Super Berna



Ah, vocês precisavam estar lá para ver a cena. A tão esperada visita da médica aconteceu bem na hora em que o moço da fisioterapia respiratória tinha colocado em minha mãe uma daquelas máscaras que deixam a pessoa com jeitão de personagem de ficção científica, sabe aquela com um focinho bem grande como se a pessoa estivesse se protegendo de um ataque com armas químicas? Então, uma daquelas. E é claro que a minha mãe queria desfilar o rosário de argumentos que ela tinha em mente para convencer a médica de que ela já está boa (os argumentos cientificamente embasados eram "a comida daqui é horrível", "eu vou embora de qualquer jeito" e "minha melhora foi espetacular"). Tadinha, ela não podia acreditar que a médica estava bem ali na frente dela, mas ela não podia argumentar nada de nada, no meio daquele fumacê todo. Nem ver a médica ela podia, já que também usava uma máscara nos olhos para protegê-los da nuvem que sai da máscara de filme.

Então eu servi de porta-voz. Ah, doutora, ela realmente passou a noite superbem, a respiração isso, o peito aquilo, a voz assim, a resistência assado, e por aí vai. Mas não seria minha mãe se ela se contentasse com o papel de plateia, que ela nasceu para protagonizar, já falei? Então vimos a minha mãe "conversar" através da máscara, tentando compensar a absoluta impossibilidade de ser entendida, quiçá ouvida, com gestos amplos das mãos; bastou-me uma olhada de rabo de olho para vê-la começar a corar (as orelhas) de ansiedade e pensei "isso, mãe, estraga tudo, dispara o coração bem na hora do exame da médica, aff!". A médica, segurando o riso diante da minha mãe que parecia um exterminador de mosquito, foi quem tratou de contê-la: "pode ficar calma, sua filha já está explicando". 

Minha mãe continuou ligadíssima na conversa, juro que vi suas orelhas crescendo ligeiramente na tentativa de fisgar cada palavrinha da médica. Por fim, houve o exame e o aval para voltarmos, não sem condições que incluem um retorno ao cardiologista dentro de dez dias, um coquetel de remédios e contato imediato em caso de qualquer alteração indesejada. Satisfeita, a exterminadora de mosquitos ergueu os polegares em sinal de legal e a médica saiu sorrindo.

E nós voltamos para casa, êêêêê!

Em casa, comemos. Como duas esfomeadas, saciamos nossos caprichos, ela com sua vitamina de frutas, eu com minha canjica amarelinha temperada com canela, aaaaiiiiiiiiii, delícia. E seguimos nossas vidinhas. A saúde de minha mãe é frágil, inspira cuidados constantes. Mas ela é guerreira e não podemos evitar a sensação de batalha ganha com louvor. Quando cheguei aqui na semana passada, minha mãe mal conseguia falar. Hoje deu ordens a mim, à minha tia, à enfermeira, ao meu irmão, ao motorista e à médica. Quem passar desprevenido na calçada aqui de casa ganha uma tarefa. Mas deixa, pófalar, mãe.

***

Antes de subir pro meu quarto, dei-lhe boa noite.

- Parabéns, mãe. Guerreira demais, viu?
- Obrigada, minha filha. Obrigada.

Calei-me como quem aceita o agradecimento, sabendo que, no fundo, não posso ficar com ele. Nos últimos dias, o que fiz foi torcer muito, só. Em pensamento, transfiro o "obrigada" de minha mãe para o casal de enfermeiros da ambulância (vocês nem imaginam o nível excepcional de tratamento humanizado que recebemos), para a médica rápida, segura e eficiente, para todas as enfermeiras do hospital, para o moço da máscara de filme, meus familiares, meus amigos, meus leitores que seguraram minha mão de vários lugares do mundo! --------------------->Obrigada.

"É preciso acreditar que o mundo está cheio de amigos" - Walter Salles

***

- Alô? Filhote?!! Amanhã eu chego aí!
- Mamãe, escuta: eu te amo e você não está saindo do meu coração.
- ...

***

- Alô? Minha pequena!!! Que saudade!! Ó, a mamãe já vai voltar pra casa, viu?
- Mamãããe, o mano me chamou de pum!

***

Odisseus, obrigada. Chego já, tá? Te amo mais.




Contos do hospital



Bolamos o seguinte plano: a médica viria fazer a consulta do dia ali pelas dez horas da manhã. O banho já tinha rolado logo depois das nove. Cheirosa, de pijaminha trocado e louca para voltar para casa, minha serelepe mamãe e eu precisávamos convencer a doutora Simpatia de que mummy já estava tinindo de nova, pronta para ser liberada. Portanto, nada de cama. Minha paciente sentou-se na cadeira, armou um sorriso e esperou a loira. Ela veio.

Dra. Simpatia: - Bom dia, como estamos hoje?
Eu e mamãe: - Tudo ótimo!! Pronta para ir para casa! (sorriso largo, estático`-------> :-D)
Dra. Simpatia: - Haha, que gracinha, vamos examinar...
Eu e mamãe: ----> :-D
(Exame)
Dra. Simpatia: - Nossa, melhorou muito, esse sorriso não é à toa. Os índices bla bla bla bla (papo em mediquês) estão excelentes. MAS precisamos ainda reverter o índice de bla bla bla que ainda está bastante alterado.
Eu e mamãe: - :-/
Dra. Simpatia: - Vamos diminuir a medicação e aguardar até amanhã. SE eu achar que está tudo certo, amanhã vocês serão liberadas.
Eu e mamãe: - :-D
Todas: - Tchau, até amanhã! (eu: dancinha)
...
Mamãe: - Eu vou embora amanhã de qualquer jeito.
Eu: - Baixa a bola, assanhada. (Não, não falei assim, mas baixei a bola da assanhada.)

***

A comida do hospital, sem surpresas, é uma mistura de isopor com sabão. Sugiro o suco sujo, a torta quebra-garfo e a carne chiclete. Tudo com gostinho insubstituível de sabão. Entendem a encenação aí em cima?

***

Prova irrefutável da melhora sensível de mamãe (dancinha, dancinha, dancinha) é a patrulha a mil pelo Brasil:

- Filha, coloque o celular ali, é melhor.
- Filha, não use o celular quando ele estiver carregando.
- Filha, você vai almoçar de carona com Fulano e volta depois com Beltrano.
- Filha, desliga a luz.
- Filha, liga a luz (um minuto depois, a mesma luz).
- Filha, meu relógio.
- Abra a janela, filha. Feche a porta. Feche a cortina, abra a porta, tire o lençol, não, assim não, tá muito claro, muito escuro, não consigo ver, que som alto, baixe um pouco, não estou ouvindo, aumente um pouquinho, ligue logo para o seu tio, atenda, é seu irmão, olha o fio, cuidado com a tomada... ad infinitum.

:-)

***

Minha mãe, magrinha, hoje lamenta:

- Ai, pensar que já fui Rainha da Festa da Padroeira...

Quer dizer, hoje ela se preocupou com isso. Né?

