Mulher pode, sim




Quando a presidenta eleita Dilma falou em seu lindo discurso para olharmos nos olhos de nossas filhas e dizermos que as mulheres também podem, eu, claro, pulei no sofá e falei: eu sei!

Venha cá...


Que força tem um abraço de milhões? Que força tem esse abraço que dou agora em todos que escolheram continuar distribuindo renda? Como faz pra medir? Qual o tamanho do abraço que dou agora em pessoas que nunca vi, que não sei quem são, que nunca vou saber, mas que quiseram junto comigo? Como faço para apertar um pouco mais e abraçar mais forte essa blogosfera toda que revolucionou o jeito de se discutir política e me ensinou tanto em tão pouco tempo? Como faz para abraçar minha timeline no twitter e comemorar muito o dia que esperamos com o coração apertado e que parecia só chegar depois do Natal?

Mas chegou. E aconteceu. Teremos a continuação do governo que apoiamos, que criticamos com seriedade e retidão, cujos erros não escondemos - assumimos, apontamos e queremos corrigir; teremos a continuação do governo cujos acertos deram comida a quem não tinha, futuro a quem nunca soube o que era isso, dignidade a um país antes servil e de cabeça baixa; um governo que gerou empregos em plena crise e que não o fez por sorte como insistem seus algozes, mas por competência e teimosia de seu gerente.

E eu queria falar mais um monte de coisa, mas o coração bate tão forte que ensurdece os neurônios e eu não consigo e nem quero mais pensar retinho. Eu vou soltar a voz e cantar e vou abraçar minha família (você também, mãe!) e comemorar porque não é só a vitória da Dilma sobre seu oponente. É a vitória do governo Lula sobre toda a poderosa mídia que insiste em fazer os brasileiros de idiotas. E isso é muito, muito, muito bom. Não tem preço.

Parabéns, país. Dê cá um abraço e vamos dançar.

***

Update: eu tirei a figurinha que estava aqui, porque, né, quero só alegria. :-D

Só isso



Eu quero um final de semana para lembrar daqui a muitos anos. Quero alegria, solidariedade e amor universal. Quero pensar no outro que tem pouco, no país de cabeça erguida e no direito de sonhar com o futuro. Quero dar as costas ao preconceito de classe, de gênero, de cor, de qualquer tipo. Quero misturas. Quero cabeças e corações abertos; e generosidade.

"...e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz..."- um certo Chico

Sem chances


Na próxima campanha vou ficar assim. Juro. 

Olha, eu passei muito mal nessa campanha. Eu li e ouvi muita asneira, muita mentira e muita baixaria. Eu tive momentos difíceis, com vergonha de certas atitudes da candidata que escolhi - como quando ela embarcou na onda "quero votos dos religiosos pelamordedeus" - eu entendi, mas detestei com força e acho que foi o pior momento da campanha da Dilma. Eu ri muuuito quando ela agradeceu pelos telegramas que tinha recebido em apoio à campanha - oi? Telegramas? Tem certeza?, he he, mas isso foi uma bobice sem consequências e ela estava muito nervosa. (Ri mesmo assim, sorry, Dilma.)

O fato é que ela poderia ter dado muitas outras mancadas e ainda teria folga grande em relação ao seu adversário. Porque, minhas senhoras e meus senhores, o Sr. Serra é imbatível. E o fato de ter ao seu dispor poderosos instrumentos catalisadores de sua campanha só multiplicou ao infinito e além o eco de seus tropeços. Mas ainda era pouco. E hoje ele coroou sua vergonhosa campanha - que, vejam bem, ainda pode levá-lo à presidência - não estou cantando vitória antes da hora não! A campanha pode ser vergonhosa, mas eficiente, como não! Não esqueçamos que a Dilma fala mal e a alternância de poder é necessária, cof cof. Não parece, mas falo sério, quem me conhece sabe que estou morrendo de medo de ver  Serra vencer. Sou assim, fazer o quê. Mas eu dizia que hoje ele coroou sua campanha com capricho. Bem nos moldes de sua postura preconceituosa, elitista e desrespeitosa: hoje ele propôs, com todas as letras e vírgulas, que "meninas bonitas" conquistassem votos entre seus "pretendentes", prometendo-lhes "uma chance" em troca. Sem mais. 

A tag #serracafetao bomba no twitter neste momento. É uma vergonha, mas, reconheço que a "proposta", apesar de indecente, é coerente com a postura do candidato que parece não ver argumentos para convencer as "meninas bonitas", então apela. A outra hipótese é pior: não acredita que elas entenderiam seus argumentos, porque deve achar que "meninas bonitas" não pensam, então apela. Oh, my God, get a life. Eu só queria que antes de sumir da vida pública, ele tivesse pelo menos a decência de se pronunciar contra os adesivos que circulam pelo país com o nome da Dilma e o número dele. Seria um ato de respeito pelo eleitor - quem sabe com um pouco de esforço.

Bullying - de mãos dadas com o preconceito


Hoje li que um grupo de alunos de determinada universidade do interior de São Paulo organizou, durante um evento esportivo interno, uma coisa chamada “rodeio de gordas”. Os alunos participantes, pelo que li, competiam para ver quem conseguia imobilizar uma colega “acima do peso” por mais tempo. Chegavam assim de fininho, como quem paquera, e logo atacavam a vítima. O “evento” tinha comunidade no orkut (já excluída) e vários entusiastas que bolavam regras para uma próxima “edição”.

Li aquilo entre incrédula e enjoada, com uma vergonha alheia enorme.

Aparentemente, um grupo de alunas da instituição se mobilizou para denunciar o bullying e as agressões. Há pelo menos uma aluna traumatizada, obviamente. Não procurei outras reportagens sobre o caso, então desconheço detalhes e desdobramentos. Mas reconheço o preconceito e a estreiteza de pensamento de pessoas que promovem algo tão baixo e tão desrespeitoso.

Quando leio algo assim, penso em como tanta gente negligencia algo tão valioso: que poucas coisas nessa vida são mais importantes que o respeito pelo outro; que a falta de respeito se manifesta em níveis diversos, mais ou menos ofensivos, mas todos recrimináveis. E penso que uma agressão física do tipo praticado por esses alunos é inaceitável, mas não nasce do nada; esse tipo de agressão nasce no discurso preconceituoso. Quando alguém chega ao cúmulo de agredir outro alguém por ser gordo/a, muito antes disso o agressor ou agressora já alimentou em sua cabeça o discurso do preconceito - e cada um de nós pode, em palavras e atitudes, alimentá-lo ou combatê-lo. Então antes de fazer uma piada com a gordura de alguém, é bom pensar duas vezes, segurar a língua e avaliar o peso de nossos comentários. Podemos sempre optar entre agir com empatia ou agir como o humoristinha metido a besta que vai à TV constranger a atriz com corpo fora dos padrões (absurdos) de beleza. Acredito que nunca é demais lembrar a nós mesmos a aos nossos filhos que a ditadura da magreza não torna ninguém melhor. E que, muitas vezes, emburrece. Que bom mesmo é ter respeito e tratar qualquer pessoa como gostaríamos de ser tratados - e que quem alimenta o preconceito alimenta junto a violência.

E, pelamordedeus, que raio de mundo esse povo pensa que está construindo com um pensamento tosco desses! Esse povo é feito de quê?

Sabe o que mais me incomoda nessa história? O fato de que os agressores derrubaram as colegas no chão por estupidez, ignorância e preconceito, mas é uma das vítimas quem está com vergonha de voltar à faculdade. E eu a entendo, perfeitamente. Mas queria saber se os agressores estão circulando por lá de cabeça erguida, sem qualquer traço de vergonha na cara, com grau zero de constrangimento.

