Chega de papo


E aonde vocês acham que todos aqueles papos sobre comida e livros de receitas iriam me levar, hein? Pois é. E aí fiz meus primeiros friands. A receita está no blog da Patrícia. Notem que transformei os friands de cereja dela em friands de morango e nem me dei ao trabalho de pedir permissão.


Devo dizer que não foi assim o maior sucesso do mundo pois as crianças os esnobaram sem o menor pudor. Quer dizer, com algum pudor, porque o Arthur ainda foi gentil e comentou "eu gostei um pouco, mamãe". Mas a Amanda... nem tchun. Jááá o parceirão Ulisses... para experimentar, comeu quatro. :-)

E não deu nem tempo de publicar o post, já acabaram. Todos quinze. :-P

E aí aproveitando a onda, também fiz o bolo mais fofo do mundo. Recomendo sem reservas: o bolo com cobertura de canela agradou filhotes, marido, sobrinho e sogra. Vocês vão ver lá no blog da Patrícia que a receita fala em bolinhos menores, bem lindinhos. Mas usei uma forma de 20cm, assei tudo de uma vez só e deu muito certo também. A receita rende um bolo não muito grande, mas acompanhado de muitos elogios. A foto fica para uma próxima vez porque andamos todos muito gulosos ultimamente. A trilha sonora é mais ou menos assim:

- Tim! (forno)
- Plec, plan, plec, tac. (pratinhos na mesa)
- Nham!

:-P

Eu acho

Eu acho que a gente bem que poderia fazer um pouquinho mais de barulho, sabe? Porque se a gente parar e pensar, é maior que uma copa, que uma medalha de ouro. É, de certa forma, a celebração do fato de que muitos brasileiros saíram da miséria nos últimos anos e que a economia do país não precisou se quebrar para que isso acontecesse. O país não está cor-de-rosa, não é o caso de armarmos a rede e botarmos os pés para cima. Mas se o melhor argumento do contra for algo na linha "Davos precisava do Lula lá para ficar bem na foto', respondo: ué, e se for, isso é pouco? Sete anos atrás, Lula não era ninguém em Davos. Hoje é quem faz a foto ficar bonita. Olha só.

E estou orgulhosa, sim. Então acho que falaram pouco, comemoraram pouco, noticiaram pouco. E aí parece boicote. E acho uma pena enorme que aquele menino que nasceu lá no Sertão, aparentemente condenado à miséria e à eterna invisibilidade, tenha ficado doente bem no dia de embarcar para ler um discurso tão lindo em uma ocasião tão especial. E eu também queria viver em um mundo onde o Fórum Social tivesse mais poderes que o Fórum Econômico, mas isso em nada invalida a premiação. Ora, a gente torce até pro Oscar! Então acho que é algo merecedor de muita comemoração, sim. Mas fico com essa incômoda sensação de que quem está lá fora reconhece mais o valor da coisa do que nós que estamos aqui e que somos os verdadeiros premiados. Sei lá, fica parecendo que um monte de gente que nem sabe onde o Brasil fica no mapa reconhece mais nossos avanços do que nós.
  
Eu acho.

O dia em que meu livro de receitas quase morreu afogado



Podem chamar o PROCON, o título deste post é pura propaganda enganosa. Porque eu não sei em que dia o meu livro de receitas quase morreu afogado - e o livro de receitas nem é propriamente um livro de receitas. Explico.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer (para os novos transeuntes, porque quem já caminha por aqui há mais tempinho já percebeu isso) que não sei cozinhar. Nada. Sozinha, não crio nada, não invento receitas, não sei que sabores combinam com o quê, não sei para que serve a noz moscada ou por qual razão o creme de leite, ás vezes, precisa ser fresco. Mas isso obviamente não me impede de ser uma grande admiradora das artes culinárias ou apreciadora do fim maior da culinária: comer com prazer. E como vivemos em um país livre e democrático, nada nem ninguém pode me impedir de me aventurar na cozinha. Claro que de minhas aventuras no melhor lugar da casa nunca sairá nada como as façanhas de Julie Powell, mas eu sou facinha e me contento em acertar um bolo aqui, outro ali, assar uns tantos muffins para as crianças, experimentar a receita de uma amiga ou bagunçar a cozinha com Odisseus.