Então, amanhã pode ser que role uma volta pra casa. Pode ser que não, talvez só na quarta. Mas vamos caprichar na encenação. Estou pensando em esperarmos a médica em pé, na porta do quarto. Eu posso me posicionar estrategicamente por trás da minha mãe e dar o apoio necessário: "Se ficar tonta, mãe, sorria e, aconteça o que acontecer, não desmaie". Né? Sensato, eu acho.

:-D

  

Wings



Eu gosto da ideia de anjos, sempre gostei. Não estou falando de fé, sugerindo crenças, nada disso. Falo sobre anjos como uma figura imaginária de que gosto, assim como gosto da lenda do Rei Arthur ou, sei lá, das ninfas que habitam florestas encantadas na mitologia grega. Gosto de anjos. Anjos observam, protegem, iluminam. São silenciosos, serenos e evitam que as crianças batam a cabeça contra a parede - bem, pelo menos tentam. Então anjos estão no topo da minha preferência no quesito coisinhas fofas que eu gostaria que de fato existissem. 

E aí há aqueles momentos em que eles tomam forma de gente, cruzam nosso caminho e me convencem para sempre de que a Terra está, ainda, povoada por esses pontinhos de luz. Às vezes é uma enfermeira paciente e doce que consegue nos passar segurança em momentos de pura aflição. Ou um tio que é como um pai e nos oferece suporte inestimável em momentos quase sem rumo. Em outras, anjo tem nome de flor e me deixa em dívida para sempre. São muitos, eles estão por toda parte e é só a necessidade surgir para que as asinhas brotem.    

Uma coisa, viu? Ó! Não falei? Acabei de receber o telefonema de um, ouço daqui o bater das asinhas... Palavra, eles existem. Estou cercada por eles.

Ei, vocês

Vocês merecem um post alegre, caprichado, com uma linda gravura. Merecem notícias, atualizações. Logo, logo, quem sabe, não desistam de mim. :-/ Estou acompanhando minha mãe no hospital, ela apresenta uma leve melhora e já começou a encarar novos tratamentos. Forte como ela só, espero trazê-la de volta para casa em breve.

Comigo estão parentes, amigos. Também meus filhos, cujas vozes pelo telefone enchem meu coração, e Odisseus, com seu apoio infinito, superando a distância com um mar de amor. E vocês, pessoas que passaram por aqui e me abraçaram com aqueles comentários do post anterior. Saibam, de verdade, que cada palavrinha foi lida e acolhida com muita emoção e que vocês conseguem, sim, enviar para cá todos os bons pensamentos pelos quais jamais serei capaz de agradecer à altura.

Espero voltar logo com notícias mais animadinhas. Sinto saudades de vocês, dos blogs que não estou lendo, de tudo de bom que encontro por aqui. Mas há dias e dias, vocês sabem.

Até já.

Heart



Arthur: - Mamãe, você vai demorar?
Eu: - Não, filho. E a mamãe só vai porque a mamãe da mamãe tá precisando de colinho agora. :-)
Arthur: - Hahahaha!
Eu: - Boa noite, filho, te amo muito.
Arthur: - Eu também adoro você!

Saio do quarto e o deixo lá com a outra vovó. Pensativo, ele olha para ela e diz:

- É que a vovó Berna cuidou da mamãe quando ela era do meu tamanho, né?

***

A pequena demonstrou que sabia com um longo abraço que se transformou em colo e balancinho, com meu rosto enfiado em seus cachinhos - sinto o cheiro deles até agora.

***

Tive voos fáceis e monótonos, com comissários falantes e muitas subidas e descidas. Pouca comida, muito sono e a companhia de Madame Bovary e seus amores improváveis. Mal botei os pés no aeroporto de Campina Grande, dei de cara com uma ex-aluna que me deu um caloroso abraço, sem suspeitar do quanto eu estava necessitada daquilo. Pouco depois cheguei em casa e vi minha mãe cansada, tristonha, encolhida. E é assim que inevitavelmente me sinto agora. Olhando para sua cabeleira branquinha, tão linda, como que coberta de neve, tenho vontade de me transportar para uma história a la Alice e soprar um sopro mágico que encha seus pulmões, resolva seu coração e lhe devolva o sorriso. Mas não posso nada disso. Nem o sorriso eu trouxe dessa vez.

O resto da tarde foi gasto em conversas com médicos, medições de índices disso e daquilo. E a decisão de esperar mais um pouco. Outras opções incluem uma internação que ela quer evitar, escolha que quero respeitar. Esperemos, então. Mostrei-lhe fotos, assisti novelas, senti-me inútil. Há dias em que sei não.

Um pedaço enorme de mim está lá em Floripa, no tapete da sala, na mesa da cozinha, nos quartos das crianças. Eles têm minha força, sem eles não sei fazer. Mas estou aqui, onde preciso estar agora. Assustada, sem saber tanta coisa, reviro meu ser em busca daquele cantinho onde se encontra minha própria fonte de energia, aquela que só eu posso ter, que não posso delegar ou tomar emprestada. Talvez se eu dormir um pouco eu a reconheça pela manhã.

Há tantas formas de solidão no mundo. São infinitas, há tantas quanto há pessoas e até mais, já que um mesmo indivíduo pode desenvolver várias maneiras de vivenciar suas solidões. A minha hoje é imensa. Há várias pessoas comigo, mas me sinto absolutamene sozinha.

Lá fora está chovendo e o vento está cantando. Faz um friozinho bem catarinense nessa Paraíba de cá. Vou empurrando a noite com a barriga, em breve o sono me derruba e amanhã vou tentar o sorriso novamente. Quem sabe.

Tenho um coração dobrado como um origami.


On my way



Pessoas queridas que comentaram no post de ontem, queria deixar aqui um abraço grande pra vocês. Não sei como agradecer tanto carinho, de gente que conheço pessoalmente, de gente que vem aqui há tempos, de gente que acabou de conhecer o blog, enfim, de todo mundo que parou um pouquinho para me desejar paz e força e mandar bons pensamentos para minha família.

Vou voando amanhã cedo e darei notícias assim que der. Deixo florzinhas para enfeitar o dia de vocês. São amarelas para ilustrar que vocês iluminaram meu dia e me deram vários motivos para sorrir hoje; são três porque envio daqui o triplo do carinho para cada um de vocês. E tem borboletas para garantir leveza, just in case. :-)

Muito, muito obrigada.

Ontem



Essa vida é doida, né? Na segunda-feira eu exercitei o bom hábito de rir de mim mesma e escrevi o post das gafes às gargalhadas. Fui dormir leve depois de assistir a mais um filme meia-boca na TV e tudo certo. Na terça-feira tudo nublou.

Algum bicho esquisito estava à solta lá no trabalho e a rede caiu, nenhum sistema funcionava a contento, nada andava pra frente. O máximo que eu conseguia era acessar a caixa de e-mail funcional e multiplicar o trabalho em minha mesa que foi me tirando o ânimo e o humor a um ritmo bem mais acelerado do que eu gostaria. Lá pelo meio do dia, minha versão ranzinza, azeda e de cara feia recebeu  a notícia de que minha mãe não estava bem. Acho que lido muito bem com a distância, mas há momentos em que o mapa bem que poderia ser menor. E o que era um dia meio atrasado se transformou em um misto de ansiedade, preocupação, telefonemas aflitos e nenhuma chance de me concentrar no que precisava ser feito no serviço. Engraçado como o conceito de "urgente" muda em questão de segundos.

