Gol!

 

Hoje acompanhei, no twitter, parte de uma conversa interessante sobre a adesão do Kaká à campanha iniciada pelo ator americano Ashton Kutcher. Alguém observou que certa Fulana tinha rechaçado o mote da campanha (Real men don’t buy girls - ou homens de verdade não compram garotas), alegando que a frase trazia em si certa falta de respeito às prostitutas. O papo seguiu oscilando entre a relevância da campanha e aspectos sociais vinculados à prostituição (como falei, a discussão tava boa mesmo, bem articulada e tal). Meti meu bedelho dizendo que achei superpertinente o Kaká entrar na campanha agora, durante a Copa, quando ele está em evidência, já que anda servindo de modelo e inspiração para muitos meninos mundo afora. É que acho que, se queremos combater condutas e posturas machistas, a formação de nossos adolescentes tem de se manter na pauta.

Tenho pensado muito nisso desde que me tornei mãe. Acho um desafio imenso criar meus dois filhos, um menino e uma menina, semeando naquelas cabecinhas, desde cedo, que o respeito ao próximo deve ser ingrediente universal em nossas relações, independentemente de gênero, origem, crenças, etc. Alguém pode perguntar: ué, mas não é o óbvio do óbvio? A ideia é, certamente, mas o contexto social às vezes atrapalha pra caramba. Porque as propagandas estão aí, o discurso está aí, o mundo é isso aí que vemos todo dia e muitas vezes a cena não é boa. E não me parece coerente esperar que a violência contra a mulher acabe (esperamos que toda violência seja combatida, mas estou falando de machismo aqui), por exemplo, enquanto ensinamos a nossas meninas que elas devem ser um poço de candura ao mesmo tempo em que aplaudimos (ou fazemos vista grossa para) as atitudes mais, digamos, “viris” dos meninos. Porque essa aparente obviedade às vezes toma rumos indesejados e, se o ingrediente respeito não estiver ali, candura vira submissão, enquanto virilidade vira sinônimo de brutalidade. E não é assim que a banda deveria tocar.

Daí que o Kaká falar, agora, quando todos estão ouvindo, que não é legal comprar garotas (tudo bem, podemos problematizar o conceito de “homens de verdade”, mas ainda assim) pode, no mínimo, levantar a discussão entre a gurizada (e, espero, entre seus pais, seus educadores, seus quem quer que esteja antenado), contribuindo um pouco para, por um lado, desmitificar a crença de que o homem é um ser tão descontrolado que pode (e deve) apelar para qualquer recurso a fim de satisfazer suas “necessidades” e, por outro,  questionar ideias que reduzem as meninas a objetos de desejo.

Porque, né, os adolescentes adoram o assunto - e episódios exacerbados de condutas machistas não são, infelizmente, casos raros entre a meninada.

Ainda é cedo para esse papo rolar aqui em casa (meus filhos ainda estão na primeira infância), a vida ainda está mais simples por aqui, mas eu achei que o Kaká fez um gol bacana. (Já que não faz no campo, né... ôôôô, maldade...)

Pitacos que azedam

 
 
Aviso importante: é proibido atirar pedras.
 
***
 
Tudo bem, a gente já sabia que ganharia do Chile.
 
Eu não acredito que a gente passe pela Holanda.
 
Eu serei alemã, no próximo sábado. Mas também não acredito.
 
Vai ser chato ver a Argentina ganhar a Copa.
 
Eu quero muito estar equivocada e que todo mundo me diga que eu não entendo nada de futebol.
 
***
 
p.s. Não é uruca. É só achismo. E perdi todos os bolões nos quais participei até agora, então há uma esperança. E os árbitros estão loucos, então tudo pode acontecer. Mas eu acho. 

A fila

 
Achou a capa melancólica? Espere até abrir o livro...
 
Houve um tempo em que eu me negava a abandonar um livro, uma vez que tivesse iniciado a leitura. Fosse bom ou ruim, seguia a coisa até o final, ainda que, por vezes, tivesse a nítida sensação de estar perdendo um tempo danado. Depois passei a achar isso uma enorme bobagem e ignorei a suposta sensação ruim gerada por deixar algo pela metade e passei a valorizar mais meu tempo e a largar de lado qualquer livro que não me cativasse depois dos primeiros capítulos ou, em alguns casos, das primeiras linhas. É bem verdade que continuei fazendo alguns sacrifícios aqui e ali - li um romance da Marian Keyes inteirinho (argh!) - mas, no geral, não vejo mais problema algum em admitir que simplesmente não quero continuar uma leitura.
 
Mas uma mania foi substituída por outra e agora vivo começando vários livros ao mesmo tempo. Começo um, dou uma espiadela em outro, uma folheada naquele que anda na mesa de cabeceira há um tempinho, até que a coisa decola e sigo até o final com o escolhido da vez. Tudo ansiedade. Foi-se o tempo em que eu podia me largar no sofá e esquecer o mundo com a cara enfiada nas páginas. Agora não, minhas leituras duram semanas ou meses, leio poucas linhas por dia e essa história de ficar espiando as primeiras páginas de vários livros nada mais é do que a dor de cotovelo por não mais poder me entregar a eles como antes.
 
Porém quem persevera chega lá e hoje terminei de ler o livro que comecei a ler em maio - yupiiii! Aleluias, aleluias. O blog tem um pouco de culpa nisso, claro, mas tenho aprendido tanto com a blogosfera que não pretendo lutar contra ela, não agora. Sempre haverá as noites e os finais de semana em que o blog ficará aqui, abandonadinho, enquanto converso com o papel.
 
Falling leaves estava esquecido na velha estante do primeiro apartamento em que ficamos hospedados em Londres. Ninguém sabia a quem pertencia, nosso landlord disse que não fazia a menor ideia de como aquilo tinha ido parar ali e que ele não tinha mais contato com os antigos inquilinos. E que, por favor, eu ficasse com ele. Thanks. Parei de ler Wuthering Heights, da Emily Brontee, que tinha começado a ler por lá, em abril, depois de interromper a leitura de A Viagem do Elefante, do Saramago... (não falei?)
 