E daí vem que nos últimos meses sempre que me encaminho to the kitchen, levo comigo meu fiel e paciente Todas as técnicas culinárias do Le Cordon Bleu. De suas páginas já pularam para minha cozinha um inofensivo e delicioso pão de ló com ganache, receita que segui à risca testando o ponto das claras com seus "oitos" desenhados e tudo mais (é claro que adorei ver a Meryl Streep testando o ponto de claras na cozinha do Cordon Bleu!); também experimentei um rocambole desastrosoqueimei os biscoitos amanteigados. Ou seja, o livro não mudou a minha vida. Mas eu sou teimosa e me divirto igual, então, vira e mexe, lá vou eu com o Cordon Bleu para a cozinha, pobre de mim. E tem sido assim até mesmo quando me proponho a executar (pode ser no sentido "assassinar", sim) receitas vindas de outras fontes, simplesmente porque me habituei a recorrer à tabela de medidas que o livro traz em suas páginas finais.

E tudo me leva a crer que esse hábito simplório de quem não sabe cozinhar sem medir tudo e verificar cinco vezes se são quatro ou cinco ovos foi o responsável pelo afogamento parcial do meu precioso livrinho. Eis os fatos: mantenho o livro guardado numa espécie de aparador próximo à mesa da sala de jantar. Sempre que o uso, levo para a cozinha e normalmente o devolvo ao lugar seguro no aparador, cheia de ciúmes e cuidados (além de útil, o livro é lindo). No final da semana passada, recorri a ele para conferir as medidas de um apple crumble (receita que já fiz mil vezes, reparem, mas ainda confiro as medidas, ai, meus neurônios) e qual não foi minha surpresa ao perceber que a capa da frente e praticamente um terço do livro estavam úmidos. Bem úmidos, ainda frios. Não quero fazer drama como uma menina mimada, mas é claro que na hora em que percebi a... hum.. tragédia, pronto, falei, fiquei, sim, muito triste. Algumas muitas páginas estão coladas entre si até hoje porque ainda não tive coragem de tentar separá-las, sei que vão se rasgar (e aí eu vou perder a chance de estragar todas aquelas receitas, ora pois).

E isso é tudo que sei. Não faço ideia de como a coisa aconteceu. Num primeiro momento desconfiamos do ar condicionado instalado acima do aparador, mas não há qualquer sinal de vazamento que, se houvesse, teria certamente deixado outros rastros pelo aparador. Nada, tudo seco, abandonamos essa "linha de investigação". Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Eu sou a única pessoa que usa o livro na cozinha (nossa cozinheira não precisa; ah, o que os chefs do Cordon Bleu não dariam para aprender os segredos dos temperos da Maria...). Então suspeito sinceramente que eu mesma tenha sido a causadora do dano. Simplesmente porque essa é a explicação mais simples e quase óbvia. Eu devo ter apoiado o livro na bancada da cozinha enquanto o consultava (provavelmente na semana do Natal) e não reparei que o local estava molhado. Perfeitamente possível, já que é comum eu apoiá-lo próximo à batedeira, geralmente posicionada bem perto do escorredor de pratos. E não me admira que as páginas estejam ainda úmidas, já que o livro permaneceu fechado durante várias semanas. Enfim, alguém tem uma explicação melhor?

O livro permanece aberto sobre a mesa da sala, à espera de que a umidade diminua e, com fé, eu consiga salvar mais algumas páginas.