Tínhamos um compromisso social no final do dia, um jantar de aniversário de um grande amigo do Odisseus. Pensei em não ir, a cara de choro não combinava bem com parabéns, mas no final do dia as coisas se acalmaram um pouco, o susto grande passou, comprei minha passagem para o Nordeste (viajo na próxima sexta-feira) e consegui relaxar um pouco. Quando voltei pra casa, soube que o Arthur tinha ido dormir com febre. Oh, well.

Hoje Florianópolis amanheceu com um dilúvio barulhento que enlouqueceu nosso cachorro. As coisas funcionaram um pouco melhor no serviço, mas ainda bem longe do ideal. No entanto, a forma como as encaro hoje é bem distinta daquela com que eu as encarava ontem pela manhã. Tudo é relativo, tudo é relativo. Comecei a semana com o astral no teto e hoje nem me lembro mais do que me deixava tão leve na segunda-feira.

A febre do Arthur que cedeu sem remédios durante a noite passada voltou durante a tarde e permanece até agora, baixinha, mas ali. Estou em estado de alerta, passagem comprada e febre no pequeno não me parecem muito compatíveis. Minha mãe hoje teve um dia um pouco mais tranquilo, conversou com seu médico e aguarda reações à nova dose do remédio. Aguardo com ela.

Ontem não li os blogs que visito sempre, não troquei mensagens com ninguém, não tuitei, não soube de nada. Hoje me alienei de tudo outra vez, não li, não olhei, não sei. Há algumas horas dei uma passeada rápida por alguns blogs queridos para alimentar o vício, mas meu entusiasmo, confesso, anda nos pés. Estou assim, como este post, sem rumo. Sorry.

Mas sei que as coisas vão se arrumar, vão se arrumar.

E apesar de o assunto destoar absolutamente do meu estado de ânimo atual, preciso agradecer o carinho de vocês que votaram no Menina Pode, Sim na segunda etapa do concurso de blogueiras. De verdade, fiquei muito feliz com o resultado, agradeço de coração. É só uma brincadeira, mas, uai, agradeço o fato de vocês terem brincado comigo, né? A terceira fase já está rolando, com vários textos bons. Continuem de olho, vale a pena. Boa sorte, Luciana Borboleta!

Não sei como terminar esse texto, estou completamente sem assunto, com medo e desorientada. Vou por aí ler uns textos bons e esperar o tempo passar. Mas antes vou medir a febre do Arthur.

A rainha das gafes



O post de ontem trouxe algumas pequenas surpresas e a lembrança de um lado meu que eu descartaria, se pudesse. As pequenas surpresas ficaram por conta de uma esposa de ex-aluno me seguindo no twitter e de ex-aluna lendo o blog. Adorei, adorei, adorei. Já a lembrança do que não gosto em mim fica por conta da minha memória visual quase inexistente. Então a esposa do ex-aluno me diz que é casada com o Fulano e eu fico aqui às turras com meus quatro neurônios tentando me lembrar do rosto do tal Fulano. Morro de vergonha. Mas eu sou assim, demoro a memorizar rostos e se passo muito tempo sem ver alguém (claro que amigos próximos não entram nesse grupo), sou capaz de, ao ver a pessoa novamente, não reconhecê-la, pelo menos não de imediato. Eu nem deveria assumir isso assim publicamente, corro o risco de alguém achar que não presto atenção às pessoas que me cercam, mas estou sendo bem honesta: não é menosprezo, descaso ou falta de interesse. São distração e memória ruim mesmo.

E aí, conversando sobre isso com o Odisseus, lembrei-me de alguns episódios que vivi, ou melhor, enfrentei por causa dessa minha desorientação visual. Selecionei "a nata" para meus leitores queridos. Vou dividir com vocês as lembranças que tenho de três desses momentos e vou narrá-las em ordem crescente de desespero: do engraçadinho ao que me fez querer morrer. 

Momento um: das alunas gêmeas. Claro que o destino iria colocar no meu caminho uma dupla de irmãs gêmeas idênticas como alunas. Chega a ser clichê, tá Sr. Destino? Humpf. Então imaginem "Ana" e "Maria". Lindas, i-dên-ti-cas. Se eu fosse uma pessoa normal, resolveria o problema no primeiro minuto, a cada dia de aula: perguntaria quem era quem e memorizaria a roupa da Ana e a roupa da Maria, certo? Ou gravaria pelo lugar na sala: a da esquerda hoje é a Ana. Mas minha vida não é assim tão simples, então eu tentava, mas depois da terceira tag question já não sabia mais quem estava de vermelho, se Ana ou Maria, e muito menos quem estava sentada onde: hum... quem é a da esquerda, mesmo?, perguntava-me aflita, enquanto os alunos analisavam algum exercício. Meu único momento de certeza se dava quando cruzava com a Maria na faculdade: só ela estudava lá, a Ana fazia curso eu outro campus, disso eu não me esquecia. Então, certo dia, cumprimentei tooooda me achando: bom dia, Maria! Mas era a Ana, que tinha ido à faculdade buscar um trabalho para a irmã. Ah, faz favor, né? (Beijos, "Ana" e "Maria"!)

Momento dois: do pulo no shopping. Seguíamos eu e a Si (oi, Si, lembra?) por um shopping center daqui de Floripa, tagarelando após o almoço. De repente, olha que coincidência, demos de cara com uma colega do doutorado, com quem tínhamos tido aula naquela manhã! Só eu vi a colega, a Sinara não. Porque não era a colega. Mas eu achei que fosse. Então assim que a não-colega se aproximou de nós, porque estávamos no caminho dela, pulei (pu-lei) em sua frente e gritei, para dar um sustinho de brincadeira (eu podia ter só dito um "oi", mas não, eu gritei), oooi, Fulanaaaa! Delicadamente, a Si me puxou para o lado, liberando o caminho da moça atônita e me dizendo pelo amor de Deus, Rita, não é a Fulana, não tem nada a ver com a Fulana. Mas não acreditem nela, gente, a moça era parecidíssima com nossa colega. Juro.

