As tagarelas


Começou o 4º Concurso de Blogueiras do Blog da Lola e, mais uma vez, vou estar na brincadeira. Gostei pra caramba de participar do 3º Concurso, em torno do tema Maternidade, por várias razões: conheci vários blogs bons de uma só vez, tive a chance de reativar a discussão em torno do tema amamentação (nos comentários do meu post “concorrente”), muita gente bacana conheceu e passou a frequentar o Estrada Anil por causa do concurso e, principalmente, ganhei algumas amigas virtuais que por si só já valeram a pena (oi, Tina, tudo bem?).

Agora estou na torcida para tudo isso acontecer de novo e aproveito, claro, para divulgar mais um pouquinho o excelente blog da Lola, que sempre coloca em pauta assuntos interessantes, em textos bem humorados, deliciosos de ler. Na verdade, o Escreva Lola Escreva nem precisa de divulgação, já é badaladíssimo e está linkado em cada cantinho bom da blogosfera. Mas nunca é demais dizer que as discussões que rolam por lá, entre a Lola e seus comentaristas, são quase sempre suculentas, mesmo que você discorde do que ela diz ou defende, claro, e rendem muito pano pra manga.

O tema da vez é A Origem do Meu Feminismo e, dessa vez, a Lola dividiu o concurso em duas etapas iniciais, com oito posts cada uma. Para a enquete final, classificam-se os três mais votados de cada enquete. O post do Estrada Anil, Menina Pode, Sim, está no segundo grupo da primeira fase do concurso cuja enquete só passa a valer a partir do dia 14 de setembro. Mas já podemos votar em um dos posts da primeira etapa. É só acessar o post de lançamento do concurso, que traz os links para os posts participantes, e votar. Agora vou lá ler todos os posts, fuçar todos os blogs e escolher meu favorito da primeira etapa. Não deixem de passar por lá também. Quanto mais estradas, melhor. E, olha, aposto que tem coisa boa da mulherada pra ser lida por aí, viu? E como essa gente fala, né? Nossa.

;-)


Irmãos chatabeicons e irmãzinhas popepozas


 
Ainda na fase da vida em que eu não tinha certeza de que teria filhos, sempre soube que, se os tivesse, seria assim, no plural. Não queria filho único porque naqueles tempos acreditava que as chances de uma pessoa crescer mimada, estragada, egoísta eram maiores se ela fosse filho ou filha única. Depois de ler alguns relatos feitos por mães de um filho só, conviver com famílias com filhos únicos e de refletir um pouco mais sobre o assunto, mudei de ideia e hoje acredito que é possível estragar todos os cinco filhos que alguém tiver da mesma forma como é possível criar um único filho e contribuir para que ele ou ela se torne uma pessoa de cabeça aberta e olhando para os lados.

Mas eu queria muito escrever um tiquinho sobre as delícias de ter dois. Assim, quase da mesma idade, duas pessoinhas crescendo juntas na mesma casa, dividindo bagunças, gargalhadas e choramingos. Duas criaturinhas enxergando de maneira muito evidente que o mundo não é só deles, que é preciso ponderar, abrir mão, esperar, ouvir, repartir, ceder - e ai, como é difícil tudo isso. Ter mais de um filho, penso eu, não é garantia de nada, mas muitas vezes facilita o caminho de pais interessados em zelar pela cultura do saber dividir. É que cada dia apresenta aos pequenos situações onde é preciso esperar nem que seja um pouquinho, dividir a atenção dos pais, ouvir um elogio direcionado ao outro ou assumir a responsabilidade quando seria mais fácil empurrá-la para o distraído ao lado.

Gosto muito de vê-los tendo pequenas chances, todos os dias, de exercitar a paciência, essa palavra desconhecida para quem está começando a viver e ainda tem aquela sensação de que tudo acontece agora, nesse momento e só. Gosto da companhia que um faz para o outro, tanto mais agora que já começam a ser capazes de interagir em muitas brincadeiras - o mais velho tem cinco anos, a pequena tem quase três. Adoro (mesmo, não tem preço) ver o mais velho ensinando coisas à pequena, “assim, Amanda, ó”, ajudando-a a abrir o biscoito, a se calçar, lendo para ela.

Mas as moedas têm sempre dois lados, né? Porque há as batalhas. *suspiro* E há aqueles momentos em que a existência do irmão ou da irmã serve ao propósito de adiar o inevitável, sempre aos berros, com drama, corridas pela casa, tudo em dobro.

***

Eu - Arthur, sobe pra tomar banho.
Arthur - Aaaaaah, não! A Amanda primeiro!
Amanda - Não, você pimeiro!
Eu - Vem, filho, chamei você primeiro, vem logo, é rapidinho.
Arthur - Droga! Toda vez é assim, eu vou primeiro, Amanda NUNCA vai primeiro, eu que tenho que ir, toda vez, toda vez, nhhhãããããããã (choro falso).
Eu - Ai, filho, que drama. Nem é assim, tem dia em que ela vai primeiro e...
Arthur - Não vai não, é sempre eu! Nhããããããã......
 
No dia seguinte:

Eu - Amandinha, hora do banho!
Amanda - Não, o Atú!
Eu - Não, filhota, primeiro você, depois o mano.
Amanda - Nãããããããããuuuoooooooo, pimeiro o mano, pimeiro o mano... (corre pela casa).
Eu - *suspiro*
Arthur, de algum lugar longínquo da casa, que nem sei onde é, grita - Aaaah, não! Ela primeiro!

***

Na hora do lanche:

Eu - Quem quer suco?
Os dois - Eu! Eu primeiro! Não, EU pimeiro! Não, eu falei logo, mãe, dá logo pra mim! Não, pa mim, pa mim! Droga, viu?!? Ela sempre ganha primeiro e fui quem falei!!
Eu - Ai, gente, que diferença faz, os dois ganharam suco, pronto agora é só beber.
O que ganhou o suco um segundo depois - Droga!/Doga!
O que ganhou o suco um segundo antes - Lalalalalala...

***

Eu ou o pai - Criançadaaaa, sobre pra escovar os dentes!!
Arthur - AH, não.. etc., vide diálogo do banho.

***

No carro, a caminho da festa de aniversário do amigo:

Ele - Eu levo o presente.
Ela - Ah, mano, deixa eu levaaaaar? Nhããããããããã...
Ele - Não, eu que levo.
Ela - Berros.
Ele - Cara de triunfo.
Eu ou o pai - Por que vocês não dividem, cada um leva o presente um pouco (ai, vou falando e achando o cúmulo, mas vou falando)
Ele - Ah, não. Eu levo.
Ela - Berros.
Etc.

***

Nas brincadeiras:

Ele - Ô, AmandA! Mãe, ela sempre me atrapalha!
Ela - ... em silêncio, faz que não é com ela.
Eu - Silêncio, faço que não é comigo.
Ele - Não vou mais brincar!
Ela - Não vai mais bincar, manoooooo? :-(
Ele - Não, você não sabe brincar! (muito, muito bravo)
Eu - Ô, filho, então ensina pra ela, você também não sabia quando era do tamanho dela...
Ele (Todo solícito, achando-se o cara, mudando de humor em um milésimo de segundo) -Assim, ó, Amanda, tem que primeiro fazer assim.. bla bla bla
Ela - Mas eu não cunsigoooo...
Ele - Conseeeegue!

