O nome



Ontem minha mãe perdeu uma amiga. As duas, minha mãe e sua amiga, trabalharam no mesmo lugar por muitos anos e, em certa época, não era raro vê-las juntas lá em casa, por horas e horas, trocando ideias, rindo, resolvendo, comentando. Mas elas dividiram ao longo da vida outra coisa em comum, além do local de trabalho: o mesmo nome. Então as duas foram, por muitos anos, Bernadete da Prefeitura. Ou Bernadete de Paulo, nome do irmão de uma e também do marido da outra. 

Pois bem. Ontem minha família tomou um susto. É desconfortável escrever sobre o que tomou ares de alívio para nós, porque na verdade sentimos muito pela morte da Bernadete, amiga da minha mãe. Minha mãe está triste, nós nos solidarizamos com ela. E não há absolutamente nada a se comemorar diante da tristeza da família de Bernadete. Mas para nós houve o susto. E depois o alívio.

Eu estava reclamando da sanduicheira da nossa cozinha, que ela não é mais a mesma e tal, quando meu telefone tocou. Do lado de lá, meu padrinho, que vive atualmente em Curitiba, perguntava com voz nervosa e tom desconfiado se eu havia recebido alguma notícia vinda da cidade da minha mãe, no interior da Paraíba. Falei que não, perguntei o que estava acontecendo e ele, carinhoso, desconversou, disse que alguém estava tentando entrar em contato com ele, mas não estava conseguindo, bla bla bla. Tadinho, só depois entendi sua aflição. Disse-lhe que entraria em contato com minha mãe e logo voltaria a ligar, que ele ficasse tranquilo, certamente nada grave havia acontecido com quem quer que fosse da família, pois ninguém havia me ligado. Assim fiz, desliguei o telefone e liguei para minha mãe, que atendeu com voz tristonha e me contou da morte de sua amiga.

Contei a minha mãe sobre o estranho telefonema de meu padrinho e...  somamos um mais um e juntas entendemos o que tinha ocorrido. Algum conhecido ouviu a notícia da morte de "Bernadete da Prefeitura" e avisou nossos parentes distantes. Estava espalhado o rebuliço na família, em vários cantos do Brasil.

Liguei de volta para Curitiba e conversei com minha madrinha, tranquilizei a todos, voltei a falar com minha mãe, tudo esclarecido. Mais tarde, um outro primo ouviu surpreso a voz da minha mãe por telefone e apressou-se em ligar para outra meia-dúzia de pessoas...

Acredito que meu coração retomou o ritmo normal dos batimentos cerca de três horas depois do jantar.

***

À família da Bernadete, nosso abraço e carinho.

De tênis



Meu coração hoje está cheio de pulinhos. Saltinhos de alegria, vontade de já ter ido. Meu coração já está de tênis. Sigo degustando esses momentos com alegria, faço dancinhas. É claro que estou ansiosa, não seria eu se não estivesse. Mas vou gostando cada vez mais de sentir que está chegando a pausa. Hum, bom. A pausa. Vou parar quase tudo, assim, já já.

Estou gostando do desconhecido que me espera. Todas as viagens com os pequenos até aqui têm sido para a segurança confortável das casas dos avós. Agora não, vamos pro mundo e não sei como vai ser. Não sei como será a relação deles com a comida, com os lugares, com a rotina maluquinha que pretendemos ter nos próximos meses. Não sei como vão dormir, como vão acordar. E estou adorando não saber.

Não sei de quase nada. Mas não consigo parar de sorrir. Não saber é bom.

Sinto-me viva, incerta, de férias. Eu sei, eu sei, estou indo lá estudar, também. (...) Não adianta, não funciona. Não consigo parar de sorrir. 

Eu, boba.

"A pesca milagrosa"


"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler 'distraidamente'."

Clarice Lispector, que sabia tudo.

A primeira vez de novo


Escapadelas: Catedral de Canterbury, Kent, Inglaterra (não sou mesmo uma pessoas das igrejas, mas... putz, pode ficar com a arquitetura?).


Em algum dia de janeiro de 1998, voei sozinha para Londres pela primeira vez, com duas malas enormes, um curso a fazer e muita curiosidade. Levava comigo minhas expectativas construídas ao longo de anos de contato com a língua inglesa (meu instrumento de trabalho, à época) e com o pouco que conhecia daquela cultura, seus mitos e fama. Fui em busca de aperfeiçoamento profissional, crescimento pessoal, diferenças, outros ares. E bater perna, claro.

Encontrei o que buscava, certamente, mas acabei levando ainda mais do que comprei. Desembarquei em uma cidade gelada e (aparentemente) sóbria, e lembro de ter varrido com o olhar aquelas ruas largas e limpas, filtrando, da janela do taxi, as primeiras impresões do lugar pelo qual me apaixonaria nas semanas que se seguiriam. Lembro que achei escura a casa que me hospedou, mas também que a simpatia dos meus anfitriões logo afastou a sensação de penumbra. Sim, vejam só, "meus" londrinos eram uma simpatia. Tudo bem, um deles tinha sangue italiano; mas deixemos os rótulos para as maioneses, que precisam deles. O fato é que, assim que cheguei, fiquei. Inteiramente.

Eu gostava de estar lá e as razões para isso aumentavam à medida que os meses iam passando. Aqueles foram tempos de diversão e arte, cultura e história, sair pra dançar e viver no cinema, fazer descobertas diárias e novos amigos, comer coisas estranhas, ir a shows de rock e admirar cabelos esquisitos, oh dear. Nem sei por onde andam noventa por cento das pessoas com quem partilhei aquele meio ano, eram de tantas nacionalidades quanto há países; mas mesmo que não mantenham comigo qualquer contato, foram fundamentais em minhas muitas horas de descobridora de mundos. Porque é isso que Londres tem: um monte de mundos.