E, finalmente, para fazer justiça, é preciso dizer que não se trata apenas de um livro de receitas. Como já está explícito no título, trata-se de uma compilação de diversas técnicas culinárias que, por sua vez, são ilustradas com receitas aparentemente maravilhosas (a conferir ao longo dos anos). E por isso comprei o livro, para me ajudar a aprender a cozinhar. Mas, ao que tudo indica, antes preciso aprender a secar a bancada da pia.

:-(

O blog que virou livro que virou filme que me matou de rir

 Meryl/Julia, maravilhosa, e a blogueira/escritora Julie

Já passa da meia-noite, eu preciso levantar cedo e não posso ficar muito por aqui agora, mas não conseguiria ir dormir sem antes vir dizer que vocês não podem deixar de ver o filme Julie & Julia. Provavelmente só vou editar este texto amanhã (que já é hoje), mas faço questão de começar a escrevê-lo agora porque ainda estou sob aquele efeito meio entorpecente que o bom cinema nos dá. Sabe quando a gente sai da sala do cinema e o filme sai um pouco com a gente, domina a conversa no carro no caminho para casa e ainda rende boas risadas na cozinha durante aquele lanchinho inevitável antes de dormir? Pois bem.

Eu me diverti durante toda a sessão, dei ótimas e longas gargalhadas, identifiquei-me com um monte de coisinhas, mas, principalmente, renovei com forças meu amor e minha veneração por Meryl Streep, para sempre minha atriz favorita, minha referência no quesito talento. E Meryl brilha da primeira à última cena, ao longo de todo o filme, em cada olhar, cada trejeito, cada frase. Divina, engraçadíssima, dona absoluta do papel.

No filme Meryl é Julia Child, uma americana que, na década de 50, muda-se para a França por causa do emprego do marido. Em Paris, Julia cai de amores pela culinária francesa e suas muitas manteigas, descobre-se dona de um talento apurado para a cozinha, matricula-se na conceituada escola de culinária Le Cordon Bleu e embarca na aventura de escrever, em parceira com duas amigas, um livro de receitas da cozinha francesa destinado ao público americano. Note-se que falamos da década de cinquenta, quando tal empreendimento significava datilografar centenas de páginas, com suas respectivas cópias feitas com carbono, e refazê-las a cada correção. O projeto se estende além do aceitável em dias atuais e assistimos à odisséia toda hipnotizados por Meryl.

Porém essa é só metade da história e logo o filme nos apresenta Julie Powell, interpretada por Amy Adams, uma novaiorquina de vinte e tantos anos que em 2002, décadas depois de Julia ter finalmente publicado seu livro, divide seu tempo entre ser funcionária pública durante o dia e blogueira durante a noite (ahn... conheço alguém assim). O blog de Julie nasce em meio a um certo questionamento existencial gerado pela insatisfação com seu trabalho (hum...) e outras crises (hummmmmmm........) e tem um propósito bem específico: fã da história e das receitas de Julia Child, Julie decide testar as mais de quatrocentas receitas do famoso livro de Julia ao longo de um ano e postar sobre os resultados. Quatrocentas e tantas receitas em 365 dias: The Julie/Julia project.

À medida que Julie se aventura na cozinha e produz seus posts, vemos que seu projeto a envolve muito mais do que ela poderia supor quando iniciou a brincadeira e seu blog acaba conduzindo-a por viagens pessoais e profissionais que vão muito além do inofensivo propósito inicial de testar receitas. Que bom.