Pois bem, Falling Leaves: o livro conta a história real da chinesa Adeline Yen Mah, a filha indesejada em uma família contaminada pelo ódio, o preconceito e a inveja. Falling Leaves é uma daquelas histórias em que todo episódio de sofrimento é seguido por outro, a ponto de nos fazer voltar à capa algumas vezes só para conferir se estamos mesmo lendo o relato de fatos reais. Só para vocês terem uma ideia, a mãe da protagonista morre por complicações no parto após seu nascimento, seu pai e seus irmãos a desprezam e sua madrasta é a encarnação do demônio - juro por tudo, gente, a mulher era um praga. A história de Adeline nos lembra que existem diversas formas de se abandonar uma criança - no caso dela, o abandono se deu no seio de sua própria família, ao longo de uma infância permeada de crueldade. É uma história triste, de uma menina que procurou o amor de sua família a todo custo, encontrando sempre um muro de frieza, indiferença e malícia. Mas também é a história de uma pessoa forte, amorosa e capaz de estender a mão, sempre, ainda que aquele que pede sua mão tenha cuspido em seu prato por décadas e décadas. Ou seja, é um livro que mostra que o mundo não é justo.
 
Agora que vocês já estão com o astral lá em cima, vamos à novidade do blog. Vou deixar aí do ladinho a fotinha do livro que estou lendo no momento. Não é necessariamente uma indicação, já que o fato de eu estar lendo não significa que estou gostando a ponto de recomendar. No caso de Falling Leaves, por exemplo, o livro é bom, mas não empolga. Para mim, valeu um pouco pelo background político e social da coisa, já que eu não sabia absolutamente nada da história da China - e agora, pelo menos, tenho uma vaga ideia do que foi a Revolução Cultural, por exemplo. Seja como for, a ideia é mesmo me empurrar pra frente: quem sabe vendo a carinha do livrinho aí do lado, eu não desligo o computador mais cedo e faço a fila andar mais rápido? Depois eu conto se funcionou.
 
E após a agonia sem fim da vida de Adeline, vamos ver se o Rubem Alves me conta umas historinhas mais amenas.

First things first



Para parar de reclamar, fiz um bolo. Escolhi uma receita simples, que serve de base para outros bolos, retirada do mesmo livro onde está a receita dos brownies, The Essential Baking Cookbook.

O resultado foi um bolo fofinho, partido ainda quentinho, no intervalo do jogo que tirou os EUA da Copa. Combinou bem o com dia nublado, o café quentinho e brinquedos pela sala.

Hoje pela manhã eu tinha grandes planos para o dia: curtir a casa, o marido e os filhotes, avançar na leitura do livro que estou lendo agora, assistir aos jogos da Copa, fazer um bolo e tomar um banho longo, sem pressa. Havia também um plano menor, fazer as unhas. Agora que o dia quase acabou, vejo que apenas o plano menor ficou para amanhã. Então estou aqui, de unhas tortas e cheias de cutículas, mas na cozinha paira um cheirinho bom de bolo, li cerca de quatro capítulos do livro, minha filhota já me abraçou forte e disse que me ama três vezes, o marido já fez massagem no meu pé e dancei com o Arthur no tapete da sala, ao som do Jack Johnson, nós dois cantando alto: "you'd better hope you're not alone, doo doo doo doo...". As unhas podem esperar.


***

Pound Cake

375 gramas de manteiga sem sal, em temperatura ambiente
375 gramas de açúcar (usei cristal orgânico)
1 colher (chá) de essência de baunilha
6 ovos, levemente batidos
375 gramas de farinha de trigo
1 colher (chá) de fermento em pó
60 ml de leite

Pré-aqueça o forno a 180 graus. Unte uma forma redonda  (22cm) e forre-a com papel manteiga. Na batedeira, bata a manteiga e o açúcar até obter um creme leve e fofinho. Acrescente a essência de baunilha e então adicione os ovos, gradualmente, batendo completamente após cada adição. Desligue a batedeira e, com uma colher de metal ou madeira (usei a de madeira), ou mesmo uma espátula, acrescente, alternadamente, a farinha peneirada, o fermento e o leite. Faça isso em três ou quatro vezes. Misture até que a mistura esteja homogênea, não é necessário bater. Transfira a mistura para a forma, nivele com a ajuda de uma espátula e leve ao forno. A receita do livro fala em uma hora de forno, mas assei o meu em 50 minutos. Fique de olho. Após assado, retire do forno e deixe o bolo esfriar completamente antes de desenformar. Se quiser, polvilhe com açúcar de confeiteiro antes de servir. Passe um bom café e coma logo, antes que o segundo tempo comece. :-)

Tem um CD aí?

 
 
Desliga aí, por favor.

Rádio do carro ligado, no caminho pro trabalho, pouco antes das duas da tarde. Os âncoras do programa conversam com um pseudojornalista, que está fazendo uma participação "especial":
 
- E aí, fulano? Que honra tê-lo aqui conosco! Conta pra gente: quais são as suas impressões aí da África?
 
- Ah, aqui é um paraíso! Joanesburgo é uma cidade linda, limpíssima, moderna! Há policiamento por toda parte, clima de festa, pessoas simpáticas! E as mulheres são todas facinhas e dadas, bem oferecidas, uma maravilha. Bla bla bla (não ouvi mais nada).
 
Juro. Tem alguém pagando pro cara ir até a África do Sul falar esse tipo de coisa.
 
O cara deve acreditar que é um jornalista. Sei lá. E todo mundo do programa riu, achou o máximo e os âncoras agradeceram muito a participação.
 
Às vezes eu tenho muita vergonha alheia. Às vezes me dá preguiça desse mundo. Às vezes eu acho que não devo ter ouvido direito.

Não tem graça nenhuma

Ando me lembrando de uns comerciais muito engraçados que foram veiculados durante a Copa de 2006. Lembro que eu morria de rir com um em que a trave se mexia para os argentinos errarem o gol; em outro, o Maradona, não sei por quê, usava a camisa da seleção brasileira; etc. É meio uma tradição essa coisa de comerciais tirando onda com nossos hermanos - imagino que eles façam o mesmo por lá, dando boas risadas às nossas custas. Acho engraçado, inofensivo, parte da "rivalidade" que, vamos combinar, enfeita nossas Copas. E todo mundo sabe que ninguém odeia a nação Argentina, nem seu povo, apenas a sua seleção que se acha o último biscoito do pacote. Mas não gostei daquele comercial de cerveja em que a latinha chama o argentino de "maricón".