Fiz o que pude para habitá-los, do jeito que dava, com meu dinheiro de estudante/turista, e minha vontade contínua de explorar outros limites europeus, tudo ali tão pertinho. Assim fiz uma boa escolha, optei por comprar pouco e andar muito. Estudei um bocado, é verdade, mas não desperdicei as chances de bons passeios - e eles eram muitos. E cada vez que saía para uma espiadela aqui outra ali, voltava como quem volta para um lar alegre, feliz em retornar para seus parques, suas galerias apaixonantes, sua noite, seus pubs, minhas ruas, meus amigos. (Ah, tá, tá, tá bom: sua chuva, seus moradores carrancudos, bla bla bla. Não tive tempo para os chatos, reservei minha atenção para os legais e não fui em busca de tapinhas nas costas. E em Floripa chove muito mais, pode apostar.)

Então tudo é memória boa, vontade de ver novamente. O olhar agora será outro, a cidade, certamente, também. De certa forma, será como ir de novo pela primeira vez. :-) Mas com algumas vantagens, que experiência serve pra isso. Então sei que não vou tomar de novo o típico café da manhã inglês, não vou pedir informações aos taxistas, não vou usar taxis não registrados, não vou levar o cartão de crédito para certas lojas e não vou acreditar que o dia seguinte vai ser mais quente. De resto, vou esquecer do tempo quando estiver no parque e fazer o que der pra fazer com duas crianças. Porque nisso essa viagem terá seu maior diferencial: é uma viagem com elas, portanto não vou me prender a planejamentos detalhados.

É que não precisa, mesmo: o plano era voltar lá. Estamos indo, então.

***
 
Update: depois de ler alguns dos comentários docinhos de vocês, vi que posso ter passado a impressão de que já estava indo pro aeroporto. Ainda não, tá? É só no sábado que vem. :-)  Por enquanto, ainda na boa terra brasilis.
 

 

Take it easy



Hoje precisei pisar nos freios. Falar meia dúzia de "não posso, desculpa" e me permitir pegar leve. E estou bem feliz de ter percebido a tempo que o stress quase me atropelou.

Não é o caso de ter um piripaque, mas certamente eu estava sobrecarregada. Acúmulo de tarefas no trabalho mais os preparativos para a viagem da semana que vem estavam deixando meus miolos um pouco quentes demais. E não preciso ficar doente, não agora.

Então hoje dei bola para o desconforto e os evidentes sinais de cansaço e me permiti dizer "não". Só isso. Cancelei, deleguei, justifiquei, risquei da lista, adiei, pronto. Estou respirando melhor.

Afinal, amanhã é o sétimo dia, não é assim? Passem os chinelos, por favor.


Good & bad



A notícia boa: minha encomenda chegou. Casaquinhos fofos e roupinhas thermal para os pequenos, comprados a precinhos inacreditáveis e enviados pela fofa da Anginha. Tudo lindo e baratíssimo, porque as peças foram compradas em sale no finalzinho do inverno americano. 

A notícia ruim: a Receita Federal não quis saber de abrir o meu pacote durante os muitos dias em que o manteve sob sua guarda para fiscalização. Resolveu taxar sem conferir se o que a Anginha havia declarado estava correto. Assim, cometeu um abuso gigante ao me obrigar a pagar o equivalente a QUATRO vezes o valor real das mercadorias em imposto. Não abriu, não conferiu, apenas cobrou. Assim, um valor qualquer, inventado.  

Só pra vocês saberem. 

p.s. A notícia ótima: os pequenos vão ficar lindinhos demais! ;-D

Com previsão de sol no final do período



Um dia bom pode ser de sol ou de chuva. Se mantivermos o coração quente, as nuvens cinzas terão seu charme. 

Hoje choveu. Fininho, preguiçosamente, o dia inteiro.  Mas o dia foi de coisas desenroladas, pendências resolvidas. Bom, muito bom. Nada grande, mas olhamos adiante e vimos o caminho livre para a viagem da semana que vem.

Nossa autorização para afastamento do país foi publicada (necessário, já que estamos indo em período de licença devidamente concedido pelo órgão onde trabalhamos).

O banco disse "sim" para nossos papéis, podemos pagar o aluguel de lá por transferência bancária. Bom.

O plano de saúde lembrou de mim e finalmente efetuou meu cadastro - eu já pago o plano há alguns meses, vejam vocês, mas eles não tinham notado que eu existia. Interessante.

A Receita Federal liberou minha encomenda que jaz à minha espera na agência dos Correios. Amanhã.

Temos ingressos para o show do Idle Wild, banda-xodó do Ulisses. 

Minha mãe recebeu as fotos que lhe mandei.

(Só o meu nariz continua entupido.)

Quando eu vim



Há onze anos vendi minha parte das cotas da escola de inglês que ajudei a fundar, pus minhas roupas, meus livros, cds, liquidificador, pratos e xícaras dentro de um palio, entreguei o carro a uma transportadora que o traria a Florianópolis, fechei meu apartamento em Campina Grande/PB e vim pra cá fazer mestrado na UFSC. Tinha concluído a graduação dois anos antes, viajado um pouco, trabalhado muito e decidido que era hora de voltar a estudar forte, abrir um pouco mais a cabeça e os horizontes. 