Julie & Julia é delicioso (em vários sentidos, não vá ao cinema com fome) e há momentos hilários (venham depois me contar sobre a cena da cebola, o horror da lagosta, o primeiro comentário no blog da Julie). Mas acho mesmo que o mais gostoso disso tudo é que o filme é baseado "em duas histórias  reais": esse é o blog da Julie Powell, que virou livro que depois inspirou o filme, hoje desativado e cujo post final é dedicado a Julia Child no dia de sua morte, em 2004; esse é o outro blog da Julie já famosa após a publicação de seu livro que viraria filme estrelado por Meryl Streep - esse segundo blog foi iniciado em 2005 e está ativo até hoje; e esse aí embaixo é o livro da adorável Julia, escrito ao longo de oito anos, datilografado em vários países à medida que ela acompanhava o marido em suas missões e várias vezes rejeitados por umas tantas editoras. O filme costura os dois mundos e os coloca em seus devidos lugares: um dentro do outro. E agora eu fico aqui com vontade de telefonar para Meryl Streep e pedir que ela venha me fazer um boeuf bourguignon ou me ensinar a desossar um pato. Ou simplesmente sentar para um chá.


O livro que mudou a vida das duas.

Ao cinema, já!

***

E se você ficou com a impressão de que já falei do Le Cordon Bleu aqui no blog, tem razão. Mas este post já está bem longo então vou deixar para amanhã a história do dia em que meu livro de receitas quase morreu afogado. Ao contrário da Julie Powell, que transforma sua vida a partir de um livro de receitas, eu consigo ser tão desastrosa na cozinha que até o livro que me serve de guia eu consigo estragar. 

Fora de ordem

 

Eu, em Marte, com meus bisnetos, organizando as fotos que tirei ontem: "essa aqui é a sua avó Amanda, bem pequenina".
 

Essa coisa de visualizar as fotos imediatamente após o clic tem lá suas consequências (os leitores mais novos vão dizer: ué, e não foi sempre assim, não? Não, pititicos, não foi.). Antigamente era diferente, claro: revelar era condição sine qua non para que a gente pudesse atingir o objetivo que normalmente temos em mente quando tiramos uma foto: ver a foto. Hoje não. Hoje em dia reclamamos que "ai, essa máquina é muito lerda! Leva um ano (um segundo) para exibir a foto que acabei de fazer agora-mesmo-nesse-instante-muito-rápido-que-tudo-hoje-em-dia-é-corrido-não-quero-esperar-anda-anda-anda-mostra!". Ui. E aí, pronto, já vi, nossa, ficou ótima, depois eu mando revelar. A-hã. Depois.
 
Daí que virou o ano e meus arquivos de fotos no computador ainda respondem pelos nomes de ...2007, 2008, 2009 e só. Enquanto isso na máquina já se espremem dezenas (centenas?) de fotos por editar, à espera de uma alma piedosa que as transfira para o computador, dê-lhes legendas lindas e originais (Arthur nadando; Arthur nadando.2; ...Arthur nadando.8 - meu deus, por onde andam meus neurônios) e essenciais para que se entendam as fotos (Amanda dormindo; Amanda tomando suco; Arthur olhando para a câmera; Arthur e Amanda de mãos dadas). Mas essa tal alma caridosa não vem. Além disso, desde que ganhei a máquina mais recente (deixe-me ver, há uns três anos?) venho jurando que vou instalar o programinha que gera a data na foto. Mas não instalo. Então as minhas obras de arte, reveladas muito tempo depois de tiradas, recebem legendas vagas nos álbuns: abril de 2008 (pode ser maio); verão de 2008/2009. Mas tá bom.
 
Quer dizer, bom não está, pois imagino que um dia, a bordo de uma nave espacial, viajando para visitar os bisnetos que terão se mudado para Marte, vou querer rever esses álbuns e curtir os detalhes, vasculhar minhas lembranças à cata de algum eventinho absolutamente insignificante para o mundo e fundamental para minha própria história e então vou querer vinculá-lo aos tais registros fotográficos. E aí as datas estarão ausentes ou erradas, alguma sequência burlada ou, horror dos horrores, umas tantas fotinhas sem suas valiosas legendas. E minha memória caquética vai me confundir toda: isso foi em Florianópolis ou em João Pessoa? Nessa foto Amanda tinha um ano e oito meses ou um ano e sete meses e meio? Nossa, vai ser a maior confusão.
 