Pesquise você também


Já que todo mundo faz sua própria pesquisa, eis a minha. A margem de erro é de 100%, para mais ou para menos, dependendo da lua: crescente, é para mais; minguante, para menos. Aqui estão os motivos que ouvi para votar no Serra, sempre de pessoas próximas, conhecidas, amigas ou colegas - todas as “entrevistas” (hi hi) foram feitas olho no olho, porque eu gosto de emoção (mentira, é porque gosto das pessoas mesmo):

- prefiro votar no diabo a votar no PT;
- não voto em terrorista;
- não gosto do Lula;
- é preciso alternar o governo (!);
- a Dilma não sabe nem falar;
- tanto faz, político é tudo igual, e eu não vou com a cara dela;
- o Brasil tá parado.

Análise qualitativa, isenta, detalhada e científica baseada no que eu acho: das pessoas que eu conheço que votam no Serra, com quem troquei uma ou duas palavras sobre as eleições nas últimas semanas, ninguém (há uma exceção, da qual falo já) vota no Serra porque acha que ele fará um bom governo ou porque gosta das propostas dele. Ninguém. Ou: entre as pessoas com quem conversei e que disseram votar no Serra, ninguém justifica seu voto por não aprovar alguma das medidas anunciadas pela Dilma. O país? Os empregos? As pessoas? , detalhe. O motivo mesmo é que "tanto faz" ou "mimimi terrorista".

A exceção é a pessoa que vota no Serra porque, segundo ela, o Brasil está parado. Mas aí como eu não sei de que Brasil ela está falando, não levo muito em consideração. Porque, né, menos. O menor índice de desemprego desde 2002 foi registrado (e divulgado bem baixinho) na semana passada. Ou seja. Está parado onde? Não entendi.

Seja como for, em todos os casos, a conversa morreu. Porque, sorry, contra esses “argumentos” não quero desperdiçar o meu latim. Se a pessoa realmente acredita, do fundo do coração, que o fato de a Dilma falar de forma truncada nos debates é motivo para votar no Serra - que, convenhamos, mente com desenvoltura invejável - não sou eu com meu papo chinfrim em torno da redução da miséria, da taxa de desemprego, do PIB, da soberania nacional, bla bla bla, que vou fazer a pessoa mudar de ideia. E, né, todo mundo vacinado, deixa assim. Eu também ando de saco cheio, cá pra nós. De qualquer maneira, agradeço aos pesquisados e às pesquisadas, sempre ressaltando, porque nunca é demais, que no meu coração os amigos continuam na categoria "amigos" e não na categoria "eleitores do Serra".

A “pesquisa” não foi registrada no TSE.

Essa é uma amostragem absolutamente irrelevante, insignificante e que não acrescenta nada sobre coisa nenhuma, porque inclui nela pouco mais de meia-dúzia de pessoas que eu conheço e o meu micromundo não revela muita coisa sobre o resto do planeta. Mas isso é coisa de blogueira, escrever o que dá na telha, reparem não.

Ah, e eu também acho que a Dilma não fala nada bem. Tipo assim, eu não votaria nela para oradora da turma. Nesse caso, eu votaria no Lula. ;-)

E como o Estrada Anil é o último lugar que você visita para saber das novidades, eis um vídeo fofo que todo mundo já viu. Se me passaram a informação correta, é aquele da galera da UNB. Se eu tivesse incluído essa turma na minha “pesquisa”, teria um monte de argumento bom de verdade pra votar no Serra, confiram. (Todos os estudantes que aparecem no vídeo estão lindos; como uma tia minha falou certa vez, com a "beleza da juventude”.) Mas se você não quer assistir nenhum vídeo e prefere ler um texto bom, sugiro o texto do Nunes, publicado no blog do Idelber. Tá bem bom mesmo.

***

E olha aí do que falávamos ontem: é só esperar pra ver. Tsc, tsc.

UPDATE: Li o texto recomendado pela leitora Sara, no post anterior, e preciso recomendar, claro. É dele, do Nicolelis.

Hoje não tem post...

...porque fiquei lendo um monte de coisa e depois as ideias sumiram.

Mas eu achei uma graça esse vídeo.

Eu fiquei com certo receio disso daqui, porque, né, o nível anda daquele jeito.

E acho uma graça (#not) a Folha se empenhar tanto para ter acesso aos registros da ditadura sobre a Dilma. Quer dizer, a Folha quer convencer você a não votar na Dilma a partir do que os ditadores do golpe de 64 e do supergolpe de 68 disseram dela. Ela, que os enfrentava. Que eles torturavam. Que os desafiava. Que eles humilhavam. Quer dizer, é um baita dum jornal, né não? Nossa, acho que vou até fazer uma assinatura.  (Li um ótimo texto sobre isso hoje, em algum lugar, mas não encontrei o link para vocês agora. Se achar, ponho aqui mais tarde.)



A seis mãos


Para todos os males, chocolate.

E eis que depois de um longo intervalo em minhas experiências na melhor parte da casa, hoje voltei à cozinha. Eu já tinha paquerado com a receita desse bolo outras vezes, mas os supermercados daqui não devem ver muita vantagem em vender cacau em pó, daí eu adiava e adiava. Felizmente agora encontrei o cacau - em abundância, quase comprei a prateleira inteira, só para garantir - e pude mandar ver.

Eu não devia ficar tanto tempo assim longe das formas e batedeiras. Preparar bolos é como uma boa sessão de terapia, com o diferencial de que não rolam lágrimas e nem precisamos mergulhar em lembranças doloridas para ter um bom resultado. Em comum, apenas o bem estar que vem quando acertamos a mão e conseguimos ver a real beleza das coisas, como nos sorrisos da criançada com os dentes cheios de massa marrom e olhinhos brilhando de alegria. Insubstituível. (Com o bolo no forno, meus ajudantes Arthur e Amanda trataram de limpar a tigela da massa com os dedos. Cerca de cinco minutos depois, Amanda estava coberta de massa de bolo. Só os cotovelos ficaram limpos. E a tigela.)

Uma hora depois, no café da tarde, ouvia-se: "olha, que escurinho, parece negresco", "huumm, bem molhadinho, né?", "quero mais", "vou comer minha última fatia, prometo" e "humc chomp grump, delícia".

Ao infinito e além



O infinito é assim.

Falta uma semana. E houve um tempo nessa campanha em que eu queria que ela chegasse ao fim para ver a Dilma eleita. Agora é mais que isso. Continuo torcendo pela vitória da Dilma, mas mal posso esperar para ver o fim da campanha pela campanha mesmo. Eu-não-aguento-mais-ponto-com-ponto-br. Ainda leito tudo que posso, tento me manter informada, troco um ou outro tweet com alguém, mas me sinto cansada diante de tanta fuzarca. A que nível chegamos?

Eu ainda me surpreendo com o episódio do Jornal Nacional de ontem. Por mais que a gente saiba tudo o que se sabe sobre o posicionamento político da Globo, a edição histórica de quinta à noite ainda me impressionou muito. Eu realmente acho inacreditável o que vi. Mas, né, foi aquilo. E vendo as desconstruções da farsa internet afora, fico me perguntando se há um limite nisso. Como desconfio que não há limites, conto os dias para o fim da campanha. Eu ainda não estou no grupo que está cantando vitória. Todo mundo que passa por aqui sabe que sou eleitora e torcedora da Dilma, então não, não estou rogando praga; mas depois da edição do JN de ontem não duvido de mais nada nessa vida.