Bom, se eu parecer uma chata de galocha agora, paciência, quero muito falar disso. E até sei que estou escrevendo o óbvio, mas se esse tipo de piada faz tanta gente rir, é sinal de que ainda precisamos repetir uns mantras por aí. Então vamos lá.

Fazer piadas e chacotas tendo homossexuais como alvo alimenta o preconceito, de forma veemente e perigosa. Não é uma coisinha inofensiva, neura dos defensores do politicamente correto. Não estou escrevendo sobre o politicamente correto, estou tentando defender um ponto de vista no qual acredito e que tomei como ponto de partida para minha odisseia particular voltada ao combate ao preconceito.

Um adulto bem resolvido, senhor de suas opções, feliz com suas orientações, dono do seu nariz, ri e dá de ombros, percebe a insignificância do pensamentinho retrógrado e arrogante, e segue seu caminho, seja ele qual for. Mas um adolescente que está começando a lidar com sua sexualidade e se descobre homossexual, por exemplo, pode experimentar a piada boba de modo bem diferente. Ele vai perceber ali, nas risadas da família e dos amigos, que sua "condição" é motivo de chacota, algo a esconder, camuflar, superar. Que ele não é normal. Rir de piadas que têm homossexuais como tema é seguir vida afora praticando bullying, um tipo de bullying que atinge gente grande também, de uma maneira nada suave. E expõe nossa cegueira e nossa arrogância.

Então detesto essas piadas pelo que elas têm de mais cruel: a capacidade de catalisar crises, alimentar neuroses, fomentar o preconceito, perpetuar a arrogância de quem se acha melhor que os outros porque acredita ser "do padrão". Conheço alguns casos patológicos que nasceram da não aceitação da sexualidade; conheço pessoas que enfrentam conflitos absurdos diante da vergonha gerada e alimentada pelo preconceito. É a tristeza que nasce como fruto de um discurso repressor. Não preciso falar dos homossexuais felizes, esses dão de ombros para esse papo chato. Mas eu queria, na boa e sem rancores, convidar todo mundo que se deleita em usar palavras como "boiola" ou "viado" para xingar, ofender ou "tirar onda",  para pensar no mais óbvio e difícil dos exercícios: e se fosse você ali, no lugar do outro? Ou, pior, se fosse seu filho ou filha? Não teria muita graça, né? Não tem graça nenhuma.

Nossas redomas às vezes nos impedem de enxergar que não raro pessoas são assassinadas simplesmente por causa da orientação sexual. Então não dá pra contribuir com essa mentalidade.. É como comentar sobre o absurdo dessa violência toda que toma conta das ruas enquanto fumamos um baseado, como se na outra ponta do baseado não estivesse o revólver apontado para a nossa cara. Com a homofobia é assim: a gente ri do "sai pra lá, seu boiola" para que muitos adolescentes cresçam complexados, frustrados, envergonhados. É verdade que muitos - porque a humanidade tem seu lado bom - superam as crises e descobrem mais tarde que suas vidas lhes pertencem e aprendem a dar de ombros; mas muitos outros não. E eu não quero contribuir com isso.

Quer xingar? Chama de babaca. Porque ser homossexual não diminui ninguém. Pequena é a cabeça de quem se acha melhor.

Aquela latinha é muito babaca.

UPDATE EM 26.07.2010: Veja a punição.

A cafeteira, o termômetro, o sapato e a mala


 
Certa vez, quando passávamos férias na Pensilvânia, Ulisses comprou uma máquina de café expresso. Eu lamentei um pouco aquele trambolho todo (teríamos que fazer aquilo caber na mala, na volta para casa), já que não sou muito fã do expresso, mas fiquei feliz por ele, que adora a coisa. Chegando à casa dos nossos amigos, ele e nosso anfitrião foram testar a novidade. Fracasso total. O chafé que a geringonça fazia passava bem longe do que o Ulisses esperava e foi uma frustração sem tamanho. Só para garantir, Ulisses resolveu experimentar vários dos sachês que vinham de brinde junto com a máquina - vai que era o tipo do café desse ou daquele sachê, e aquele outro seria melhor. Mas nada, tudo uma porcaria.
 
Inconformado em trazer para o Brasil uma máquina de chafé, Ulisses voltou à loja para tentar uma troca. Tentar nem é o termo, porque a coisa foi tão simples que nem parecia uma loja, parecia uma central de escambo mesmo. Tipo assim:
 
- Oi, eu queria devolver essa máquina de café expresso, mas eu já usei uns sachês.
 
- Tudo bem. O senhor quer reembolso ou outra mercadoria?
 
- Reembolso, por favor.
 
- Tudo bem. Qual o motivo da devolução, senhor?
 
- Ah, não gostei do café, fraco demais.
 
- Entendo.
 
Pronto. Máquina lá, crédito aqui, acabou-se o problema e a loja recebeu de volta a máquina com vários sachês a menos, simplesmente porque o cliente não gostou do café. Não havia nada de errado com a máquina, funcionava perfeitamente, só não sabia fazer café.
 
(Fastforward de semanas: zzzuuuuuuummmmm)
 
Na mesma viagem, trouxemos para casa um daqueles termômetros com dois sensores. Aquele item absolutamente dispensável, mas bem legal porque nos permite saber qual a temperatura dentro e fora de casa, bom para os dias em que faz 19 graus dentro, mas 9 lá fora. Então. Semanas depois, o treco parou de funcionar, aaaahhhhhh, que lástima. Ulisses então acessou o site do fabricante do produto - não o site da loja onde tínhamos comprado a bugiganga, mas o do fabricante mesmo - e contou a historinha: eu comprei isso em tal lugar, tal cidade, mas pifou. Assim, bem simples. Imediatamente o fabricante respondeu pedindo nosso endereço. Tá. Dias depois, recebemos em casa outro termômetro igual, novinho em folha. Assim. Sem comprovação da compra, sem contato com a loja, nada. Não foi preciso enviar cópia de nada para lugar nenhum, ou enviar o produto quebrado, nada. Aliás, o tal quebrado jaz em alguma gaveta aqui de casa até hoje.
 