Eu não sabia quanto tempo ficaria por aqui, nem que meu mestrado se transformaria em um doutorado; sabia que ia aprender muita coisa, mas não tinha noção da avalanche de ideias que invadiria minha cabeça e me transformaria para sempre. Eu desconfiava que gostaria muito de Floripa, mas nem por um segundo imaginava que meus filhos nasceriam aqui. Talvez eu acreditasse que encontraria alguém com quem dividir os planos, mas jamais poderia supor que reencontraria aqui o  amor da minha vida, que àquela época morava em Minas. Eu não sabia nada. Mas vim. 

Vim apesar do medo que minha mãe sentia ao me ver seguir para tão longe, de certa indignação que ela expressava por me ver largar algo profissionalmente estável e com futuro mais ou menos certo. Vim porque "futuro certo" é coisa que não existe. Vim apesar de minha vinda significar trocar um bom salário por uma bolsa de estudos de valor bem inferior. Vim porque sabia que encontraria nos estudos os desafios que sempre me empurraram estrada afora, porque sabia que, independentemente do rumo profissional que minha vida tomasse, aprender é o que me mantém viva. Vim porque precisava interromper uma rotina profissional viciada em discussões vencidas, porque queria renovar as conversas, os ares, os vínculos. Porque precisava mudar e sabia que cabia a mim fazer chegar a hora certa. 

Sempre vou ser uma forasteira em Florianópolis, não sou daqui. Mas isso há muito assumiu relevância questionável para mim. Ser de um lugar ou outro não me define. Certamente interfere, mas a pluralidade que trago comigo me traduz muito melhor do que qualquer termo que se enquadre  no quesito "naturalidade". Sou da estrada, talvez. E talvez isso mude, como saber? E mesmo que um dia eu deixe Floripa e suas belezas para trás, guardaremos para sempre as lembranças do que construímos por aqui nos últimos anos. 

Hoje é aniversário de Florianópolis, feriado na cidade. E hoje lembrei de quando cheguei aqui e nossos queridos anfitriões aproveitaram o feriado para nos mostrar, a mim e à minha amiga, que me acompanhou na mudança, a vista deslumbrante da Lagoa da Conceição. O que naquele dia foi deslumbre é hoje cenário familiar, parte do meu horizonte, um morro com trânsito difícil e com o verde que pinta Floripa. E o futuro que naquele dia começava a se descortinar diante de mim, incógnito desconhecido, é hoje uma trilha boa, construída com estudo, esforço, saudade, amor. E a maior de todas as lições: é preciso seguir o coração.

* * *

Para minha mãe, que segura minha mão todos os dias - não para me ajudar a atravessar a rua, que já cruzei tantas sozinha, mas para me transmitir o calor de sua força e de seu amor: obrigada por vencer seus medos e me apoiar sempre. Obrigada por esse sentimento imenso que vence qualquer distância com um pensamento. Obrigada por ter entendido que eu precisava partir. Eu sinto sua mão, vejo seu olhar, ouço sua voz, todos os dias. Nunca estamos longe. Te amo. 


A primeira adolescência



Arthur, quatro anos, crescendo e protestando:

     - Eu não gosto mais de nenhum desenho do Discovery Kids!

Vinte minutos depois:

     - Arthur, vem fazer um lanche, filho.
     - Espera, mãe, não quero perder Toot & Poodle*...
___


*Desenho do Discovery Kids.

Você vem sempre aqui?



Ontem dobrei as pernas de uma velha calça jeans até que ela ficasse parecida com minhas calças estilo pescador com as quais eu ia toda animada para os "assustados" dos anos 80, aqueles bailinhos em que quase tudo podia acontecer, mas quase nada acontecia. Carreguei na maquiagem a la Madonna, boca muito vermelha ("mamãe, por que você tá assim?', perguntou Amanda, intrigada), pus uma faixa na cabeça e fui. Quando cheguei lá, vi minha amiga Xuxa/Madonna conversando animadamente com a anfitriã que trajava calça fusô com polainas e ostentava um irrepreensível topete. Ao lado de nossos garotos de mangas dobradas e meias brancas, embarcamos. E sob a luz estroboscópica, dançamos. Muito.

Eu não devia admitir certas coisas assim, em público, mas confesso que dançamos o Conga conga conga. E cantamos Como uma deeusaaaaaaaa... usando latinhas de bebida como microfones. E dancei Ursinho Blau Blau. E Ulisses e eu dançamos, de rostinho colado, ao som de Wando - Você é luz... Porque, vocês sabem, nem só de Cure e U2 vivia a cena musical dos anos 80, né? E o tempo tem o dom de colocar no mesmo pacote coisas aparentemente incompatíveis e acabamos viajando tanto com Mille & Vanille como com o Queen. Não importava ouvir apenas as bandas favoritas, queríamos ouvir as coisas velhas. E nem Toquinho, nem Balão Mágico, o que mais me emocionou foi mesmo  o jingle da Estrela (se você tem trinta e poucos anos, viveu no Brasil nos anos 80 e tinha uma TV em casa naquela época, veja esse vídeo e depois me conte se não rolou um nó na garganta). 

Sapatos para dançar (toda canela fica grossa)

A ideia da festa nasceu em um outro encontro entre amigos e foi adiada por causa da cirurgia do Ulisses. Mas ontem finalmente rolou e foi, certamente, a primeira edição de muitas outras que virão. Porque dançar George Michael cantando Freedom, finado Michael cantando Billie Jean e vovó Madonna cantando Like a VIrgin  merece muitos repetecos. 