Anda, outubro, acaba.

***

E se eu contar que ainda achei que eles fossem falar do caminhão apreendido, vocês acreditam em mim? Só eu, viu. Claro que não falaram. Vai ver eles não ficaram sabendo, né? Tudo é possível. #not

Power: off



Por mim, pode desligar.

Agradeço com força ao destino que me fez viver na era da internet em que não dependo do Jornal Nacional para saber de nada, amém.

***

Arthur:

- Pai, que barato aquele carro, né?
- Qual filho?
- Aquele do Alvim e os Esquilos.
- Não lembro... qual?
- Ai, pai, aquele, que eles botam a cabeça pra fora, na parte de cima! Com teto escolar!
- :-)

***

Hoje corrigi uma coisinha que eu achava muito lindinha dita assim, bem erradinha:

- E aí, filho? Foi boa a aula hoje?
- Foooooi!
- Se divertiu muito?
- Se divertiii!

Já me arrependi de ter corrigido. :-)


***

O gaveteiro do meu quarto despencou da parede. Cabruuum!! Ligamos para a loja que fez o gaveteiro. A loja faliu! /O\ Hahahahaha!!! E eu indiquei a loja para as amigas, gente. INDIQUEI!! Ai, senhor.

***

Oi? A bolinha? A fita crepe? A quebra de sigilo? A bexiga com água? Sorry, não tenho mais saco. Leio tudo que posso, mas não consigo escrever uma linha sobre nada. Nojo, de tudo. Mas o desemprego hoje bateu o índice mais baixo desde 2002 e o salário atingiu o maior poder de compra - e o novo template do blog tá funcionando bem. Fico feliz por coisas assim.
  

Tempo & templates


Quem passou por aqui ontem percebeu imagens esquisitas e gadgets sobrepostos, uma confusão dos diabos. Vou dar uma explicação bem técnica para o que aconteceu: o template que eu estava usando estragou. Pronto, é tudo que sei.

O que quem passou por aqui ontem não sabe é que nós levamos nossos filhotes ao shopping para um daqueles programas de índio que só quem tem filho pequeno faz (brincar com o Doki, do Discovery Kids - no fim das contas, até que foi bem legal). E que por isso cheguei em casa rezando pela minha caminha quentinha. Portanto, a mudança de template foi feita por alguém caindo de sono, mexendo com coisas que não entende direito.

Eu não sei se quando o dia amanhecer vou achar razoável o resultado, mas eu vou torcer para vocês encherem a caixa de comentários com pitacos e sugestões. Vale tudo, menos xingar para eu não ficar assim muito triste.

Que tal está? Dá  pro gasto? Acabei me agarrando a um template padrãozão do blogger mesmo porque não tinha disposição para vasculhar a rede em busca de algo criativo e megachocante. E, sim, eu gosto de azul.

***

(Luciana e Luz, mantive os comentários de vocês duas, mas removi o texto do post, porque era temporário mesmo.)

Obrigada à Juliana, do Dicas Blogger pela ajuda.

Meninas poderosas



E terminou o concurso de blogueiras. E eu agradeço bem feliz cada voto dado ao Menina Pode, Sim. Com 81 votos, o Estrada Anil ficou em 3º lugar, assim como no outro concurso. :-) Valeu, pessoas, obrigada mesmo.

O blog segue. E eu sigo, desconfiando dos estereótipos, dos moldes, das linhas que tentam traçar nossos caminhos por nós. Cada menina, como qualquer outra pessoa, é infinita. Talvez a gente nunca consiga escapar totalmente do poder das expectativas sociais, mas medir, rotular e julgar alguém baseando nossas opiniões unicamente em estereótipos pré-fabricados e engolidos sem mastigação é uma forma eficaz de desperdiçar muito do potencial da humanidade. E é também um caminho curto e perigoso rumo ao preconceito. Nós podemos muito, muito mais do que alguns querem fazer crer com sentenças recitadas como mantras: isso não é coisa de menina. Se você é fã da frase, que tal repensar o assunto e considerar que a vida fica mais colorida se baixarmos as expectativas e empurrarmos os horizontes um pouquinho mais pra lá?

Que nossas estradas sejam como nós, infinitas.
  

Interseções



Amanhã chega ao fim o 4º Concurso de Blogueiras, com o tema A Origem do Meu Feminismo. Aquele tanto de texto bom, aquele tanto de blog bom, aquela mulherada toda trocando ideias - foi uma delícia. E como uma espécie de cerimônia de encerramento da brincadeira, li um texto que uma amiga muito querida me enviou por e-mail ontem. Não trata da origem do feminismo de ninguém, mas toca em um ponto que sei que é muito caro a toda e qualquer mulher que compartilha ideais feministas: o respeito pelo outro - e pela outra.

Decidi reproduzir o texto aqui, originalmente publicado no site do Azenha há alguns dias, com a intenção de matar dois coelhos de uma vez: fazer ecoar um pouco mais essa revolta cansada que tenho sentido nos últimos dias diante de tanta pequeneza na campanha eleitoral e homenagear todas as participantes do 4º Concurso de Blogueiras. Eu não faço a menor ideia da intenção de voto da maioria delas - e obviamente respeito o voto de todo mundo - mas desconfio que dificilmente uma mulher que veja sentido nos questionamentos feministas compactue com o tom preconceituoso e o subtexto incrivelmente machista adotados por boa parte do eleitorado serrista. (Acho que já está claro, mas vou reforçar: não acho que só exista coerência no voto feminista direcionado à Dilma; estou criticando o discurso que tenho visto em muitos sites, tweets e outras manifestações de apoio ao Serra e não necessariamente o voto dado a ele - que eu também lamento, mas isso é outra história.)

O início do texto faz referência à temática abordada pela jornalista Maria Rita Kehl no artigo que motivo sua demissão do Estadão, dias atrás. Como já falei disso em outro post, resolvi omitir os primeiros parágrafos do texto e o reproduzo aqui  a partir do ponto em que ele se volta à questão do gênero (grifos meus). Eu teria algumas ressalvas quanto ao teor do texto (talvez direitos civis para todos nem devessem ser submetidos a plebiscitos, mas simplesmente garantidos; ou talvez nem todos que repetem o discurso intolerante sejam "ingênuos"), mas não chegam a comprometer a mensagem central.

Para Lola e todas as blogueiras que participaram do concurso:

"O suicídio de gênero 

Por Marisa Meliani, jornalista e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA-USP


(...)

Mas, ao lado dessa arrogância, que pretende manter os mais pobres na lotação e não dentro do seu próprio automóvel, uma outra onda, muito mais capciosa, toma conta dos discursos nas redes sociais nesta eleição. É a questão de gênero.

O que mais se vê nessas novas mídias são adjetivos do tipo: gorda, feia, velha, cara de fuinha, bruxa, bruaca, baranga, terrorista e por aí vai. Fico pensando no que sente Dilma Rousseff, enxergando-a como qualquer outra mulher diante de tantas ofensas. Contudo, esta mulher, em particular, é candidata ao mais alto cargo do país, acabou de sair de um tratamento contra o câncer, está com o pé emoldurado por uma tala e percorre o Brasil em busca da manutenção de um projeto que insere, em fatos e números, as camadas mais pobres da população no espaço que chamamos de cidadania.