Mas, olha, eu ando em um processo de desestressização. É, inventei. Não vou, digamos, forçar minha natureza, sabe? Não sou o que comumente se chama de uma pessoa desorganizada, mas bagunça e perfeccionismo me incomodam quase que na mesma medida. Até que convivo bem com pessoas perfeccionistas e chego mesmo a admirar sua capacidade de... perfeição (?), mas não é algo que eu almeje, honestamente. Vou deixando que minha vontade me guie (afinal, de que me serve ser adulta?). Às vezes lamento que alguns lindos momentos (aawwww...) de meus filhotes passem sem registro, mas não se pode controlar tudo. Não sei, acho que passei a ver um pouco de ansiedade demais na tentativa de registrar cada passo da criançada. Quero não. Vou fotografando assim, quando der na telha, sabendo que para cada flagrante impagável haverá dezenas de momentos que se cumprirão inteiros em sua fugacidade. E só. Puf, foi. A vida é assim. No final das contas, por mais fotografias que eu produza, elas serão apenas recortes de algo infinitamente maior que as tentativas de aprisionar aqueles segundos. Eu as adoro, claro, mas não quero ser dominada por uma ânsia maluca de registrar cada movimento dos pequenos. Então pisei no freio. E olha, ainda haverá milhares delas. Aff...
 
E é óbvio que adoro chegar à casa da minha mãe e ver os álbuns de minha infância (sempre fonte inesgotável de boas risadas - o que eram aqueles cabelos?!!) ou as poucas fotos da juventude dela (sempre fonte inesgotável de espanto: o que era aquela pele?!!). Mas não vou cair na armadilha fácil de me achar uma mãe desleixada por não atingir o mesmo primor de "cada foto com sua legenda, em ordem cronológica irretocável", porque não há como comparar o volume de fotos de outrora com a nossa loucura clic-clic de hoje. E eu vivo hoje. 
 
Então vou arrumando quando dá, colocando minhas legendas quase fiéis, revelando fotos tiradas há seis meses. E, quer saber? Quero mesmo um álbum digital que me liberte da necessidade de imprimi-las. Ou pelo menos que me deixe imprimir apenas aquelas com que pretendo presentear as vovós e os titios. Não, não servem os flickrs ou picasas. Quero algo portátil que eu ponha na estante e, quando quiser, olhe deitada na cama com as crianças. É isso. Um kindle para fotos. Alguém tem um aí? É bom? Vende onde? Custa quanto? Aceita cartão? Quero um. Vai ser mais fácil de levar pra Marte.
 
__________________
 
Desculpa, mãe. Vou revelar e mando já, tá?  Prometo.
 

La couleur rouge



E a foto não lhe faz justiça. O vermelho real é inacreditável.

Minha sogra já botou o Ulisses no mundo, então não precisa fazer mais. Mas ainda me veio com essas gérberas vermelhas lindas. Caí de amores. De novo.

Aquela coisa chamada mulher



Aberto para ver o quê?

Cerca de uma hora na frente da TV e vi:

1. Uma "reportagem" sobre um ensaio fotográfico para o livro dos recordes - o maior número de mulheres em trajes de banho longe do mar. Cerca de 200 mulheres de biquíni.

2. Uma reportagem sobre os benefícios de tal tipo de gordura que se acumula em determinada região do corpo - a matéria foi ilustrada por várias bundas de mulheres. Os jornalistas acharam uma boa ideia ir a uma quadra de escola de samba para ensinar os telespectadores a calcular o índice da tal gordura.

3. Uma reportagem sobre quadrigêmeas com sete ou nove anos, não lembro. As meninas são mostradas no salão de beleza, uma maquiadora passando batom nelas.

4. Um show da dupla Não Conheço & Nunca Vi: 80% dos takes da matéria partiam da parte de trás do palco, mostrando em primeiro plano as dançarinas rebolando de minissaias.