Segue o papo até o próximo tropeço e aí começa tudo de novo.

***

Ah, e os adoráveis neologismos!

Ele - Sai daqui, sua popepoza!
Ela - Eu não SOU popepoza, seu chatabeicon!

(não me perguntem)

***

E tem a cumplicidade, quando os dois se unem no time dos desobedientes e eu fico como uma tola, nadando contra a maré, enquanto os dois saem pela casa cantando o oba-oba-oba-chataririoba! Ainda vou aprender a lidar com as brincadeiras na hora da comida, quando eles se olham e trocam caretas e riem de boca cheia, sujando a mesa e ignorando meus chamados. Vou descobrir um meio de dobrá-los quando eles insistem em não me ouvir e morrem de rir, transformando a desobediência em parte da graça. E quando pulam na cama com cara de invencíveis, desprezando meus avisos de cuidado para não bater a cabeça. E quando fazem brincadeiras na escada ainda que eu viva dizendo todos os dias que escada não é lugar para brincadeiras. E quando se escondem no quarto na hora de dormir, um embaixo do móvel, o outro embaixo do edredom. E quando falo para não brincarem de empurrar porque é perigoso e eles seguem aos empurrões e gargalhadas. E quando... e quando escrevo essas coisas fico com a sensação de que sou uma chata de galocha enquanto eles se divertem pra caramba.


Religiões na escola - modo de usar



Durante seis anos de minha vida estudei em um colégio católico, de freiras. E lá tínhamos aulas de religião. "Aulas de religião" eram, na verdade, momentos em que cantávamos hinos católicos, líamos passagens bíblicas, "aprendíamos" qualquer coisa sobre o santo da vez, sobre os dez mandamentos, os pecados, o papa, as obrigações do bom católico, os rituais como missa, crisma, etc. Ou seja, era um mergulho da tradição católica, desprovido de qualquer questionamento, debate mais profundo sobre o papel da Igreja Católica ao longo da História - imagine - ou coisa que aproximasse aqueles encontros de "ensino".  O resultado era uma alienação inevitável, onde o catolicismo era visto como regra no mundo e as demais manifestações religiosas eram tidas como excentricidades, para usar uma palavra bonita. Para ser honesta com meu antigo colégio, devo dizer que havia tolerância religiosa em algum grau, sim, pois me lembro de ter colegas de classe protestantes ou adventistas, as quais, que eu saiba, nunca sofreram qualquer discriminação por causa disso, seja por parte dos professores ou da direção da escola. Ainda assim, chamar o que tínhamos de "ensino religioso" era um disfarce para doutrinação pura e simples.

E aí quando me vi diante da possibilidade de matricular meu filho em uma escola católica, temi pela doutrinação que ele fatalmente receberia por lá, o que inevitavelmente representaria um conflito para quem vive em uma casa, digamos, laica. Mas também ponderei que o fato de eu ter tido aquela formação de que falei no parágrafo anterior não me impediu de abrir meus olhos para outros horizontes, desprender-me dos dogmas católicos e tocar minha vida. Então apostei nos pontos que julguei "fortes" na escola e lá está ele.

Daí que essa semana fomos convidados pela diretoria da escola a assistir uma exposição de trabalhos produzidos pelos alunos em torno do tema "2010, ano do ensino religioso". Tremi nas bases e hoje fomos passar parte de nossa manhã de sábado conferindo a tal exposição. E que boa surpresa.


Uma coisa é eu dizer que não pretendo doutrinar meus filhos a seguir qualquer religião; dizer que pretendo conversar com eles sobre a ideia de Deus de forma franca e aberta, escancarando as dúvidas, mais que as convicções empurradas pelas tradições; que pretendo criá-los livres para seguirem a crença que melhor lhes servir. Outra coisa, bem diferente, é esperar que eles não conheçam nada sobre as crenças da humanidade, já que eles, espero, cruzarão em suas caminhadas com pessoas das mais variadas vertentes.

Por isso gostei tanto do que vi hoje. Bem diferente do que via em "minha época" (ô, expressão triste essa, né?), o que a escola do Arthur apresentou foi uma compilação de símbolos e manifestações de diversas religiões espalhadas pelo mundo (queria escrever "todas", mas certamente há muitas outras, a imaginação humana não tem limites). As seções da exposição não receberam títulos como "fé em Deus" ou "conversando com Deus", mas "manifestações sobre o transcendente" ou "templos considerados sagrados por diferentes povos". Sem qualquer destaque ao Catolicismo, vimos símbolos budistas, protestantes, espíritas, de religiões de origem africana, judaísmo, islamismo, etc. lado a lado, cercados por dizeres onde as palavras de ordem eram Respeito e Diversidade.

Foi uma grata surpresa, confesso. Porque mesmo tendo conversado sobre meus temores com a coordenadora do ensino infantil, quando matriculei o Arthur, no fundo, admito, eu achava que rolaria, sim, certa manipulação por parte da escola no sentido de pintar a Igreja Católica como a dona da verdade - e hoje vi que isso é meu trauma de garota quase doutrinada falando mais alto. E ainda que meus filhos decidam não seguir qualquer uma delas, adoro a ideia de que eles estão vendo, também na escola, que o que importa é olhar para a escolha do outro com respeito. E, de preferência, conhecendo nem que seja um pouquinho de cada uma dessas tradições. É que conhecimento é um ótimo caminho para combater preconceitos, é ou não é?


Então queria registrar minha admiração pelo trabalho desenvolvido - dentro dos muros de uma escola Católica - que mostrou um saudável debate com crianças de diversas idades em torno da diferença, da diversidade, do verdadeiro respeito ao próximo. O que vi foram registros de um estudo cultural. Ponto para a escola, nota 10.


Bla bla bla, mas não adianta, o que roubou a cena, para mim, além de ver o Arthur cantar Arcoíris, da Xuxa (é, eu sei,  não precisa dizer) foram as "orações espontâneas" (sim, eles rezam em sala de aula, mas já fiz as pazes com a ideia) registradas pelos alunos. Uma preciosidade! Uma delas rezava "Deus, espero que minha irmã não me incomode mais, amém, obrigado". óóóóóó.... :-D  E outra das minhas favoritas ganhou até foto.



Porque, né, meteorito é tudo de bom nesse mundo.


As escamas da girafa - ainda

Quem, eu?

Quando eu tinha uns seis ou sete anos, a professora perguntou numa prova qual era o animal que tinha escamas. Eu não sabia o que eram escamas, devo ter olhado para a janela na hora dessa aula. Bom, mas eu tinha cabeça e imaginação. Então pensei no que poderia significar aquilo. Pensei, pensei muito (por uns três segundos, acho) e decidi que escamas eram aquelas manchas que a girafa tem pelo corpo. E mandei ver: a girafa.

Quando minha mãe recebeu a prova das mãos da professora, as duas riram muito da minha inusitada resposta. Minha mãe então me explicou que peixe seria a resposta certa, eu aprendi, e ela contou para muitas outras pessoas, ha ha ha, como tinha sido engraçada aquilo. Humpf. Tudo bem, cresci sem traumas. Entendo.