Não quero discutir aqui as questões de corrupção, amplamente identificadas nos dois governos FHC e Lula, ou no governo estadual paulista capitaneado pelo Sr. José Serra. A ética é uma condição que se firma, essencialmente, na consciência humana individual, antes de obter ressonância nos espaços públicos. E embora ela não seja a virtude mais cultivada por nossos políticos, é da ética pessoal que quero tratar aqui, como um protesto contra o retrocesso e um chamamento contra a obscuridade do pensamento retrógrado, atrasado e machista por excelência.

Os jovens que não viveram a ditadura militar em nosso país não têm ideia de como a militância de Dilma Rousseff nos grupos de esquerda foi importante para que eles vivam hoje em plena democracia. Rotular a candidata de “terrorista” e dar anuência para que a imprensa use esse argumento para detratá-la é uma ofensa a todos que sofreram ou morreram nos porões da ditadura. Uma pessoa, qualquer delas, que arriscou a própria vida para livrar o país dos horrores da verdadeira falta de liberdade – principalmente a de imprensa, da qual tanto se fala – merece respeito. E deve orgulhar-se de sua coragem.

Parte da imprensa, cooptada e venal, na afobação de garantir a vitória de seu candidato também dá ampla repercussão a questões de foro íntimo, como o direito ao aborto, à união civil entre homossexuais, de crenças religiosas e outras que deveriam ser tratadas em plebiscitos ou no âmbito dos grupos diretamente interessados, na forma de pressão sobre o Legislativo. Jogo sujo, claro. E ganhar assim não é bom para ninguém, muito menos para a democracia.

Estamos a poucos dias do segundo turno. Confesso que, desiludida com a política, preguei o voto nulo no primeiro turno, mas, felizmente, mudei de posição assim que detectei essa onda de intolerância que toma corpo e invade a mente dos mais ingênuos. Desejo profundamente que o debate suba alguns degraus e aborde os temas que realmente interessam ao nosso país e à população. Que se compare realizações, com números e estatísticas, dos dois grupos postulantes ao poder. Que se apresente os projetos para a continuidade de um processo de desenvolvimento sustentável em plena ascensão. Que se insira a questão ambiental dentro do tripé em que ela deve estar, ou seja, de forma integrada ao progresso econômico e socialmente justo.

Independentemente dos resultados no segundo turno, Dilma Rousseff merece o respeito e a admiração de todos que lutam contra a opressão e a intolerância. A possível primeira mulher presidente do Brasil é dona da beleza que todas as mulheres e homens possuem, que é a da vida examinada, com tentativas, erros e acertos. Vamos dar um basta às ofensas que, endereçadas à candidata, atingem a própria essência da condição humana.

Dedico este texto a todas as mulheres, mães, arrimos de família, trabalhadoras, de todas as idades, dos grandes centros urbanos ou dos rincões mais miseráveis do país. Lembro que a verdadeira vitória que comemoraremos juntas será a derrubada dos estereótipos que tentam nos impingir para nos humilhar, diminuir a nossa força e nos convencer de que somos incapazes de exercer o poder."

Eu não voto na Dilma por ela ser mulher. Mas gosto muito disso também. Né? Menina pode, sim.

Blogueiras do concurso, parabéns e obrigada pelos papos bons. Que nossas trocas estejam apenas começando.

Falácias e silêncios



Olha, eu não estou nem aí pra esse papo de aborto agora. Quem abortou, quem não abortou, quem é favor, quem é contra. Eu acho que o assunto deve ser discutido, sim, porque não é possível que a gente opte por brincar de ignorar que mulheres morrem no Brasil todos os dias em clínicas clandestinas. Mas eu não estou nem aí para esse papo do aborto na campanha eleitoral. Não é a hora. Seria a hora, se o debate girasse em torno de se buscar uma solução para o problema, mas obviamente o foco é outro, o foco é não ferir a fé das pessoas, é manipular crentes e seguidores e ganhar votos. Então eu não queria falar disso, só para não dar a impressão de que entrei na dança.

Mas.

Eu quero expressar o meu profundo nojo por líderes religiosos que, conscientes do poder manipulador da fé, tentam fazer seus seguidores de idiotas. Eu tenho nojo, profundo. E não estou sozinha, obviamente. E lamento muito que a campanha da Dilma tenha passeado por essa conversa criada para desviar o foco do que realmente importa. A coisa melhorou na campanha nos últimos dias, mas a mancha ficou.

E também quero expressar o asco que sinto por alguém que aparentemente conhece de perto o trauma gerado por um aborto (sempre esperando que a outra parte se pronuncie, já que ainda não sabemos se a esposa do Serra confirma seu aborto - o que, ressalte-se, não seria, a priori, em condições normais de temperatura e pressão, da conta de ninguém) tenha a desfaçatez de promover uma campanha pautada no tabu e em acusações de baixíssimo nível, do naipe de ela é favorável à morte de criancinhas, ou coisa que o valha. É impressionante.

Por fim, expresso mais uma vez, minha náusea diante de uma imprensa que não está interessada em informar. Eu quero, sim, que todo e qualquer caso de corrupção venha à tona; quero que a imprensa e a sociedade civil fiquem de olhos bem abertos para cada passo do governo; quero transparência, debate e empenho. (E isso é outra coisa de que gosto muito no Brasil: cada um é livre para dizer e publicar o que lhe der na telha. Se usam essa liberdade com responsabilidade, aí já é outra história.) Mas quero também um mínimo de respeito à inteligência dos leitores e telespectadores. Repito aqui um dos meus tweets de ontem: imaginem o alarde que a imprensa faria se a Dilma fosse parte em dezessete processos diversos, além de três por improbidade administrativa. Eu não estou acusando Serra de nada: ele pode vir a ser inocentado em todos os processos e, no Brasil, ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado de qualquer ação. Meu ponto é antes disso: o fato de que ninguém se pergunta que relação existe entre esses processos e as administrações anteriores de Serra ou sua participação no governo FHC. Onde, na grande mídia, alguém leu alguma linha sobre isso? Eu quase posso ver o tom de falsa indignação contida do casal Bonner pronunciando lentamente dezesssssseeeete processos, im-pro-bi-daaaaa-de, caso fosse a Dilma e não o Serra. Sairia na Folha, no Fantástico, seria capa daquela revista e o Boris Casoy daria uma festa.  

***

Mas meu sábado teve churrasco com jogo da verdade em que os casais presentes relataram, entre gargalhadas e muito barulho, encontros e reencontros, descreveram qualidades apaixonantes e revelaram defeitos inaceitáveis (#not) de seus respectivos. Na roda, gente que está junto desde os 14 anos de idade, gente que se conheceu pela internet, gente que se ama desde que se conhece por gente, gente que quase perdeu de vez, mas reencontrou (o/), gente que bateu o olho e já sabia... todo mundo orgulhoso de sua cara-metade e que trouxe para a madrugada do domingo momentos para lembrar depois.

Ter amigos é tudo de bom.

***

No sábado Amanda montou sozinha seu quebra-cabeças de 60 peças. Arthur montou o de 200. Não, isso não é relevante para muita gente, mas vocês entendem, né: de vez em quando esse blog é só um diário de mamãe coruja. Pra lembrar depois.

Roque e eu


Hoje aderi à campanha "Mude de assunto você também". Acho que sou a única adepta, mas vá lá.

***


Quintal da minha casa, quatro horas da manhã.

Quem caminha por aqui há tempos, ou quem me conhece pessoalmente, sabe da existência do Roque, nosso cachorro. Roque é um American Starfodshire de três anos e é o cachorro mais medroso de que já se ouviu falar. Não ponho minha mão no fogo pela canela de alguém que decida pular o portão da nossa casa, mas, se essa pessoa trouxer a tiracolo um trovão, domará o Roque em dois segundos.