Ai, não aguento. Precisa dizer que programa eu assisti? E fico me perguntando por que cargas d'água funciona assim. Não é cansativo ficar vendo mulheres retratadas como objetos de voyeurismo, o tempo todo? Credo, parece doença. Que povo tolo. Que saco, meu! Pra que mostrar tanta mulher seminua numa reportagem que a princípio até se pretendia instrutiva, afinal falava-se de saúde? Por que todo take que mostra uma mulher na academia tem que ser feito de baixo para cima? Claro, esse também era o ângulo na tal matéria sobre o show da dupla sertaneja e suas dançarinas rebolantes. E, pelamordedeus, pra que passar batom numa criança de sete (nove, sei lá) anos? Pra quê? Vejam bem, não era uma menina se maquiando sozinha, imitando a mãe. Era uma mulher, provavelmente maquiadora ou cabeleireira, maquiando as meninas. Não, as meninas não são atrizes, não estavam entrando em cena. Estavam ilustrando uma reportagem sobre gêmeos idênticos. De batom.

Ah, mas vi outras reportagens que giravam em torno de mulheres. Em uma delas, em particular, não havia mulheres seminuas. Havia uma mulher morta. Foi assassinada pelo ex-marido. Já havia registrado oito ocorrências de ameaça, mas o poder público não viu motivos para prender preventivamente o agressor (que já tinha atirado um artefato explosivo contra o local de trabalho onde a assassinou depois). A Lei Maria da Penha não bastou. Ninguém deu muita atenção à vítima que pediu tanto por socorro. Para ela, ninguém olhou.

Vai ver que é porque ela não andava por aí de biquíni. 

Um sábado


 

Dentro de nós, o mundo também é grande 
 
 
Jogos no tapete, apple crumble com sorvete, feijão bom;
Amanda no balanço, chuva, conversas na cozinha;
Visita a amigos, sobe e desce no parquinho;
Cinema com crianças, dor de cabeça, paracetamol;
Bigodes de iogurte, pão francês com queijo prato;
Cochilo no sofá, choros, birras e manhas;
Afagos, canções de ninar, carinhas de anjo;
Abraços gigantes, eu te amo, eu também;
"Mamãe, nunca vou te esquecer na vida."
Conversa fiada, um blog aqui, outro lá.
 
Um dia simples, recebido como um presente. Que viver é bom e, muitas vezes, não é preciso mochila nas costas ou grandes mudanças para sentirmos que a vida é uma deliciosa aventura.
 

Tudo tem limite




Arthur, 4, e Amanda, 2, brincam na sala com um joguinho de tabuleiro. Na cozinha, logo ali, arrumo a mesa para o café da noite:

- Nãããããoo!!! Mããêêêê, a Amanda pegou o bonequinho do jogo!!
- E daí, filho, que é que tem? Ela pode brincar também, deixa, uai.
- Não, mas eu tô usando!
- Conversa com ela.

 
Dois segundos depois:


- Mãããe, a Amanda pegou o dado!
- Ai, Arthur, con-ver-sa com ela e fala que é sua vez de jogar o dado. Com calma, é só explicar, ela já entende tudo.

 
Dois segundos depois:


- Mãããããeeee, a Amanda levou o tabuleiro!!

Aí danou-se. Já é demais, né, Amanda?


O grito



A menina bonita acorda sem muita vontade e olha com preguiça a paisagem que se mostra parcialmente através da janela suja. Enquanto uma brisa lenta e triste balança a folha da janela, seu semblante, que nos primeiros segundos de vigília é apenas um semblante qualquer de menina, logo se veste daquele ar cansado de quem se sabe impotente diante do monstro que chega todo os dias. Logo se esquece da paisagem, o que acontece lá fora não é para ela. Para ela existe um abandono muito maior que a paisagem, existe o silêncio. Então sai da cama como quem caminha para o abismo e se arrasta para o dia que já a espera há horas. Não aceita nem grita; fecha os olhos, os da alma também, e serve a que veio.