***

O melhor da festa, segundo o Ulisses: as músicas são as mesmas, mas, naquela época, a gente estava sempre procurando. Agora estou aqui com você. E assim, vencida, dancei com ele uma lambada.

Flashdance: ontem, só faltou a água.

Quem quiser ir na próxima, levanta a mão.

Ontem




Deve ter sido algo que li, a nostalgia me pegou. Chegou de carona em uma lembrança bem leve, como umas que ficam guardadas nas gavetas mais escondidas da minha memória e, de repente, resolveu sair sabe-se lá pra quê. E foi engraçado me encontrar de novo com a criança que fui. Fiquei ali, cara de boba e caneca na mão, vendo surgir na fumaça do café imagens daquela menina insegura, dona de tantos sonhos que mal podia carregá-los.

E aí vi quando ela se sentou na cadeira branca do jardim e encolheu as pernas, abraçou os joelhos e enterrou ali seu queixo. E fez uma cara de dúvida triste, porque tinha medo de não conseguir. Aí a imagem se desmanchou porque uma outra já chegava e vi quando soltaram sua mão e a deixaram sozinha com seus fantasmas. Mas ela só chorou depois, e também vi: estava em silêncio, completamente. Mas o cenário era o mesmo de uma outra lembrança, esta mais doce, com gosto de possibilidades. E a vi sorrindo, envaidecida, tão feliz que se supunha pronta. Se soubesse o tamanho das distâncias, não teria aquele ar deslumbrado, claro. 

As imagens foram vindo assim, misturadas, algumas desbotadas, e meus lábios devem ter oscilado entre pequenos sorrisos e leves ares de tristeza longe. Um pouquinho antes de o café esfriar e a fumaça levar embora meus breves quadros antigos, aconteceu.

E foi tão bonito quando a menina também me olhou e se viu: ficou espantadíssima! Como é possível? Tranquilizei-a: não é, não há como saber; essa é a beleza. Mas vejo agora, insistiu. Não, querida, sou só um sonho seu, respondi. Mas ela soube. 

E se fosse possível, ela teria sorrido.

Casal de um assunto só





Faz dias que nossas conversas giram em torno de passagens de volta, traslado do aeroporto, pendências bancárias, correspondências encalhadas. Há um par de malas esperando pelo momento em que vou abri-las e recheá-las com nossas expectativas. Meu filho de quatro-quase-cinco anos já fala em termos de "quando eu chegar de Londres" isso, "antes de ir pra Inglaterra" aquilo. Somente minha filha de dois anos e meio segue sua rotina serelepe sem se dar ao trabalho de projetar muita coisa. 

Meu marido e eu nos sentimos como quem vai estar de férias em breve e acho melhor amarrar uma fita no dedo para não esquecermos que temos um curso a fazer por lá, porque até aqui ninguém falou em colocar papel e lápis na bagagem. "É para estudar, é para estudar", preciso repetir.

As listinhas vão surgindo na minha cabeça: os remédios que as crianças podem precisar; os calçados que preciso comprar (os sapatinhos do inverno passado vão aquecer outros pezinhos neste ano porque não cabem mais nos que pisam por essas bandas); as chaves que preciso copiar para as pessoas que tomarão conta de nossa casa em nossa ausência; a papelada da imigração. E tudo vai se organizando. Ou quase tudo.

Porque há algumas coisinhas que quero desorganizar bem: a rotina de sair de casa para trabalhar sem nossos filhotes; a correria na hora do almoço para não atrasar a chegada à escola; a correria no final da tarde para não deixar o Arthur esperando muito na saída da escola; o acorda/banho/engole/tchau de cada manhã; as segundas-feiras todas iguais. Só por oito semanas, não.

Não é que a vida esteja ruim, longe, bem longe disso. Mas abril e maio serão uma ilha de pessoas que se adoram grudadinhas o tempo todo, tomando decisões importantes como ir ao parque ou ao museu, cercadas de nada obrigatório para fazer por todos os lados. E esse será todo o stress que teremos.  

Estou sabendo da briga pelos royalties e da greve dos professores de São Paulo, mas vocês perdoam a falta de assunto?


***

Na verdade, na verdade, a gente também fala de Lost um pouquinho. Se a gente vai assistir quando estiver em ... deixa pra lá.


Bolo feliz de maçã



De folga do trabalho, eu tinha duas opções para minha tarde diferente: passar horas resmungando porque minha encomenda está parada na Receita Federal há onze dias (casaquinhos fofos para os pititicos que a Anginha mandou pra mim), ou fazer coisa melhor. Resolvi fazer coisa melhor. 

Quer dizer, primeiro eu liguei para o povo dos Correios mais uma vez (já tinha ligado ontem e hoje pela manhã) só para ser desenganada ouvindo o que eu já sabia (não há nada que possamos fazer até a fiscalização liberar, senhora). Aí fui para a cozinha. É, eu sei o que você está pensando. Se a coisa está na Receita, por que ligar para os Correios? É assim mesmo, sabe? Well, whatever.

Agora... se o negócio ficar lá encalhado, paciência, eu embrulho os pequenos com outros casaquinhos, fazer o quê. Só fico com pena da Anginha ter tido trabalho em vão. :-(

Mas eu estava dizendo que fui para a cozinha. Bem, munida do melhor espírito o-que-tiver-de-ser-será, resolvi deixar o caso da encomenda pra lá e experimentar a receitinha que a Pérola_B me deu há dois dias. Na maior cara de pau, fiquei pedindo receita pelo twitter para usar aquele pacote de farinha de trigo integral que estava prestes a criar raízes no armário. E a simpatia da Pérola me mandou a receita dessa coisinha aí da foto. Hum... tão bom. E como realmente me senti muito bem enquanto preparava o bolo, já que andava querendo muito uma tarde de folga para ficar em casa sem horário ou compromisso, resolvi batizá-lo de bolo feliz. Porque é assim que eu estou me sentindo, apesar da Receita (Federal, não a do bolo), e é assim que vocês vão se sentir quando provarem uma fatia. 