Fastforward de meses (ou anos, não lembro): zzzzzzzzzzzzuuuuuuuummmm (saudades de Lost, gente, deixa)
 
Certa tarde fatídica, comprei um par de sapatos em uma loja cujo nome começa com A e termina com ezzo, aqui em Florianópolis. Na primeira vez em que usei o sapato, que, na verdade, era um tamanco com salto de madeira, duas lascas de madeira se soltaram da parte posterior de um dos saltos. Descolaram-se, assim, sem mais nem menos;  não houve pancada ou tropeçada ou queda, eu não bati com o tamanco na cabeça de ninguém. Simplesmente o troço se desmanchou. Voltei à loja, feliz e serelepe, mostrei o estrago, contei minha história. Tá. A vendedora:
 
- Nós precisamos ficar com o sapato e enviar para nossa perícia que vai emitir um parecer e averiguar se o dano foi causado por mau uso do produto pelo cliente. Mas, olha, já vou adiantando pra senhora, é muito difícil que essa troca seja feita, bla bla bla.
 
- Tá. Vamos tentar, mesmo assim.
 
Semanas depois, recebi um telefonema da loja, voltei lá e recebi meu sapato estragado de volta e um singelo "sinto muito". Chorei minhas pitangas, falei que era um absurdo, e eu era cliente da loja há séculos, chuif, chuif. Sinto muito. Mas e o interesse da própria loja pela satisfação do cliente, chuif, chuif. Sinto muito.
 
Escrevi para o SAC da A...ezzo e recebi uma resposta do tipo "vamos estudar o seu caso". Vários dias depois escrevi de  novo e recebi a mesma resposta - eu estava conversando com uma máquina. Desisti e passei a usar a única arma possível, o boicote. 
 
Fastforward (último, juro): zzzzzzzzzuuuuuuuuum
 
Minha mala novinha quebrou na volta pra casa. Eu paguei caro pela mala porque acreditei na conversa de que aquele era o melhor material do mercado, superresistente e coisa e tal. Sei. A mala chegou quebrada. Como deixamos para reclamar junto à companhia aérea um dia depois de chegarmos, recebemos um "sinto muito", pois teríamos de ter reclamado imediatamente, logo após a retirada da mala da esteira. Bom, munida de minha convicção de que a propaganda em torno do material da mala me levou a pagar mais caro por ela, voltei à loja onde havia comprado a dita cuja. Levei a mala, que ficou "retida" para perícia. Na semana passada a loja me ligou e recebi outra mala, igualzinha, novinha em folha. Yes! Ah, a loja começa com Le e termina com iche. A marca da mala começa com S e termina com ini.
 
O que eu queria dizer com essa ladainha toda é que a sensação de que a nossa palavra vale alguma coisa não tem preço. Nos casos da cafeteira e do termômetro nossa palavra foi tudo de que precisamos para sermos tratados de forma respeitosa. No caso da mala, apesar da nítida hesitação da vendedora em receber o produto quebrado no dia em que procurei a loja, a postura do fabricante foi também uma atitude de respeito. No caso do tamanco, o fato de nunca ter recebido uma mensagem sequer do SAC da marca me mostrou o quanto, na escala de valores deles, o lucro está bem acima da satisfação dos clientes com a qualidade do produto. Esses episódios são, para mim, pequenas amostras de que o mundo poderia ser um pouco melhor. A sensação de ser tratado com respeito, atenção e até carinho (ah, o termômetro novo mandado para nossa casa, vindo lá da caixa prego, foi um ato carinhoso, foi ou não foi?) deveria ser a mais comum de todas. Mas não é assim, infelizmente, e receber a mala nova me deixou muito surpresa. E, principalmente, bem feliz por colocar na lista de trocas felizes uma ocorrida em solo brasileiro, nem que seja só para fugir dos clichês "ai, o Brasil..." - é sempre bom poder puxar a brasa boa para a nossa sardinha também. 
 
Por fim, a França saiu da Copa, olha só, e eu não sabia como encaixar esta frase neste post, então vai assim mesmo, em um parágrafo à parte. Au revoir.

Mais velha, mais experiente, mais feliz: eu quero é festa




Ufa, passou o final de semana. Tanta festa não me deixou com tempo nem para blogar. Depois do cinza que invadiu nossa sexta-feira, foi hora de cumprir o ritual dessa época do ano para quem tem filhos pequenos em escola: é hora das festas juninas. E lá fomos nós no sábado levar o Arthur para a apresentação de sua turma, à qual ele compareceu vestido de jeca, claro, seguiu todos os passos, reverenciou sua parceira de dança, deu mil tchaus para o trio que assistia a tudo babando (eu, o pai e a irmã, lógico) e saiu reclamando do chapéu de palha e perguntando a que horas seria a outra festa.

É, tínhamos outra festa no mesmo dia, também junina, na casa de amigos. E lá fomos nós no final da tarde, agora todos vestidos devidamente. Imaginem. Pois é, uma lindeza sem tamanho. Não, não tem fotos, não insistam.

Para mim que venho lá das bandas onde o forró dá as cartas boa parte do ano, as músicas juninas trazem um misto de melancolia e alívio. É que gosto do bom forrozinho pé de serra, dançado arrastadinho enquanto o cheirinho da boa comilança invade o ar. Mas, honestamente, ouvir forró boa parte do ano, onde quer que você esteja, não me agrada muito. Então curto, sim, relembro outras épocas, mas dura pouco e logo quero outros ares. Por isso a festa de ontem à noite foi perfeita: lá pelas tantas, após a quadrilha mais desorganizada que já se dançou no mundo, eis que as luzes se apagam, acende-se a luz estroboscópica e a segunda edição do revival 70/80/90 encheu o ar. Foi meio esquisito dançar Beat it, do Michael Jackson, vestida de matuta da roça, mas ninguém tava olhando.

