Muito


Aí ontem o Saramago olhou pra mim e falou assim:

"... em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído."

Bonitinho, ele. Né?

Vou ali. Demasiar.

Seminovos e usados - sete (ou oito) links

  
A gravura não tem nada a ver com o post. É só um carinho para vocês que visitam este blog.

Como hoje é sexta-feira e eu estou no maior climão de final de semana, não quero pensar. Como não quero pensar, não tenho assunto para escrever. Mas um assunto caiu no meu colo sem eu pensar, então vou me agarrar a ele. O Blosque, divulgando ideia do Problogger, entrou na seguinte brincadeira: o desafio dos sete links. Eu vou entrar também, que final de semana é pra brincar, não é, não é, não é? Então, foi o que pensei. Funciona assim: faço uma lista de posts, seguindo as categorias abaixo:

1. Meu primeiro post;
2. O post que mais gostei de escrever;
3. Um post que deu origem a um excelente debate;
4. Um post publicado em outro blog (não o meu) que eu gostaria de ter escrito;
5. O meu post mais útil;
6. Um post com um título do qual estou orgulhosa;
7. Um post que eu gostaria que tivesse sido lido por mais pessoas.

Bem, meu primeiro problema é que meu blog não é antigo o suficiente para ter posts antigos, então preciso forçar um pouco a barra para entrar na brincadeira. Sendo assim, o conceito de “antigo” aqui é bem, digamos, generoso. O segundo problema é que não sinto “orgulho” de nenhum título, então o item 6 também fica meio prejudicado. O terceiro problema é escolher um único post para o item 4. O quarto problema... espera que já estou criando outra lista. Então sem mais delongas, aí vai:

1. Meu primeiro post, Um Começo, mora, na verdade, bem aí na barrinha lateral do blog. A frase da Clarice é o que de melhor há por aqui, então leiam e releiam e releiam...

2. Para o item 2 escolhi um post que lembro ter escrito com o coração em festa, Um Dia Qualquer. O texto não tem nada demais, mas a data era especial e a modelo da foto é linda de morrer, apesar de estar de costas.

3. Acho que o melhor debate que rolou por aqui acabou de acontecer, na semana passada, no post O Mosaico. Os comentários foram ótimos e, de quebra, ainda botei pra fora meus traumas de branquela, que blog também é divã, uai.

4. Nossa, senta aí. Vou sortear um entre os milhares. Eu gostaria de ter escrito tanta coisa boa que leio por aí que realmente fica difícil escolher um. E eu poderia apontar aqui um post importante sobre o feminismo; ou um sobre política daqueles que dizem tudo que a gente gostaria de dizer, de forma bem articulada e convincente; ou ainda um que tivesse aquela receita maravilhosa, com fotos translumbrantes; mas vou seguir o primeiríssimo pensamento que veio à minha mente quando li a proposta do item 4 e vou indicar um post bem curto e simples, mas que traz a leveza e a fluidez que adoro no blog da Marcinha, The Old British Post Box. Aí sugiro que vocês aproveitem que já vão dar um pulinho por lá e leiam o blog dela todinho. É lindo de doer.

5. Bom, acho que tenho três posts que podem ser enquadrados na categoria (nossa, tá parecendo Oscar) "posts úteis": o post sobre o tratamento da visão do Arthur, O Cara Legal Por Trás dos Óculos (e do Tampão), e os dois sobre a saga da amamentação, Amamentar, Se Der, partes I e II.

6. Bem, como falei, “orgulhosa” não se aplica, mas acho que Post Gigante Para Crise Idem é um bom título. E o post nem é tão grande assim. Diferente da crise.

7. Eu gostaria que todos os posts tivessem sido lidos por mais pessoas, hehe. Tá bom, um só. Bom, acho que o Mulherzinhas? pode levantar alguma conversa boa, então the Oscar goes to... quer dizer, escolho esse.

É isso. Taí. Um post com pensamentos requentados. #7links

Demi plié



Quando eu era criança, entre outras coisas, queria ser bailarina. Não havia academia de dança onde eu morava, então quando digo que “queria ser bailarina” refiro-me a uma vontadezinha que eu cultivava dentro de mim, mas que, de tão inatingível, aprendi a chamar de outra coisa. Então hoje sei que queria dançar, mas, naquela época, o sentimento era algo bem mais abstrato - algo como voar, por exemplo; do tipo: seria legal ter asas, né? Assim. As chances de me tornar uma bailarina ou de criar asas eram mais ou menos as mesmas.

Querer dançar não foi uma daquelas vontades que passam quando a gente cresce, não; com a dança, o desejo da infância ganhou, na fase adulta, contornos mais claros, e o que antes era só um devaneio infantil virou frustração. E não sei direito porque nunca procurei uma academia de dança quando era mais nova, já adulta, mas desconfio que grana curta teve algum papel nessa história. Até que um dia me matriculei numa academia de dança, já aqui em Floripa. Dancei por uns dois anos, acho, e foi uma delícia. Frequentava um grupo bom, adorava minha professora, dava minhas piruetas e me entregava com vontade aos meus "momentos Debora Colker" (ai, forcei bem agora, mas vocês vão ser legais e fingir que não perceberam). Aí a academia fechou, a professora foi embora e minha carreira brilhante acabou como começou. Zuuum.

Eu continuei apaixonada pela dança, ainda é uma forma de arte que me atrai muito, para desespero do Ulisses que já se viu na plateia do Festival de Dança de Joinville ao meu lado, durante horas, tadinho. Eu gosto de tudo, do clássico à dança de rua, do moderníssimo às apresentações infantis da escola do meu filho. Não me sinto mais frustrada por não ganhar a vida bailando por aí, mas admiro a não mais poder cada vez que vejo um bom espetáculo de dança e percebo o domínio que os grandes bailarinos têm do corpo. Babo, perco a fala, acho que são anjos, um deslumbre.

Aí agora Amandinha quer dançar. Dá piruetas pela sala e quanto mais desengonçada, mais linda. Diz que é bailarina e me pergunta se vou levá-la para a academia (mencionei casualmente que a levaria e foi tudo de que ela precisou) “hoje, mamãe?”, a fofa. Eu ainda não achei uma academia com um horário viável, mas preciso resolver logo isso. E antes que me acusem de transferir meus sonhos para minha filha, já grito que ela só vai fazer as aulas se de fato gostar. Mas, ai, eu vou torcer com força, porque borboletear pela casa a deixa ainda mais adorável e já me vejo babando ali no cantinho da academia, admirando a professora que ganha a vida dançando e a minha fadinha com pés de anjo. E mesmo que ela nunca venha a dançar “de verdade”, vai ser sempre minha primeira bailarina. Do jeitinho que ela já é, bem ali, no tapete da nossa sala.

Você viu meu relógio?



Eu passo bem longe de ser uma pessoa perfeccionista. Acho que sou organizada, mais em algumas áreas do que em outras, mas é verdade que às vezes empurro com a barriga, deixo para fazer amanhã, esqueço. Eu acho que está bom assim, tendo a associar perfeccionismo com stress e frustração. Gosto de uma baguncinha e acho até meio triste ter tudo certinho. Sei que há quem seja feliz com tudo preto no branco, mas eu não sou assim.

Sei que muitas pessoas olhariam para o meu mundo e diriam “nossa, como você é organizadinha”, enquanto outras surtariam diante de tanta coisa por fazer: é que tudo é relativo e chamar meu mundinho de “organizado” ou “bagunçado” é igualmente possível, dependendo de quem olha. Assim, como tudo na vida. Meu lado organizado mantém minhas roupas mais ou menos em ordem, gosta de cozinhar com pia e mesa limpas, faz planos, não gasta mais do que ganha e agora mesmo não consegue encontrar outro exemplo para terminar essa frase. Vejamos o tamanho do próximo parágrafo.