Receita (do bolo, não a Federal):

Ingredientes

3 maçãs - uma bem picadinha e outras duas cortadas para o liquidificador
1/2 xícara de óleo de girassol
02 ovos (usei caipiras sô, prumodi a cumida ficarrr mais sardáver)
1 xícara de açúcar mascavo (usei cristal, porque tinha acabado o mascavo e aí detonei toda a saúde dos ovos caipiras, ô coisa)
2 xícaras de farinha de trigo integral
canela em pó à vontade, de acordo com seu humor (usei bastante)
1 colher de chá de extrato de baunilha
1 colher de sopa de fermento em pó 

Modo de fazer

Sorria.
No liquidificador bata o óleo, os ovos e duas maçãs picadas.
Transfira a mistura para uma tigela e adicione o açúcar; mexa bem. Em seguida, adicione a farinha de trigo e mexa bem também. Acrescente a canela, o fermento e o extrato de baunilha e misture tudo. Por fim, acrescente a terceira maçã, picadinha. 

Usei uma forma de 20 cm e assei em 50 minutos, a 200C. E deu certo. :-)

O bolo é muito fofo, uma coisa! Dica: se as maçãs que você escolher forem muito pequenas, use duas no final (picadinhas). 


Pérola, querida, o café está pronto. 

Anginha, eu queria te mandar uma fatia, mas tenho medo que fique encalhada na Receita. :-/

Pode ser daqui a pouco?



Sabe aqueles dias em que as horas se atropelam e você acha que não vai conseguir dar conta de tudo? E aí o dia acaba e, de fato, você vê que não deu conta de tudo? Que, longe disso, você deixou um monte de coisas penduradas para o dia seguinte? E você sabe que não vai rolar no dia seguinte, porque você já está comprometida com outros planos? Então.

Hoje meu telefone não parou de tocar, meu fax emperrou, a rede caiu, os e-mails não rolavam e eu precisava de um laptop que estava trancado na sala do chefe que está de férias. Mas eu não estava de férias e em determinado momento, num espaço de cerca de quarenta minutos, recebi chamados de três setores diferentes que precisavam, ou achavam que precisavam, de mim com urgência e, como assim, não pode ser agora? E aí o marido avisa que o negócio no banco não é assim tão simples e não tem passagem para o dia em que queríamos voltar da Inglaterra, paciência, voltamos dois dias antes, não há de ser nada e amanhã a gente vê o negócio do banco, e, pior de tudo, quando dei por mim o café já estava frio, damn it. E aí o moço do outro órgão comenta que essa já é a quinta tentativa de passar o fax, mas, moço, não é minha culpa, é que não estou na sala o tempo todo e a máquina tá doida, mas essa não é a sua sala?, é, mas estou em outros lugares também, tente esse número, já tentei, bla bla. Chegou?, sim, nossa, finalmente, obrigado, pode ser para amanhã? Não, amanhã não estou aqui, vai estar no outro setor? não, também não, mas..., não, sem mas, não estou aqui amanhã, então passe para outra pessoa, sim, vou tentar, vai conseguir?, vou tentar; é urgente; não se preocupe, moço, vou fazer o possível; você acha que vai dar? (1... 2... 3... 4...), espero que sim. (Não sei, meu, juro que não sei.) Respira, ooommm, sobe escada para economizar elevador e mexer as pernas e aí o colega tinha fumado no vão da escada e você chega lá no quarto andar morrendo e xingando baixinho. 

E aí as boas colegas te salvam. Ai, obrigada, gente. Até depois de amanhã.

O feijão

Ontem perdemos o sono, Odisseus e eu. Assim:

- Você tá acordada?
- Um-hum. Perdi o sono.
- Eu também. Quer conversar?
- Um-hum, se você quiser.
- ...
- ...
- Será que é ansiedade pré-viagem?
- Serááá? Não, acho que não...
- ...
- ...
- Cê num tá se sentindo ansiosa?
- Vou tentar não me sentir, por causa das crianças.
- Hum...
- ...
- ... zz..zzzz
- zzzzzz

Ai, ai, ai... a minha inocência: "vou tentar não me sentir ansiosa". Assim, sabe? Não vou me sentir, pronto. Sei. Bom, também não era assim um superinsônia e logo dormimos. Mas hoje fiquei pensando se não estou ficando eh... ansiosa com a história de cruzar o Atlântico com meus pititicos. Não há muitos motivos para grandes barulhos, na verdade, porque, afinal, vamos ali e logo voltamos, dois meses são um passeio no parque.



Quando penso nessa viagem, na verdade, o que mais me vem à cabeça é que estamos tirando férias prolongadas. Vocês vão me achar muito folgada se eu falar que às vezes mal me lembro que estou de licença e que estou indo pra lá para estudar? É que não adianta, o grande lance dessa viagem é mesmo ficar o tempo todo com as crianças. Porque mesmo sendo pais deles desde que eles nasceram, o fato é que, excetuando-se as licenças maternidade (e mesmo aí não se inclui o Ulisses), nunca ficamos tanto tempo o tempo todo com eles. O convívio com nossos filhos inclui creches, escolas e babá e muito do nosso tempo acaba mesmo sendo vivido longe deles.