Depois de uma noite de sono, veio o domingo de Copa. No início da tarde os amigos começaram a chegar, cada um escolheu seu lugarzinho na sala, as crianças ganharam outra sala só para elas e pronto. Todos a postos para ver aquilo que todo mundo viu, gritar, brindar, berrar, essas coisas. Saboreamos um bom espetinho preparado pelo Ulisses, que jura de pé junto ser uma iguaria típica lá na Costa do Marfim - assim como os brigadeiros que encomendamos e que, segundo minha mãe disse ter visto na TV, também são comuns do lado de lá. Se são, se não são, a gente nem liga. Comemos felizes.

Ainda sobrou espaço nas barrigas para um pedaço de torta de bombom de morango porque, né, amanhã seria outro dia de festa aqui em casa, mas aniversário na segunda-feira é uma coisa assim meio aguada. Então já aproveitamos o embalo e demos a data por comemorada. Adorei os mimos que ganhei (serei a mulher mais cheirosa do pedaço), em especial os que ganhei de meus filhotes e da minha outra metade: livrinhos do Saramago, a coisa mais doce que eu poderia ganhar hoje.


Obrigada, meus amores. Obrigada a todos pelo carinho, a quem já me ligou de looonge me passando uma energia pra lá de boa. Olha, mesmo, até parece que o aniversário já foi hoje. Então que venha o dia 21, vai ser só lucro. :-D

Sem mais



A notícia veio no meio da minha manhã enquanto, diante do meu computador burocrático, eu escrevia coisas sem graça como Vossa Senhoria ou Atenciosamente. De repente a copa ficou pequena e sem graça. De repente frases inesquecíveis flutuavam pela minha cabeça e lamentei tanto sua partida, como quem perde um avô, um professor querido. A manhã seguiu com lágrimas contidas que deixei rolar na volta pra casa. Então Ulisses falou: mas ele não morreu, né? É, de certa forma, não. Mas hoje me calo. Foi-se Saramago.

***

"...o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas."

Vem das avós


Uma... rosalice?

Meu nome é Ritalice.
Até hoje, acreditem, a frase acima me soa estranha, porque não gosto do meu nome. Boa parte de vocês deve estar dizendo: também, não é pra menos! Alguns poucos devem estar pensando: podia ser pior. E minha mãe deve estar magoadíssima. Então é bom esclarecer logo: mãe, isso não tem NADA a ver com você, tá? O fato de termos gostos diferentes para nomes não quer dizer que eu não goste de você. Eu ADORO você. Mas não gosto do meu nome, tá certo? Beleza.
Como eu ia dizendo, acho meu nome muito feio. Pra começar, não é um nome assim, digamos, normal, do tipo dos nomes que existem por aí: Ana, Maria, Luciana, Isabel. Não, Ritalice é um nome inventado pela minha mãe (e por uma tia, parece) para unir Rita (avó materna) e Alice (avó paterna). Meigo, eu sei, entendo a homenagem, mas acho a sonoridade horrível. Durante toda minha infância lidei com a tristeza de achar que meu nome soava como “vitalina” ou “vitalícia”. Mas isso nem chegava a ser um problema. Chato mesmo é ter de explicar como se escreve meu nome TODAS as vezes que alguém precisa escrevê-lo, como quando marco uma consulta por telefone, por exemplo. É, na massacrante maioria das vezes, mais ou menos assim:
- Bla bla bla bla, médico tal, hora tal.
- Certo. Qual o seu nome, por favor?
-Ritalice.
- Ritaaa.. li...ne.
- Não, não, RitaliCÊ.
- Ah, desculpe, senhora. Ritaaa..Ali..
-Não, não é Rita Alice. É tudo junto.
-Ah! ... Com dois “as”?
-Não. É Ritalice, com um “a” só. Tudo junto.
-Ah... que diferente. Tá. Ritalice do quê?
- Bla bla bla...
Na quarta linha do diálogo acima cabem as variações Ritalícia, Ritalínea e por aí vai.  E não posso culpar nenhuma dessas pessoas, poxa. Quantas Ritalices vocês conhecem, na boa? É um nome que ninguém nunca ouviu na vida, até cruzar meu caminho. E há quem ache isso o máximo, a tal exclusividade e tal, mas, na boa, estou dispensando. Porque às vezes cansa, juro. Eu não estou falando de exceções, do tipo “acontece às vezes”; não, acontece sempre, eu sempre preciso soletrar e isso é chato.
Finalmente, há os que nunca aprendem. Então para alguns colegas sou Ritalícia, para outros sou Rita Alice. Só depois que veem meu nome escrito, viro Ritalice. Mas sou rápida no gatilho e sempre ajudo: “Só Rita tá bom. Todo mundo me chama de Rita”, e ganho olhares aliviados.
A solução veio ali pelo início da adolescência, quando passei a me apresentar como Rita. Claro que sempre havia os professores e suas horrendas chamadas para acabar com a minha festa, mas a grande maioria dos amigos acabava aderindo ao prático Rita. Com exceção de uma amiga da época da oitava série, que insiste em me chamar de Ritalice, todos meus amigos preferem o atalho. 
Não sei se acontece em outras regiões do Brasil, mas no Nordeste nomes compostos são muito comuns. Neste exato momento lembro rapidamente de dez primos com nomes compostos. Fulano Beltrano, nunca apenas Fulano. E minha mãe (que, não esqueçam, eu adoro) achou pouco e resolveu inovar. A consequência direta disso é minha predileção por nomes curtos. Não gosto de nomes compostos (queridos amigos de nomes compostos, eu adoro vocês), prefiro os simples, curtos, fáceis, óbvios.
Quando engravidei do meu primeiro filho, sabia que seu nome não teria mais de seis letras, que seria, no máximo, um Felipe da vida. Assim, bem direto: Felipe. Lindo, né? No dia em que pronunciei Arthur, Felipe virou Arthur, porque simplesmente adorei falar o nome dele, adoro a sonoridade: Ar-thur. Claro, eu não contava com o “é com h?”,  e espero que ele me perdoe (mãe, eu perdoei já, adoro você).
Na segunda gravidez, radicalizei e anunciei: vai se chamar Bia. Ai, acho lindo: Bia. Falem vocês, vejam que bom falar: Bia. Mas a onda de protestos foi tsunâmica: “mas Bia é apelido!” E depois que a terceira pessoa falou: “ai, que lindo, adoro o nome Beatriz” e eu me vi repetindo “não vai ser Beatriz, vai ser Bia, só”, pensei na minha filha e suspirei: não, ninguém merece. E de novo, quando pronunciei Amanda, tive certeza, tinha achado. Amanda é forte, direto, simples, bonito. Para mim, claro. Espero que ela concorde.
O irônico é que foi Shakespeare, logo ele, senhor das palavras, quem imortalizou a insignificância dos nomes em si: uma rosa, com qualquer outro nome, ainda teria o mesmo perfume, não é o que diz a Julieta? Ou seria o Romeu? Whatever. O fato é que não sei se eu seria outra com outro nome; talvez fosse, nunca vou saber. E hoje em dia, apesar de continuar achando Ritalice algo esquisito que rima com tagarelice (olha, tudo a ver comigo!), não me incomodo muito com isso. Rita me resolve, fica tudo certo. Mas o assunto ainda rende um post.