O que eu não esperava era contar isso para o Arthur e virar motivo de chacota para ele. Agora tenho de aguentar meu filho de cinco anos repetindo a história toda - "aí, mamãe, você não sabia o que eram as escamas, né, hahahaha, e aí você, qua qua qua, pensou que eram as MANCHAS da girafa!!! Hahaha etc, ai, mãããe, como você não sabia??? HAHAHAHA" - e rir aos montes. Várias vezes.

Deixa ele. Vou combinar com a professora dele para ela perguntar na prova qual o animal que tem guelras. Hein, hein? Ou, sei lá, que animais são pecilotermos, hein, seu Arthur, diz aí! Hum.

Meninos, humpf.

;-)


Meu vício


Os tempos são outros, quem há de negar? Essa semana vi por aí (queria lembrar onde, para pôr o link aqui) alguém usando aquela velha frase “não vamos jogar a criança fora junto com a água suja da bacia” para falar da situação atual do país - e achei bem pertinente. Acho normal querer ressaltar os pontos ruins de uma administração que não apoiamos e também alardear os bons feitos dos nossos preferidos. Acho humano mesmo. Somos assim, tendenciosos, parciais. É importante ter consciência desse estado para que possamos avaliar nossos discursos e procurar por nossos tropeços. Acho que a consciência em torno de nossa parcialidade deve morar lá na gênese do pensamento crítico, impulsionar nossos questionamentos e diminuir a cegueira fácil. Se nos acreditarmos 100% imparciais, nossas avaliações estão fadadas ao fracasso.

É um exercício difícil esse de nos esforçarmos para enxergar o erro cometido por quem gostamos, o tropeço daquele que apoiamos, o vacilo daquele em quem apostamos nossas fichas. É ruim, desconfortável, mas necessário. Talvez ainda mais difícil seja o outro exercício, o de enxergar o sucesso de quem não gostamos, aplaudir o acerto de quem queríamos ver derrotado, apoiar bons planos e atitudes de nossos desafetos. Mas, igualmente, é um exercício necessário.

Muita gente consegue êxito nos dois. Consegue reconhecer que sua impressão estava equivocada, entender que o bem maior justifica o apoio a quem antes queria ver pelas costas. Mas é difícil, reconheço.

Tudo isso para dizer que entendo que tanta gente se recuse a votar na candidata do governo à Presidência da República alegando para isso que o Governo do Lula pecou muito. Que ele deixou de cuidar de um monte de coisas em seus oito anos de governo, que as melhorias na educação não tiveram o volume que gostaríamos de ver, a segurança pública não transformou o Brasil numa Islândia, muitas estradas isso, muitos portos aquilo, etc. Tudo relevante e digno de nota para os governos futuros. Isso é a água suja da bacia. Mas eu vou me agarrar à criança.

Nas vezes em que votei no Lula (todas em que ele foi candidato), não votei por mim. Talvez nas primeiras, sim, tenha votado por mim também, pois era estudante e queria ver um país melhor para “o meu futuro”. Mas à medida que o tempo foi passando, e o Lula seguiu se candidatando (ainda bem), os motivos pessoais por trás do meu voto me abandonaram e passei a votar quase que exclusivamente pelos outros. É que olho ao redor e percebo que dependo menos das políticas públicas do que os milhões de brasileiros que estão abaixo de minha família na pirâmide. Dependemos também, claro, todos dependemos, mas no caso da minha família essa dependência não compromete nossa rotina no mesmo nível em que compromete a rotina de quem não pode abrir mão de nenhum serviço público essencial: raramente ando de ônibus, meu filho estuda em escola particular, temos plano de saúde, moradia própria e empregos que nos permitem pagar as contas e planejar o futuro.

A convicção de que não podemos votar pensando em nossos umbigos vem de uma constatação muito simples: no fim das contas, se o país vai mal, a parte que nos sobra dói menos do que aquela que sobra para quem ocupa as camadas mais baixas da pirâmide. Se há uma recessão, por exemplo, a gente compra menos; mas muita gente come menos. Então meu voto não é meu. Claro que continuo querendo que meu país melhore - tanto mais agora, que tenho filhos - mas minha preocupação, ainda que real, certamente é menor que a da mãe que tem filho em escola pública, tem um subemprego e está endividada. Então meu voto é pra ela.

Pois bem. Então gostei demais do governo do Lula, gostei muito mesmo, porque vi se concretizar o motivo que esteve na base de cada voto que dei a ele: em seu governo, milhões e milhões de brasileiros melhoraram suas condições de vida; entre 2003 e 2008, 27 milhões de pessoas migraram das classes D e E para a classe C, e 20 milhões saíram da extrema pobreza. É mais gente comendo. Mais gente com emprego fixo, com acesso a bens que melhoram seu dia a dia, como geladeira, fogão, roupas, aquecendo a economia e gerando mais emprego na bola de neve que manteve o país de pé, firme, mesmo durante a maior crise financeira que o mundo capitalista enfrentou nos últimos tempos. Muita gente falhou no exercício de admitir o sucesso de quem não gostamos e disse que o Lula teve “sorte”. Tsc tsc. Eu votei no Lula para que a miséria do país encolhesse. E isso aconteceu. Fato.

Eu gostei, gostei mesmo, de ver dinheiro sendo empregado em programas que os desafetos do Lula adoram chamar de assistencialistas e populistas, porque eles fizeram toda a diferença na vida de pessoas que não tinham o pão que eu nem sei quanto “pesa” no meu orçamento. E claro que ensinar a pescar é necessário - e isso se faz melhorando o país como um todo, o que o Governo também fez nos últimos anos - mas dar o peixe, queiramos ou não, é questão de humanidade em um país com tantos miseráveis. Quem quiser que vire as costas, eu gostei do que o Lula fez.

Há muitos outros motivos que, para mim, fizeram do Governo Lula o melhor que esse país já teve. O país cresceu, diminuiu o desemprego, atraiu investimentos, ganhou respeito internacional. Mas há todo o tanto que ainda precisa ser feito. E, claro, houve aqueles momentos em que senti vergonha, como quando vejo o Sarney ali, do lado. Sinto muito, muito mesmo, tenho vontade de sumir, fingir que não é comigo, não tenho argumentos, não há desculpas. Alianças? Poderiam ser outras, pelamor! Mas isso não tira meu voto, não na atual conjuntura. Porque é preciso manter o foco e tocar o bonde. E continuar. Isso mesmo, continuar. (Eu simplesmente ignoro a apelação tucana por trás do conveniente versinho “mas a alternância de poder é fundamental para a democracia”. Não. A escolha é fundamental. E eu acho que o país agora quer continuar.)

Bem, sei que eu quero. Quero continuar a ver melhorias no mundo das pessoas que sempre levam a pior. Não estou satisfeita com tudo, como poderia? Eu estaria satisfeita se os desabrigados das enchentes de Alagoas e Pernambuco já tivessem recebido o tratamento adequado em um país que respeita seu povo e tivesse sido resgatado do estado de isolamento em que se encontram. Estaria satisfeita se estivesse vendo surgir uma discussão séria e engajada em torno do sistema prisional de nosso país, urgência urgentíssima, para antes de ontem. Estaria satisfeita se as escolas fundamentais públicas fossem modelo de excelência e sues professores fossem bem remunerados. Etc. Mas, ainda assim, tenho convicção de que o grupo que tem algum interesse na melhoria real do país, socialmente falando, é o grupo do atual governo.