Em Londres, não, seremos os quatro o tempo todo. Mais minha sogra. E meu cunhado, por uma semana. Bom, mas seremos nós quatro, é isso que quero dizer. Nas manhãs em que teremos aulas, minha sogra assumirá o comando da duplinha (ou a duplinha assumirá o comando dela, logo saberemos), mas, fora isso, seremos nós em todos os banhos, refeições, trocas de roupa e mudança de humores. E é isso que mais me empolga nessa história toda, porque sei que será muito bom ficar mais perto da Amanda agora, em sua primeira adolescência (pra quem chegou agora, Amanda tem 2 anos e muita vontade), e que vou curtir um monte as descobertas do Arthur.


Mas mesmo sabendo que tudo vai ser uma grande folia e que dois meses passam num piscar de olhos (o Natal foi bom? Já estamos em março), sair do ninho deles por oito semanas vai ser a maior aventurinha das vidinhas deles até aqui. Ou não, né? Se brincar, por estarem conosco o tempo todo, eles até vão se sentir mais "em casa" do que normalmente se sentem. Hum... talvez não. Ah, não sei. A conferir.


Seja como for, quem tem raiz é árvore e eu quero mais é que eles cresçam com a sensação de que o mundo por aí afora pode ser bem diferente das paredes de nossa casa. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Com comidas, sons, cheiros e cores diferentes. Com pessoas cheias de hábitos diferentes. Com carros com a direção do outro lado e ônibus de dois andares. Nem que seja só para lembrar depois, dentro do aconchego insubstituível de nossa sala. Aconchego que também levaremos junto, porque vem da companhia que fazemos uns aos outros.


E, além do mais, quem foi que disse que criança precisa comer feijão todo dia, né?


Ai, o feijão... lembrei do motivo da insônia.

Lost forever



SPOILER - TEMPORADA FINAL DE LOST

O avião caiu, o avião não caiu.
Locke - não-Locke
Explodiu - não explodiu
Sayid morreu - Sayid não morreu

Ai... Lost. Já falei deles aqui, lembram? Nos últimos dias eu andava à beira de um chilique porque todo mundo, menos eu e Odisseus, já estava acompanhando a temporada final. Aí entro no twitter e vejo o povo falando do Ben e do Sawyer, e eu ali, sem querer ler para não perder a graça, mas sem condições de acompanhar no horário do AXN. Ai, senhor, quem me salvará.
  
Mas ontem finalmente assisti a três episódios de um gole só para acalmar a síndrome de abstinência. Deu certo, já parei de tremer. Mas, eh... what?? Se antes, com um exemplar de cada personagem, já tava aquilo que Lost é, imaginem agora, com dois Lockes, dois Jacks, dois Desmonds... dois de tudo. Sem falar que antes algumas coisas eram realmente simples: quem morria ficava morto e a gente pelo menos achava que sabia que aquele cara era Locke mesmo. Ah, mas isso de morrer assim, normalzinho, e de a pessoa ser quem a pessoa é o tempo todo, isso tudo é coisa de Sessão da Tarde. Lost não, Lost confunde mesmo que quem quer entender assiste novela.  Lost é pra gente ficar assim, doido por uma coisa que não faz o menor sentido, mas é tão bom, tão bom, tão bom, que a gente nem se importa. Eu já nem acredito mais que aquele povo é ator. Já ando aceitando a ideia de que eles são daquela ilha mesmo e que é tudo baseado em fatos reais. A vida não é assim, toda confusa? Então. Normal. 

E, para quem não viu no twitter (tentei achar o link pra botar aqui, mas o link quebrou, sabe como é Lost):

Jack pergunta para Locke, todo impressionado: "Cara, você viu Avatar?!". E aí conta pro Locke que Avatar é sobre um cara paraplégico que vai parar numa ilha muito doida e volta a andar e ainda vira líder! Hahahahahaha!! Melhor risada da semana! (no twitter, by @carolithas)

Assim também já é demais



No DVD, o filme Tá Chovendo Hamburguer. Sentada, excepcionalmente, no meu colo, Amanda faz perguntas. Eu me esforço. 

- O te é isso, mamãe?
- Uma salsicha.
- O te é isso, mamãe?
- Uma azeitona, filha.
- O te é isso, mamãe?
- Uma jujuba...
- O te é isso, mamãe?
- Hum... acho que é um pãozinho.
- O te é isso, mamãe?
- Putz, filhota, deve ser uma gelatina, né?
- O te é isso que vai passar agora, mamãe?
- ??!!!?!

Ah, não!
:-)

Mães (assim, no plural)



Tenho um punhado de amigas e colegas que se tornaram mães há pouco tempo. Seus bebês têm algo entre dois e seis meses e todas estão em licença maternidade, dedicando-se com a "devida" exclusividade à tarefa de acertar os ponteiros com seus respectivos rebentos e atoladas até o pescoço em fraldas, mamadas e pediatras. E conflitos. Nem todas, ao que parece, mas algumas delas estão encarando um ingrediente extra na já animada salada que é a chegada de um filho: certa culpa por sentir saudades da antiga rotina.