Momento três: da colega de dança que não era minha ex-aluna. Durante o tempo em que fiz aula de dança aqui em Floripa, tive uma colega que era a cara de uma ex-aluna do tempo do curso de inglês lá de Campina Grande, a quem eu tinha dado aulas quatro ou cinco anos antes. Não éramos muito próximas, eu e a colega de dança, nem conversávamos muito, só o básico do bom coleguismo. Sempre me lembrava da aluna quando via a colega da dança, mas nunca comentei nada com ela. Certo dia, vou saindo do condomínio onde morava aqui em Floripa para ir ao supermercado. Vou lá atravessando a rua, quando dou de cara com a colega de dança. Mas naquele momento, o meu cérebro me disse que aquela era a ex-aluna do inglês de vários anos atrás. Então eu fiz a maior festa desse mundo e demonstrei com genuína alegria toda a minha surpresa por dar de cara com aquela ex-aluna tão querida, lááá de Campina Grande, aqui em Floripa, na minha rua, olha só! Então olhei para ela (que me cumprimentou com a mesma discrição com que sempre me cumprimentava na academia, porque ela era uma pessoa aparentemente equilibrada), abri a boca e arregalei os olhos de espanto e saí falando como uma louca. Acompanhem, tendo em mente que eu estava conversando com alguém com quem só trocava boas tardes e encontrava duas vezes por semana, toda semana:

Eu: - Meudeusdocéu-que-coincidência-in-crí-vel! O que você tá fazendo aqui???
Ela, desconfiada e meio tímida: - Eu.. moro aqui.
Eu: - NããÃÃÃãããuuuoooô! Eu TAMBÉM! Moro ali, naquele condomínio!
Ela, certa de que eu não andava bem: - É... eu também.
Eu: - Menina, não é incrível? Que coisa boa te ver aqui!! Faz tempo que você veio pra cá?!!
Ela: - Ah, faz um tempinho...
Eu: - Ai, guria, que legal. Olha só, tô com pressa agora, mas aparece lá em casa depois, qualquer hora, moro no 302, tá? Adorei te ver,  que bacana!
Ela, certamente aliviada: - Tá bom...

E segui meu caminho, toda apressada. Até que, minutos depois, não sei por quê, meu cérebro entrou nos eixos e me dei conta de que tinha me confundido completamente. Não era minha ex-aluna do Nordeste, era a menina que dançava comigo. Toda semana. Com quem eu mal conversava. Evidentemente, na aula seguinte enfrentei a vergonha, a vontade de enterrar a cabeça no buraco e fui falar com ela (juro que tive a impressão de que ela ficou um pouco com medo, mas devo ter sido convincente em minha explicação porque até passamos a conversar mais depois disso). Expliquei que tinha me confundido e que ela era a cara da minha ex-aluna, bla bla bla. Mas o mico já estava pago à vista e sem desconto.

***

Apesar do título do post, não tenho o menor orgulho de ocupar esse trono e adoraria passar cetro e coroa adiante. Sendo assim, declaro aberto o concurso Estrada Anil de gafes. Conte a sua e faça com que eu me sinta melhor! ;-)

***

E a segunda fase do outro concurso tá quase acabando!

Good evening, class!



Eu sei que hoje é domingo, mas lembrei disso hoje, vou fazer o quê?

Há dias em que sinto saudades da sala de aula, dos dias em que era professora de inglês. Não de certos contextos que me cercavam, mas da sala de aula mesmo. Eu me lembro de certos dias em que estava cansada ou chateada por algum motivo (durante quase todo o tempo em que dei aulas de inglês, conciliei o trabalho com a faculdade ou com a pós) e, qualquer que fosse a razão da chateação, tudo ficava bem assim que eu cumprimentava meus alunos.



Eu me divertia dando aulas, gostava especialmente das aulas para grupos de adultos. Eu lidava com crianças e adolescentes também, mas era com turmas de adultos que me sentia mais à vontade, talvez porque os papos rendiam mais, o vocabulário podia ser mais abrangente, as referências eram mais familiares. (Para ser bem honesta, em alguns dias as turmas de adolescentes eram a razão de minha chateação - mas vamos pular essa parte.) E havia dias em que aquela máxima de que tudo de que alguém precisa para não trabalhar é arrumar um trabalho que lhe dê prazer fazia muito sentido para mim. Eu gostava muito de ir ao trabalho.



Havia algo na atmosfera dos cursinhos de língua que me fazia muito bem. Talvez fosse o fato de o meu próprio curso de inglês ter sido tão divertido, uma época em que fiz tantos amigos e em que "fazer o dever de casa" significava passear pelas letras das canções que embalavam aqueles anos ou cobrir as legendas dos filmes em VHS com tiras de papel coladas na TV (não dava para selecionar "sem legendas", luxo que veio mais tarde, com os DVDs). E aí devo ter levado comigo essa atmosfera para o meu trabalho depois: eu já tinha estado ali, no lugar dos meus alunos, e por isso me empenhava em fazer do curso deles algo tão divertido como tinha sido o meu.



Não sei se consegui, sempre. Mas certamente consegui algumas várias vezes. Lembro de aulas em que ríamos tanto que algum desavisado que passasse no corredor poderia confundir a sala de aula com um boteco. E, olha, só faltava a bebida. Algumas aulas eram um bate papo de amigos em torno dos mais variados assuntos, onde o aprendizado do idioma vinha regado com argumentos inflamados e anedotas saborosas. Não há maior satisfação para um professor do que ouvir seus alunos lamentarem o sinal de que a aula acabou: “aaahh, já??” (“ooohhh, no!”) Mas às vezes a gente resolvia isso, pegando um cinema depois da aula. 



O bom dos cursos de língua (pelo menos entre os adultos) é que, via de regra, está ali quem quer. O professor ou professora tem diante de si um grupo de pessoas já motivado pelo interesse genuíno em aprender outro idioma. Por isso a leveza, a atenção certa, a participação efetiva que fazia das aulas eventos realmente interessantes e produtivos.



Perdi contato com praticamente todos meus ex-alunos. Sei notícias de alguns, às vezes, esporadicamente, por terceiros, quartos, quintos. Mas outro dia, vasculhando papéis antigos, dei de cara com alguns cartões carinhosos daqueles tempos. Eram cartões de aniversário ou de final de ano, outros de despedida antes de minha primeira viagem à Inglaterra. E ri com aqueles cartões coloridos assinados por aqueles que foram meus companheiros em horas saborosas das aulinhas de inglês. Por onde andarão aquelas pessoinhas?



Eu toparia uma reunion, assim, para pôr o papo em dia. Acho que rolariam alguns papos bons e, quando acabasse, alguém diria “aahhh, já?”.

***

Pessoas boas, ainda dá tempo de votar na segunda etapa do concurso de blogueiras do blog da Lola. Menina Pode, Sim tá lá. Daqui a pouco começa a terceira etapa, com outros textos.

One... two... three!




Sempre me imaginei mãe de meninos (tenho a nítida sensação de já ter dito isso aqui, vão desculpando aí a repetição), nutria um quê de fascínio pelo mundo masculino, achava legal a ideia de ter três meninos virando a casa do avesso. Quando o médico decifrou aquela imagem preta e cinza no monitor da ultrassonografia e decretou que eu teria uma menina, entrei em pânico. Ai, ai, ai, cadê o irmão do Arthur, cadê o segundo do trio, cadê meu outro moleque? Ai, ai, ai, o que vou fazer com uma menina? Horas depois, já doida por ela (aff...), pensava, caramba! Caramba! Caramba, que legal, uma menina!! Uma menina para virar a casa do avesso com o Arthur - profecia devidamente confirmada hoje em dia.

Amanda me ensina alguma coisa todos os dias. Ultimamente tem sido comum ela me ensinar a ter paciência, mas tá valendo. Sua primeira grande lição foi uma que a gente esquece de vez em quando, então é sempre bom reforçar: a vida é cheia de surpresas e manter nossas mentes e corações abertos para elas, até o último dia de nossas vidas, é uma maneira inteligente de passar por aqui. No mesmo dia daquele exame, pensei exatamente isso: ela vai me ensinar muito.