Então além de votar na Dilma, vou votar em candidatos a deputados e senadores de partidos governistas, para não ter erro: quanto mais parlamentares apoiarem os projetos do Governo, maiores as chances de aprovação. 1+1.

E, finalmente, tem a tietagem, sabe, gente. Ah, eu não poderia deixar de dizer. Eu sou tiete, sou tiete sim. Eu preciso falar, com o peito estufado: eu tenho um orgulho danado do meu presidente. Eu gosto dele, sabe? Gosto pra caramba, nem consigo dizer o tanto. E mesmo antes de ver aquele filme, eu já tinha essa imagem na minha cabeça, do garoto de infância miserável, correndo pelo chão do sertão de barriga estufada e pernas finas, sem ter noção dos rumos por onde a vida lhe levaria. O Lula criança vai morar para sempre no meu imaginário, gosto de pensar na trajetória de vida dele, dos preconceitos que ele ajuda a derrotar, das limitações que ele superou. Eu gosto daquele menino. E quem quiser que tente ter quase 80% de aprovação ao final de oito anos de mandato, tendo contra si toda a grande mídia, fazendo campanha contra todos os dias. O país não é mais o mesmo, que bom.

Vou sentir saudades. E sei que não estou sozinha, viu? Mas conto com a Dilma para amenizar a falta e ver o legado do Lula ser tocado com fibra. Então, a quem interessar possa, voto na Dilma, é com ela que eu vou. “Ah, Rita, mas aí você está votando na Dilma por causa do Lula. Mas a Dilma não é o Lula!”. Eu sei. E é isso mesmo. Eu voto nela porque ela esteve ao lado dele esse tempo todo e é coadjuvante em tudo isso que falei aí em cima, para o bem ou para o mal. Então é o mais perto que eu consigo chegar de votar no Lula novamente. É que só sei votar nele, gente. Viciei.

;-)

Por aí

No último final de semana fomos à livraria comprar livros para a gurizada. A ideia era só comprar alguns para presentear amiguinhos do Arthur, mas acabamos nos empolgando e trazendo dois pra nossa casa também. Um é o fofíssimo Tato, o Gato, que tem um visual absolutamente irresistível (esse o Arthur já tinha dado de presente para uma colega de sala e eu sabia que era questão de tempo até trazê-lo para cá). Mas nossa grande aquisição da vez foi mesmo o Volta ao Mundo em 80 Histórias, coletânea organizada por Saviour Pirotta.

O livro é lindo, como precisa ser um bom livro infantil, as ilustrações são atraentes, o livro todo é muito bem cuidado. Logo no início há um mapa simplificado do mundo mostrando apenas as divisões por continentes, o que é bom para ajudar a criança a entender a divisão dos capítulos do livro, que traz histórias agrupadas assim. E cada capítulo traz no topo das páginas imagens de monumentos de países que compõem os continentes.

Então são 10 histórias das Américas do Norte e Central, 9 da América do Sul, 28 da Europa, 14 da África, 15 da Ásia e 4 da Oceania, sempre apenas uma por país, o que dá um bom mosaico da falação mundo afora. Quer dizer, na verdade, há no primeiro capítulo uma "história dos Estados Unidos", uma outra "afro-americana", uma "do Havaí" e ainda outra "dos índios Sioux", além das outras seis, originárias do Canadá, Guatemala, México, etc. É, eu sei o que vocês estão pensando. Até aqui, né, Tio Sam, guloso! Mas pelo menos é uma forçadinha multicultural... Ainda são 80 culturas diferentes.

Pois bem, o que mais gosto no livro é a chance que ele nos dá de conhecer histórias de origens tão diferentes, o que é um pretexto excelente para falar com a criança sobre a diversidade do mundo. Na primeira noite com o livro, na famosa "hora da história" que encerra as atividades da criançada aqui em casa, o Arthur escolheu um país no globo e varremos o índice do livro para ver se havia uma história do lugar escolhido. O Arthur escolheu a Nigéria e lá estava: Por ordem da rainha, e agora conhecemos as razões do abanar do rabo da vaca. Não satisfeitos (sabe como é brinquedo novo), abrimos uma exceção e deixamos que viesse a segunda história da noite. De volta ao globo, Arthur escolheu a Mongólia e, de novo, lá estava Sempre verdes, e agora sabemos o motivo da eterna cor dos pinheiros.

Adoramos o livro. Ontem não houve histórias porque o Jogo da Vida rolou até muito tarde e todo mundo foi pra cama quando já deveria estar sonhando há muito tempo (o povo dessa casa adora um bom jogo de tabuleiro). E hoje foi dia de a Amandinha escolher a história da hora de dormir - e ganhou Tato, o Gato. Mas não vejo a hora da próxima viagem, ao som da voz do papai com suas onomatopeias e vozes cheias de entonações e variações teatrais (sério, meu marido podia ser dublador). Há histórias do Paraguai, da Somália, de Botsuana, da Turquia, da Romênia, da Nova Zelândia.... Ah, a brasileira é A Moura Torta, que lembro de ter lido em um dos livros do Lobato.

Bom, fica a dica para quem gosta de contar histórias pra garotada. Se eu fosse criança, iria adorar... não, não precisa ser criança. Estou adorando assim mesmo.

***

Esfreguem este post na minha cara quando eu aparecer por aqui chorando as pitangas porque os dois resolveram arrumar as mochilas e bater pernas pelo mundo. Tá?

Arthur e o perfil de Papai Noel


Papai Noel, lendo o Estrada Anil, feliz com o Arthur: "ho ho ho, esse é meu garoto!".

Noite de sábado. Enquanto Amanda pinta, pinta, pinta, Vovó, Arthur, Ulisses e eu jogamos Perfil (edição Júnior).

ARTHUR: - Minha vez! "Sou um personagem".
VOVÓ: - Eu peço a dica! Hum... dica 7!
ARTHUR: - Hum... deixa eu ver... dica 7: "Recebo muitas cartas".
VOVÓ: - (Pensa, pensa, pensa...) Papai Noel?
ARTHUR: - Isso! Acertou!!

Segue o jogo, rodada após rodada. De repente, Arthur olha pro nada, com aquela cara de quem está refletindo sobre algo muito importante. E sentencia ("eles" = pessoal que criou o jogo):

- Mãe, eles erraram. Papai Noel tá em "personagem", mas ele tinha que estar em "pessoa", ele existe de verdade. Tá errado, eles se confundiram!

Momento tenso. Silêncio. Após 3 segundos, Ulisses e eu, em uma só voz:

- É verdade, filho. Eles erraram.

***

Não tivemos coragem. Ainda não.

Post urgente para desmitificação da mãe sorridente

A decoração pós-surrealista da sala da minha casa.

Ultimamente alguns leitores e leitoras têm feito comentários que têm me deixado um pouco inquieta. Não chegam a me incomodar, bem longe disso, mas a repetição deles tem gerado uma pequena, mas importante, preocupação. E aí nasceu este post. Falo de elogios carinhosos à minha condição de, digamos, “mãe que deu certo”. Preciso urgentemente falar disso com vocês.

É claro que gosto da imagem da mãe feliz, que tira de letra a criação dos filhos e vive num lar harmonioso onde rosas caem do teto. Sem espinhos. Mas isso é só uma imagem, um recorte, que nem sempre reflete a rotina de quem cria duas crianças, trabalha fora, bla bla bla. E eu gosto muito dos meus leitores, então preciso ser honesta com vocês.