Ontem, quando li esse texto da Amanda, blogueira do Porte Dorée, fiquei pensando nelas e no tamanho da pressão que algumas mulheres enfrentam pelo fato de destoarem de certas tendências mainstream no quesito "ser mãe". E aí me pergunto: se admitimos com relativo conforto que cada cabeça é um mundo, que somos livres para adotar o estilo de vida que quisermos, para seguir a carreira que nos der na telha, para investirmos no tipo de relacionamento que julgarmos bom, para fazermos o que quisermos com nosso dinheiro, etc., por que cargas d'água não podemos pegar um pouco mais leve quando o assunto é maternidade? Por que descer o martelo com tanta inclemência e sair rotulando de egoísta a mãe que resolveu interromper mais cedo a amamentação direta de uma criança saudável para retomar seu trabalho? Sim, porque não basta tirar o leite materno e oferecê-lo na mamadeira: mãe que é mãe amamenta direto do peito, sempre.

Minha desconfiança de que o desconforto enfrentado por algumas amigas tinha suas raízes na aura supermãe que anda rondando nossas cabeças se confirmou quando uma delas comentou que tinha certeza de que estava sendo vista como uma megera por não entrar de férias logo após a licença maternidade. Ansiosa, começou a comparar sua decisão com a de outras conhecidas, medindo as escolhas e se sentindo a última das criaturas. Tipo assim, uma mãe ruim.

O irônico é que essa amiga em particular tem dedicado ao cuidado com os filhos muito mais do que ela jamais suspeitou que faria. Sua jornada de mãe de dois filhos pequenos, ambos com fraldas, tem sido árdua, com horas incertas de sono e muito cansaço. Não há monotonia e ela se sente apaixonada por suas crianças, daria um braço por uma cólica a menos, mas também sente falta de sua rotina de mulher do mundo, de seu trabalho, de sua carreira, seus investimentos intelectuais. E, honestamente, o que há para se censurar?

E eu fico aqui pensando que parte (parte, tá?) dessa culpa toda vem do fato de aceitarmos de maneira inquestionável que cabe exclusivamente à mãe o cuidado com os recém-nascidos, já que ela amamenta e coisa e tal. E sabemos que há em vigor certa alteração de paradigma que tem aproximado os homens de suas crianças, mas aparentemente não o necessário para livrar da culpa aquelas mulheres que, mesmo diante do maior amor da vida delas, sentem-se arrancadas de seu mundo quando o filho ou filha nasce. E talvez um bom fator para explicar melhor o que quero dizer seja a diferença entre as licenças maternidade e paternidade. Seis meses versus quatro dias.

A diferença nas licenças, a meu ver, já oficializa sobre quem a pressão vai cair. E antes que alguém esperneie e me pergunte se estou advogando a diminuição da licença maternidade, digo que não, eu queria era aumentar a deles. Ou, ao menos, quem sabe, que fosse dado a cada casal o direito de optar ou não pela divisão do tempo de licença, como se faz na Suécia, segundo li em alguns blogs de brasileiras que moram lá (como tem brasileiro na Suécia, gente!). Ou qualquer outro modelo melhor que alguém tenha em mente. Porque se governo e sociedade sinalizarem que os cuidados com os filhos cabem de igual forma a homens e mulheres, a balança da pressão muda. E é bom pensar nessas coisas, porque se morássemos nos EUA, por exemplo, teríamos que nos acostumar rapidinho com bombinhas extratoras de leite e mamadeiras porque lá a licença maternidade é minúscula. Para outros contextos distintos, vide texto da Amanda. E não dá para dizer que as mães americanas que não largam seus empregos são todas egoístas desalmadas, dá?

Mas o principal mesmo, algo que faria uma imensa diferença na forma como algumas mulheres experimentam a culpa por quererem sair de casa enquanto têm seus bebês pititicos, é revisarmos os rótulos que distribuímos por aí. Porque a verdade é que não é fácil mudar de forma tão radical nossas rotinas. Pode ser a maior alegria de nossas vidas, mas filhos trazem junto uma carga imensa de responsabilidade que assusta algumas, impressiona outras, desafia muitas. E as engenheiras não deixam de ser engenheiras quando viram mães, as domésticas continuam domésticas, as médicas ainda serão médicas, professoras serão professoras com filhos, etc. Não somos mães ponto final. Somos mães também, em um mundo instigante, com espaço conquistado a duras penas por quem veio antes de nós. E queremos continuar nele, sem culpa. Ou não! Porque o barato é a escolha e muitas mães vão até abdicar de suas carreiras e tudo bem também. São escolhas pessoais que apertam em lugares diferentes conforme o pé de cada uma. De minha parte, ando mesmo buscando uma jornada inversa que me dê mais tempo para os pequenos prazeres que o convívio com minha família me traz do que grandes conquistas profissionais. Mas  essa sou eu agora, nesse mês.

Então não rotulemos. Não tenho nenhuma amiga que não ame seus filhos. Tenho amigas com culpa por se sentirem julgadas. Aí não, né?

Então recomendo o texto da Amanda porque aponta para diferenças culturais interessantes que nos ajudam a lembrar que o mundo é enorme, mas que, aonde quer que a gente vá, está cheio de mães com condutas mais ou menos atraentes a nossos olhos. Talvez possamos ensinar algo às mães do mundo com nossas escolhas, e talvez possamos aprender um pouco também. Mente e coração abertos, sempre. Deixemos o "mãe é tudo igual" para quando quisermos rir de nossos conflitos de gerações; na real, se cada mulher é única, como é que toda mãe vai ser igual?


"Sozinha, mamãe"


Não sei quando a minha filha de dois anos vai perceber que pode contar com a gente. Ela até aceita um ou outro agrado, quando quer, mas, no geral, ainda não se deu conta de que aceitar ajuda não necessariamente ameaça sua independência.