Hoje entendo que muito dos meus receios em relação a criar uma menina estavam ligados à forma como via e ainda vejo muitas meninas sendo criadas, um pouco do que aconteceu comigo também. Eu não gostava da ideia de ter de me preocupar mais, proteger mais, enfeitar mais, projetar mais pelo fato de ter uma filha. Mas minha cabeça dura me fazia ver a coisa invertida e, ao invés do pensamento que hoje me parece óbvio, prendia-me à ideia de que esses preceitos eram inevitáveis. Quando soube que carregava uma menina em minha barriga, no entanto, ela me mandou seu recadinho cheio de sabedoria: podemos fazer diferente. Não há razões para receios, vamos construir juntas um pedacinho do mundo que queremos ver.


***

Eu tinha planejado em falar aqui um pouco das coisas que penso quando olho para um futuro com você, mas o som da sua risada me chama para um agora tão maravilhoso que nem vou me estender em projeções sonhadoras. Afinal, não é isso que você me mostra, que sempre pode ser muito melhor do que imaginamos, tornando qualquer plano um simples jogo de adivinhação? Quem diria que eu morreria de amores por uma pirralha que adora rosa e tem um cabelo cheio de cachinhos que me fazem curtir muito a brincadeira de escolher os tic-tacs e presilhas coloridas? Quem diria que eu iria ver você fazendo com o Arthur tanta coisa que imaginei que ele faria apenas com um irmão - que boba, eu. Nem era de um jeito, nem de outro, era tudo junto, mesclado, como na vida.


Três anos já, sua grandona! Três anos de risadas, berros e correrias. Três anos de bochechas, beijinhos melados e farofa no feijão. Três anos de cara de brava e "seguedos" sussurrados ao pé de nossos ouvidos, a coisa mais gostosa desse mundo inteirinho. Como faz para dizer o quanto te amamos, o quanto somos dependentes de você, de sua beleza infinita, de sua vozinha adorável, de sua esperteza que vive nos dando susto? Como faz para expressar o tamanho do espaço que você ocupa em nossas vidas?


Há exatamente três anos, na véspera de você nascer, comecei a sentir as contrações que começaram em minhas costas, na altura dos rins. Eu, com 38 semanas ainda, achei que estivesse com algum desconforto renal mesmo. Fiquei por aqui, esperando pra ver. Horas depois, na primeira madrugada em que você me tirou da cama, entendi que era você se apressando, mostrando que eu não sabia de nada, ai, mãe, dor nos rins, faz favôôô... é con-ta-ção, você deve ter dito. Pois era mesmo. E oferecer meu seio, meu colo e meu carinho foram as primeiras coisinhas que fiz por você após sua chegada. Hoje quero dizer que ofereço minha vida inteirinha a você, minha florzinha, ofereço meu amor que cresce todo dia, inspirado pela boniteza que é ter um filho e vê-lo crescer ao nosso lado.


E para quem não queria muita frescura no pedaço, sua sapequice bota muito menino no bolso três vezes, então toca aqui, moleca! Vamos ver quem chega primeiro ? Tá valendo! Quem chegar por último é uma batata frita toooooortaaaa......

Um link


Então ontem falei do blog lindo que me trouxe para a blogosfera. Leio aquele blog até hoje. E não é que hoje sua autora escreve um texto daqueles? Nem é assim tão universal, é até bem específico. Mas nos faz pensar, sentir, ir além.

Só um lembrete no meio do dia.

O melhor boteco do mundo


  
Não existe centro no fractal. Nem na blogosfera.

Quando comecei a blogar, no ano passado, fazia pouco tempo que lia blogs. Comecei por um blog lindo que descobri por acaso enquanto buscava alguma informação sobre compostagem. Um link aqui, outro ali, fui descobrindo outros blogs (olha, que pessoa antenada, eu: isso foi no ano passado, gente; aff...) e vi ali um formato bem na medida para minha vontade de brincar de escrever.

Durante boa parte desse tempo, tenho ganhado muito com a blogosfera, mais do que eu conseguiria dizer aqui, provavelmente. É muito mais que diversão e exercício despretensioso da escrita. É, como disse a Juliana outro dia, uma janelinha por onde olho o mundo. Digo, mundos. É também uma tela feita de retalhos dos meus próprios mundos.

Mas essa tal janelinha tem se mostrado muito maior do que supus a princípio. É claro que gosto - quem passa por aqui com alguma frequência sabe disso - das conversas fiadas, das narrativas pessoais, dos registros de memórias, das abobrinhas (ai, adoro!), das viagens na maionese, das imagens, you name it. Mas  hoje enxergo um aspecto da blogosfera que a torna algo incomensuravelmente valoroso:  seu enorme potencial catalisador da democracia. 

Não somos mais reféns, hoje quase todo mundo pode falar. Não precisamos mais engolir sapos, hoje podemos discordar além das paredes de nossas salas. Hoje as notícias são reiteradas ou revisadas, questionadas, discutidas, vistas por ângulos outros, reforçadas, reviradas, como nunca antes se viu, em um ritmo tão dinâmico quanto o talento para inventar notícia de alguns jornalistas. Hoje bons leitores são também escritores para multidões, em questão de horas, minutos. Ficou mais difícil caluniar, disfarçar, acobertar, tentar iludir. Claro, estamos falando de humanos, então as possibilidades são infinitas, mas agora o nível é outro, porque há mais gente questionando. E aí os velhos donos da mídia precisam se reinventar. E, se não o fizerem, até acredito que sobreviverão, mas não mais com o status de outrora. Ninguém mais é dono da verdade porque as verdades às vezes são múltiplas, e ah, como é bom vê-las gritadas blogosfera afora.

Já havíamos, aqui em casa, comemorado timidamente, em papos ao redor da mesa, o bom que é essa pluralidade toda. Mas nesse momento histórico que nosso país atravessa, temos brindado com frequência à alegria de poder ter acesso a tantas janelas. Mas ainda é preciso escancará-las um pouco mais e levar a internet a cada recanto do país, cada escola, cada município minúsculo, cada vila. Para que todo mundo possa ver além da tela da TV, ainda tão monocromática.

Hoje estou aos beijos com a blogosfera, essa extensão ensolarada da nossa casa. Todo dia tem assunto bom, texto lindo (olha, Borboleta!), bolo bom e mentes inspiradas nos convidando a discussões apaixonantes. O mundo virou um grande boteco. Garçom, mais uma!
***

Gente, nem sei como agradecer pelos votos no concurso de blogueiras. Sintam-se abraçados. :-)

Eu, Penélope



Hoje me lembrei de nosso primeiro beijo.