Eu esqueço tudo. As coisas simplesmente somem da minha memória. Não acho que chegue a ser doentio, mas tem um bom potencial irritante. Então sou aquela que sempre volta do carro quando está saindo para o trabalho para pegar óculos, chaves, casaco, documento, sei lá o quê, quase todos os dias. Sou aquela que pensa “quando terminar de tomar esse café, vou fazer isso” para um minuto depois terminar o café, sair da mesa e seguir o dia sem lembrar da anotação mental - que voltará à tona no momento em que eu precisar que a tal coisa tivesse sido feita. Sou aquela que sai do estacionamento do shopping logo depois de entrar porque se lembra de não ter dinheiro para pagar o estacionamento – eu nunca tenho dinheiro na carteira porque esqueço de sacar. Eu me esqueço de tomar o remédio, de dormir com a plaquinha dos dentes (explico outro dia), de comprar detergente, de remarcar o médico, de ir buscar o exame. Eu perco tudo. Não sei onde ponho as coisas. Se guardo, esqueço onde foi: relógio, anel, óculos e sombrinha, todos os clichés. E, principalmente, adio. Amanhã, não, semana que vem eu vejo isso. No momento temos: a porta do armário, a porta do lixeiro, o trinco da porta do banheiro, o cano da pia, as lâmpadas do escritório (vejam bem, eu disse as lâmpadas do escritório), o tapetinho da sala, a mesa da sala de jantar, a mancha do edredom, os CDs, tudo esperando uma atitude, um telefonema, um conserto, uma lembrança em hora boa. O escritório está meio às cegas desde que foi montado. E tudo bem, leio no quarto. O tapetinho é supérfluo demais para ser lembrado assim tão facilmente, finjo que não vejo os CDs espalhados e a mesa, ai, essa compro já, até já isolei a cadeira que quebrou há mais de um ano, vejam só, que eficiente.

Eu gosto de arrumar a casa, tenho lá minhas vaidades, mas não troco meus momentos de desleixo por nada nesse mundo. Então nosso carro está sempre sujo, cheio de papeizinhos que vamos juntando por ali, meu esmalte descasca e assim fica por dias até o momento em que eu resolva voltar à manicure ou sentar para resolver o “problema” sozinha. É, esse é o ponto, as aspas na palavra problema. Eu não acho que nada disso seja problema, então sempre me recuso a “resolver” como se fosse. Até me cansar da situação e só então tentar mudá-la. Como a porta do armário: de tanto me irritar ao tentar abri-la (o trilho quebrou, ela é pesada e tal), hoje liguei para o marceneiro. (Felizmente, alguma enzima deve atuar de forma diferenciada no meu cérebro quando ponho os pés no trabalho: lá sou organizada, metódica e até estressada; tudo anoto, confiro, verifico, planejo, antecipo, organizo, um saco. Melhor assim.)

E aí há dias em que tudo me incomoda e, de repente, começo a tomar consciência das bagunças da casa. Mas, felizmente, algo providencial sempre me empurra de volta ao conforto da vida frouxa: às vezes é a lindeza dos cabelos desgrenhados da Amanda, ou a gargalhada do Arthur só porque aprendeu uma careta tosca.

Eu ainda não sei se ver beleza na leveza que me permite adiar arrumações é paz de espírito ou preguiça disfarçada, mas algo na busca pelo muito certinho definitivamente me repele. Há uma sala em minha casa de que gosto muito. É um cantinho que a gente construiu e montou quando mudou pra cá. É onde Ulisses guarda seus instrumentos e às vezes se isola para tocar sua guitarra e compor suas canções. É onde eu me isolava na gravidez da Amanda para montar meu quebra-cabeças gigante. É onde um dia, quem sabe, a gente vai montar nosso cantinho de ver filmes, que já adiamos tanto. Eu gosto de lá porque as portas de vidro me deixam ver o quintal e o morro verde que fica atrás da minha casa. Tenho um carinho especial por ela porque tem ares de refúgio, a “sala lá de trás”. Mas ela está sempre um caos. Meus dois filhos não querem saber de salinha bonitinha e sala boa para eles tem brinquedo espalhado e cabana de bolinha. Eu sei que haverá uma época em que eles não mais vão desarrumar a sala, porque estarão voando por aí. Então vou deixando assim, um dia eu arrumo.

Colo



Daqui a algumas horas, minha sogra vai chegar para uma temporada em nossa casa. Vem trazendo seu coração bom, sua voz mansa, sua prosa boa. Vem dar colo para os meus filhos, bater papo depois do jantar, ver o jornal junto. Vem ficar de trololó com a Maria enquanto espera o almoço, fazer carinho no Roque, molhar as plantas. Vai contar um caso por dia, defender os netos e lavar a louça, aos brados de “eu adooooro lavar louça”. De vez em quando vai cochilar antes do jornal acabar, mas, antes de ir para a cama, vai sempre comer um pãozinho francês. Eu vou acompanhá-la, com um café fresquinho e as novidades do dia, curtindo sua presença e torcendo muito para que a sombra que andou rondando sua cabecinha esses dias dissipe-se de vez. Ela tem andado tristonha, de uma dessas tristezas que, de vez em quando, insistem em acinzentar os dias, mas boto fé que seu sol é mais.

Vamos fazer uns barulhos por aqui, de criança gargalhando e cachorro latindo, todo mundo falando alto e o telefone tocando, a TV ligada no desenho e a falação na cozinha, torcendo que isso a ajude a perceber que sua presença combina bem com cenários assim e que essa parece ser sua missão mais certa: fazer sorrisos, causar barulho. Vou começar trocando o nome, que “depressão” não combina com sua alma tão brilhante. Vou chamar de “banzo chato” e apostar que, seja lá do que isso for feito, não é páreo para suas forças.

Vem, querida, que o bolo tá no forno e no sábado vamos sair para comprar flores.

Just waiting


E aí você viaja e eu fico assim. Sem assunto.

***

- Anda, Amandinha, começa a comer.
- Não! Só vou comer com a ajuda do papai.
- Mas, meu amor, o papai viajou, ele não vai almoçar com você hoje.
- Nããããumm? :-(
- ... Come, minha flor.

E eu comi ao lado dela, fingindo fome, mas só para dar o exemplo. Porque eu concordo com ela que a comida anda meio sem graça nesse final de semana.

O mosaico




Trecho do "Hino popular" da Paraíba:

Paraíba hospitaleira
Morena brasileira
Do meu coração

(Na infância, eu daria um dedo para ser a morena do hino)

***

Rancho de amor à ilha, hino de Floripa

Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!

Pode crer...

***

(Eu nasci no interior da Paraíba, em uma pequena cidade chamada Esperança, como já falei por aqui e sei lá por onde mais. Morei lá com meus pais até os 19 anos, quando mudei para Campina Grande, por causa da faculdade; fiquei por lá até mudar para Floripa, para pós-graduação, e por aqui fui ficando.)

Quando criança, eu era, via de regra, a garota mais branca da turma da escola e isso era um verdadeiro tormento. No interior da Paraíba, onde eu morava, a maioria das minhas amigas tinham pele dourada, morena ou negra. Outras eram brancas, mas eu era a branquela. Na pior das hipóteses, minhas amigas eram o que elas chamavam de “amarela”, o que era, para mim, um sonho de consumo. Eu queria ser amarela. Porque “amarela” era, na verdade, ser morena, apenas sem estar bronzeada. Era uma forma meio sacana de enfatizar que você não tinha ido à praia ultimamente, a azarada. Tipo “ah, sua amarela, vai tomar sol!”. Era pra ser engraçado. Pois bem, mas isso não servia pra mim. Eu não era amarela. Eu era branca, de uma brancura transparente, que chamava a atenção de crianças, digamos, menos amigáveis do que eu gostaria. Eu conhecia outras poucas pessoas mais brancas que eu, mas, pelo menos na maior parte da minha vida escolar, nenhuma menina na minha escola era tão branca quanto eu. Claro, assim como acontece com a população paraibana de uma maneira geral, éramos um colorido mosaico desses que o Brasil expõe aos montes, mas nesse mosaico eu era uma pedrinha muito branca. E isso não teria nada demais, se não me transformasse em alvo de bullying.

Eu detestava os dias de educação física, por exemplo, que me obrigavam a usar saia (por cima dos shorts usados durante a prática) para ir à escola. Minhas pernas, naturalmente, eram a parte mais branca de meu corpo, já que eu vivia de calça comprida. E não me faltavam apelidos que me deixavam com vontade de desaparecer, com vontade de chorar mesmo. Alguns eram bem rudes, até ofensivos. Aliás, todos eram ofensivos, porque exaltavam uma característica indesejada, quer dizer, que o contexto tornava indesejada.

Aí eu cresci e levei comigo a vergonha da cor para a adolescência. E na praia, nos inícios de veraneio, quando as amarelas se transformavam em douradas depois de um dia de sol, eu chegava com a minha brancura, para deleite dos gozadores de plantão que diziam se encandear com minha chegada. Eu era o sol da praia. Era horrível, constrangedor e trazia de volta todo meu pudor dos tempos das aulas de educação física. Não digo necessariamente que essas pessoas sequer se incomodavam com minha cor ou com a falta dela, mas isso não mudava nada, porque esse é um dos problemas do bullying: ele cria na cabeça da vítima um problema que nem existe para muitos, mas que nem por isso incomoda pouco. Daí eu sorria (amarelo) e me empenhava em horas de bronzeamento; depois de uma semana, o verão ficava bom e eu me sentia totalmente segura, confiante e feliz. Ou seja, eu era mesmo muito tola.

Crescer ajudou, claro. Mudar para Santa Catarina resolveu o problema da praia e da vergonha da cor, porque aqui há muitas pessoas com a pele igualmente clara como a minha. Junte-se o fato de que muitas neuras foram enterradas com algum amadurecimento (porque, né, vamos combinar, eu tenho mais com o que me preocupar na vida), e o assunto virou passado. Mas aí eu me deparei com outra coisinha.

Lembro que nos primeiros anos da pós-graduação, eu ouvi com muita frequência comentários a respeito de eu ser paraibana, apesar de ser tão branquinha. E sempre achei isso engraçado, porque mesmo com todos os traumas da época da escola, eu não era exatamente uma exceção: o lance da escola não era por ser branca, mas por ser muito branca. Então os comentários que passei a ouvir por aqui me mostravam apenas que aquelas pessoas conheciam muito pouco da Paraíba, já que, ao contrário do que muita gente parece pensar, é um estado de população bem colorida. A maioria pode ser morena/negra/parda/sei lá, mas ser branco não é exatamente algo incomum por lá. Mas tudo bem, ninguém tem obrigação de saber disso, eu mesma sabia tão pouco sobre Santa Catarina antes de morar por aqui, então estava tudo certo. Mas.

Mas algumas pessoas se equivocam em seus comentários e trocam de vez os pés pelas mãos. E eis que, mais dia, menos dia, surgem “pérolas”. Então certo dia, e lá se vão muitos anos, alguém sentenciou que eu certamente era descendente de holandeses, “olha que sorte!”. Oi? Eu não conseguiria reproduzir o diálogo todo aqui, porque isso já faz um tempinho, anos, mas garanto a vocês que a intenção da pessoa era mostrar que, apesar de eu vir lá do fim do mundo, eu tinha de levantar as mãos pro céu porque, olha só, eu tinha sangue europeu e olhos azuis, e essa era minha sorte. Assim, a pessoa praticamente me consolava enquanto expunha sua teoria. E falava alto para todos na festa ouvirem que "olha, ela é paraibana, mas é sortuda, meu, com certeza descende de europeus!" Juro. E é claro que isso levantou um monte de reações em mim, mas a mais evidente foi a vergonha alheia imediata. Porque aquela pessoa, coitada, achava que estava me fazendo um elogio, enquanto demonstrava seu preconceito contra meu povo, minha terra natal e pessoas de pele não branca. Ter pele clara é a característica que menos me define. É só o acaso (ou sei lá se é acaso, mas isso já é outro papo) das tantas trocas de genes que resultaram em mim.

Já passei por diversos episódios semelhantes a esses (certamente nenhum tão patético, ufa), mas bem sei que na maioria das vezes não há mesmo nenhuma malícia. Mas ontem me peguei pensando nisso e em como os estereótipos mais atrapalham do que ajudam. Porque quem me vê não me vê. E eu também não vejo as pessoas - mas trabalhar essa consciência tem sido um necessário e prazeroso exercício de cidadania para mim. Quem me acha menos paraibana por causa do meu fenótipo adota uma postura muito reducionista. E eu nem sei o que é ser paraibana, para ser bem sincera. Mas também não sou catarinense. Muito menos descendente dessa ou daquela linha. Eu sou brasileira, acho, e isso já é complicado demais. Mas não quero ser “a branca”, sabe? Porque essa é só a minha cor e durante uma parte importante de minha vida ela não foi sinônimo de elogio.

Então só para deixar muito claro, eu não tenho sorte de ser branca e abomino a ideia de que a cor de alguém, por si só, confere-lhe alguma vantagem. Já houve dor demais no mundo por causa dessas ideias, em menor ou maior grau, e o branco não ocupa lá um lugar muito honroso na história desse mosaico. Né?

Eu gosto muito de viver em Floripa, fiz amigos valiosos aqui, conheço pessoas que admiro muito. Adoro o fato de a cidade acolher tanta gente de outros lugares do país, o que lhe transforma em um agradável caldeirãozinho cheio de sotaques e que sai pintando ainda mais colorido esse cantinho do país que quase despenca no oceano. Meus filhos nasceram aqui e isso me vincula ao lugar de forma bem significativa também. Mas eu não quero que, no futuro, as pessoas os vejam como "brancos do sul", sabe? Quero que o mundo siga rumo a uma visão um pouco mais profunda que isso, aliás, que meus próprios filhos se definam muito além disso. Porque simplesmente não há vantagem intrínseca nenhuma nos fenótipos das pessoas. O que há é um mundo cego, cheio de preconceito que gera visões equivocadas quanto ao sentido da palavra sorte. Sorte, das grandes, seria viver num mundo onde a cor da pele das pessoas não fizesse a menor diferença. Aí sim, olharíamos adiante e veríamos apenas que a beleza do mosaico reside justamente no colorido de suas pedras. Mas a gente chega lá.

Saudades do Gabo


Faz tempo que não leio nada do Gabriel García Marquez. E não me perguntem o porquê disso, mas hoje me bateu uma saudade danada dele. Pode ter sido a chuva que enegreceu Floripa no meio da tarde e me lembrou da chuva de anos que mudou Macondo... não, não deve ter sido isso - chove muito em Floripa, eu viveria com o livro na cabeça. Bem, ando meio envolvida com o Saramago, lendo um livro atrás do outro do menino purtuguês, mas hoje queria mesmo era me sentar na sala dos Buendía e observar a vida de Macondo por cem, mil anos que fossem. Queria mastigar de novo cada parágrafo daquela que é para mim a melhor história que o García Marquez contou.

Hoje voltou a saudade que foi me dando quando cheguei às últimas páginas e eu parava de ler para não me separar da história, não me despedir daquele povo. E ficava com cara de perdida andando pela sala, com o livro na mão, olhando para a varanda do apartamento onde morava, imaginando que dali a pouco só teria Floripa mesmo para observar, porque Macondo seria passado. Fiquei com saudade das pessoas do livro, a doida.

E, claro, guardei meu livro junto aos demais do Gabo e me agarrei à certeza de que um dia voltaria a visitar aquela gente. Assim, como quem repete um prato bom, já saciada da fome, só apreciando o sabor. E hoje anotei assim na minha cabeça... não, anotei no coração: ler Cem Anos de Solidão de novo, tá na hora. Ler bem devagar. Tá anotado, vou fazê-lo em breve, como quem se dá um presente. Logo, logo vou me encontrar com eles de novo. Será que a Úrsula vai se lembrar de mim?

Boa noite, filho!




É só um relato. Não é um “como fazer”.

Hoje conversei pela milionésima vez com uma amiga que enfrenta certos dilemas na hora de pôr suas filhotas pequenas na cama. Já conversei muito sobre isso, com várias amigas mamães, e acredito que, apesar de alguns “princípios básicos” funcionarem bem, não há regras fixas e absolutas para determinar o que é “sucesso” e o que é “fracasso” no assunto. A razão é óbvia: o que é conflito certo em algumas famílias pode funcionar muito bem em outras onde o assunto nem é questionado. Por exemplo, há pais e mães que adoram dormir com os filhos no quarto, todos na mesma cama, e não veem nada demais nisso. Outros pais penam para tirarem o mesmo hábito de seus filhos. Então fujo um pouco da ditadura de regrinhas como se elas fossem receitas; escolho aquelas que servem para minha casa, mas evito crucificar quem faz diferente e não reclama. Claro que tenho minha opinião pessoal sobre o assunto, mas no fim das contas é mesmo cada um com seu cada qual. E se nem a psicologia especializada no assunto chega a um consenso, não sou eu quem vai dizer o que é certo ou errado.

Agora, claro, quando converso com amigas que querem mudar algo na rotina da hora da cama com suas crianças, dou minha opinião, cito minhas próprias pisadas de bola e meus acertos e torço para que elas consigam usufruir daquela que, para nós aqui em casa, é uma hora bem divertida. Porque, na boa, e quem tem filho pequeno há de concordar comigo, noites bem dormidas valem muito na rotina de quem convive com a criançada. E, também unânime, criança precisa dormir bem, assim como precisa comer bem, brincar bem, receber elogios, carinhos, mordidinhas, beijinhos, coceguinhas... desculpa, empolguei.

Daí que na minha casa, cada macaco no seu galho. Claro, falo da privilegiada situação de quem pode oferecer um quarto para cada filho, além de ter meu próprio quarto com meu marido. Certamente diria outra coisa se morasse em um barraco ou casa com um cômodo. Então, de novo, já que posso, cada filho dorme em um quarto. Poderiam ser os dois no mesmo quarto, mas ficaria apertado e a casa tem mais de dois quarto e... ah, vocês já entenderam. Pois bem. Então um dia nasceu o Arthur. Ponto parágrafo.

Arthur era um bebê que adormecia no meu colo. Eu a-do-ra-va. Mamava no peito, muitas vezes tomava o complemento na mamadeira, arrotava blleeeerrghhh bem alto e dormia ali no meu ombro. E eu dormia com ele na cadeira de balanço... e a vida era boa. Depois, com ele mais pesado, passei a diminuir o tempo de colo, colocá-lo no berço e sentar-me ao seu lado, cantando até que ele dormisse. Quando ouvia o barulhinho do soninho bom, deixava o quarto sem fazer barulho rumo ao resto da minha noite. E a vida era boa. Daí engravidei da Amanda, mudamos de casa e Arthur ganhou uma cama. E aí ele saía da cama. Então eu sentava lá até que ele dormisse. Começaram as histórias que se intercalavam às canções. E a vida continuava boa. Não era muito boa para o Ulisses, que é bem maior que eu, e ficava meio sem jeito sentado/deitado ao pé da cama, nas noites em que ele se encarregava de fazer o pequeno dormir. Mas ainda assim era bom.


Mããããeee, cooonta!

Então o Arthur aprendeu que o bom mesmo era isso, estar sempre com a gente, enquanto estivesse acordado. Nunca saíamos do quarto até que ele estivesse dormindo, ou ele simplesmente não adormecia; e logo passamos a alternar cinco histórias com cinco canções. Mas a minha barriga cresceu e o tempo de fazer o Arthur dormir se prolongou de forma descontrolada. O que antes eram 20 deliciosos minutos de aconchego e babação se transformaram em horas (eu disse horas) de cansativo exercício de paciência. Até que deixou de ser bom. E deixou de ser bom porque nos convertemos em dois adultos cansados e estressados, mas principalmente porque o Arthur começou a dar nítidos sinais de estar se transformando em uma criança insegura, mal humorada e medrosa. O mau humor, claro, era consequência direta do pouco sono, já que não só demorava horas para adormecer, porque já sabia que sairíamos do quarto quando dormisse, como acordava diversas vezes durante a noite e levantava chorando cada vez que percebia que não havia nenhum de nós por perto. O auge do drama durou cerca de dois meses (quando a Amanda já havia nascido e dormia a noite inteira). Foram semanas difíceis em que ele passou a se alimentar muito mal e não mais querer saber de ir dormir. De jeito nenhum.

Vou poupar vocês de um relato enfadonho das técnicas tentadas para resolver o que, para nós, era um conflito importante. Vamos direto à solução. Um dia decidimos que ele iria dormir sozinho. Foi assim mesmo, a decisão. Foi o entendimento de que ele não estava feliz, de que nós precisávamos dormir (a essas alturas, já nos revezávamos em turnos para conseguir trabalhar e dar conta dele e da Amanda no dia seguinte) e de que sua saúde estava sendo afetada por aquilo tudo. Então explicamos com voz firme que ele ficaria no quarto sozinho, porque ali era seu lugar de dormir e cada um tinha a sua cama, etc. Simples, sem histórias inventadas. E sem dramas. E saímos do quarto, deixamos luz apagada (com luz acesa no corredor, pela segurança dele, nas inevitáveis levantadas), e porta aberta. Sentamos em nossa cama e levamos o Arthur de volta à cama dele todas as dezenas de vezes em que ele rumou para nosso quarto, sem dar chances para seus apelos. Eu chorei no meio da noite. Ulisses foi ao limite da paciência. Arthur adormeceu às quatro horas e vinte minutos da manhã. No dia seguinte, repetimos tudo igual e ele adormeceu a meia-noite. Na terceira noite, adormeceu minutos depois de ser posto na cama. Levantou no meio da noite, foi ao meu quarto, voltou sozinho para o quarto dele. E tudo voltou ao normal. Voltou a comer, voltou ao antigo bom humor, voltamos a dormir. E então tinha a Amanda. Ponto, parágrafo.

Quando a Amanda saiu da fase de só mamar e dormir, passei a deixá-la no berço sozinha para que adormecesse ali. Como sempre foi assim, ela nem chegou a conhecer outra maneira de ir dormir. Com o Arthur tendo feito as pazes com a cama (o problema desapareceu completamente, ele parou de acordar no meio da noite), as histórias na hora de dormir viraram sua rotina. Sendo a Amanda, ainda muito pequena para encarar Peter Pans e fábulas, passei a naná-la com uma canção seguida de beijinhos de boa noite. E como sempre foi assim, ela dormia feliz, em seu quarto, com porta fechada e luz apagada (mantivemos a babá eletrônica no quarto dela, para monitoramento remoto lá do nosso quarto). Mas agora ela já quer saber das histórias (e às vezes é ele quem lê para ela), então a hora de dormir é a hora da historinha contada em conjunto, com livros escolhidos ontem por ele, hoje por ela, na maior animação. Em seguida, beijitos e cada um na sua cama. Claro, sempre há o “quero água”, “tem mosquito?” ou “quero contar um segredo”, mas aí isso já não é dar trabalho para dormir, isso é ser criança. E adoramos. Esgotados os recursos para adiar a hora de fechar os olhos, apagamos as luzes, saímos dos quartos e seguimos para o resto de nossas noites. Em condições normais de temperatura e pressão, dormem a noite inteira e sobra energia no dia seguinte, que começa cedo e vai até as nove da noite. Mas aí a gente dá conta, porque todo mundo dormiu bem.


Bla bla bla bla...

É preciso deixar bem claro que nós associamos os problemas para dormir que o Arthur enfrentou com a chegada da irmã – acredito piamente que isso interferiu, ainda que ele não demonstrasse ciúmes e adorasse a presença dela. Não acho que foi coincidência a coisa ter se agravado tanto logo após ela nascer. Mas não foi só isso. Isso foi o auge de um problema (para nós aqui em casa era um problema) que nós plantamos à medida que não o permitimos dormir sozinho nunca. E eu acho bom tê-los dormindo cada um em seu quarto, com suas referências, seus mundinhos. E nossa cama está sempre ali nas manhãs, especialmente nos fins de semana, para muvucas e aconchegos, cavernas de edredons e sonecas prolongadas antes do café da manhã. Todo mundo junto, se assim quiserem, ou um ali e outro puxando nosso pé. Mas é de manhã, depois de todo mundo ter dormido. Adoro.

