pra você, a mulher das fotos maravilhosas. Seu blog e sua amizade me fazem feliz. E o crumble de maracujá que aprendi a fazer lá... hum... e o que dizer do bolo de canela, ai! E o bolo de leite condensado - esse me faz muito feliz! Viram, pessoas? O TK só traz felicidade, corram lá. ;-)

Dente perdido na festa, beijos às margens do Danúbio e o que mais vier...


Voos selvagens em jet ski, encontros em aeroportos de amigos que moram em continentes diferentes (sem combinar nada), assaltos a mão armada, diamantes perdidos, gente que já morreu de amor, caronas em golfinhos, calotes, buzinadas em shows de calouros (hahahahaha!!!), beijos às margens do Danúbio... as listas estão ótimas na caixa de comentários do post de ontem! Hoje vou ao cinema e vou deixar a caixa de comentários deste post (e do de ontem, se preferirem) ainda à espera de outras listas. Segue o desafio: quem bate o Barishnikov de roupão, da Tina, ou o Hugh Grant na banca de jornal, da Marina? Hein? Soltem o teclado e façam suas confissões/revelações! Amanhã vou “eleger" meu “eu já..." e meu “eu nunca...” favoritos, segundo um critério qualquer que vou inventar na hora. E não se acanhem: se for ridículo, melhor ainda, oh yes.

Hoje me lembrei de mais uma:

- eu já fui a um jogo do Brasil na Copa do Mundo, na França, e minha amiga, que estava no Japão e não sabia que eu tinha ido à Copa, viu meu rosto na TV, lá no meio da galera. :-) (Oi, Ju, cadê você?)

E na linha quanto mais ridículo, melhor:

- eu já rolei da escada e caí lááá embaixo, de pernas abertas. Eu era criança e foi bem traumático porque o colégio inteiro estava lá embaixo, no pátio do recreio. (Tudo bem, não é muito ridículo, mas as minhas quedas merecem um post a parte, qualquer dia.)

***

Ah, e para quem perguntou sobre o livro que me tirou o ar, era Paula, de Isabel Allende. Inesquecível (e só de ir lá ver o post antigo para pegar o link, já me vem o nó na garganta).

***

A Semiramis fez uma listinha temática - lá no blog culinário dela. Confiram - a história das claras de ovos é ótima. :-)

Eu já, eu nunca


Faz um tempo já, a Marina W inventou a brincadeira; dia desses a Tina resgatou; eu sou só a imitona sem o glamour delas. Eu nunca vi o Barishnikov de roupão ou cruzei com o Hugh Grant em Ipanema, mas tenho lá minhas revelações blogáveis em dias de neblina. Não é concurso nem entrevista de emprego, então tá valendo. Quem quiser confessar ou publicar “eu já...” ou “eu nunca...”, fique à vontade, estamos aqui, todos juntos, abrindo os corações.

Eu já participei do elenco de uma peça premiada com o primeiro lugar em um festival estadual de teatro.
Eu já liguei para uma rádio para conseguir ingresso de um show de rock, fui atendida, mas errei a resposta e não ganhei o ingresso.
Eu já tietei o João Suplicy em um barzinho em São Paulo.
Eu já fiz animação de festas infantis, imitando a Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Eu já fui ao teatro assistir a mesma peça três vezes.
Eu já fiz dieta para ganhar peso três vezes.
Eu já fiz uma trilha de mais de três horas para ver um cânion e não vi porque, no final da trilha, amarelei e não tive coragem de pular para a pedra de onde teria todo o visual.
Eu já cantei num barzinho e desafinei tremendamente, detonando o show da banda.
Eu já fui seguida na rua, em uma noite chuvosa.
Eu já fiquei sem gasolina, no meio de uma avenida movimentada.
Eu já esqueci a bolsa no táxi, de madrugada, e precisei tocar a campainha da casa onde estava hospedada, às duas da manhã.
Eu já vi uma pessoa incorporar espíritos e, apesar de achar tudo impressionante, não acredito no que vi.
Eu já tive de interromper a leitura de um livro para me controlar e tentar parar de chorar porque estava começando a ficar sem ar.

Eu nunca comi quindim.
Eu nunca consegui terminar a leitura de Dom Quixote.
Eu nunca cozinhei feijão (sozinha) na minha vida.
Eu nunca pinto as unhas dos pés.
Eu nunca li Simone de Beauvoir.
Eu nunca li/assisti Harry Potter - mas eu sei quem é, assim, de ouvir falar. :-)
Eu nunca tive orkut.

Mato bom



Um intervalo de tudo, sem internet, sem telefones, sem relógios. Um lugar onde o compromisso mais agitado do dia variava entre um passeio de charrete, um café colonial no final da tarde ou um cochilo na rede. Dias longos, preguiçosos, nublados ou com pouco sol - e eu jamais me atreveria a reclamar de nada (e bem sinceramente? Eu não estava nem aí pro sol). Dias de deslumbramento para as crianças, mergulhadas em um mundo verde, com cheiro de mato, comilança a toda hora, brincadeiras o dia inteiro, filminhos, piscina, pé na areia, corridas na grama, bola, novos amigos. Para nós, fazer de conta que a vida é simples. E o melhor: sem mosquitos! Quem aí já viu um hotel fazenda sem mosquitos? Pois então.


Fugimos do mundo, caímos na gula, brincamos de férias. Fomos e aprovamos nosso "refúgio" e para lá voltaremos outras vezes, certamente - e recomendamos. Nem em nossos planos mais otimistas conceberíamos um lugar com tamanha estrutura para as crianças: passamos o feriadão em um hotel fazenda no interior do interior do interior de Santa Catarina e lá contamos com passeios a cavalo, charretes, pescaria, pedalinhos, bicicletas, quadras de todos os esportes de que consigo lembrar, tirolesas, trilhas, piscinas frias e térmicas, salão de jogos, atividades do campo para as crianças (alimentar bichinhos, agarrar bichinhos, fugir do pavão, essas coisas), oficinas infantis com uma baita equipe de recreadores, várias áreas ambientadas para a garotada, enfim, o céu. É bem verdade que praticamente não desgrudamos de nossos pequenos, porque falta em mim aquela engrenagem que permite largar as crianças na mão dos recreadores e só encontrar com eles horas depois, ainda mais em um lugar cercado por piscinas, lagoas, ribanceiras, eh, não, obrigada, posso ir junto? Mas era bem isso que queríamos: brincar junto. E foi delicioso. Ainda assim, contamos com a comodidade de uma salinha de cinema ao lado do restaurante, onde os pequenos, já alimentados, assistiam a filmes enquanto a gente comia logo ali - não é uma delícia? E em um momento de intensa superação, Arthur seguiu com "a turma" para um picnic - sem mim. Eu seria a única mãe por lá e a recreadora gentilmente me mostrou que tudo na vida tem limite. Tá bom. Mas convenci uma mãe tranquila a pular pro lado das neuróticas e, momentos depois, estávamos no meio do caminho esperando o retorno "da turma". Sou ridícula?

Arthur, descendo na tirolesa. Amanda também foi, mas vou ficar devendo a foto.

Será que ele vai morder minha mão?

Amanda, correndo atrás da galera.

Arthur, enterrando o tesouro bem enterrado - nunca mais achou.

De quebra, o lugar exibe agora uma decoração de Natal de sonho - e mesmo quem não gosta é forçado a admitir que eles capricharam.


Meu filhote viveu momentos extras de ternura, encantado que ficou com sua amiguinha de final de semana. A dupla não se desgrudou e era a coisa mais fofa de se ver nesse mundo inteirinho.

 Será que ela não vem? - longos momentos de angústia

 Sempre valia a espera.

E para a abundância de atividades, abundância de comida. Socorro. Comemos mui-to. Comíamos o dia inteiro - o restaurante oferecia quatro refeições diárias para ninguém voltar para casa com o mesmo peso. Objetivo alcançado com louvor. Destaque meu para o café de final de tarde, com uma impossível oferta de doces do céu. Já falei céu? Pois é, fica lá.


É isso. Aos poucos vou voltando, lendo uma coisa aqui outra ali, retomando os posts. Pensei no blog algumas vezes, mas confesso que adorei esse momento-mato (tudo bem, tudo bem, era "mato" com estrutura de cidade, mas sem laptop ou telefone!). Estava precisando teclar menos e me espreguiçar mais - volto renovada. E daqui a um mês já tem férias - hohoho!

Meu marido, um homem sério.


Fica a dica para quem procura um lugar perfeito para uma temporada com conforto e diversão para a família inteira (inteira mesmo: há programação para TODAS as idades, vão por mim), ar livre, movimento (ou não, as redes estão lá), com ou sem crianças, boa comida, excelente atendimento e um visual de encher os olhos. Se alguém quiser, indico o site do lugar lá pelo twitter (@Rita_Paschoalin). Aff, voltei, né: twitter e tal. É isso.

Tanta coisa

Uma coisa puxa a outra e nessa blogosfera sem fim nada fica dito em um só post. A @lumaperrete fez um comentário no post de ontem em que indicou o blog da Paula Pfeifer. Fui lá dar uma olhada e encontrei o link para um trabalho acadêmico dela, de 2003. Lendo parte dele, vi que para muitos portadores de deficiência auditiva o bilinguismo (Libras + oralização) parece ser o caminho mais adequado para a socialização. Há depoimentos interessantes no anexo do trabalho e recomendo a leitura para quem quiser entender um pouco mais sobre o assunto.

Lá no blog da Pfeifer também vi um link para um blog lindo escrito por alguém que perdeu a audição na infância e não faz uso de Libras para se comunicar. Li alguns posts e lembrei-me de outros publicados pela Marcinha, inclusive um que indiquei aqui outro dia. E, enfim, fiquei pensando no mundo de desafios enfrentados todos os dias por portadores de deficiência e como reclamamos tanto da batedeira quebrada, por exemplo. Essas coisas. E eu vou lendo e sentindo admiração daquelas bem grandes. Mas queria mesmo ressaltar um trechinho de um dos depoimentos no trabalho da Pfeifer, em que um portador de deficiência auditiva afirma que tudo ficou mais fácil quando chegou à faculdade, já que lá não enfrentou os preconceitos e as imensas barreiras da escola. Ou seja, não estou exatamente maluca ao desejar que Libras faça parte do ensino básico. :-)

***

Então vamos às estradas onde vou colar o selinho que me foi passado pela Glorinha e pela Luciana Borboleta. Em primeiro lugar, vou estampar um tumblr, não um blog. A jornalista, gata, mãe, esposa, tuiteira de mão cheia, blogueira e doçura (não necessariamente nessa mesma ordem e em intensidades variáveis, mas sempre marcantes) @Tina_Lo fez um tumblr em homenagem às grávidas da timeline dela (pessoas que não usam twitter, "timeline" é o grupo de perfis que você segue por lá), com fotos das grávidas de ontem e de hoje. Quem ainda não teve filhos, entrou com fotos da mamãe. O resultado é um desfile de barrigas orgulhosas, algumas a ponto de explodir, outras mais contidas, mas igualmente poderosas. Confiram. Eu entrei lá com essa aqui, que mostra como fui bem cuidada na gravidez da Amanda:


Hoje em dia o Arthur tem menos bochecha, eu tenho menos barriga, a sala tem tapete e o sofá horrendo foi trocado. Mas divago. Selinho para o tumblr mais exuberante da web, então.

Aí tem o blog da Isa, que andou fechado, mas voltou à cena todo repaginado e cheio de reentrâncias. A Isa é uma amiga que conheci aqui em Floripa. Em alguns aspectos, Isa e eu somos muito diferentes, um pouco assim como água e vinho, mas a gente gosta de desafios e segue se misturando. É que também temos  nossas semelhanças e, se você quiser ver uma delas, é só nos soltar em uma pista de dança (geralmente "pista de dança" = "sala da casa dela") e a gente mostra direitinho como acabar com solas de sapato. Ninguém nos segura numa balada boa. Nossos filhos estudam juntos e adoro quando vou deixar o Arthur na escola e a filhota dela vem, toda fofa: “tia, sabia que amanhã vou na sua casa?”. Normalmente, a resposta seria “não, não sabia” (o Arthur e ela combinam tudo antes), mas isso não importa, porque a casa está sempre aberta. Pode vir. E a gente vai tocando, trocando e crescendo, sempre.

“Conheci” a @maribiddle no twitter, na base do vou seguir pra entrar nesses papos bons. E aí vi que os papos são bons mesmo, que seu astral é nas alturas e que eu daria muito por uma tarde com ela num café. Pode ser em Chicago, pode ser em Floripa, onde der. Por enquanto é na timeline e nos blogs respectivos, mas eu tenho essa mania de achar que um dia vou encontrar com todo mundo. Deixa.

O blog da Fal é tão famoso que só uma pessoa muito sem noção para “indicá-lo” - todo mundo já conhece. Mas tá lá, cheio de coisa boa e eu queria mais tempo pra me perder nele. Eu queria muita coisa nesse mundo, né? Eu sei.

O blog da Lolla é lindo, em tudo. No visual, nas fotos indefectíveis, na escrita forte, nos links malucos. Mas hoje vou dar o selinho para um post em particular, publicado lá essa semana. Leiam.

E tem a Renata, né. Dispensa apresentações. Adoro seus posts, alguns parecem canções tristes. E eu não resisto a uma boa canção triste, coisas de quem ainda ama Robert Smith, não me julguem. Selinho nela.

Eu sei que tem mais, mas preciso parar. O feriado vem aí e é preciso jogar as coisas dentro das mochilas. Minha trupe via pôr o pé na estrada. Não vamos longe, mas vamos bem. Tudo, tudo aqui, depois.