A situação era confusa e me lembro bem de que você hesitou, sentado no banco da praça, fazendo companhia enquanto o ônibus não passava. Enquanto eu torcia para o ônibus não passar nunca, você hesitava. E tinha razão em fazê-lo, né, situação confusa e tal. Aí você deu nome aos bois: "é que um beijo meio que marca o início de uma história, né", como se eu tivesse perguntado alguma coisa. Eu só olhava, perdida já. Mas, como a história já tinha começado nos olhares de semanas atrás, a gente se beijou. Eu me lembro do mundo ficando enorme e da minha vontade de que todas as pessoas do planeta fossem felizes. Quer dizer, depois, algum tempo depois. Porque naquele instante mesmo o que acontecia comigo era um redemoinho de coração e dúvidas e torcida e medo e alegria e cheiros e texturas e tudo. Ou seja, já era. Eu já amava você, mas beijar tornou qualquer outra alternativa impossível. E eu saberia disso de forma bem dolorida mais tarde.

Você foi embora. Eu fui embora. O engraçado é que ninguém voltou. Mas havia uma ilha no meio do caminho.

Quando a gente se olhou e soube, milhões de anos depois, o mundo era outro. Trazíamos muito tempo em nossos ombros, mas a carga ficou leve porque juntamos ao tempo nossas vontades cheias de certeza. Durante uma eternidade, houve uma centelha dentro de mim que aprendi a ignorar e desmentir, para mim mesma, com profissionalismo exemplar. Havia uma vida inventada, na qual seu papel era só coadjuvante. Mas quando a gente trocou aquele olhar de certeza, removi a pedra e reguei de novo a flor. E deixei que aquele beijo da praça tomasse seu lugar de direito em minha vida. Um marco, tal qual você profetizara.
 
Às vezes a gente está no trânsito, em silêncio, ou com o rádio insistindo em cantar, e sinto sua mão que casualmente toca a minha mão ou a minha perna. Às vezes fecho os olhos nesses momentos e aprisiono esse toque no lugar mais guardado dentro de mim, como fiz com o beijo da praça. Mas não para guardá-lo embaixo de uma pedra, não, não, não. Apenas para resgatá-lo mais tarde e comemorar ao longo do dia, enquanto trabalho ou leio ou sei lá o quê, a alegria quase absurda por ter reencontrado você. Todo dia comemoro. Todo dia.
 
Ai, te amo tanto.
 
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Não deixem de votar no concurso de blogueiras da Lola. O Menina Pode, Sim está lá.

Kids will be kids



Eu, Rita, prometo solenemente mudar de assunto após este post, amém.

A Tina comentou dois posts atrás que "(...) me dei conta, limpando a casa depois das festas "artesanais", que essa infância não é mais a minha infância. As crianças não têm mais craca nem joelho ralado (bem, a Nina até que tem). E é a infância delas, elas gostam do maldito pula-pula, têm os códigos e as preferências delas, e vão ter saudades disso também. Relaxei." E aí eu quase gritei "é isso, Tina", eu preciso falar isso também. Então vou falar.

Não sei até que ponto consegui ser clara em minha confusão (hahaha) no post em questão, mas a verdade é que a coisa não é mesmo simples. Eu sei que, como disse a Tina, a infância dos meus filhos não é minha, é deles, e que o mundo de hoje não é o mundo que eu tinha lá atrás. Eu sei que dificilmente meus filhos vão sair para brincar de manhã com a gurizada da vizinhança sem que eu saiba por onde ele ou ela anda até o final do dia, sem dar a mínima, como acontecia na infância do Ulisses. Sei que meus filhos, enquanto forem crianças, dificilmente vão poder simplesmente ir ali dar uma volta no bairro sem que eu pergunte como, por quanto tempo e com quem. Porque, né, o mundo. (Talvez em algumas cidades menores tudo isso ainda seja perfeitamente contemporâneo, mas não aqui.) Por outro lado, também percebo e me lembro que na minha época não existia um pula-pula em cada festa e que a moda era o tal quebra-panelas (que eu detestava, by the way). Então, não, não acho que as festas do tempo da minha infância eram mais legais que as de hoje. As festas do meu tempo eram as festas do meu tempo, as festas do tempo do Arthur e da Amanda são isso que a gente tem aí. E encaro com naturalidade o fato de que diferentes gerações experimentam a infância (assim como a adolescência, etc.) sob a ótica e os valores do tempo deles, como haveria de se diferente?! Mas.

Mas, ainda assim, não consigo evitar certo desconsolo pela liberdade perdida. Porque, como disse o Ulisses cinco minutos atrás, por mais maravilhoso que sejam aqueles brinquedos, cujo nome desconheço, que acoplam túneis e subidas e piscinas de bolinha e pontes que balançam - sabem do que estou falando? - por mais incríveis e coloridos que eles sejam, o percurso uma hora fica previsível até para a Amanda. E aí Ulisses pergunta: sabe quantas partidas de barra-bandeira (ou rouba-bandeira) eram iguais entre si? Nenhuma. Brincar de barra-bandeira na rua envolvia todos os sentidos da criança (até o paladar, porque, cedo ou tarde, todo mundo comia terra) e nos preparava para a saudável e importante lição de que o joelho vai sarar e o cotovelo não vai cair. Sem falar nas infinitas negociações para arrumar as equipes e definir as mil regras inventadas, tudo aos berros. E não, eu não quero ver meus filhos arrebentados todo dia - eu nem vou fingir, sou a maior neurótica, preciso me controlar pelo bem deles, inclusive. Mas questiono essa infância limpinha, passada no fofinho dos brinquedos infláveis. E, admito, é mil vezes mais cômodo para os pais: é só soltar a criançada lá e relaxar, eles não vão se machucar nem que tentem. Mas não sentem o vento no rosto nem anoitecem na rua com o pé no chão. E nunca mais na vida terão a chance de fazer isso. Ou, sendo otimista, raramente terão. Ou algum adulto aí anda brincando na rua com os vizinhos? Pois então.

(Claro que nem tudo é assim in vitro e aqui em casa somos ciclistas de fim de semana, o que tem valor inestimável para nós.)

Então meu saudosismo existe e é operante, mas não me alieno na falácia de que "ai, no meu tempo é que era bom, bla bla bla". No meu tempo era como no meu tempo. Hoje temos o mundo de hoje, com suas modas da hora, seus códigos e preferências, como colocou a Tina, e é nesse chão fofinho que nossos filhos estão plantando as saudades que terão em 2040, enquanto assistem nossos netos brincando nas cápsulas. E é assim. Não posso ser hipócrita e dizer que olho para o Arthur e sinto pena pelas brincadeiras que ele não tem. Ora, sua alegria com os brinquedos e as festas de hoje é tão legítima quanto era a minha alegria ofegante depois de roubar a bandeira do oponente na rua, como não? Mas quem sentiu o vento da noite no rosto sabe que a nostalgia não é à toa, ah, não é. 

* * *

E no futuro Amanda escreverá, quem sabe: ah, quem teve o pula-pula não consegue evitar a nostalgia diante desses patins voadores.

Gira, mundo.

Para brincar de votar



Hoje a Lola colocou no ar a segunda fase do 4º Concurso de Blogueiras do blog dela. É nessa etapa que o post do Estrada, Menina pode, sim, está incluído. Mas mesmo que você não queira brincar de votar em um dos posts, vale a pena ler os participantes. Há vários textos inspirados e links para um tanto de blogs bons. Passem lá.