Como boa parte das crianças de dois anos e meio de idade, Amanda já tem muita autonomia. Come sozinha, corre destemida a velocidades insuspeitas para alguém com menos de um metro, conversa e se faz entender, usa o banheiro, escolhe os brinquedos, monta quebra-cabeças, folheia livrinhos, dá opinião (essa busa não, mamãe, essa aqui), liga e desliga DVD players, TVs, aparelhos de ar. E tudo ótimo. A questão é o excesso de autonomia que ela acredita ter e que a leva a rejeitar ajuda em momentos em que uma mãozinha seria muito bem vinda.

É muito bom vê-la tão independente, claro. Mas andar de mãos dadas em algumas situações, além de prático, é mais seguro. Mas ela não quer saber disso. E colo é algo raro, claro. Porque ela não veio ao mundo pra ficar no colo. Amanda quer subir a escada (a rolante também), descer a escada, escalar o corrimão da escada, escalar o armário, subir na cadeira (no cadeirão, que ainda usa, também), descer do banco alto, entrar e sair do carro, abrir, fechar, trancar e destrancar portas, quaisquer portas, lavar o pé, escovar o dente, servir a farofa, nadar, tudo sozinha.

E por mais que eu admire sua independência, há vezes em que sou obrigada a pegar firme e ameaçar interromper o passeio caso ela não aceite o colo para subir a escada rolante; ou dizer que estou vendo uma supercacaca no dente para que ela me deixe escová-los sem grandes berreiros (porque se não deixar, vai com berreiro mesmo); ou pô-la de castigo por ela ter escalado pela milionésima vez uma banqueta alta e sem nenhuma estabilidade. Tuuudo normal. Mas, ah, eu queria que ela aceitasse uma ajudinha de vez em quando, ah queria. Sem criar caso, só pra variar. É que tanta independência não veio sozinha. O pacote inclui ainda um gênio forte e uma acentuada disposição para confrontações. E dois pulmões fortes. Bem fortes.

Oi, mãe, tudo bem? É, eu sei. Mundo redondo, né? Ô coisa.

Presta atenção, Arthur


Simbad está em apuros! Ele e sua tripulação estão hipnotizados pelas mágicas sereias de Tártaro, criaturas do  mundo das águas que enfeitiçam os homens com seus cantos e encantos malignos, conduzindo-os à terrível sina do afogamento... Tchan tchan tchan tchan.... A destemida Marina, por ser mulher, passa incólume pelo canto traiçoeiro das sereias d'água e assume o timão do navio! Yes! Ela conduz a gigantesca embarcação pelas águas turbulentas do oceano de Tártaro e, com inigualável bravura, salva Simbad e vários outros tripulantes da morte certa e...

Do sofá, Arthur, do alto de seus quatro anos, com voz de desdém, declara:

- Mas mulher nem sabe dirigir barco...

No outro sofá, a voz me falta. 

No tapete, Odisseus salva:

- É claro que sabe, filho, olha aí!

E Marina segue salvando os palermas abobados por causa das sereias. Viu, Arthurzinho? 

Eu, o Urtigão


Não tenho nenhum orgulho disso, mas eu tenho mau humor. Vem do nada, de vez em quando. Às vezes passa rapidinho com uma xícara de café. Às vezes azeda meu dia inteiro.  

Hoje estou de mau humor. Não há motivos, nada aconteceu. Se há motivos para alguma coisa são para risadas e vivas. Mas não, estou emburrada.

Não foi por Avatar ter perdido o Oscar,  não, não. :-) Ainda não vi Guerra ao Terror, mas quem viu diz que tá tudo certo. Também não estou chateada pelo pessoal do meu trabalho ter oferecido um curso de maquiagem para comemorar o dia da mulher. Eu entendo. Eu percebi que queriam ser gentis. Mas, ai, sabe? Bom, deixa pra lá. 

Aí eu já estava daquele jeito, mas meu filhote ainda saiu correndo no estacionamento movimentado da escola e o perdi de vista por longos dois segundos. Pronto, o coração quase parou. Credo, que drama. Nem foi nada, sabe? Mas o fato é que aí emburrei de vez. 

Passei aqui só para dizer que não estou me aguentando. Não é TPM, não é a sétima casa de Marte em conjunção com a quinta casa de Saturno, não é nada. É só chatice. Não sei como vocês me aguentam. Aff. 

Comemorando

O sexo frágil


Parabéns!


Você já pode sair à rua sozinha, em qualquer horário, sem ter medo de ser assediada ou violentada;

você é senhora de suas escolhas sexuais, assim como os homens, sem ser tachada de "fácil" ou "vagabunda";

você jamais será assediada em ônibus e vagões de metrô lotados;

você não precisa ser bonita e se vestir superbem para ser vista como profissional respeitada - tudo que importa é sua capacidade intelectual;

todos os homens já entenderam que os filhos são deles também e por isso não há mais litígios quanto ao pagamento de pensões alimentícias;

se você ficar grisalha, assim como com os homens, vai ser vista como charmosa, não como descuidada;

todos os homens já entenderam que se dirigir a uma mulher desconhecida na rua com termos como "gostosa" não é elogio.

E por aí vai.

* * *

Para ler e pensar:

texto da Marjorie (2009) - infelizmente, a Marjorie parou de blogar (pequeno adendo: de minha parte, retiro os palavrões para não dar um tom violento ao texto);
blog da Lud, todo dia (ela viajou, mas volta já)


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Pequena atualização ortográfica: desculpas, língua portuguesa. Já corrigi. (Vocês viram? Não? Ufa! Sim? Foi mal.)

 
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