Basta uma ameaçazinha de chuva de nada, daquelas com trovões longínquos (quase inaudíveis para os humanos) para o Roque enlouquecer e chorar como um cachorro bobão. Acontece que Roque é grande, mora no quintal e não frequenta o interior da casa. Então quando ele chora, ao invés de se recolher à sua segunda casinha de madeira (ele comeu a primeira) ou de enfiar o focinho embaixo das patas ou sei lá que alternativa disponível aos cachorros bobões, ele bate na porta de vidro que dá acesso à sala. E eu juro a vocês que um dia ele vai derrubar aquela porta.

Mas bater a ponto de quase quebrar a porta não é o bastante. Não demora e logo o chorinho se converte em uivos in-su-por-tá-veis. Tudo bem, menos, em uivos. Mas quando tudo isso se dá no meio da madrugada, os uivos são in-su-por-tá-veis.

E ontem foi assim. Mas nada de trovões lá longe, não. A madrugada foi açoitada por uma tempestade típica de verão, com trovoadas ensurdecedoras que fizeram o Arthur correr pro nosso quarto, a Amanda cobrir rosto e orelhas com o travesseiro (mas sem levantar da cama) e o Ulisses passar horas na churrasqueira acalmando o Roque. Ah, gente, cachorro é tudo de bom, mas vamos combinar, ninguém merece.

A pergunta mais óbvia é "por que vocês simplesmente não deixam o cachorro entrar?". Porque não. Porque ele é grande, molhado, solta pelo, morde tudo e suja tudo. Porque, apesar de dócil e tolo, a boca dele é grande e temo pela segurança de minhas crianças. E porque, pelamordedeus, ele tem a casa dele lá fora, quentinha e gostosinha, onde ele pode se abrigar do frio e da chuva. E a barulheira dentro de casa não é muito menor que lá fora, eu mesma não consegui dormir com os trovões. É, amantes de cachorro, sinto muito, eu tenho esse defeito: eu gosto de cachorro, mas não a ponto de deixar o grandalhão dormir na minha cama ou no meu tapete que, eu sei, ficaria cheio de pequenas partículas de cocô trazido nas patas e etc. Ah, não consigo, I'm sorry. Enfim.

Uma amiga me sugeriu calmante (para o cachorro, tá? - já estou melhor, hehe), o Ulisses pensou em acorrentá-lo (ai, sinto o olhar de reprovação de vocês daqui, juro!), mas acho que a alternativa mais simpática foi comprar uma daquelas gaiolas para viagem, bem grande, e trazê-lo para dentro de casa durante as tempestades. Eu não sei se ele vai parar de chorar, mas pelo menos não vai quebrar a porta da sala. E se ele continuar a uivar, pelo menos os vizinhos vão ouvir os uivos mais baixinhos, acho. (Hoje tive a impressão de ver meu vizinho saindo para comprar um vodu.)

***

Consegui! Eu conseguiii!!! Eu falei de outra coisa!!!!!!!!!!! Eu mudei da assunto, yes!!! Oba, oba, oba, chataririoba!!   \O/ 

***

Posso falar só uma coisinha, uma só, por favooooor? Hoje conversei com algumas pessoas na web e gostei demais. Vi um engajamento tranquilo, com discurso racional, sem arroubos; vi gente disposta a ouvir, ponderar, reconhecer equívocos, pensar no outro. Gostei tanto. Pronto, parei.


O voto, a confusão e os critérios



Pois é, há certas coisas às quais a gente precisa se agarrar bem, para não correr o risco de, no meio do barulho, atropelá-las.

A minha opinião é a minha opinião, nada mais do que isso. Ela não é a verdade, obviamente. Nem existe uma única verdade, atenção. Não vivemos em um roteiro de filme B onde o bem é bem e o mal é mal. A campanha “Serra é do bem” é patética; mas não me incomoda menos o tom adotado por alguns eleitores da Dilma. Devagar com o andor, gente, o santo é muito frágil.

Eu sigo a mesma linha de pensamento de boa parte do eleitorado da Dilma, a identificação existe e é óbvia: queremos o mesmo governo para o país. Mas isso não é o mesmo que dizer que nossa opinião é a única razoável. Eu sinto muito por quem vota no Serra e fala como se conhecesse o candidato, sem saber absolutamente nada do que foi o governo dele em São Paulo, por exemplo. Eu também não entendo quem diz que a Marina é a solução limpa para a política do país, mas não consegue explicar com que alianças ela governaria. Mas também não aceito quem sai taxando todo mundo de burro por não votar na Dilma. Use aqui o exemplo que melhor lhe convier, muitos são perfeitamente compatíveis com o que quero dizer.

Hoje uma amiga me falou que não via as coisas “assim tão claras” como eu vejo, o “bem contra o mal”. E eu quase caí para trás. A minha amiga estava praticamente me achando uma fundamentalista! A conversa rendeu umas boas risadas, mas me serviu de alerta também. Assim, ó: eu não vejo o bem contra o mal em nenhum lugar do mundo, em nenhuma esfera. Eu lamento muito se passei essa impressão. A vida seria infinitamente mais simples se as coisas fossem assim, com rótulo, mas elas não são e eu já aprendi isso. Eu aprovo o governo Lula apesar das mancadas. Apesar. Nada é assim, límpido e cristalino, sabe? Eu acredito em projetos que, se não são perfeitos, pelo menos se aproximam muito do que eu tenho em mente como país que anda pra frente. Mas é só isso. É muito pra mim, mas não é a única verdade do mundo que faz de mim uma iluminada e de quem discorda de mim um ser menor. A verdade única, lamento informar, é uma invenção.

Não podemos deixar de ver que os casos de corrupção no partido do governo serviram de argumento para muita gente deixar de votar na Dilma. Ora, isso me parece um argumento bastante razoável. Antes de virar as costas para essas pessoas, mais interessante para o país seria reconhecer que essa é uma mancha lamentável no governo Lula. Em um segundo momento, humildemente, pode-se até tentar mostrar que o Serra não é tão limpo quanto diz ser, mas sempre sabendo que isso em nada diminui a gravidade dos atos de qualquer corrupto. (Talvez essa pessoa realmente não saiba que ele responde a pelo menos 17 processos diversos, além de três por improbidade administrativa (v. final do post). Talvez ela pondere e reconsidere sua posição, talvez não. Mas pelo menos a pessoa ganhará uma informação a mais, o que é sempre bom.)

Eu estou fazendo um esforço muito grande para ser entendida aqui, por favor, leiam com carinho: eu não tenho a menor dúvida de que a Dilma seria melhor para o país, os argumentos estão nos posts dos últimos dias. Mas essa sou eu. Eu entendo e aceito que muita gente discorde de mim. Muitas vezes eu lamento, argumento, até tento convencer a reconsiderar. Mas eu não posso, em nome de algo em que acredito, tratar outras pessoas que não pensam como eu com ares de superioridade. Isso não é debater. E, acreditem em mim, pessoas: o tiro muitas vezes sai pela culatra.

Conheço várias pessoas que não sabem em quem vão votar. E desconfio seriamente de que o caminho mais curto para convencê-las de vez a votar no Serra é tratar os eleitores do Serra como se fossem burros. Eles não são burros. Eles estão fazendo uma escolha diferente da minha. Tem gente burra que vota na Dilma também, ou que votou na Marina. Tem gente burra e gente inteligente e gente legal e gente bem intencionada nos três grupos. Mais vale, com todo respeito, perguntar o porquê do voto deles, antes de adotar um tom de dono da verdade e sair por aí cuspindo sua opinião como se ela fosse a única do mundo. O mundo é bem mais complicado que isso.

***

Agora, vocês hão de convir que é muito engraçado ver o Serra dando essa entrevista, com a maior cara de quem sabe do que está falando. Esse é o Serra. Muitas vezes, ele não tem ideia do que está falando, mas nem por isso perde a pose. Como no debate da Band ao dizer que o Brasil precisa de um cadastro nacional de criminosos. O banco de dados já existe, chama-se INFOSEG e vai bem além de ser um mero “cadastro de criminosos”. E foi conversando sobre isso com amigos, com respeito, que hoje o Ulisses levou eleitores do Serra a reconsiderar o voto. Porque praticamente tudo que foi dito pelo Serra no debate da Band sobre segurança pública faz muito pouco sentido. 

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Eu preciso me distanciar um pouco mais do assunto, disse minha psicóloga. Não me envolver tanto, não sofrer. Mas, como eu disse antes, meu voto não é meu. É de quem está lá na ponta da corrente. Eu voto por um país mais justo, com maior distribuição de renda, com valorização da educação e da pesquisa, do funcionalismo público; um país grande, que tem respeito e reconhecimento internacionais, que está na mira dos investidores do mundo inteiro. Eu voto com o coração e por isso me envolvo e sofro mesmo. Eu voto a favor de um governo que recuperou a autoestima de boa parte da população, que andava esquecida como se não tivesse direito ao país que é sua casa. Eu voto na Dilma porque ela é, sim, a continuação do melhor governo que o Brasil já teve e me dói demais ver que se apresenta no horizonte a possibilidade real de ver o PSDB voltar ao poder. Porque foi o PSDB que, mesmo tendo trazido o plano real, a estabilização da moeda e dado início ao controle da inflação, deixou de transformar isso em benefícios reais para a imensa maioria da população. Foi o PSDB que levou o risco-brasil a níveis assustadores, espantou investidores e vendeu como louco tudo o que viu pela frente, sucateou o ensino e a pesquisa, deu as costas para população miserável.


Ando triste, chateada, pessimista. É inevitável, sinto muito. Eu não acho que há nada definido. Com todo respeito a quem vota no Serra, acho que ele é o pior candidato ever. Mas quem pensa assim sou eu. E o meu voto é só um.

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*Trecho do artigo que trata dos processos declarados pelos candidatos à Justiça Eleitoral:

"O Proer foi um programa implementado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (...). Na época, Serra era o ministro do Planejamento. As ações envolvem diversas pessoas que tiveram algum grau de responsabilidade nas decisões relativas ao Proer. Os nomes mais conhecidos são Serra e do então ministro da Fazenda, Pedro Malan. As ações questionam a assistência prestada pelo Banco Central, no valor de R$ 2,975 bilhões, ao Banco Econômico S.A., em dezembro de 1994, assim como outras decisões - relacionadas com o Proer - adotadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Conforme verificado, já houve uma decisão monocrática (ou seja, de um único juiz) em favor da denúncia. A juíza Daniele Maranhão Costa, da 5ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal, considerou que houve dano ao erário, enriquecimento ilícito e violação aos princípios administrativos no caso."
Segundo o artigo, Serra é o campeão absoluto em número de encrencas com a Justiça entre todos os candidatos à presidência no primeiro turno.

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Não se esqueçam da outra eleição: o Menina Pode, Sim tá lá. Nessa eleição, ninguém perde e ainda conhece vários blogs legais.

Um não-post


Só para registrar: a campanha não é para quem tem estômago fraco.

Não, não foram as pesquisas, nem a boa, nem a ruim. Foram as pessoas.

Meu estômago é fraco.

Problema nosso



Era uma vez um blog que tratava de vários assuntos. Aí vieram as eleições e a blogueira surtou. Prometo um esforço extra nos próximos dias, não desistam de mim.

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As pessoas escolhem em quem votar pelos mais variados motivos. Por ideologia, por favores pessoais, por consciência política, por acreditar que determinado candidato ou candidata tem mais capacidade administrativa, por achar tal candidato/a inteligente, simpático/a, por concordar com programas de governo, etc. E há aqueles que votam por um determinado grupo: fulano foi bom para os aposentados, voto nele; fulana fez um ótimo governo para quem é da área tal, voto nela; fulano é ótimo para o funcionalismo público, boto fé.

Pois bem. Eu tenho vários colegas do funcionalismo público federal que votam no Serra. Vários. Então quero convidá-los a dar uma olhadinha em alguns dos cento e oitenta e tantos comentários feitos por leitores desse artigo, que trata de um pacote de reajustes salariais do governo Serra, em São Paulo. Eu não sei se o pacote foi de fato aprovado, não sei o que aconteceu. E mesmo se eu desconfiasse que Serra seria melhor para o funcionalismo público federal do que a Dilma, ainda votarina na Dilma, já que meu voto vai para um projeto de país que tem habitantes com necessidades infinitamente mais urgentes que as minhas (o que não quer dizer que eu não considere importante que minha classe seja valorizada, já que todos - professores, gestores, policiais, servidores de qualquer área - também ajudamos a construir e a tocar o país). De qualquer forma, como disse, minha intenção aqui é chamar a atenção de meus colegas e amigos do funcionalismo federal que porventura considerem o tratamento dado pelo governo a esse grupo como elemento relevante na escolha do voto. Porque o que se vê nos cento e oitenta e tantos comentários do artigo que estou indicando aqui ainda não é problema nosso. Mas.

E, claro, fica a torcida para que o próximo governo de São Paulo olhe com mais carinho para a galera de lá.

Nicolelis e as crianças



Como falei no post passado, o Miguel Nicolelis, de quem virei fã logo que conheci um pouco de sua história e de seu trabalho, deu uma entrevista em que declarou publicamente seu apoio à candidatura da Dilma. A entrevista inteira pode ser lida no portal do Nassif. Resolvi publicar um trechinho aqui, considerando que hoje é dia da criança, já que elas têm sido o foco central do lindo trabalho científico-social que o Nicolelis encabeça lá em Natal. Não deixem de ler a íntegra da entrevista (bem curtinha - o projeto dele é maravilhoso) e de levar em conta as palavras desse brasileiro tão especial.

"Por que é que o sr. decidiu anunciar publicamente seu apoio à candidata Dilma Rousseff?

Porque desde as eleições do primeiro turno eu cheguei à conclusão que essa é uma eleição vital para o futuro do Brasil e eu estou vendo um debate que está se desviando das questões fundamentais na construção desse futuro e dessa maneira eu achei que como cientista brasileiro, mesmo estando radicado no Exterior — mas que tem um projeto no Brasil e tem interesse que o Brasil continue seguindo este caminho — eu achei que era fundamental não só que eu mas que todos que pudessem se manifestassem a favor e fizessem uma opção pelo futuro que a gente acredita que é o correto para o nosso país.

Que futuro é esse?

É o futuro da inclusão social, o futuro em que as crianças que ainda nem nasceram possam ter a educação, saúde, ciência, tecnologia e a possibilidade de construir os seus sonhos pessoais sejam eles quais forem. Futuro que nós, a sua e a minha geração não tiveram. E um futuro que não leve o Brasil a retornar a um passado recente onde nós tinhamos, além da insegurança financeira, uma total falta de compromisso com o povo brasileiro e com a coisa brasileira. Então, nesse momento para mim essa é uma eleição vital, é um momento histórico para o Brasil. Eu viajo pelo mundo inteiro e eu nunca vi o nome do Brasil e a reputação do Brasil tão alta (...)* e este é o momento de deslanchar de vez e não voltar para o passado."

***
 
Enquanto isso, no tapete da sala, a pequena agora tem uma varinha mágica e deve transformar todo mundo em "unicóneo" (o bicho favorito da Amanda, na atualidade, e o unicórnio - não me perguntem); e um garoto com um arsenal de Bakugans (não sei para que servem). E, como não sou tola, comprei um outro joguinho, o Identidade Secreta, bem divertido, para que as crianças de todas as idades dessa casa possam brincar também.
 
Mas aí chegam umas lembranças antigas, do dia da criança em que ganhei uma bola laranja, com a estampa do Pato Donald. E penso na minha mãe que me deu uma infância de carinho e proteção. E bate a saudade. E aí eu largo esse computador e vou pro telefone.
 
____
 
*No portal do Nassif há um link para o áudio da entrevista.

O assunto


Redução da miséria no Brasil (fonte)*

Ainda não foi exatamente uma conversa centrada unicamente nos interesses do Estado soberano brasileiro, nem um show de propostas analisadas criteriosamente, mas vários ingredientes presentes no debate transmitido pela Bandeirantes ontem me agradaram demais. Gostei do rumo que a Dilma deu à conversa, insistindo em ressaltar avanços do governo Lula e questionando a postura cínica do Serra. Gostei muito de vê-la firme, indignada, assertiva, incisiva. O forte da Dilma não é sua oratória, claro. Ainda gagueja, quebra a estrutura das frases, interrompe-as, retoma de outro ponto. Mas eu, pessoalmente, não estou nem aí. As negociações que mudam o rumo de um país são feitas em reuniões, não em palanques.

Mas o debate foi rolando e mesmo antes de o candidato adversário declarar-se estarrecido diante da atitude mais firme da Dilma (que, convenhamos, precisa parar de posar de mamãezinha paz e amor), vibrei com essa guinada na postura. Agora, sim. Quer comparar? Vamos lá. Quer posar de porta-voz da moral? Manda, quem não te conhece que te compre, Serra. Quer camuflar o patamar ocupado pelo país agora, anos-luz à frente do país sucateado que vocês entregaram? Tenta. Claaaaro, sempre há quem diga que ela “perdeu as estribeiras” – os olhos de quem vê, fazer o quê? Eu, de minha parte, entendo e compartilho da indignação da Dilma e acho que ela tem mais é que defender os interesses do país com unhas e dentes. E entre a voz carregada de inconformismo de quem teme pelo país e o cinismo sorridente de quem pouco se lixa para o país, fico com a primeira.

O resultado das eleições, para mim, segue incerto. Tudo pode acontecer. Mas ontem senti orgulho de minha escolha. Porque, né, se for preciso, a gente sobe um pouco o tom, sim, e trata de ir botando os pingos nos is. E, como bem disseram por aí, a Marina tá pensando. A Dilma já tá lutando.

*Observem que o Plano Real data de 1994, início do Governo FHC. Ao contrário do que muita gente diz, a estabilização da moeda não significou melhoria para a classe dos miseráveis. A diminuição significativa da fome no Brasil teve início com o Lula no poder.

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E falando em escolhas, não deixem de ler os posts do concurso de blogueiras (e conhecer ótimos blogs, como o da Luci, da Amanda, da Luciana...). Participem, votem, vão treinando. :-) O Menina Pode, Sim tá lá também.

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Update feliz: Sabe o Miguel Nicolelis, de quem falei nesse post lá no início do blog? Declarou seu apoio à candidatura da Dilma e disse por quê. Tá tudo aqui. Fiquei feliz. :-)

Interlúdio


Este é um daqueles posts que só mães e pais derretidos e sem noção de limite de corujice entendem, tá?



Hoje pela manhã minha filha, que acabou de completar três anos, chegou ao meu quarto, logo após acordar. Estava brava reclamando do bracinho que estava preso na manga da blusa que ela tentava vestir. Já estava de calça trocada, quase pronta para começar o dia. Desfiz a confusão do braço com a manga da blusa e ela terminou de se vestir, ali em pé na porta do meu quarto. Só então perguntei onde estava seu pijama. E ela correu de volta ao quarto dela para me mostrar, radiante, que já tinha tirado sozinha calça, blusa, meia, todo o kit. Chamei Odisseus e Arthur e começamos o dia assim, comemorando. Bem na semana em que o Arthur começou a tomar banho (quase) sozinho.

Não quero deixar de ver as pequenas conquistas. Parabéns, filhotes. Muito lindos, vocês.

Ecos



Amiga: Você viu a capa da Veja?
Eu: Não, mas não deve ser sobre os contratos do Governo de São Paulo com o grupo Abril, alguns sem licitação, para uso da revista em sala de aula. Ou sobre a amizade do Serra com os Civitta? É?

E fiquei pensando: será sobre um estudo comparativo dos dois últimos governos? Ou sobre temas relevantes ao debate eleitoral: índices de desmatamento na Amazônia, redução da miséria, geração de empregos, risco Brasil (lembram disso?), as razões por trás do interesse internacional no país, o fim da subserviência às políticas externas dos países ricos, o número de operações da Polícia Federal nos dois governos (consultem o site http://www.dpf.gov.br/), ou sobre...?

Aí interrompi o devaneio e me lembrei do que estávamos falando. Sou uma tola mesmo. Em outro momento, ontem mesmo, eu estava lendo o argumento de alguém no twitter sobre como a redução da miséria estava diminuindo o fluxo de nordestinos para o sudeste do país, ao que o interlocutor respondeu, em letras maiúsculas, como quem esbraveja, que nordestino é tudo burro e não sabe votar; e que o Brasil precisa dar um jeito de acabar com o que o PT está fazendo, "essa distribuição desgovernada de renda". Assim: essa distribuição desgovernada de renda.

Sem mais.
_______

Ah, quanto à capa (acabei vendo, né? Vários blogs estão falando disso.) Bom: lamento que a mídia dê a pauta. Aborto não é decisão do/da presidente. A capa da Veja não interessa. E eu seria louca se pautasse meu voto em declarações sobre um tema que nunca será decidido por um ou uma presidente. Mas eu queria, sim, ver a Dilma levantar a voz um pouco e dizer a que veio, chamar pra conversa e encostar o outro lado na parede: mostra, Dilma, que você é boa de briga. Mostra. Pede para ele explicar os processos das privatizações, o risco Brasil da era FHC, a quebradeira que era o país após 8 anos de governo que o tinha como um dos principais ministros. Pede, Dilma, tá esperando o quê? Vamos falar do que interessa! Socorro.)

Retratos

Vamos juntos, todos, dar uma olhada nisso aqui:  . Vamos conversar sobre isso? Todos os gráficos têm fontes, até onde observei. Talvez alguém desconfie das fontes (que são de origens diversas), observação sempre válida. Nesse caso, usem a caixa de comentários para apresentar fontes alternativas, okay? Observem com atenção e analisem com desprendimento. O papo por aqui é aberto, cabe todo mundo. Quem se fecha, fica cego.