Do primeiro jogo

Brinde bandeira

Triste não é perder no bolão. Triste é ter uma amiga que aposta 2 a 1 pro Brasil no bolão. E vibra muito quando a Coreia faz o gol. Ah, eu acho triste. Não é? Então.

(Brincadeirinha, querida. Parabéns... mas vê se aposta direito no próximo jogo, né? Ninguém merece.)

Curtas para disfarçar o nervosismo

Tudo pronto

Arthur, 5 anos, mostrando que sabe tudo sobre a Copa.

- Mãe, o Brasil vai jogar com a Costa do Marfim.
- Isso mesmo, mas antes vai...
- Eu sei! Vai jogar com o Fluminense.

***

Marido, ensinando Geografia:

- Eu pensei que Eslovênia fosse a mulher que nasce na Eslováquia. :-D

***

Decidimos seguir a "tradição" iniciada na Copa passada e servir para os amigos um prato típico do país adversário (em 2006 jogamos contra o Japão na primeira fase, ai delícia!).  Então amanhã comeremos cachorro. Quente.

Descobrimos que na Costa do Marfim comem elefante com batatas. Acabou o elefante do mercado, então acho que faremos batatas fritas, se não houver sugestão melhor. E bacalhau não é muito popular entre os amigos... alguém aí sabe o que se come em Portugal, além de bacalhau e pastel de Belém? Afe, que difícil. Na próxima Copa vou burlar o sorteio e escolher: China, Japão e Itália. Pronto.

***

A musa da Copa aqui em casa é a Amanda. Segura os balões e grita, pulando loucamente:

- Basil, Basil, Basil!!

É, eu sei. Parei.

___________________

Vejam que post bonitinho.

O melhor da Copa



Os planos eram escrever sobre outra coisa, mas a onipresença da Copa do Mundo me fez adiar o post sobre supermercados (olha, como vocês têm sorte!). Como falar de outra coisa se os horários do trabalho já não são os mesmos, as bandeirinhas nos carros lembram época de eleição, não há comercial na TV que não remeta ao mundial e, olha só, a terça-feira virou o melhor dia da semana (espero que continue assim depois do jogo).

Agora eu e minha mãe trocamos telefonemas para falar do frango do goleiro ou do nervosismo dos dias dos jogos do Brasil. E nos últimos dias tenho me lembrado muito das copas passadas na minha infância e adolescência, quando nos reuníamos para assistir aos jogos em nossa casa, que ficava cheinha de parentes e amigos barulhentos, exaltados e cheios de razão. Eram festas memoráveis - não que fossem grandiosas, nada disso - pelo prazer de reunir todo mundo na sala, sentar no chão, enrolar-se na bandeira e gritar goooooooool aos pulos e abraços: não tem preço e dispensa requinte. Tinha pipoca, refri, comida de milho e amizade - e isso era tudo do que precisávamos, além de um bom ataque e uma defesa confiável. Infelizmente, os mundiais dos anos 80 e o de 1990 deixaram também lembranças bem amargas. E eu lamento mesmo que a gente nunca tenha comemorado um título mundial lá em casa, porque imagino que a festa teria sido algo maravilhoso para guardar na memória. Em 1994, quando fomos tetra, eu já não morava mais com meus pais e comemorei na casa de amigos.

Mas, estranhamente, não é essa comemoração - nem as outras mais recentes, nem mesmo a alegria de ter ido ver o Brasil jogar na França, em 1998 - que tem ocupado minha cabeça esses dias. As lembranças que têm me visitado a toda hora são aquelas das copas passadas em casa, lá em Esperança, sofrendo junto com toda a família a desilusão de ver a França nos eliminar nos pênaltis bem no dia do meu aniversário; o Paulo Rossi da Esquadra Azurra nos massacrar com três gols; ou, horror, horror, a Argentina nos mandar embora com um golzinho chorado do Cannigia. Talvez pela idade que eu tinha à época, quando tudo parecia maior e mais definitivo, aquelas derrotas eram mais intensas. Porque quando o Zidane acabou com nossa festa em 1998, ou quando tropeçamos neles de novo na última copa, honestamente, dei de ombros e perguntei "onde é a próxima?". Mas lá nos anos 80 eu curtia o luto mesmo. E, ai, como pesava.

Mesmo assim, um dia passava. E aí eu guardava na memória as canções que tinham embalado nossos sonhos de campeão por várias semanas. E uma dessas canções simplesmente não quer desgrudar da minha cabeça esses dias. E cada vez que meu filho embala o "gool de placa, de triveeela.." eu me vejo cantando "dá-lhe, dá-lhe bola, meu canarinho vai deixar a gaiola... vai pra Espanha de mala e viola, vai dar olé à espanhola e rola, e rola, e rola, rooola essa booola..." Ah, que saudades!