Até que um dia o vento ganha forças e bate forte, arrancando a folha da janela. A menina adormecida se sobressalta e, antes que a sombra cubra seu semblante, sente a força daquelas rajadas que entram pelos seus ouvidos como um uivo acumulado. Mantendo os olhos fechados para não ver a janela suja, enche os pulmões com o mundo que o vento trouxe e solta seu grito. Seu grito amplificado estilhaça as folhas da janela e então ela se lança à paisagem. Quando abre os olhos e gira sobre seus pés, olha e percebe que a janela ficava dentro dela. O vento é a sua coragem. Seu grito desmontou o monstro e agora o mundo é seu.

***

Para uma amiga virtual, cuja história de horror conheci hoje. E para todas as mulheres que sofrem ou sofreram violência sexual ou abuso de qualquer tipo. Que seus ventos sejam fortes.

Lembremos: crianças violentadas não gritam. Não cale, denuncie. É preciso gritar por elas.

Oops, gato escaldado...




E já que estamos falando do adeus às fraldas e das eventuais escapadas, apresento a vocês o Mingau, o gatinho aí da foto. Mingau é parceiro de brincadeiras da Amanda desde que seus olhares se cruzaram na loja de brinquedos, há alguns meses. Com o tempo, o amor à primeira vista revelou-se forte e duradouro, muito além de uma paixonite arrebatadora que com o vento se vai.

O que o Mingau está fazendo pendurado no varal, encharcado? Foi lá onde ele passou o Natal. Precisa falar onde foi parar a escapada da Amanda certa tarde de dezembro, quando ela adormeceu em sua cama, agarradinha com ele?

Não é justo que um amigão de todos os dias do ano passe o Natal pendurado pelas orelhas no varal. Mas quem disse que o mundo é justo, ahn?

Troninho




A minha amiga e leitora Ju, lá de Salvador, pediu um post sobre a transição fraldas/troninho. Assim que li seu pedido, pensei: "putz, e agora? Não tem regra... cada criança tem seu ritmo". E é verdade, mas alguma coisa sempre pode ser dita para ajudar mamães de primeira viagem a passar por essa fase sem arrancar os cabelos. Que coisa é essa? A palavrinha mágica: paciência.

Eu tive duas experiências distintas aqui em casa e acho que se tivesse tido três filhos, seriam três histórias diferentes. Não sei se elas se explicam pelas características biológicas de meninos e meninas, nem sei se esse tipo de distinção se aplica nesse caso, provavelmente não. Tenho amigas mães de meninos que tiveram muita dificuldade no processo de ajudar seus filhotes a abandonar as fraldas, idem para amigas mães de meninas e o contrário também, amigas que não enfrentaram muitos problemas nem com um nem com outra. Ou seja: tudo depende do abanar da calda do jacaré de papo amarelo.

Uma coisa funcionou: começou? Não volte atrás. Humm... mas até isso é relativo, porque não vejo muito sentido, caso a gente perceba que a criança não demonstrou qualquer sinal de que vai progredir a curto prazo, em insistir numa necessidade que pode ser mais nossa do que dela. Porque, vamos combinar, trocar fraldas é um saco (é lindo, maravilhoso, fofinho, etc., depois fica um saco) e depois de milhares de trocas é natural que a gente torça muito para que eles saiam dessa fase. Sem falar no gostoso que é ver nossos filhos evoluindo, fazendo suas pequenas conquistas. Mas pode ser que a criança ainda não esteja pronta no momento em que a gente decide que chegou a hora. Então vou reformular: começou, observe: há pequenos avanços? Beleza. Caso contrário, sou da opinião de que adiar um pouco não faz mal nenhum. Aliás, lembro nesse exato momento que fiz isso com o Arthur... iniciei, interrompi, retomei com força total algumas semanas depois. Mas é claro que isso não é o mesmo que dizer "ah, às vezes, fraldas, às vezes troninho", porque aí você confunde a criança e atrapalha o progresso do pequeno cidadão.