O quÊÊÊ??




Os exames dizem que minha sogra está com certo grau de perda auditiva. Minha sogra contradiz os exames. Diz que ouve muito bem e que esse zumbido deve ser efeito colateral daquele remédio tal.

Eu não escuto lá muito bem. Os exames me contradizem. O último que fiz, por exigência de concurso público, apontou que minha audição é excelente. Mas eu sei que não é, porque enquanto todo mundo está satisfeito com o volume da TV, eu preciso de mais. Não é nada muito acentuado, mas eu sempre fico com a impressão de que preciso de mais volume que a maioria das pessoas (isso se eu quiser ouvir a TV, porque se não quiser, qualquer volume me parece altíssimo - quer dizer, é mais chatice do que surdez).

Então ontem falamos sobre isso, eu e minha sogra. Ela dizia que esses médicos não sabem de nada e eu acrescentava que esses exames são uma furada, onde é que já se viu alguém que pulou três carnavais em Salvador, quinhentas micaretas em Campina Grande, tudo ali perto do trio, e dançou loucamente no quarto ao som do Nirvana durante horas sem fim, por anos e anos, pode ter a audição normal? Onde? No way.

Na hora de dormir, Odisseus gritou lá do andar de cima:

- Mãe!! Quer ouvir história com as crianças??

Silêncio.

- MÃE! Hora da histÓria!

Silêncio. Odisseus aparentemente desistindo, saiu da escada e caminhou para o quarto do Arthur. Eu vi a cena e comecei a descer a escada, julgando meu marido:

- Ô, Ulisses, tadinha, vai ver que ela não ouviu, deixa que eu vou lá chamar...

Ao que ele respondeu, surpreso:

- Mas ela ouviu! Tanto é que respondeu dizendo que já tá subindo!

E eu:

- ... Ah, é? Não ouvi...

Ou seja. Temos ou não temos razão? Hein? Oi? Fala mais alto aí, gente!

***

Justamente ontem, no dia em que minha sogra foi à médica, o Arthur teve aula de Libras. Aaaaahhh, que bontiTInho! Veio da escola até nossa casa nos ensinando as letrinhas e algumas expressões: "eu te amo", feita com o mesmo gesto que o Homem Aranha usa para lançar a teia; "boa noite", com uma espécie de beijinho soltado ao vento e uma mão passando sobre a outra, como se fosse o sol se pondo; e outras que não lembro agora (minha memória é mais ou menos como a minha audição).


Eu te amo, a la Homem Aranha.

E aí agora, que já sabemos que o Homem Aranha ama os bandidos, adoramos brincar de usar Libras. Toda hora ele olha pra gente e “diz” que nos ama. Ontem demos boa noite muitas vezes. E a Amanda também treina as letrinhas, com os bracinhos bem confusos, fazendo gestos que não significam nada, mas que são lindos demais. A gente pode treinar dando uma espiada no pijama da Amanda que tem o alfabeto da língua de sinais estampadinho. Falamos pro Arthur que se, por acaso, ele conhecer algum amiguinho que não pode ouvir, ele poderá se comunicar com ele mesmo assim. Seus olhinhos brilharam de satisfação. Hoje contei de seu entusiasmo à professora. Ela me contou que eles terão apenas algumas aulas, dentro de um certo projeto de comunicação. Mas eu fiquei mais empolgada que isso e agora fico pensando por que cargas d'água as escolas não preparam as crianças para a comunicação fluente em Libras, não é? Quanto mais gente capaz de se comunicar através de sinais, menor o desconforto para as pessoas que realmente precisam da linguagem ao longo da vida.


Eu te amo, com letrinhas.

A exigência já existe no nível superior de ensino. Há um decreto de 2005 (que regulamenta lei de 2002) que prevê a obrigatoriedade do curso de Libras em todos os cursos de formação de professores para exercício do magistério em nível médio e superior. Se não estou enganada, o Brasil tem até 2015 para cumprir esta meta. Em um país com mais de cinco milhões de pessoas com problemas relacionados com a surdez, parece-me um passo importante para inclusão social. Eu gostaria de ver as crianças aprendendo Libras já nas escolas também, no ensino básico. Se aceitamos tão bem a presença da língua inglesa, por exemplo, por que não encarar, junto com nossos filhos, o desafio de aprender a se comunicar com crianças portadoras de deficiência auditiva?

As crianças, dos dois lados, iriam adorar a ideia, pude ver.

***

Fuçando aqui e ali encontrei um dicionário de Libras excelente. Não deixem de dar uma olhadinha. :-)

***

Amanhã repasso o selinho, tá, pessoal?
 
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