Uma festeira em crise



Essa foi a segunda vez que dei minha contribuição para o ramo das festas infantis, na sua forma mais, digamos, industrializada. A primeira foi no primeiro aniversário do Arthur, quando também comprei um pacote completo que incluía o aluguel do lugar, comida, bebida, lembrancinhas, animadores e sei lá mais o quê. No segundo, terceiro e quarto aniversários do Arthur, assim como no primeiro da Amanda, optei por fazer a festa em casa mesmo, improvisando no espaço, confeccionando eu mesma cada pedaço da decoração (ou comprando alguns itens e confeccionando outros), encomendando boa parte da comida (com exceção do cachorro-quente, sempre por conta do Ulisses), às vezes contratando alguém para ajudar a servir os convidados e também uma animadora para entreter a criançada e tentar evitar que algum pititico se entediasse a ponto de querer ir embora da festa. (Para quem estiver contando, não houve festinhas para o Arthur no quinto aniversário, nem para Amanda no segundo.) Acredito que se perguntarem aos principais interessados dos "eventos" qual "estilo" de festa eles preferem, pode ser que recebam um singelo "tanto faz" como resposta, porque criança quer estar onde a bagunça estiver. Se perguntarem pra mim, aí tenho uma ou duas considerações a fazer.

A primeira delas é em relação ao aniversário de um ano da criança. Claro que é uma data a ser comemorada, quem não gosta de relembrar e celebrar a chegada de seu filho, ora? Eu mesma o fiz, duas vezes. Mas, claro está, é uma festa para os pais. E, tudo bem, para as outras crianças que irão à festa. Mas pelamordedeus não é uma festa para o aniversariante que certamente trocaria a muvuca por uma boa mamada seguida daquela soneca e que sumam dali com aquela barulheira, é ou não é? Arthur mesmo passou metade de sua festa de primeiro aniversário dormindo no carrinho. E até curtiu a de dois anos, um pouco, acho, mas também... ahh... também desconfio que trocaria por uma tarde no tapete com o pai. Pois bem.

Repeti a dose com a Amanda, dessa vez em casa, que também ganhou festinha de um ano. E idem, cansou-se, fez cara de sono, não fazia ideia do que aquele pessoal todo estava fazendo aqui. O Arthur, por sua vez, então com três anos, curtiu como se a festa fosse dele. Pois é. Agora, que já passou (quão conveniente, hã?), vejo que três anos é uma excelente idade para a primeira festinha "de peso" (leia-se com convidados, brincadeiras mais ou menos programadas, antecipação, bolo especial, essas coisas, de acordo com a conveniência e o gosto de cada um). Porque, conforme pude ver mais uma vez ontem, nessa fase da vida a criança já percebe, do seu modo, o que está acontecendo, então faz sentido dar uma festa de presente para ela. A Amanda entendeu o que aconteceu ontem e se sentiu feliz com a fofoca. Bem diferente de seu primeiro aniversário quando, a despeito de todo o prazer que senti em preparar cada detalhe da festinha (e senti muito!), ela não deu a mínima. Tudo bem, brincou com um balão, fez uma ou outra gracinha, mas, né? Nos aniversários de três e quatro anos do Arthur a festa só acabou para ele quando desmaiou exausto na cama, alguma hora da noite, feliz até não mais poder.

Mas divaguei e não falei da diferença de lugar. Então, fazer a festinha das crianças em casa tem a enorme desvantagem da bagunça pós-festa que é um desafio a qualquer ser vivente. Porque preparar a festa cansa, curtir a festa também cansa, mas arrumar a casa depois é que é o nó da coisa. Além do mais, no meu caso, as festinhas que fiz em casa exigiram de mim meses de serões para dar conta de confeccionar a decoração (nada demais, mas eu sou aquela mãe bicho besta que quer fazer o troço pelo menos bonitinho), o que também é um investimento a se levar em conta. Tempo é um troço problemático pra mim. Comprar um pacote completo, como fiz para a festa da Amanda este ano, tem as vantagens óbvias do nada a fazer, mas, não posso evitar, tem o lance da impessoalidade que, nem sei se deveria, mas me incomoda um pouco. Porque é claro que adorei, tudo estava lindo e tal, mas... como direi... o troço vira um evento. Sabe? Fica muito grande. Não sei me expressar direito. Fica, digamos, profissional demais. Infância não é assim. Né?

Bom, não quero bancar a bicho-grilo - adorei a festinha ontem, mesmo. Mas é que fico pensando nos bolinhos de nata enrolados na cozinha da minha mãe, a meia-dúzia de balões amarrada na porta e os coleguinhas (sem os pais) com o uniforme da escola ao redor da mesa da minha festa de cinco anos. E da minha imensa alegria com aquilo. E aí olho ao redor e vejo no que tem se transformado essa loucura (com a qual contribuí ontem) das festas infantis ultimamente. Não basta mais reunir os amigos para cantar parabéns, brincar junto e estourar balão. Não. A festa tem um tema, explorado nos mínimos detalhes, os ambientes têm brinquedos de última geração, espaços onde é impossível se ralar um joelho, casas de bonecas imensas, salas de maquiagem e penteados (caio pra trás) e garçons desfilando como se estivessem servindo convidados em um casamento. *suspiro* Ah e, claro, cada passo é um flash.

Foi muito nítido para mim ontem que o principal objetivo da coisa foi atingido, Amanda se divertiu como nunca, todos nossos amigos comentaram como ela estava radiante de felicidade. Então eu faria de novo, vinte vezes. Mas não posso evitar a sensação um pouco incômoda de que a coisa foi perfeitinha demais. Afe, a pessoa consegue um motivo quando quer reclamar, não é? Eu sou craque, como vocês podem perceber. Mas é que essas nostalgias me visitam de vez em quando. Eu não trocaria um pula-pula por um quebra-panelas (oi, Luci!), de jeito nenhum, mas algo nessa moda de transformar aniversário infantil em festão destoa um pouco do bonito da infância, a fase da vida onde estão nossas maiores chances de enxergar beleza na simplicidade. E me dói muito perceber o quanto perdemos dessa capacidade vida afora. E, não posso negar, mesmo adorando uma festinha (ai, é que sempre servem brigadeiro!!), sou forçada a admitir que tem alguma coisa esquisita nesse troço.

Help. Tem cura, doutora?

***

Hoje acaba a primeira fase do concurso de blogueiras do blog da Lola. Ainda dá tempo de votar nos textos do primeiro lote. Amanhã começa a segunda fase e o texto do Estrada Anil estará lá. Participem!

Data querida



Então hoje foi a festa da Amanda. Na verdade, ela só completará três anos de vida no próximo dia 18 quando, inevitavelmente, voltarei ao assunto por aqui. Mas não foi possível agendar a festinha para o final de semana que vem, então foi hoje mesmo.

Foi aquilo, festa de criança. Bem no estilo ame ou odeie, teve o pacote completo: crianças correndo, brincando, pulando, empanturrando-se de doces. Teve parabéns cantado bem alto, uma montanha de presentes, um bolo bem colorido. Teve docinhos, marshmallow, jujuba, bala, chocolate, pipoca e sorvete. Teve coxinhas e, como a festa foi no horário do almoço, um ranguinho esperto com massas e saladinhas para os adultos se entreterem enquanto os pequenos pensavam em qualquer coisa, menos em comida "certinha". Teve um tanto bom de amigos, meu coração desejando que minha mãe estivesse aqui, outra vovó tirando casquinha dos netinhos. Teve também uma decoração bem linda cheia de bonecas de pano e balões coloridos, papo bom, risadas, bebês, fraldas, birras, manhas, suco derramado, pé pisado, essas coisas.


Foi tudo uma delícia. Mas, claro, o mais legal de tudo foi a aniversariante ter se divertido tanto! Cheguei a levar um shortinho e uma blusinha bem confortável na bolsa para o caso de ela se incomodar com o vestido, vai saber. Mas  não foi preciso trocar nada, seu astral altíssimo transformou seu vestidinho lindo em fonte de alegria e rodou a saia como nunca, uma florzinha ao vento. De sua parte, não houve birras ou manhas, mau humor ou picuinhas. Estava serelepe como nunca, não parou de brincar um segundo sequer, pulou na cama elástica até não mais poder, escalou paredes, andou em túneis, fez comidinha, andou de cavalinho, correu correu correu, apagou a vela soprando bem forte e, oba!, não chorou na hora do parabéns (chora em quase todas as festas que vai, não gosta da barulheira na hora da gritaria rá tim bum).

Curtimos muito. Talvez eu conte aqui, na semana que vem, como foi aquele dia há três anos. Hoje fiquei só na curtição da bagunça, comemorando o que mais importa na vida, nossos amores.

Parabéns, minha filha. Sua festa tava linda, sim. E a luz veio toda de você.


Véspera



Amanhã tem festa.

Amanhã ou depois eu conto.

Acho que vai ser bom. Porque vai ter uma menina linda, de maria-chiquinhas e vestido de flor, saltitando e dando voltinhas. E vamos comemorar a chegada dela, quase três anos atrás. E o fato de que nossa vida ficou muito mais divertida e rica com ela.

Depois eu conto, conto tudo. Hoje, não. Hoje é só a véspera, é hora de esperar a festa.


Cuidem bem das cobras

  

Arthur, cinco anos, rouco:

- Ai, mãe, acho que tô um pouco rouco...
- É, filho, tô vendo. Não preocupa, não, tá? Logo passa.
- É. Eu sei. São só as minhas cobras vocais que estão um pouco ruins, né?

:-)

Sai o menino, entra a madame



Foi preciso chegar próximo à página duzentos e setenta e alguma coisa, mas valeu a pena. O que foi uma leitura enfadonha e quase abandonada na primeira metade do livro converteu-se em um agradável passeio na parte final. Ainda acho que Zafón poderia ter contado a história descrita em A Sombra do Vento com umas cem páginas a menos, trezentos e sessenta já bastariam, mas admito que ele conseguiu me convencer a segui-lo e que o fiz com gosto nas páginas finais, rumo à linda imagem com que ele arremata a história. E antes de chegar ali o danado ainda me arrancou uma lagriminha e ganhou um tiquinho mais do meu respeito - sua história nem é tão rasa assim como supus no início, ainda que estejam ali alguns ingredientes hollywoodianos no clímax e no desfecho, como lutas, sangue e casamentos. Mas, olha aí, gostei de ter lido. Bonitinho. A resolução da trama me lembrou um pouco (só um pouco) do quadro As Meninas, de Velázquez (esse adoro, sem ressalvas), em que as figuras do quadro observam o observador, sabe? Assim é Daniel, protagonista do livro, que vê sua vida se mesclar com a dos personagens do enigmático escritor Julian Carax. Deixei vocês com vontade? Não? Bom, não vou insistir, já que, né, precisei passar da metade do livro para avançar sem cochilos.

Agora são outros quinhentos. Chegue mais, Flaubert. O bom do livro é isso, ser eterno. Nunca é tarde. Você contou ali, na reta final do século XIX, e só agora vou sentar e te ouvir. Pode falar, quero saber tudo. Muito prazer, Madame Bovary (curvo-me em reverência e abro o livro com todo respeito). Sou toda ouvidos:

“Estávamos em aula, quando entrou o diretor, seguido de um novato, vestido modestamente...” Comecei.

Contravenções no tapete



Olha, eu acho que a gente tem obrigação de denunciar quando se depara com algo errado, doa a quem doer. Não acho certo ficar escondendo o delito só para favorecer interesses próprios ou de terceiros que nos são próximos. Às vezes é difícil, sei, mas só assim podemos assumir uma postura verdadeiramente honesta diante de nossa própria consciência e dos outros que constituem o meio social que nos cerca. E isso ganha ainda mais importância em momentos históricos como o que vivemos atualmente.

Pois bem, dito isso, faço um esforço para superar meus primeiros impulsos em ocultar aquilo que está diante de meus olhos e, sem mais delongas, denuncio: a jogatina está correndo solta na minha casa. Minha sala virou um cassino. A situação está insustentável, o jantar atrasa, o lanche é engolido às pressas. Sai o dominó, entra o Labirinto; depois de vinte partidas de Labirinto, sucedem-se partidas infinitas de Perfil para, logo em seguida, com as cartas ainda espalhadas no tapete, vermos surgir o tabuleiro do Jogo da Vida montado e nos chamando para mais uma rodada de corridas rumo ao lucro fácil. Um desatino, minha gente. O que será dessas crianças, crescendo em ambiente tão competitivo onde toda e qualquer conversa gira em torno de termos como "minha vez!", "ei, essa peça é minha!", "droga, passo!", "paga vinte!" ou "bati!"?!

Sem falar nas acaloradas disputas do Imagem & Ação que nos fazem perder a noção do ridículo em mímicas patéticas, nas infinitas gozações quando um azarado despenca ladeira abaixo em Escadas e Escorregadores, ou no Detetive que nos deixa horas totalmente fora da realidade, cabisbaixos, concentrados em descobrir se quem comeu o bolo foi o Mr. Green ou a Sra. White. Uma evidente demonstração de desgoverno.

Sinto que estamos em um caminho sem volta; os primeiros resultados dessa ingerência já se anunciam: hoje a Amanda, 3 anos, venceu 5 (cinco) partidas de dominó e, enquanto colecionava vitórias incontestáveis, não satisfeita em se refestelar na onda de sorte, enchia a boca para cantarolar "enche a mão, enche a mão!" humilhando sem dó a infeliz vovó que não teve chances diante da pequena jogadora. Um horror. Mas antes que vocês se compadeçam da pobre senhora, saibam que essa mesma madame não dá chances aos oponentes no Perfil! Ela sabia que o primeiro namorado da Angélica tinha sido o César Filho!!! Quem, além da Angélica, sabe uma coisa dessas?

Esse mundo tá perdido. Quer dizer, sei que minhas partidas de Labirinto hoje à noite estavam: só deu Arthur, o danado. Mas deixa estar, amanhã hei de vencer um das vinte partidas. Amanhã terei mais sorte, terei, sim. (Acho que vou estudar umas estratégias diferentes enquanto eles dormem.)

Hã? Oi? Que é que tem? Acho normal, isso não é burlar!

...

É?


 
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