Onde vi? Seguindo gente boa no twitter: @tuliovianna

O cortiço



Certo dia, quando eu era criança, uma professora nos levou a um cortiço para nossa turma de colégio particular conhecer o lugar. Não lembro exatamente qual era o propósito da excursão, mas lembro que aquilo mudou para sempre minha forma de pensar na pobreza extrema. Nem foi por nada que eu tenha visto nos corredores imundos ou nos quartos escuros, praticamente sem mobília, com camas velhas cobertas por mulambos. O que mudou alguma coisa grande dentro de mim naquele dia foi o cheiro do lugar. Tudo fedia. As pessoas, as ruelas, as paredes, as panelas empilhadas nas pias pretas de lodo. O cheiro nauseabundo penetrou as entranhas da minha cabeça de menina espantada e nunca mais saiu de minha memória. Agora mesmo, diante de meu laptop limpinho, no meu escritório recém-mobiliado, tendo botado meus filhos para dormir em camas projetadas sob medida, vestidos em pijamas de bichinhos, fecho os olhos (pausa) e sinto o cheiro. O fedor. A catinga.

Não é preciso participar de uma excursão no colégio para se sensibilizar com a pobreza, naturalmente. Mas eu tenho me lembrado muito dessa excursão nos últimos dias, por causa dos muitos ataques que tenho visto na internet direcionados a programas como o bolsa-família. Tenho visto de tudo, de afirmações baseadas no vento, passando por comentários cheios de rancor, a argumentos feitos por pessoas de quem gosto muito, quase sempre na linha do jargão mais querido da oposição, "ensine a pescar, não dê o peixe". Ah, como eu detesto essa frase, no contexto em que ela tem sido usada. Ah, como eu detesto.

Talvez meus caros e pacientes leitores nem aguentem mais falar no assunto, dada a repercussão que o artigo da jornalista Maria Rita Kehl, ex-Estadão (foi demitida ontem) gerou. Eu nem acreditei quando li o artigo, de tão lindo e arrepiante que é, porque eu já tinha em mente escrever sobre o tema aqui. Ao ler o artigo, desisti, porque pensei que jamais escreveria nada tão lindamente como ela fez. Pensei em apenas indicá-lo aos meus leitores. Mas, né, minha língua é deeeeesse tamanho. Daí troquei e-mails com algumas amigas, conversei um tiquinho no twitter, li outros artigos, procurando dados para usar aqui que corroborassem algo em que acredito de alma e coração, mas que para muitos é um enorme tabu. E fui lendo e me emocionando, porque, como disse a Borboleta outro dia, a eleição pra mim passa muito pelo amor. Não, não ao partido, não aos nomes. Amor ao próximo mesmo. Mas deixemos de sentimentalismos, ora pois.

Convido quem ainda não teve a sorte de ler a dar uma olhadinha no texto que provocou a demissão da Kehl do Estadão (grifos meus; a íntegra do texto está aqui; se você já leu, pule o texto e siga o post):

"(...)

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos."

A Kehl menciona o impacto que o dinheiro distribuído pelo bolsa-família gera em pequenas comunidades, mas foi nesse texto do blog Pecado (via Maria Fro)que vi uma análise mais cuidadosa desse impacto. O autor do texto teve o cuidado de tentar entender o significado que essa nova fonte de renda de tantos brasileiros teria em comunidades pobres Brasil afora. E é engraçado imaginar que provavelmente - vou chutar - 95% das pessoas que tão confortavelmente instaladas abrem a boca para criticar o programa nunca tenham se dado esse trabalho. É mais fácil repetir o verso, como um mantra que repito na aula de yoga, que me serve ali, mas que, no fundo, não sei direito o que estou dizendo: ai, esse governo paternalista que não ensina a pescar. Mas olhando com um pouquinho mais de carinho por nossos irmãos paupérrimos, podemos enxergar um pouquinho mais longe: a pequena quantia do bolsa-família põe comida na mesa; comida comprada na vendinha da esquina; que precisa renovar seu estoque de produtos; que compra do fornecedor médio da cidade vizinha; que compra do grande fornecedor; que paga impostos; que banca parte do programa; que tirou crianças da fome; e agora já estou com um nó na garganta. Lembrando do cortiço. Na minha cadeira confortável.

O Brasil é um país riquíssimo. O dinheiro do bolsa-família não faz falta NENHUMA a nenhum integrante das classes médias e altas. O dinheiro do bolsa-família, benefício que exige que as crianças da família agraciada estejam com as vacinas em dia e matriculadas em escolas (que precisam melhorar), não empobrece o país, mas aquece a economia de pequenas comunidades, o que concorre diretamente para a diminuição do êxodo para os grandes centros e gera empregos em pequenos mercadinhos, lojinhas, feiras. O bolsa-família, olha só, gera empregos. O governo Lula foi o único governo na história desse país (ai, adoro!) a ter a coragem de gerar distribuição de renda automaticamente, emergencialmente, exclusivamente voltada para quem nunca teve nenhuma política pública elaborada em seu benefício. E, se você quer saber, não fez mais do que sua obrigação de Governo eleito para olhar para a vergonhosa taxa de fome e miséria desse país. Mas a gente abre a boca para, sem estudar um número sequer, dizer que ele não ensina o povo a pescar. Gente, com todo respeito, o nome disso é egoísmo. Na melhor das hipóteses, é falta de informação ou preconceito.

Aí agora me lembrei de um post bem informativo que a Ana Flavia publicou em seu blog outro dia sobre o sistema social da Áustria. Entre outras coisas interessantes (passem lá), ela fala:

"Enfim, país de primeiro mundo tem bolsa familia pra tudo: cada crianca nascida na Austria recebe 600 euros por mês até completar 3 anos de idade. Depois disso, recebe 180 euros até os dezoito anos. Se chegar à Universidade, que é pública, e tiver de ir morar noutra cidade que não a de seus pais/mantenedores, recebe 500 euros de subsidio universitário por més."

Talvez se o imaginário brasileiro tivesse essa informação como componente, a ideia não nos parecesse assim tãããão populista, né? Tipo, sei lá, na Europa também tem. Mas enfim, divago.

Hoje falei com uma amiga muito querida, que vota no Serra, e disse a ela que há momentos em que penso em certos aspectos do governo Lula e fico emocionada (aff, e há outros em que dá vontade de esconder a cara, ai ai...). Ela me entendeu, tem um feeling apurado e nem me achou piegas. Era disso que eu estava falando, das pessoas esquecidas dos cortiços por aí, que habitam minha cabeça desde aquela manhã de colégio na minha infância. Talvez alguns leitores se afastem desse blog por esses dias de tanta falação em torno de políticas públicas e votos e ondas - torço muito para que isso não aconteça, que eu consiga deixar muito evidente que estou chamando todo mundo para conversar. Mas, sabe, de verdade, mesmo que cada vez que alguém me lembre do mensalão eu olhe em volta procurando por um lugar para esconder minha cabeça, eu ainda acredito que estou seguindo uma opção de generosidade. Generosidade, gente. 

Tudo isso, para mim, Rita, já bastaria. Mas há ainda o crescimento econômico, o resgate do ensino profissionalizante, da pesquisa, do ensino superior com professores mais valorizados; ainda há os recordes de geração de emprego. Ainda há as inevitáveis e confortáveis comparações com o tenebroso legado do FHC.

Então para mim é mais que um slogan. É, de verdade, para o Brasil seguir mudando. Nesses últimos dias, todo o foco está desviado para questões religiosas e morais, para temas que necessariamente passam por discussões no Congresso e alteração na legislação vigente, assuntos que, como bem nos lembrou a Marje hoje, deveriam ser discutidos antes de elegermos deputados e senadores. Mas né, quem quer saber. É mais fácil dizer que todo mundo vai sair por aí abortando, repetir que ninguém sabe pescar e dizer que ela é antipática.

Eu penso no cortiço.  
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Valeu, Cynthia.

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Votem  na final do concurso de blogueiras! O Menina Pode, Sim tá lá.
 
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