Quem tem filhos e passa por aqui certamente percebe que aqueles posts fofíssimos narrando gracinhas dos pequenos são uma pequena amostra das muitas alegrias que as crianças nos trazem. Mas certamente também percebem que sou seletiva no que narro. Então conto que o Arthur adora rúcula, mas raramente escrevo sobre os dias em que ele se recusa a comer e faz um charme danado. Então outro dia a Luci comentou “as vezes eu tenho a impressao que tua familia eh perfeita". E aí ouvi um click! Falei: "olha, que imagem estou criando?" Porque é verdade que o Arthur se alimenta muito bem e, via de regra, não nos dá trabalho para comer. Ainda assim, aqueles dias difíceis na hora da mesa também existem.

Quando leio que uma leitora se inspira com o que escrevo e admira como minha vida é tão docinha com meus filhos, fico fofa de felicidade, mas em nome da honestidade preciso dizer que sou cheia de momentos difíceis, que tenho paciência curta (tenho melhorado muito convivendo com Odisseus e com os pequenos) e muitas vezes, no final do dia, sinto-me cansada de tanta falação (vocês, sem filhos, têm ideia do tanto que uma criança fala?). E que também não adoro quando espalho todos os ingredientes do bolo sobre a mesa e a Amanda, que já deveria estar no 2º sono, chama mamããããe!! Sim, ela dorme superbem, o que não quer dizer que nunca tente adiar a fatídica hora de fechar os olhos. E nesses dias, não é sempre que corro para o quarto dela, feliz por poder dar outro beijinho. Às vezes, vou toda chiando: “ih, Amandinha, hora de dormir, né? Chega de conversa por hoje.” Ainda que depois volte lá e beije suas bochechas dorminhocas enquanto o bolo assa.

Percebem o que estou tentando fazer? Quero dizer que cada linha que escrevo aqui é verdadeira, mas que não estou em estado de graça 100% do tempo. Há momentos em que quero silêncio para ler e não tenho. E se tenho, ele vem com culpa, porque, afinal, estou lendo e não brincando com meus filhos, a egoísta. É, gente, é bem por aí. Raramente uma decisão que inclui momentos sem filhos vem isenta de culpa. Nem que seja um pouquinho, em mim ela está ali. E saber lidar bem com isso é um aprendizado diário, que exige paciência, reflexão e muita conversa com o marido, que passa lá por seus conflitos de pai que quer estar sempre presente, etc. Por enquanto minha “solução” é ler da meia-noite à uma da manhã. Geralmente adormeço antes, com o livro despencado no nariz.

Dito isso, não mudaria uma vírgula na minha vida familiar. Ter filhos foi uma decisão conjunta, tomada na hora certa para mim e para o pai deles, por um casal que se ama e que tem planos de dividir bengalas e dentaduras no futuro. Eu não sabia o que era amar tanto uma pessoa - e olha que não amo pouco o Ulisses, não amo pouco, não - até ver o Arthur em meus braços. Logo que ele nasceu, passei dias sem conseguir ficar sozinha com ele e não chorar de puro encantamento. Vê-lo crescer, aprender, explicar-se, argumentar, ler, recitar, somar, nadar, dançar, chutar, whatever, é um bálsamo para todos (to-dos) os momentos difíceis. Eu passaria por todos os perrengues para ouvir a gargalhada dele, uma única vez. É a coisa mais gostosa desse mundo. Juro, de pé junto. Ainda assim, criar filhos é um imenso desafio.

Então queria dizer para meus adoráveis leitores e leitoras que passam por aqui, e que se inspiram com minha relação com meus filhos, que vida de mãe tem lá seus dias de gangorra. Ter filhos é uma das escolhas mais importantes de nossas vidas porque nos compromete para sempre, em maior ou menor grau. Não sou mais dona do meu nariz, ainda que goste de ser assim, entendem? Gosto de ter Arthur e Amanda em minha vida, tanto, tanto, tanto, que tudo que deixo de fazer por causa deles me parece menor. Mas isso não é o mesmo que dizer que tudo é um mar de tranquilidade porque não é. E olha que acho que tenho filhos “fáceis”.

Além disso, futuras mamães, preparem-se para as cobranças imensas, desumanas até. Porque não sei se vocês sabem, mas o conceito de “boa mãe” é a coisa mais esquizofrênica que já vi na vida. Seu parto precisa ser normal, não vai amarelar!; a amamentação deve durar no mínimo dois anos, sem frescuras; pouco leite? incompetência!; é preciso largar o emprego; não, não pode largar o emprego, você não é submissa ao marido; não, não pode trabalhar e contratar babá e terceirizar a educação de seus filhos; não, não pode pôr na creche, horror, onde já se viu; não, não pode ficar em casa, você vai se desatualizar e nunca mais voltará ao mercado de trabalho, sua burra; não, não pode trabalhar em casa, você não vai conseguir se concentrar; não, não pode reclamar, você é uma mulher ou um rato? não, não pode dormir na mesma cama com seu filho, ele vai ficar inseguro; como assim abandoná-lo no quarto sozinho para dormir, sua monstra; como assiiiim seu filho come açúcar e aonde você pensa que o mundo vai parar com todas essas fraldas descartáveis; ah, você só pode estar brincando quando diz que seu filho ainda vive no seu colo; minha nossa como você é fria!, não vê que essa criança precisa de colo? Nunca estamos certas. Preparem-se. Falo sério.

E tem o medo. O medo passa a ser nosso companheiro e também é preciso aprender a lidar com ele para se manter sã. O mundo é doido e até nascer o primeiro filho a gente nem nota. E também tem o amor maior, maluco, que nos transforma em fã de todas as crianças do mundo! E aí, meu, dê adeus às cenas dos filmes que mostram crianças sofrendo. Você não as suportará mais. Louco, o negócio.

O que fazer? Acreditar e permitir. Acreditar nas suas escolhas e permitir que as dúvidas venham. Mas, acima de tudo, amar, querer os filhos. Para que tudo valha muito a pena e que o riso venha fácil diante de frases como “ah, mas você não tem mais liberdade”, porque você sabe mais. A ponto de achar até engraçado que alguém de fato acredite que você trocaria tudo por um cinema. Por mais que você goste de cinema.

E acho que é essa crença que me faz ver muito mais cor nos momentos fofices do que vejo incômodo nos momentos birrices. Mas os momentos birrices existem, são reais e incomodam, incomodam, incomodam. Então, pessoas boas, minha vida é bem colorida, sim, e fico muito feliz, de uma felicidade genuína, por saber que inspiro alguém a pensar em filhos porque passou por aqui. Mas eu precisava dizer. Para não soar falsa, sabe? E quer saber? Foi bom escrever isso agora. Para que vocês criem uma imagem mais perto da real dos meus filhos: crianças. São crianças.

Tenho certeza de que ainda vão chover fofices por aqui, porque não há de faltar matéria prima para tanto. Garanto. ;-)

***

E sabe qual é a boa do final de semana? Festa infantil (adivinhem quem já está completando um ano??). Ah, isso não tem preço! A gente passa a vida comendo brigadeiro! Uh-hu!

Tem gente esperando



Não, não sou eu.

Hoje liguei para minha ex-professora de yoga. No ano passado ela me dava aulas particulares aqui em casa. E caiu de amores pela Amanda. Um dia falou:

- Ai, vejo a Amanda e até fico com vontade de ter filhos.

Em dezembro interrompemos as aulas por causa das férias. Quando voltei do Nordeste, liguei para retomar as aulas e ela me deu a notícia. Teríamos de dar um tempo, ela estava grávida e com muitos enjoos, precisando reduzir a carga de trabalho por alguns meses. Perdi a ótima professora, mas, claro, fiquei muito feliz. Hoje ela me contou que está na 37ª semana, preparando-se para um parto normal e cheia de energia. Fico imaginando como ela deve estar linda, ainda mais. E fico pensando no bebezinho que já vai nascer botando os pés nas costas e chorando baixinho oommmmm.

O que é que vocês tem a ver com isso? Sei não. Mas fico assim, boba, pensando no bebê que está no forninho, quase pronto para chegar e dar de cara com isso tudo que é o mundo. E não consigo deixar de pensar que ela, a minha professora linda, logo logo vai cair de amores muito mais do que desconfia. Porque é assim, a gente pensa que sabe. Mas não sabe. Não sabe.

Essa semana já me emocionei com a notícia de outra gravidez. Fico torcendo que esses bebês sejam todos feitos de pó de estrelas bem luminosas.

Confissões um pouco graves



A impressão que tenho sobre A Sombra do Vento, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, é de que se trata de um daqueles best sellers cujo autor encontrou uma fórmula que vende bem e a executa com relativa competência. É só uma impressão, ainda nem passei da página 30. E é uma impressão absurda, porque esse é o primeiro livro que leio dele. Tá bom, vou confessar: o Odisseus está lendo outro, O Jogo do Anjo, e já leu A Sombra; e comentou que fica bem evidente a repetição dos mesmos recursos e coisa e tal. Então minha impressão não é exatamente uma  impressão, é um pré-conceito contaminado.

Bom, eu olhei para o livro, ele olhou para mim, vamos lá. Por enquanto, maré baixa, nada demais. Mas tem um menino apaixonado por livros. E, certo dia, o pai o apresenta a um Cemitério dos Livros Esquecidos. E aí existe a Clara, a menina cega, de olhos que "apalpavam o vazio". Vou indo. Veja lá, hein, Seu Zafón, não vá me deixar com a sensação de "ai, e tanta coisa no mundo para ser lida". Em pouco mais de 20 páginas já vi uns tantos clichês, mas como são clichês bem bonitinhos, vou insistindo.

***

Confissões independentes de uma ex-acadêmica rebelde: eu leio best sellers de vez em quando. Sempre me culpo e saio com aquele papo de "aiiiii, ainda nem li Madame Bovary, ainda há tanto do Joyce, da Woolf, do Machado, do Whitman..." - you name it. Mas de vez em quando lá vou eu à cata de caçadores de pipas e meninas que roubam livros. Quando a jornada vale a pena, hum, bom. Quando não... bem, paciência; pelo menos já aprendi a largar livros no meio, sem dó.  (Depois não diga que não avisei, seu Zafón.) Qualquer coisa, largo mão e me mando pra Macondo.

***

Vamos brincar de conversar? O que vocês andam lendo por aí, hein? Contem, contem, contem!


Pequena celebração ou as razões da coruja



"Quem ama o feio, bonito lhe parece."

Nunca vou saber. E não importa, a beleza de que falo é outra. Só sei que olho e vejo duas pessoinhas lindas, de uma beleza tão absolutamente encantadora que nem me importo se é cegueira ou se há razão. Olho e só vejo o reflexo do meu imenso amor. Olho e me apaixono mais, toda hora. São lindos, sim, e ninguém precisa concordar comigo, repito que não é daquela beleza que estou falando.

Olho e vejo a beleza da infância, incólume aos padrões, modismos, regrinhas. Olho e vejo duas crianças, as minhas crianças. Lindas, porque são curiosas, porque seus olhos brilham e porque seus sorrisos são meu combustível. Não são lindas apenas por causa de traços supostamente harmoniosos, cachos e boquinhas de coração. Isso é brinde, se houver, e também acho lindo daquele outro jeito. Mas são lindas de verdade porque carregam a infância naqueles pezinhos inquietos e naquelas mãozinhas que parecem se multiplicar - e também porque já vieram ao mundo me inebriando. São tão lindas quanto o são todas as outras crianças do mundo, torço.

Amo, infinitamente. E como existe um tipo de beleza que nasce no amor, eles serão lindos para sempre. Sem fontes da juventude, sem desespero. A verdadeira beleza não passa nunca.

Tão fácil ser coruja. E às vezes é tão simples ser feliz - inevitável até. Adoro esse papo dos "olhos de quem vê", eterna fonte de alegria! 

***

Para meus dois filhos lindos, cuja beleza infantil, por alguma razão que desconheço, tem inebriado esta coruja de forma particularmente eficaz nos últimos dias. E quanto mais cabelos desgrenhados, bigodes de suco e unhas pretas vejo, mais me encanto. Perdição define.


Contando, ninguém acredita




Por causa da pressão alta da vovó, o cardápio do almoço de hoje tinha um magnífico... ensopado de chuchu. Eu nem olhei pro troço porque, né, vamos combinar. Mas a coisa foi para o prato do Arthur, cinco anos (o mesmo da rúcula), porque não precisamos transferir nossos preconceitos para as crianças, certo? Lá pelas tantas, com o papai preparando seu próprio prato, o Arthur perguntou sobre a novidade:

- Viu o chuchu, papai?
- (Em apuros) Eh... vi.
- Você já comeu?
- Eh... não gosto muito, filho.
- Come, papai! É deliciOSO!
- Ah... não, filho, obrigado.
- Ah, pai, experimenta! Só um pouquinho. Huummmm... (e passava a mão pela barriga)
- Ah, não, filho, não mesmo. Obrigado.
- Tá bom.

Fiquei muito feliz que a atenção do Arthur tenha se voltado para o pai, fiz cara de quem não estava ali e bati meu pratão cheio de coisas gostosas. O Arthur comeu tudo também, inclusive o ensopado de chuchu - é bem verdade que hoje não foi um daqueles dias mais fáceis; disse que estava sem fome e só comeu tudo mesmo depois que viu a sobremesa que iria perder. Mas também, como recriminá-lo? Tinha CHUCHU no prato dele!

Andamos, eu e Ulisses, com o maior peso na consciência. E amanhã todo mundo vai comer chuchu. Quer dizer, primeiro o Ulisses. Se sobrar, eu como na quarta. ;-)

Mas, diga aí, não parece ficção?

Barulho, cavernas, escolhas




Sabe quando você pega o livro, escolhe o lugar mais tranquilo da casa e foge? Pode ser uma sala com um sofá razoavelmente confortável, ou a poltrona do escritório, ou a cama mesmo (adoro ler na cama). Pode ser a mesa, para quem gosta de repousar o livro aberto à sua frente e enterrar o rosto nas mãos enquanto viaja nas palavras, qualquer cantinho. Sabe quando você se concentra na história a tal ponto que se esquece do lugar onde se encontra e nem ouve os ruídos que cercam o ambiente? E aí parece que as vozes das personagens ficam mais vívidas, mas nítidas, e a gente se sente como se estivesse ouvindo a história ao invés de lê-la, sabe? Pois é. Não faço mais ideia do que seja isso.

Terminar a leitura de A Caverna hoje foi um ato de superação, porque às vozes do narrador e das personagens juntavam-se os gritos das crianças, o som da TV, a voz de Odisseus ao telefone, um papo aqui, outro ali, um filho que chama, outro que chora, mil interrupções. Mais do que leitura, foi um exercício de concentração. E valeu muito a pena. Assisti a todos os tombos das crianças, dei colo, limpei narizes, vi meu pequeno ler gibi encantado com o fato de já entender as histórias sem precisar de ajuda, vi minha pequena fingir que lê o gibi, mesmo que a revistinha esteja de cabeça para baixo, curti a presença do marido e da sogra, tomei café junto e ainda li meu livrinho. Not bad.

E antes que alguém pense que estou reclamando da barulheira, digo que um bom silêncio na hora da leitura vai bem, mas, hum hum, troco não.

***

Ah, o livro? Foi engraçado terminar de lê-lo hoje, tendo escrito esse post há dois dias. A Caverna fala do provável equívoco que mencionei ali; trata das aparências que nos levam a acreditar que o que enxergamos à nossa frente é a única verdade possível, simplesmente por estar à nossa frente. E fala de pessoas que percebem a ilusão - e a enfrentam. Tem personagens possíveis e um cachorro quase gente. Tem amores que nos fazem torcer e uma cidade que faz a gente preferir a casinha lá do vilarejo, com a amoreira-preta no quintal.

Para ser lido, mesmo com barulho.

Café da tarde



Contra mau humor, cozinha. Com toda paciência do mundo, minha família tem me aguentado desde ontem, então o mínimo que eu podia fazer por eles era arregaçar as mangas e preparar uma ou duas guloseimas.

Os muffins da Ana são sempre uma boa pedida e nos de hoje acrescentei amêndoas. Foram feitos a seis mãos, com a ajuda impagável dos meus dois filhotes. O Arthur, de avental e tudo, untou as forminhas e colocou os ingredientes já medidos na vasilha. E a Amadinha também colocou alguns ingredientes, derramou a farinha e brincou com o pincel de untar. :-)



O bolo da vez foi o Madeira Cake, do mesmo livrinho bom do bolo de coco que Odisseus adora, The Essential Baking Cookbook. Como o Madeira Cake leva limão na receita, achei que combinava com meu humor. :-/ É uma injustiça falar isso, porque, na verdade, o bolo é uma doçura de tão bom. Experimentem, é fácil e muito gostoso - um irresistível aroma de limão invadiu a casa quando abri o forno e, depois de servido, metade do bolo sumiu em segundos. Até sorri. - Dica: cuidado com as unhas no ralador. É, pois é. Deve ter sido para melhorar meu humor, quebrar quase no meio a unha do polegar. Mas não se preocupem, consegui evitar que o bolo recebesse esse tempero inusitado. Então aí está, Madeira Cake, sem unha:



Ingredientes:

185 g de manteiga sem sal
185 g de açúcar
3 ovos, levemente batidos
2 colheres (chá) de raspas da casca de limão ou de uma laranja (usei raspas da casca de um limão siciliano - use o lado mais fininho do ralador)
155 g de farinha de trigo com fermento
125 g de farinha de trigo normal, sem fermento (como estava sem farinha com fermento em casa, usei 280 g de farinha sem fermento e adicionei uma colher de sopa de fermento em pó)
2 colheres (sopa) de leite

Pré-aqueça o forno a 160ºC. Unte uma assadeira de pão (20cm x 10cm x 7cm) e forre base e laterais com papel manteiga (usei uma forma um pouco menor, 20 x 7 x 7, e serviu perfeitamente). Na batedeira, bata a manteiga e o açúcar até formar um creme leve e fofo. Adicione os ovos gradualmente, batendo bem após cada adição. Acrescente as raspas de limão ou laranja e bata até misturar bem. Desligue a batedeira e com uma colher de metal ou espátula de plástico acrescente a farinha (o fermento) e o leite. Misture até obter uma massa fofa. Transfira para a assadeira e alise a superfície. Asse por 50 minutos. Retire do forno e deixe esfriar na forma por 10 minutos. Desenforme sobre uma gradinha para esfriar completamente e retire o papel manteiga. Delicie-se. (O "até esfriar completamente" não funciona muito bem em ambientes com esfomeados. Comemos o bolo ainda morninho e oh, my God!)

Passou


Como assim, até a sexta-feira já passou? Aff. Mais uma semana me engoliu e nem vi. Papelada, correria, atrasos. Falaram, em algum lugar, que cada cigarro nos tira quatro dias de vida e cada dia de trabalho nos tira oito horas. Mas há quem diga que isso só vale para aqueles que não gostam do trabalho, pois, como outro alguém também já falou por aí, quem ama seu trabalho não se sente trabalhando um dia sequer. Hum.

Não amo meu trabalho. Deveria, mas não amo. Gosto dele. Em alguns dias. Em outros, abomino. Normal. Mas eu bem que deveria amar meu trabalho, viu? Não posso ser hipócrita a ponto de menosprezar a segurança e outras conquistas que ele me proporciona. Tampouco deixar de reconhecer a importância de que ele seja bem feito. Mas amar, não, não chega lá, nem nos melhores dias. Repito, deveria chegar. Mas esse post não é sobre estruturas, focos, projetos, revisões indispensáveis. Não. Esse post é sobre hoje já ter sido sexta-feira e eu ter a nítida sensação de ter perdido a segunda, a terça, a quarta e a quinta.

Este post é sobre minha vontade de viver outras tantas coisas que meu trabalho não pode me dar, porque ele me dá salário e segurança, mas pede meu tempo em troca. E aí não tem jeito, não sei esticar o dia. Eu sei, pessoas, muito mimimi, né? Tá bom, parei. Vou só dizer que penso muito no nosso modo de vida. E nesse script que nos entregam lá no início da nossa juventude e que seguimos quase à risca vida afora. E que repassamos aos filhos. E aí você pergunta, uai, e dá pra ser diferente? E eu respondo, uai, e tá bom assim? Os dias passando sem a gente ver, com nossos narizes enfiados na tela do computador, nossos ouvidos grudados ao telefone, nossas mãos digitando loucamente? E nem estamos digitando romances, nada. São memos e ofícios. Aí você me diz, uai, mas e não há de ser feito? E eu paro, respiro e penso: ó, céus.

Então tá, a gente espera a aposentadoria. (Da série "frases tristes".)

Não me xinguem, sei que é duro não ter emprego. De novo, não é disso que estou falando. Estou tentando dizer que, de repente, a gente está muito equivocado. Profundamente. Não tem jeito, só vem um mantra à minha cabeça (e soa bem anos 80): ô raio de sistema, viu? Vocês não topam voltar pro escambo, não? Troco três pares de bota por um livro, que vou ter tempo de ler. E um quilo de farinha de aveia, porque não sei o que fazer com ela, por um pote de requeijão*. Alguém?


*Se me oferecer requeijão light, dou só meio quilo da farinha.

Menina pode, sim

Este post está participando do 4º concurso de blogueiras do Blog da Lola.