Sou muito grata à minha mãe por ter deixado a casa virar uma bagunça cada vez que o Brasil entrava em campo. Jamais esqueci, jamais vou esquecer. E agora vou me encarregando de fazer o mesmo por aqui. Vai ter cachorro-quente, muito barulho e bebida derramada na sala na hora do gol. Vai ter calor humano, telefonemas para a minha mãe no intervalo do jogo, gargalhadas e momentos de tensão, ui! Vai ser bom, muito bom. O tanto que durar. Tomara que seja um mês.

___

Da série "Adoro Copa".

Três de uma vez



O dia teve lá seus momentos, digamos, imperfeitos. Mas a Copa está apenas começando, né? Se hoje nós, nigerianos, não tivemos lá o melhor dos dias, pelo menos não precisamos nos engasgar com aquele frango do goleiro inglês - ah, sorry, Mila! Juro que até pus a camiseta no Arthur, mas quem imaginaria tamanho azar? Ouvi daqui o "noooooooooo!" que vocês gritaram daí. Sigamos em frente. 

Na tentativa de adoçar um pouco as coisas, catei todas as barras de chocolate do armário e me aventurei nos Jaffa Triple-choc brownies, com chocolates de todas as raças, para todo mundo ficar feliz. 


Quer tentar? O sabor tende bem para o chocolate amargo (de que gosto muito) e é preciso ficar atento ao tempo de forno. A receita fala em 40 minutos, a 180 graus. Mas retirei a assadeira após meia hora e por pouco não deixei tudo queimar. Era só o que faltava, né?

Ingredientes:

125g de manteiga sem sal, cortada em cubinhos
350g de chocolate amargo, em pedaços
1 xícara de açúcar mascavo (usei cristal)
3 ovos
2 colheres (chá) de casca de laranja ralada
125g de farinha de trigo (usei integral)
30g de cacau em pó
100g de chocolate ao leite, picadinho
100g de chocolate branco, picadinho

Aqueça o forno a 180oC. Unte uma assadeira (usei uma retangular, 20cm X 30cm) e forre com papel manteiga (corte o papel de modo que sobre nas extremidades). Em uma tigela refratária, coloque a manteiga e 250g do chocolate amargo. Leve ao fogo em banho-maria (não deixe o fundo da tigela tocar a água) até que a água ferva. Desligue o fogo e mexa de vez em quando até que todo o chocolate e a manteiga estejam derretidos em uma mistura homogênea; deixe esfriar. Use a batedeira para misturar o açúcar, os ovos e a casca de laranja; bata até obter um creme bem consistente. Adicione a mistura de chocolate, mexendo com uma colher ou espátula. Em seguida, acrescente a farinha e o cacau, peneirados, mexendo só até incorporar à massa. Por fim, adicione os pedacinhos restantes de chocolate amargo, além dos outros dois tipos de chocolate, e misture um pouco. Espalhe tudo na assadeira, distribua de modo a deixar a superfície plana e leve ao forno. Depois de assado, deixe esfriar e só então retire da assadeira, puxando pelas sobras de papel manteiga. Corte em cubinhos, delicie-se e espere a terça-feira chegar.

Médio



- Mãe, já sei o que vou ser quando for grande!
-É?! O que você vai ser?
- Astronauta! 
- Hum, que legal. E, olha, você tá pintando superbem, parabéns.
- É. Quando eu for grande, vou ser pintor. E aí, depois que eu morrer, todo mundo vai ver minhas pinturas famosas no museu. 
- ...

Dois dias depois:

- Mãe, quando eu for grande, vou ser policial.
- Ah, é? Não vai mais ser pintor?
- Hum... tá bom. Quando eu for médio, então. Primeiro, eu sou policial; depois, quando eu crescer mais, vou ser pintor. 

Fácil.

Aos pouquinhos...



...vou entrando no clima.

Achei a camiseta.

Achei a bandeira.

Dei uma olhada na tabela. Fiz projeções. Fui ficando ansiosa. Ui, coisa boa. Festinhas, comidinhas, galera. Ah, tem futebol também.

***

Não estou colecionando as figurinhas, mas achei uma graça esse post.

Rosa sem choque





Eu sempre quis ser mãe de meninos. No dia em que o médico nos falou que eu estava grávida de uma menina (mas vai se chamar Henrique, ou, sei lá, Matheus!), meu primeiro pensamento foi: mas o que eu vou fazer com uma menina? Eu tinha certeza de que esperava outro menino e torcia muito por isso. Nada grave, bastaram algumas horas depois da notícia estarrecedora para que eu já me sentisse bem habituada à ideia, coisas de grávida. 

Depois que a Amanda nasceu, todo o receio antigo de não saber como criar uma menina deu lugar a um gostinho bom de aventura e à certeza de que aquela pessoinha tinha muito a me ensinar. A mistura que já prometia com nosso filho mais velho ganhou um novo ingrediente de peso e hoje nem consigo pensar como seria não ter uma menina em nossas vidas. Amanda mudou alguns parâmetros, derrubou crenças, nocauteou preconceitos. 

Uma das mudanças drásticas trazidas pelo fenômeno L'Amanda se deu na minha relação com a cor rosa. Devo dizer que, apesar de bem acostumada à ideia de parir uma garota, mantive-me agarrada a algumas decisões (insustentáveis) como se daquilo dependesse em parte meu "sucesso" como mãe. Patético. Então bradei aos quatro ventos que "não vou vestir minha filha de rosa da cabeça aos pés como se ela fosse uma Barbie"; "não vou comprar nada rosa"; etc.


Minha resistência à cor refletia certo receio de ver minha filha tratada como um enfeite, um bibelô, uma bonequinha. Não sei bem quando a coisa começou, mas a certa altura de minha vida passei a associar à cor rosa rótulos como "feminino", "delicado", "doce", "meigo" e outros mais asquerosos como "patricinha" e "perua". Comecei a ver no uso da cor uma aceitação de que a condição feminina (seja lá o que isso for) passa necessariamente pela ideia da mulher como ser passivo, submisso, docinho demais. Eca. 

Em outras palavras, eu me enchi de preconceito contra a cor. 