O bom de ter uma rotina tranquila na hora de dormir é que os eventuais chamados antes de adormecer não nos cansam, não nos irritam, porque fazem parte da infância: um dia o vento faz barulho na janela, no outro há insônia mesmo ou até um simples denguinho. E tudo bem, porque são momentos esporádicos, não uma rotina cansativa que prejudica o humor da família inteira.


Amaaaandaaa, vai dormir...

Como falei láááá em cima, isso é apenas um relato, não tenho a menor pretensão de ditar fórmulas mágicas para famílias com crianças que têm problemas na hora de dormir. Alguns pais podem mesmo se escandalizar diante de minha determinação em ensinar meu filho a dormir sozinho, mas eu não tenho dúvidas de que a mudança foi maravilhosa para ele. Sua saúde e seu humor foram a prova de que eu precisava. Hoje em dia, é comum ouvir Amanda tagarelando em sua cama antes de adormecer, conversando com seu urso e seu coelho, cantando suas canções favoritas. Às vezes preciso ir lá e pedir para que ela cante mais baixo, ao que ela obedece; e logo dorme. Não está absolutamente estressada. Ou carente. Ou de mau humor. Está linda, falei? Ele normalmente capota em cinco minutos (às vezes não sei como consegue, com a irmã tagarelando no quarto ao lado) e também está lindo. Já falei isso também, né? Tá bom, parei.

Alguém ligou?


O telefone da casa da minha mãe era igual a esse da foto; e com o número escrito a mão num papelzinho colocado ali na frente. Ah, e fazia triiiimmmmm.

Gosto muito de uma frase do filme He’s Just Not That Into You (Ele Não Está Tão a Fim de Você), uma fala da personagem da Drew Barrymore em que ela expressa a angústia inerente aos jogos emocionais da atualidade: conversando com a personagem da Scarlett Johansson, ela diz que sente saudades dos bons tempos, aqueles em que tudo que ela tinha de fazer para saber se o cara tinha dado um retorno às suas investidas era checar sua fita da secretária eletrônica e ver se ele tinha ligado ou não; hoje em dia, no entanto, ela precisa verificar o e-mail, o voice mail, o celular, o twitter ou sei lá mais o quê, tudo para ter certeza de que foi rejeitada por sete tecnologias diferentes (adoro a sonoridade da frase em inglês: “rejected by seven different technologies”, a Drew com cara de desolada, muito bom. E conclui: "it’s exhausting!"). Tadinha. E tenho mesmo pensado nisso. Morro de pena dos meus filhos, já falei?

Lembro muito do dolorido que é o telefone não tocar. Ele não ligar. Ou, pior, o telefone tocar e ser seu tio, querendo falar com a sua mãe. Por horas. E aí a gente se apegava às chances de ele ter tentado ligar naquele período em que o telefone estava ocupado, quem sabe, poderia acontecer! Claro! Só pode ter sido isso. E aí depois, naturalmente, você entendia que ele não tinha ligado mesmo e você seguia rumo à próxima rejeição, tudo em nome do tal amadurecimento. O “bom” é que o inverso também funcionava da mesma forma: não ligar era tudo de que precisávamos. Não tínhamos de lidar com um eventual desconforto em não responder e-mails, tweets, etc.

Mas e hoje, meu povo? E hoje? Nossa, que pena da galera, na boa. Porque o fato de ele ou ela não ligar não quer dizer nada: ele/ela pode ter mandado mensagem de texto, ou um tweet, ou um e-mail, ou ter passado no orkut, ou no msn, ou deixado um comentário no blog... mas se nada disso aconteceu, foram vários “nãos” e ai, tadinhos/tadinhas.

Claro que cada um vive conforme as regras em voga no seu tempo, mas ando bem convencida de que as paqueras (essa palavra ainda existe? Sério, estou perguntando, não sei) dos anos 80/90 eram mais simples, pelo menos os atalhos para fugas eram menos abundantes... hoje em dia fico cansada só de imaginar o Arthur e a Amanda (nossa, e daqui a uns 10 anos, como vai ser?) verificando 14 bancos de dados diferentes para saber se seus alvos estão antenados com eles. E nem existe mais como alimentar a esperança até chegar em casa: o sofrimento está sempre ali, no bolso, na bolsa, à mão. Ui.

Eu lembro da tarde de domingo em que o telefone vermelho tocou e era o Ulisses. Foi uma delícia, porque foi surpresa mesmo, não esperava. Faz muito tempo. Bom, tomara que o telefone não saia de cena (vai saber, esse mundo é tão doido). Porque receber e-mail é bom e acredito que namorar pelos canais tecnológicos da hora tem lá seu sabor para quem curte, mas continuo fã do velho triimmm (cada vez mais raro), seguido de:

- Alô? Tô chegando, viu?
- (...) Tum-dum, tum-dum, tum-dum... (heartbeat)

Será que alguém ainda usa?

Nós, vós, elas



Eu adoro blogar. Cheguei meio atrasada, em uma fase que, dizem, é de crise para a blogosfera, quando tanta gente já disse tanto, tanta gente boa já disse a que veio e tantas outras até já pararam de dizer. Sou assim e, que fique muito claro, estou bem assim, não gosto das ansiedades que nos empurram numa correria tresloucada à cata das últimas novidades da moda, da mídia, da net, então meu atraso é real, mas é sem dramas. Meu ritmo é outro, não gosto de corridas e se me sentir obrigada a ser antenada, sinto um impulso irresistível em ir dormir. Então cheguei depois, mas cheguei. Não qualifico meu atraso como mérito - pelo contrário, quero mesmo é saldar quem chegou primeiro. Mas é verdade que meu único lamento se volta ao tanto de papo bom que, hoje vejo, perdi. Mas, de novo, sem ansiedades porque a vida é mais.

Gosto de blogar pelo prazer de escrever minhas pequenices, mas, principalmente, pelo tanto de horizontes que a blogosfera tem aberto para minha enferrujada cabeça mergulhada em rotinas não pensantes. Há também o lado pensante, amante e emocionante da rotina, sim, claro, não reclamo assim como quem não tem comida no prato. Não é o caso, mas entenda-se, a gente sempre quer mais. E tenho encontrado na blogosfera um tanto bom desse mais. E hoje falo especificamente da mulherada.

Tenho descoberto gente boa todo dia. Assim, todo dia. E é um alento, num país onde se lê tanto absurdo na imprensa mainstream (alerta, termo usado com desconforto), ver que não precisamos mais morrer de sede. Porque a blogosfera ainda nos presenteia com muita gente lendo além da superfície, socando as paredes da cegueira, chacoalhando um status quo que insiste em reduzir a mulher a enfeite. Para mim, é um deleite essa conversa toda de blog em blog, essa corrente de cabeças questionadoras e tão iluminadas mostrando um lado muito mais gostoso de “ser mulher”, seja como for que você interprete isso. É uma delícia para mim, que ando afastada do lado bom da academia - aquele das discussões que enchem nossa alma - ver que posso resgatar um tanto bom desse prazer aqui mesmo, no laptop. E com uma vantagem avassaladora: são discussões impregnadas de cotidiano, de experiência concreta, de trocas verdadeiras.

É, hoje estou encantada pela blogosfera e por todas suas vozes femininas afinadas (nem sempre no mesmo tom, olhe lá, que os mundos são grandes e cada mulher é um deles), mostrando para quem quiser ver que é passada a hora da superação de modelos arraigados que enquadram a mulher em subcategorias, como se não fôssemos portadoras de nossas próprias vozes.

Então quero aproveitar o carinho bom da querida Borboleta e, no eco de discussões mais que pertinentes que invadiram a blogosfera nos últimos dias, em torno da violência contra a mulher, deixar aqui uma listinha de blogs feministas, femininos e felinos. De novo, é uma lista atrasada, indicações que por muitos/muitas serão recebidas com “eu quero é novidade”; mas tenho certeza de que ainda há muito barulho bom para saltar de dentro desses blogs. Alguns são muito antigos, com um acervo enorme de boas leituras, mosaicos ricos de discussões imperdíveis; outros são mais recentes, mas igualmente iluminados. Em comum, a recusa corajosa e objetiva em não se limitar a modelos criados lá no Jardim do Éden para nos enquadrar em redomas, moldes, molduras; e o entendimento, que, penso, deveria ser óbvio, de que somos indivíduos atuantes e que queremos compartilhar a construção da estrada - mas só se for de igual pra igual.

Uma listinha bem dourada pra vocês:

blog da Cynthia
blog da Denise
blog da Jux
blog da Maria
blog da Mary

De chuviscos e dilúvios



Pensamos em convidar uns amigos para comer fondue, mas bastou a ideia de ir ao supermercado para me desanimar. Preguiça feia e descarada, não escondo que me entreguei com gosto a ela nesse final de semana. Com o pretexto perfeito de que precisava (e precisava mesmo) de repouso para sair de vez da ziquizira que me pegou na semana passada, adiei encontros, não liguei pra ninguém, não cozinhei, não fui, não convidei. A hibernação foi quebrada apenas por uma rápida ida ao shopping para abastecer o estoque de sapameias e assim liberar as crianças das chatas ladainhas “calça a pantufa” e “põe o tênis”. No mais, fiquei pela casa observando pezinhos coloridos e lendo meu livrinho.

Apesar de alguns intervalos breves, chove em Floripa desde sexta-feira. Nada de chuvaradas preocupantes, mas o clima molhado parece mesmo deixar a cidade um pouco... de molho. Mas gosto, sempre gostei. Gosto de chuva, lembro que gostava já menina, adorava olhar a chuva da janela, adorava o barulho no telhado, gostava do dormir ao som da água que caía no jardim. Depois que mudei para Floripa e já vi mais chuva do que precisava ver em mil encarnações, continuo gostando, ainda assim. É um gostar romantizado, claro. Não há nenhum prazer em notícias de catástrofes que o inverno traz de vez em quando. Mas, na ilha do meu mundinho, aqui na minha arca, a chuva me acalma.

Daí que não tenho assunto, passei o dia entre o sofá e a cozinha (onde só se viu bolo de padaria e pão francês), brincando com as crianças ou vendo-as brincar com o pai, pintando, desenhando. Com a TV em cena, agarrei-me ao Saramago e devorei Caim, obra cheia de ironia e com algumas passagens hilárias, onde o sarcasmo já conhecido do autor escorre em cada linha. Sem papas na língua, polêmico (ainda) e cheio de provocações, Caim preencheu bem minha tarde chuvosa.

E como da chuva para o dilúvio é um passo, e também porque depois de ler Saramago não consigo escrever coisa que preste, deixo vocês com ele, que sabia mais:

“Imagina-se o orgulho, o prestígio, o crédito que noé ganharia aos olhos do senhor se conseguisse convencer um destes animais a entrar na arca, de preferência o unicórnio, supondo que o consiga encontrar alguma vez. O problema do unicórnio é que não se lhe conhece fêmea, portanto não há maneira de que possa vir a reproduzir-se pela vias normais da fecundação e da gestação, ainda que, pensando melhor, talvez não o necessite, afinal, a continuidade biológica não é tudo, já basta que a mente humana crie e recrie aquilo em que obscuramente acredita.”

E não é assim?

Inverno

O que vem depois

(Dia cinza, nuvens muitas, vento gelado. Camadas de roupas, chá de hortelã. Mãos duras, nariz entupido, tosse seca. Pequenos de pantufa, sofá quentinho, não quero sair. Preguiça do dia, falta de vontade, fome. Caneca de café entre as mãos, água morna na torneira, aquecedor. Não quero chuveiro, não quero suco, não quero calçada. Quero chocolate quente, abraço e DVD. Quero pensamentos bons, planos grandes e conversa boa para aquecer o tempo incerto que anda rondando minhas ideias. É que parece que vai chover, mas já mudei de assunto e nem estou mais falando do clima.)

P.S. Eu gosto de chuva.

Do limão, uma limonada



De molho, em casa, dia frio, chuva.

Ao invés do café da tarde com os queridos colegas do trabalho, café da tarde com as crianças, cookies, chazinho, cafezão demorado sem relógio (e um pouco de tosse).

No lugar das planilhas e e-mails, sofá e Monstros S.A. ao lado do filhote, pela milésima vez.

Não li memorandos, terminei meu livro.

Ao invés de ler "Solicito os bons préstimos de Vossa Senhoria...", li isso aqui:

"E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo." - Rubem Alves

A tosse demora a ir embora, a garganta se cansa fácil e a voz volta a sumir. O nariz não está o mais livre do mundo. Mas, sim, estou melhor, pessoas. Obrigada.

Como assim?




Sabe o que vi na Veja outro dia? (Não, não leio a Veja assim, com frequência; e quase sempre me arrependo quando leito, mas eu estava no consultório do dentista e era Veja ou Caras). Pois bem, li que o ator Mel Gibson anda enrolado com uns papos de violência contra sua namorada, xingamentos, algo assim. Mas nem é esse meu ponto. Quero contar pra vocês como termina o texto que fala do assunto: algo como ele não é o tipo de cara que merece ser esfolado como um suíno? Oi? Aí na mesma página há algo sobre os cabelos da modelo Naomi Campbell, acho. Não lembro do que falava o texto, mas lembro do final: algo como ela não devia tacar um celular na cabeça dele, só pra começar? Como?

Tem escola que adota a Veja como material didático. Socorro. Se isso não é incitação à violência, alguém define o termo pra mim?

Nem vou gastar meu latim falando o que acho da revistinha. Mas, mesmo assim, fiquei de cara. Ainda bem que papel é reciclável.

De molho

Quiet


Sou tagarela. Tenho a mania feia de falar sem parar, opinar, discordar, concordar, tudo com falação, palavras, palavras. Sabe aquela imagem em que as palavras que a gente fala ficam por aí, ao vento? Se eu pudesse recuperar todas que já soltei certamente tomaria um susto diante de tanta ladainha sem propósito. Eu poderia falar menos, não me faria mal algum. Mas não sei de onde vem, é mais forte que eu, começa o papo, lá estou eu no meio, num bla bla bla sem fim. E aí, claro, cedo ou tarde ultrapasso a linha, vou além de onde devia e já me vejo combinando e me empolgando, ressaltando, repetindo, divergindo, ai. Poderia falar menos, poderia, sim.

Então a laringite parece uma mãozinha da minha consciência afagando minha cabeça e dizendo calma, menos. E fico assim, observando as conversas e percebendo o quanto se fala nesse mundo, meu Deus. Que barulho é esse? Fora a dor e a sensação de que minha garganta está em carne viva, a infecção tem seu lado bom: olha só, que legal, minha boca fechada, meus ouvidos atentos, meus amigos em paz. Não vou reclamar dessa vez (até porque nem consigo), vou aproveitar para ouvir mais e exercitar o hábito de manter os lábios juntos.

Acho que meu filho está gostando um pouco e isso deveria funcionar como um sinal, será? Pois ontem à noite, subindo com os pés descalços a escada de granito gelado em noite de 13 graus, olhou para trás, encarou meu olhar de reprovação e soltou: você não pode fala-ar! Em seu rostinho havia um ar satisfeito, eu vi, eu vi, sim! Deixa ele. Quando eu recuperar a voz, ele vai ver. Quer dizer... vou falar só um pouquinho.

O tempo, o cabelo e a árvore generosa


Certa vez conheci uma pessoa que entrou em crise profunda por ter completado 30 anos. Achava-se velha, acredito. E eu ficava vendo aquilo e pensando no desperdício que é alguém saudável de repente ficar doente só porque muitos e muitos anos atrás a humanidade decidiu dividir o tempo em anos e meses, em dias e horas. Não é maluco? O tempo passa, indiferente à nossa mania de contá-lo. E não é, nem de longe, a mania de contá-lo que deveria deixar marcas na gente. Não é.

***

Então agora meus cabelos brancos começam a abundar. Não são mais um ou dois. São cem ou duzentos, acho. Talvez bem mais (é mais fácil contar o tempo que contar os cabelos). Mas enfim, estão visíveis. E ainda não sei se vou virar escrava da tintura ou tornar-me grisalha. Aposto que vou me render à tintura, mas queria perder essa aposta. Não tenho absolutamente nada contra as tinturas de cabelo, nada mesmo, já fui adepta delas por muito tempo. Já fui ruiva e foi legal. Aliás, sou fã de cabelos, a parte do corpo mais versátil, mais dada à criatividade e ao nosso humor. Gosto muito da possibilidade sempre ali de ter uma cara nova só com um corte ou umas pinceladas. Mas ando tão em paz com meu cabelo fácil, sem tintura, sem retoques que é inevitável desanimar diante da ideia de voltar à obrigação de “cobrir as raízes”. Vocês não acham que o branco é o novo loiro, ou algo assim, não? Hein? Ai, que preguiça.

***

Muitos, muitos anos atrás, um amigo me mandou um cartão que dizia assim: “we’re gonna be friends till we’re grey in the hair”, acho que era isso. O cartão trazia uma foto de quatro idosos tomando chá e rindo muito, gargalhando mesmo. Eu adorei a imagem, eu velhinha, aposentada, sem nada para fazer que não fosse curtir os amigos também aposentados e sem nada para fazer. Hoje penso em mim e no Ulisses assim, velhinhos, de cabelos brancos, tomando chá e rindo muito, muito, muito, cercados de amigos aposentados e sem nada para fazer. Mas aí se eu pintar os cabelos, vou estragar tudo?

***

Uma das histórias favoritas do Arthur (e minha também) chama-se A Árvore Generosa*. É uma linda história sobre a amizade entre um menino e uma árvore. A árvore sempre ficava feliz quando o menino subia em seu tronco, pendurava-se em seus galhos, brincava com as folhas, dormia à sua sombra, comia seus frutos. O tempo passa, o menino cresce e a árvore se contenta com o fato de o menino desenhar em seu tronco um coração simbolizando seu amor por outro alguém. O tempo passa mais e o menino não tem mais tempo de brincar com a árvore, que lhe cede frutos para que o rapaz venda e ganhe dinheiro, cede os galhos para que o homem construa a casa de que precisa para criar sua família. O tempo não para e a árvore cede também o tronco para que o homem construa seu barco e conheça o mundo. Por fim, o homem já velho e cansado retorna e visita o que restou da árvore, um pequeno toco. Ela se desculpa por não poder mais oferecer galhos, sombra e frutos. Mas o velho responde que já não tem mais forças para brincar ou se aventurar, precisa apenas de um bom lugar para descansar. A árvore se oferece como banquinho, o velho de cabelos muito brancos senta-se no toco da velha amiga para descansar - e a árvore fica feliz. É isso, acho que o amor que vence o tempo é que deve deixar marcas na gente.

* A Árvore Generosa, de Shel Silverstein. A tradução que temos é do Fernando Sabino. Imperdível. 

Cookaholic



Eu andava devendo um bolo de coco para o marido. Mas também andava paquerando uns brownies, depois do sucesso (aqui em casa, leia-se) que foram os primeiros que fiz. E queria muito fazer algo com frutas, um bolo, talvez. Na dúvida, fiz as três coisas. Agora precisamos nos concentrar bem nos lanches para organizar a comilança de modo que a gente consiga, com sucesso, dar cabo de tudo, sem desperdiçar nem um farelinho. Minha tropa não há de me desapontar e espero não ter nadica de nada para servir no café da manhã de segunda-feira, além de pão com queijo e algumas bananas. :-)


Bolo de coco - a base é o pound cake, apenas adicionando-se 90g de coco antes da farinha de trigo, além de um pouco de coco sobre o bolo, para decorar. Fofíssimo e bem gostoso, recomendo mesmo. Mas dessa vez, diminuí a temperatura do forno após 40 minutos, porque as laterais já pareciam assadas, enquanto o meio do bolo estava praticamente cru. Deu certo: assei a 180 graus por 40 minutos, e a 120 por mais 15 minutos.


Brownies de cacau que vi no TK. Ficaram mais finos que os da Patrícia, porque usei uma forma de 30 cm.


Croustade de pêras, também do TK. Na próxima vez, vou usar apenas uma colher de suco de limão siciliano, ao invés das duas que pede a receita. Usei pêras red e williams. Para comer com aquele sorvete que está morando no freezer há meses sem pagar aluguel, no maior descaramento.

Agora só falta sentar no sofá, abrir o livro e assaltar a cozinha após cada capítulo. Nham!

(Nota: não, eu não tenho uma máquina que viaja para o futuro, não ainda. A data da minha câmera está mesmo maluca e todas as fotos acima foram feitas hoje, dia 10).

Simples



Eu tenho um orgulho danado de você gostar de mim porque você é o melhor ser humano que conheço. E aí não adianta, sinto orgulho mesmo. É muito bom dividir a vida com aquela pessoa que nos serve de norte, aquela cujo nome a gente evoca quando não sabe o que fazer e pensa “o que Fulano faria nessa situação?”.

Sabe uma coisa de que gosto muito? Da forma como você vê o mundo, desse jeito que você consegue, que olha e vê o que realmente importa. Claro, o bom é a coincidência, o fato feliz de que as mesmas coisas importam para mim também. Nossa, gosto tanto. Gosto de poder deixar as máscaras na gaveta e usar meu rosto imperfeito porque está bom assim. Minha vaidade encolhida só serve a mim mesma, porque você já viu além da pintura há muito tempo. Aí fica tão bom, porque a gente pode rir mais, já que as rugas não pesam. Aliás, pensando em rugas, elas são a prova feliz de que vivemos o tempo suficiente para que elas chegassem. Considerando que usamos todo o tempo que temos para escrever nossa longa história, elas não podem ser mau sinal.

E como você vê o que realmente conta, esquecemos um pouco datas, formalidades, rituais e ficamos com todos os dias da vida para comemorar nosso achado. E hoje estou assim, olhando pra você cansado de um dia pesado no trabalho, amigão dos pequenos, parceiro na mesa mal arrumada, no carro com música boa, no sofá tão cheio de brinquedos que mal nos cabe, e vou comemorando internamente minha sorte de um dia, tantos anos atrás, ter cruzado com você na faculdade. Então hoje, meu amor, nessa data tão comum, quero dizer que te amo muito e que você me faz feliz como jamais pensei que seria. Todo dia. Até quando o portão emperra ou acaba o pão.

Não foi a Eliza




Eu fico triste, sabe? Sei que não devia, porque não é nenhuma novidade, mas me entristece mesmo assim. Eu bem que gostaria de descobrir uma maneira de dar de ombros e nem ligar, porque a tal “natureza humana” é o que é e parece que ninguém nunca vai mudar isso, mas, ainda assim, bate certa tristeza. Eu fico decepcionada, fico indignada, fico me perguntando será que estou maluca? Será que eu é que estou tão equivocada assim? Mas no mesmo milionésimo de segundo me recuso a aceitar o equívoco. Não, eu não quero acreditar que estou errada.

Não faz a menor diferença, de qualquer perspectiva que alguém olhe o caso, o estilo de vida de uma mulher que foi assassinada e teve seu corpo ocultado. Absolutamente não interessa. Não é o caso. Não interessa se era “moça de família”; se era menina de rua; se era prostituta; se era “baladeira”; se era freira; se morava na favela ou na mansão; se usava minissaia ou calça larga; se era miolo mole; se era inteligente; se era. Não interessa.

Eu tenho ojeriza desse discurso que transfere, de forma mais ou menos dissimulada, a culpa do assassinato para a vítima. Como se ela tivesse pedido para morrer. Porque uma coisa é dizer, para alguém que a gente acha que está em perigo, "olha, você tá procurando encrenca..."; outra bem diferente é tentar amenizar uma barbaridade porque a pessoa "facilitou". E eu não estou interessada nos detalhes do caso. Eu não quero saber. Se ela foi ao sítio por livre e espontânea vontade, se foi levada, se ligava para ele, se gostava dele, se não gostava, se tinha outro, se era briguenta, se era chorona, se era um amor de pessoa, se era encrenqueira. Não quero saber. Não interessa.

Eu não sei quem atirou, se atirou, quem surrou, quem agrediu, se agrediu, quem desossou, se desossou, quem enterrou, quem deu aos cães. Isso o tempo trará à tona, espera-se. Mas não foi ela. E nada do que ela tenha feito, dito, pensado, escrito, insinuado, nada pode servir de atenuante para os envolvidos ou para a opinião pública. Se ela se envolveu com quem não devia, quem tinha de saber era ela. Mas isso não interessa mais. O foco agora precisa ser outro.

Então eu fico triste de ouvir e ver as pessoas falando como se ela tivesse parte da culpa, como se tivesse procurado ser assassinada. Eu não sei nada dela e nem quero saber. Eu sei o que me basta, que quando uma pessoa é violentada, ou agredida covardemente, ou assaltada ou assassinada, ela não pediu nada disso. Pode ter vacilado, ter dado bobeira, ter sido ingênua, ignorado os riscos, ter sido inconsequente, ter brincado com fogo. Mas ninguém é senhor do corpo do outro ou da vida do outro para se valer deles como bem lhe servir a ocasião e a falta de escrúpulos. E se eu me aproveito de quem dá bobeira, a errada sou eu, não quem dá bobeira. Então me poupem dessa conversa de que “também, né, tava procurando”. Porque não, ninguém procura isso. É bom procurar outros culpados, porque ela era inocente.

Não sei, só sei que foi assim


Nota cética:

Já fui católica.
Já joguei I-Ching.
Já leram minha mão.
Já jogaram cartas pra mim (impressionante! Acertaram tudo! Quer dizer, quase tudo).
Já viram estrela em minha testa.
Já fui Rosa Cruz.
Já simpatizei com o Espiritismo.
Tudo isso há muito tempo.

Hoje observo e duvido. E adoro os filmes do Night Shyamalan!

Agora... as bruxas... sei não, viu. Jabulaniiiiiiiiiiiiiiiii!!! (odeio quando o Cid Moreira fala isso, odeio!)

***

Quando eu era pequena, quer dizer, quando eu era menor ainda, morava numa cidade do interior da Paraíba, chamada Esperança (desde já convido a todos para a minha casa de lá quando o mundo for acabar, porque, né, é a última que morre). Não me perguntem por quê, mas era comum faltar luz por lá nos anos 70/80, tipo umas três vezes ao mês, pelo menos. Se a queda na energia acontecia durante o dia, era só chateação: a carne na geladeira, os Superamigos na TV, o banho quente, tudo ficava comprometido. Mas se acontecia quando a noite já tinha caído, ah, que festa. Para a gurizada, quero dizer. Porque criança adora uma bagunça e sem TV não tem Jornal Nacional, então era tudibom. Claro que às vezes era chato também para os pequenos que tinham de interromper alguma brincadeira ou, tadinhos, tinham medo do escuro.

Na minha casa era comum rolar um clima “tenso” naquele breu atenuado com velinhas bem intencionadas, mas pouco potentes. Lembro que eu adorava observar a dança das chamas e de tentar adivinhar as formas que surgiriam na cera derretida, mas o barato mesmo (“barato” hoje, na segurança da idade adulta) era quando meu pai, aproveitando o cenário apropriado, resolvia contar histórias “de trancoso”, as boas e velhas lendas de assombrações e fantasmas. E aí o bicho pegava porque minha cabecinha fervia com tanta imagem assustadora e sempre rolava aquela aflição na hora de ir para a cama, sem falar que qualquer sombra de cadeira projetada na parede se parecia com um caixão. No repertório dele cabia tudo, de fantasmas decapitados a sonhos esquisitos. É, meu pai contava histórias de suspense, sem luz, na hora de dormir. Era ou não era um pai antenado? :-)

Não sei por qual razão me vi lembrando desses tempos hoje, mas uma coisa leva à outra e fiquei com vontade de contar uns “causos” também. Então apaguem a luz, acendam uma vela, enrolem-se no cobertor mais quentinho e... sentem aí. Aquele vulto? Não foi nada...

***

Muitos anos atrás, tive um sonho que me incomodou um pouco. Sonhei que meu amigo fugia de dois homens que o perseguiam. O cenário do sonho era uma espécie de bosque ou parque, qualquer coisa com árvores e com o chão coberto por pedrinhas que atrasavam a fuga. Eu gritava o tempo todo “corre, Fulano, corre, eles vão te alcançar!”. Meu amigo fazia parte de uma galera que se via sempre, estudava junto e tal. Daí que, dois dias depois, encontrei com ele e fui toda prosa fazer graça com o sonho que eu tinha tido. Encontrei-o na roda de amigos na faculdade e fiquei ali parada, esperando que ele terminasse de contar sei lá o quê para, então, falar do sonho. E fui ouvindo e meu queixo foi caindo. O que ele contava, em detalhes, era o que eu tinha visto no sonho. Na noite anterior, um dia após meu sonho, ele tinha sido assaltado num parque da cidade, sua bicicleta tinha sido levada, ele tinha sido perseguido e tal. E eu fiquei ali, vendo a semelhança e a coincidência incrível, porque eu nunca tinha sonhado com ele antes e, tudo bem, não tinha bicicleta no meu sonho, mas a dinâmica da coisa foi i-gual. Eu não precisei contar meu sonho pro pessoal, porque ele já tinha contado ali.

***

Certo primo meu morava em outra cidade e, sempre que visitava Esperança, dormia lá em casa. Numa manhã qualquer, acordei e fui logo perguntando à minha mãe “cadê Fulano, já tomou café?”. E minha mãe perguntou, intrigada, como eu sabia que ele estava ali. É que ele tinha chegado de viagem supertarde, quando eu já dormia há horas, e ela quis saber se eu tinha ouvido algum barulho no meio da noite, apesar de todo o cuidado que eles tinham tido para não acordar ninguém. E aí eu mesma fiquei intrigada porque não, eu não tinha ouvido nenhum barulho, mas não fazia ideia de como eu sabia que ele estava ali, já que ele tinha mesmo chegado sem avisar que viria. E então lembrei. Lembrei que eu tinha visto meu quarto do alto, como se voasse sobre ele, tinha saído de lá, sobrevoado o jardim e ido até a frente da casa onde vi seu carro estacionado, alegrei-me com sua chegada e voltei pro quarto, sempre voando. Então falei: é que eu vi o carro dele lá fora. E foi isso, mas minha mãe não comprou essa conversa. Claro, foi um sonho e uma coincidência. Mas durante muito tempo adorei a ideia de que eu tinha saído do meu corpo. Adorei. Mas foi só um sonho.

***

Quando o Ulisses, meu marido, tinha 4 ou 5 anos, acordou no meio da noite, com sede, e foi até a cozinha tentar resolver o problema. Tadinho, conseguiu chegar à cozinha, mas ficou ali parado, com cara de abandono, sem saber como fazer para alcançar o filtro que ficava em uma prateleira sobre a pia. Mas era seu dia de sorte e sua vovó (deve ter ouvido algum barulho na cozinha, talvez?) veio em seu socorro, pegou água no filtro e deu para o netinho que, saciado, voltou pro quarto. Acontece que o Ulisses dormia no mesmo quarto que seus pais; e sua mãe acordou quando ele voltou para a cama.

- O que foi, Ulisses?
- Nada, mãe. Fui tomar água.
- Ah, vamos lá, eu pego pra você.
- Não precisa, mãe, já tomei.
- Ué (acho que foi “uai” - minha sogra é mineira), e quem te ajudou?
- Vovó pegou pra mim.
- ... !!! ... Que vovó??

É que a vovó do Ulisses já tinha morrido há um tempinho. :-O
Ele ainda se lembra do vestido “preto brilhoso” que ela usava quando deu água pra ele.

***

Já passa da meia-noite, melhor ir dormir. Uuhhhhh... :-)
 
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