Eu não sei quando meu feminismo nasceu. É possível que as primeiras ideias ditas feministas tenham brotado em minha cabeça após certos episódios curiosos vividos ao longo da infância, mas não posso apontar o momento da epifania; não houve um click, nenhum sino tocou. Duvido que eu tenha ouvido a palavra feminismo antes da adolescência, então é possível que a falta de um “arcabouço teórico” tenha impedido uma identificação mais evidente. Talvez. Mas, mesmo assim, era preciso estar muito anestesiada para não perceber que alguma coisa andava fora de foco no meu mundo. Então acredito que apesar de não saber o nome do bichinho que inquietava minha cabeça, eu já convivia com ideais feministas desde muito cedo. É que eu não me dava muito bem com a frase “você não pode porque é menina”.

Talvez seja mais fácil falar de quando meu feminismo começou a crescer e aí lembro nitidamente das crises da adolescência que me deixavam indignada diante da minha absoluta impotência em certos conflitos. Apesar de ter crescido em uma casa onde uma mulher dava as cartas, fui criada para ser passiva, pelo menos em questões de relacionamentos amorosos. Menina que se preza, valoriza-se, aprendi. “Valorizar-se” significava seguir um comportamento tido como digno pelas camadas mais conservadoras da sociedade do lugar. Valorizar-se significava não usar decotes ou roupas curtas, não namorar demais, não rir alto, não andar em determinadas companhias (por exemplo, com meninas que usavam roupas decotadas ou curtas, namoravam demais e riam alto), saber cozinhar, nunca sair sozinha, essas coisas. Mas o principal mandamento da adolescente bem vista em minha época era “jamais tomarás a iniciativa em um relacionamento amoroso”.

Quando eu era adolescente, nós, meninas, aprendíamos que aquelas que tomam a iniciativa são fáceis. E nos ensinavam que bom mesmo é ser difícil, porque o homem só valoriza aquelas meninas que “se preservam”. Ser difícil significava, na prática, ser passiva. Mas “passiva” tem uma conotação ruim, então dizíamos “sou difícil, valorizo-me, não dou em cima dos meninos”. E esperávamos. Esperávamos que eles, homens de atitude... (ah? como? Não, leitora/leitor, preste atenção, os meninos que tomavam a iniciativa, davam em cima, chamavam a garota pra dançar, não eram fáceis; eles tinham atitude). Como eu ia dizendo, esperávamos que os meninos de atitude nos escolhessem. Como num concurso de... miss, sei lá. E ali, cheia de amores e com uma vontade danada de tomar as rédeas das minhas escolhas, eu me vi várias vezes desejando nascer menino em uma próxima encarnação. Mas essa vontade passou.

Passou porque com a idade adulta meu feminismo tomou força e simplesmente me recusei a deixar que regras que me pareciam injustas e reducionistas me impedissem de seguir meu caminho como eu julgasse correto. Com o tempo passei a enxergar o óbvio resultado daqueles princípios tão valorizados na adolescência e a ver a necessidade de me defender do machismo quase inevitável que eles alimentam. Passei a questionar incisivamente o fato de ser julgada de forma diferenciada por eu tomar uma mesma atitude que um amigo, simplesmente pelo fato de ele ser homem e eu ser mulher. Ora, eu não queria esperar um herói, então me permiti a liberdade de expressar minhas vontades e meus sentimentos com a mesma naturalidde com que os homens o faziam. Se isso me fez ser rotulada de fácil ou qualquer coisa que o valha, não sei porque não prestei atenção. Agarrei-me à ideia, na qual acreditava piamente, de que se um homem me julgasse por esse tipo de conduta, ele não despertaria em mim qualquer interesse - e segui meu caminho. E assim foi.

Aliada a essa esfera pessoal de meu feminismo, fundamental para o rumo que minha vida sentimental e familiar tomou, existe outra faceta ainda mais relevante para mim, aquela que influencia minha visão mais ampla de mundo, que vai além das paredes de meu iglu e molda a forma de minhas relações sociais mais abrangentes. E foi a importância social dos ideais feministas que me conquistou de vez. Foi perceber que o tratamento diferenciado dos gêneros nasce da ideia secular de que existe uma “natureza feminina” a ser cultivada pelas mulheres e que essa natureza a coloca em uma situação de desvantagem em relação aos homens, a quem também cabe um suposto papel “natural” previamente definido. Foi o entendimento de que ideias humanistas devem prevalecer aos modelos supostamente vinculados de forma "natural" a esse ou àquele gênero e que isso só se faz viável pelo combate à supremacia do machismo. E é, principalmente, o horror que sinto diante do extremo a que chega um machismo que cultiva e acredita em valores que engessam a mulher em moldes de subserviência e passividade - a violência contra a mulher - que alimenta meu feminismo todos os dias.

Acredito que, para muitas pessoas, a violência contra a mulher e o feminismo sejam assuntos distintos, mas ando bem convencida de que o combate à violência gerada pelo sexismo passa pela forma como valores machistas começam a ser alimentados lá na adolescência - e até mesmo na infância. Talvez seja mais fácil construir uma sociedade menos sexista se os meninos não crescerem acreditando que nasceram para ser donos naturais da situação e enxergarem que suas amigas têm o mesmo poder decisório que eles. E se as meninas acreditarem nisso. E isso passa pela consciência de que ninguém é dono do corpo de ninguém, uma afirmação bem óbvia para parte da população, mas cuja negação, infelizmente, está na base de inúmeros casos de estupro e femicídio mundo afora.

Então não sei quando meu feminismo nasceu, mas sei que gosto muito dele e que ele tem sido um grande amigo, daqueles que nos orientam rumo a boas decisões e nos ajudam a construir uma sociedade mais justa. Aprendi que ele não é o oposto de machismo, como querem nos fazer crer os machistas, pois enquanto o machismo cresce alimentando-se em ideias que remetem à dominação e à hierarquia, o feminismo entende que uma sociedade verdadeiramente justa é construída por homens e mulheres que caminham juntos em todas as esferas da vida social, sem objetificar, explorar ou violentar.

Daí que posso não saber quando meu feminismo nasceu, mas desconfio que terá vida longa. E que há um monte de coisa nesse mundo que eu não posso fazer, mas não por ser menina.

16 por 10

Relaxa, vovó. Relaxa.

A pressão da vovó subiu.

O médico era arrogante e não olhava pra gente durante a consulta. Parecia competente, seguro. Mas não olhava pra gente. A gente contava a história, falava dos remédios, das complicações, mas ele só tinha olhos para o computador. Será que ele estava jogando fazendinha?

A enfermeira, coitada, atendendo sabe-se lá quantos pacientes ao mesmo tempo, esqueceu-se de nós na sala de espera. Eu ia insistir para ela verificar a pressão mais uma vez, mas ela agarrou o telefone e falou que precisava de morfina com urgência na emergência. Saiu correndo e eu achei que a pressão nem estava assim tão alta.

A outra médica olhava pra gente e parecia tão competente quanto o outro, da fazendinha. Quer dizer, não são características incompatíveis, viu, Doutorrr?

O taxista era louco. Psicopata mesmo. 

Não, não foi um dia legal. 

Mas a pressão baixou.  E amanhã ela vai almoçar purê de chuchu.

 
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