Amanda nasceu e ganhou um monte de coisas cor de rosa. Eu tentava me manter fiel às blusinhas e calças nas cores amarela, lilás, vermelha, marrom, verde, branca, azul, qualquer outra. Ainda assim, sempre voltava para casa com alguma peça cor de rosa, pela simples razão de que as lojas não me davam muitas alternativas. Quem tem filha sabe, não é fácil se manter longe do rosa. Pois bem, Amanda adora rosa. É, de longe, sua cor favorita. Ela gosta de tudo rosa: biscoitos, sapatos, brinquedos, lápis. Ela quer rosa, sempre. Mas, ao contrário do esperado, essa preferência passou a me incomodar cada vez menos (se é que, de fato, incomodou alguma vez). E eu voltei a enxergar algo que eu tinha deixado de ver há muitos anos: rosa é uma cor linda. 



É claro que o uso de uma cor pode ser simbólico em várias situações, para o bem ou para o mal. A partir de sexta-feira, vestir amarelo no Brasil vai imediatamente identificar alguém como torcedor da seleção. Daqui a alguns meses, o vermelho pintará o país. Mas eu não preciso temer o rosa. Vesti-lo não me limita, não me amarra, não mancha minha reputação. Claro, algum desavisado pode me achar bem perua se eu sair por aí com um casaco rosa ou com minha filha toda de rosa. Mas não ligo. Para mim, agora, rosa é mais uma cor bonita que combina com as bochechas da Amanda. Só isso.

A associação com o Barbie way of life continua existindo e ainda me incomoda em algum  nível, mas, ah, não vou me prender tanto a isso, não mais. Quero trazer o rosa de volta ao patamar das cores bonitas, só. Uma a mais, que cai bem com branco, sem stress. Preocupar-me com isso hoje parece uma bobagem sem tamanho: já vejo personalidade na Amanda suficiente para desdenhar de mutias amarras e isso me faz abrir um sorrisão. Menina moleca, dá gosto de ver. Quer ir de rosa, querida? Vai, sim, que fica lindo. 




Sem algodão


A membrana timpânica do ouvido da Amanda se recuperou completamente, sua audição está perfeita, não houve sequelas. Não é mais necessário colocar um pedaço de algodão no ouvido para protegê-lo na hora do banho. Passou. 

O exame final foi feito ontem. Viu? Nem toda segunda-feira é chata. 

***

Posso seguir com "Amanda, você já ouviu o que eu falei! Desce daí!" :-)

O leque


Detalhes do leque, em seda pura, pintado a mão.

Minha mãe é alérgica a um monte de coisas. O rol é extenso, então nem vou começar, quero falar  apenas de uma fonte de espirros e das famigeradas crises de asma: o ar condicionado e os ventiladores (tudo bem, duas fontes). Para ser mais precisa, há um monte de coisas das quais a minha mãe não gosta e eu com frequência confundo o que é algo de que ela não gosta com algo ao qual ela é alérgica. Acho que ela não gosta de ar condicionado e é alérgica a ventiladores. Ou o contrário. Ou não. Não sei (estou sendo bem precisa). Mas não usa um nem outro, fato. 

Minha mãe mora no interior da Paraíba. Dizem que o interior do sol é mais quente, mas a gente nunca foi lá. Na verdade, sabemos que  há lugares bem mais quentes - o próprio litoral do Estado, com sua fervilhante João Pessoa, costuma ser mais quente. O Saara também tem certa fama de calorento. Ainda assim, as temperaturas em Esperança costumam ser altas na maior parte do ano e não poder usufruir do ar condicionado não é exatamente um coisa legal. 

Então a minha mãe usa leques. Eu acho uma graça, ela fica ali sentada naquele calorão, abanando seus cabelos grisalhos muito fofos com seu leque. Ela é uma pessoa organizadíssima, então o leque está sempre ali no lugarzinho dele, ao lado da poltrona da sala de TV, ao alcance da mão para uma ou duas abanadas refrescantes. Era assim, pelo menos, até o verão passado, quando Amanda rasgou o leque dela. Aff. É claro que a babação com a neta é tamanha que "não tem nada não" foi a frase óbvia. Mas é claro que tem, né? Porque não dá para ligar o ventilador. Então voltei para Floripa com o maior sentimento de culpa.


Alguns meses depois, folheando meu guia de viagem, vi que Londres tem o único Museu do Leque do mundo. Preciso contar o resto? Nunca foi tão fácil escolher um presentinho para minha mãe. Bem, escolher foi a parte fácil, restava ir até o tal museu. E imaginem vocês o entusiasmo do meu grupo diante da proposta "vamos ao Museu do Leque?", porque, né, todo mundo sonha em visitar a National Gallery, o British Museum e o Museu do Leque, oh yes. Mas meus companheiros foram superparceiros e se juntaram a mim na jornada pelas ruas de Greenwich em busca do casarão quase escondido que abriga o Museu. Demoramos tanto para chegar lá que o museu estava fechando quando chegamos. Mas consegui entrar na lojinha e comprar o que queria, um lindo leque para minha mãe. 


Hoje ela recebeu o presentinho (que só pus no correio quando cheguei aqui). O timing não parece muito bom, já que o inverno está logo aí. Mas ela vai mantê-lo ali do ladinho da poltrona dela, à espera dos dias mais quentes. E todos os dias vai olhar para ele e saber que eu caminhei por Greenwich com ela no coração. 

Boas abanadas, mãe.

Calor e canções antigas

Ontem fomos a uma inauguração. A inauguração do fogão a lenha de um casal de amigos. 






Frio? Pode vir. Estamos prontos. 


***


Hoje, sabe-se lá por quê, acordei com vontade de ouvir a voz da Dolores O'Riordan, vocalista da banda irlandesa Cranberries. Comecei com No Need to Argue - não sei se pela melancolia, não sei se pela carga de saudade que a canção carrega, não sei, mas adoro, adoro, adoro. Ouvi o CD inteiro e fiquei com gosto de quero mais, passei pro próximo. Mas ao abrir a caixinha de To The Faithful Departed, dei de cara com outro CD que eu tinha dado por perdido há muito tempo. Foi uma boa surpresa e larguei Cranberries pra lá, see you tomorrow. Aumentei o som e cantei todo o italiano que não tenho acompanhando o Renato Russo nas canções de Equilíbrio Distante. Bem a calhar. 


Meu equilíbrio há de voltar logo. Di certo.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }