Trecho do "Hino popular" da Paraíba:
Paraíba hospitaleira
Morena brasileira
Do meu coração
(Na infância, eu daria um dedo para ser a morena do hino)
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Rancho de amor à ilha, hino de Floripa
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!
Pode crer...
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(Eu nasci no interior da Paraíba, em uma pequena cidade chamada Esperança, como já falei por aqui e sei lá por onde mais. Morei lá com meus pais até os 19 anos, quando mudei para Campina Grande, por causa da faculdade; fiquei por lá até mudar para Floripa, para pós-graduação, e por aqui fui ficando.)
Quando criança, eu era, via de regra, a garota mais branca da turma da escola e isso era um verdadeiro tormento. No interior da Paraíba, onde eu morava, a maioria das minhas amigas tinham pele dourada, morena ou negra. Outras eram brancas, mas eu era a branquela. Na pior das hipóteses, minhas amigas eram o que elas chamavam de “amarela”, o que era, para mim, um sonho de consumo. Eu queria ser amarela. Porque “amarela” era, na verdade, ser morena, apenas sem estar bronzeada. Era uma forma meio sacana de enfatizar que você não tinha ido à praia ultimamente, a azarada. Tipo “ah, sua amarela, vai tomar sol!”. Era pra ser engraçado. Pois bem, mas isso não servia pra mim. Eu não era amarela. Eu era branca, de uma brancura transparente, que chamava a atenção de crianças, digamos, menos amigáveis do que eu gostaria. Eu conhecia outras poucas pessoas mais brancas que eu, mas, pelo menos na maior parte da minha vida escolar, nenhuma menina na minha escola era tão branca quanto eu. Claro, assim como acontece com a população paraibana de uma maneira geral, éramos um colorido mosaico desses que o Brasil expõe aos montes, mas nesse mosaico eu era uma pedrinha muito branca. E isso não teria nada demais, se não me transformasse em alvo de bullying.
Eu detestava os dias de educação física, por exemplo, que me obrigavam a usar saia (por cima dos shorts usados durante a prática) para ir à escola. Minhas pernas, naturalmente, eram a parte mais branca de meu corpo, já que eu vivia de calça comprida. E não me faltavam apelidos que me deixavam com vontade de desaparecer, com vontade de chorar mesmo. Alguns eram bem rudes, até ofensivos. Aliás, todos eram ofensivos, porque exaltavam uma característica indesejada, quer dizer, que o contexto tornava indesejada.
Aí eu cresci e levei comigo a vergonha da cor para a adolescência. E na praia, nos inícios de veraneio, quando as amarelas se transformavam em douradas depois de um dia de sol, eu chegava com a minha brancura, para deleite dos gozadores de plantão que diziam se encandear com minha chegada. Eu era o sol da praia. Era horrível, constrangedor e trazia de volta todo meu pudor dos tempos das aulas de educação física. Não digo necessariamente que essas pessoas sequer se incomodavam com minha cor ou com a falta dela, mas isso não mudava nada, porque esse é um dos problemas do bullying: ele cria na cabeça da vítima um problema que nem existe para muitos, mas que nem por isso incomoda pouco. Daí eu sorria (amarelo) e me empenhava em horas de bronzeamento; depois de uma semana, o verão ficava bom e eu me sentia totalmente segura, confiante e feliz. Ou seja, eu era mesmo muito tola.
Crescer ajudou, claro. Mudar para Santa Catarina resolveu o problema da praia e da vergonha da cor, porque aqui há muitas pessoas com a pele igualmente clara como a minha. Junte-se o fato de que muitas neuras foram enterradas com algum amadurecimento (porque, né, vamos combinar, eu tenho mais com o que me preocupar na vida), e o assunto virou passado. Mas aí eu me deparei com outra coisinha.
Lembro que nos primeiros anos da pós-graduação, eu ouvi com muita frequência comentários a respeito de eu ser paraibana, apesar de ser tão branquinha. E sempre achei isso engraçado, porque mesmo com todos os traumas da época da escola, eu não era exatamente uma exceção: o lance da escola não era por ser branca, mas por ser muito branca. Então os comentários que passei a ouvir por aqui me mostravam apenas que aquelas pessoas conheciam muito pouco da Paraíba, já que, ao contrário do que muita gente parece pensar, é um estado de população bem colorida. A maioria pode ser morena/negra/parda/sei lá, mas ser branco não é exatamente algo incomum por lá. Mas tudo bem, ninguém tem obrigação de saber disso, eu mesma sabia tão pouco sobre Santa Catarina antes de morar por aqui, então estava tudo certo. Mas.
Mas algumas pessoas se equivocam em seus comentários e trocam de vez os pés pelas mãos. E eis que, mais dia, menos dia, surgem “pérolas”. Então certo dia, e lá se vão muitos anos, alguém sentenciou que eu certamente era descendente de holandeses, “olha que sorte!”. Oi? Eu não conseguiria reproduzir o diálogo todo aqui, porque isso já faz um tempinho, anos, mas garanto a vocês que a intenção da pessoa era mostrar que, apesar de eu vir lá do fim do mundo, eu tinha de levantar as mãos pro céu porque, olha só, eu tinha sangue europeu e olhos azuis, e essa era minha sorte. Assim, a pessoa praticamente me consolava enquanto expunha sua teoria. E falava alto para todos na festa ouvirem que "olha, ela é paraibana, mas é sortuda, meu, com certeza descende de europeus!" Juro. E é claro que isso levantou um monte de reações em mim, mas a mais evidente foi a vergonha alheia imediata. Porque aquela pessoa, coitada, achava que estava me fazendo um elogio, enquanto demonstrava seu preconceito contra meu povo, minha terra natal e pessoas de pele não branca. Ter pele clara é a característica que menos me define. É só o acaso (ou sei lá se é acaso, mas isso já é outro papo) das tantas trocas de genes que resultaram em mim.
Já passei por diversos episódios semelhantes a esses (certamente nenhum tão patético, ufa), mas bem sei que na maioria das vezes não há mesmo nenhuma malícia. Mas ontem me peguei pensando nisso e em como os estereótipos mais atrapalham do que ajudam. Porque quem me vê não me vê. E eu também não vejo as pessoas - mas trabalhar essa consciência tem sido um necessário e prazeroso exercício de cidadania para mim. Quem me acha menos paraibana por causa do meu fenótipo adota uma postura muito reducionista. E eu nem sei o que é ser paraibana, para ser bem sincera. Mas também não sou catarinense. Muito menos descendente dessa ou daquela linha. Eu sou brasileira, acho, e isso já é complicado demais. Mas não quero ser “a branca”, sabe? Porque essa é só a minha cor e durante uma parte importante de minha vida ela não foi sinônimo de elogio.
Então só para deixar muito claro, eu não tenho sorte de ser branca e abomino a ideia de que a cor de alguém, por si só, confere-lhe alguma vantagem. Já houve dor demais no mundo por causa dessas ideias, em menor ou maior grau, e o branco não ocupa lá um lugar muito honroso na história desse mosaico. Né?
Eu gosto muito de viver em Floripa, fiz amigos valiosos aqui, conheço pessoas que admiro muito. Adoro o fato de a cidade acolher tanta gente de outros lugares do país, o que lhe transforma em um agradável caldeirãozinho cheio de sotaques e que sai pintando ainda mais colorido esse cantinho do país que quase despenca no oceano. Meus filhos nasceram aqui e isso me vincula ao lugar de forma bem significativa também. Mas eu não quero que, no futuro, as pessoas os vejam como "brancos do sul", sabe? Quero que o mundo siga rumo a uma visão um pouco mais profunda que isso, aliás, que meus próprios filhos se definam muito além disso. Porque simplesmente não há vantagem intrínseca nenhuma nos fenótipos das pessoas. O que há é um mundo cego, cheio de preconceito que gera visões equivocadas quanto ao sentido da palavra sorte. Sorte, das grandes, seria viver num mundo onde a cor da pele das pessoas não fizesse a menor diferença. Aí sim, olharíamos adiante e veríamos apenas que a beleza do mosaico reside justamente no colorido de suas pedras. Mas a gente chega lá.