Assim como não existem regras claras e determinantes quanto ao momento (com dois anos, com um ano e meio, com três anos), também acho difícil seguir um "modo de usar" bem detalhadinho. Mas é importante ter um certo tempo reservado para se dedicar aos, digamos, trâmites inevitáveis. Comigo funcionou assim: nas primeiras duas ou três semanas, seguíamos o Arthur pela casa e a cada vinte minutos oferecíamos o troninho. A cada sucesso, rolavam muitos incentivos, aplausos e parabéns. Quando o troninho deixou de ser uma novidade, e à medida que ele foi se familiarizando com a coisa, os intervalos aumentaram. E aí passamos para a fase seguinte: muitos acertos... e muitas recaídas. É normal, sim. Faz parte e, de novo, vai acontecer mais ou menos, dependendo da criança. E aí, de repente, um belo dia, você se dá conta de que há dois dias não lava nehuma cueca ou calcinha suja de xixi ou número dois. E as recaídas tornam-se raras até que cessam completamente. Com o Arthur, o processo todo demorou cerca de dois meses. É fundamental que quem divide com os pais a tarefa de cuidar dos filhos - escolinha, babá, avós - compartilhe dos mesmos procedimentos, caso contrário... confusão.

Com a Amanda foi bem mais rápido: em duas semanas ela estava sem fraldas, profissional. Quer dizer, quase. Porque há um pequeno detalhe: em 80% das vezes, ela libera o primeiro jatinho de xixi na calcinha. Conversei com o pediatra e ele confirmou ser normal, parte do processo. Bem, veremos até quando, porque a Amanda já está nessa desde setembro, ou seja, lá se vão quase cinco meses. Então ela não usa mais fraldas, mas ainda troca de roupa algumas vezes ao dia, ainda que não todos os dias. E, às vezes, quando está muito entretida com alguma brincadeira ou novidade, já era. Então ainda ofereço muito o trono à minha pequena.

Mas tanto com o Arthur como com a Amanda, sempre tentamos transformar a hora do xixi num grande evento. Então valia contar história, aplaudir o xixi e, a apoteose, deixar que eles dessem a descarga em grande estilo, com grandes e largos tchaus para os números 1 e 2. E aqui vale uma ótima dica: o livro Cocô no Trono, de Benoit Charlat, é uma graça! Eles adoram, porque no final do livro tem uma descarga que faz barulho de verdade e um pintinho que já faz xixi "como gente grande"! Tudo de bom! Para ler com eles no banheiro.

Um outro ponto que pode ser relevante para algumas mamães: para o primeiro filho, comprei um troninho daqueles pititicos. Beleza. Depois de aprender a usá-lo, o Arthur fez a migração para o tronão com adaptador. Não deve ter sido nada problemático, porque já nem lembro como se deu essa fase. Mas aprendi com miha filhota que o troninho é item absolutamente dispensável. Ela nunca usou. Foi direto para o adaptador, obrigada.

E aí a Ju me perguntou o que fazer quando a criança pede para ir ao banheiro em um lugar público. Bom, em primeiro lugar, comemorar. Pedir para ir ao trono é um grande avanço, um divisor de águas no processo. Eu já me deparei com toaletes sujos em aeroportos e restaurantes. Fiz uma limpeza meia-boca com papel toalha na tampa do vaso, forrei com papel higiêncio como deu e deixei Amanda usar na boa. Minha alegria era tanta em vê-la toda íntima do "ritual" que nem esquentei a cabeça com os bilhões de germes. Faz parte. O importante é garantir que ela não leve as mãozinhas à boca antes de lavá-las bem. Só isso. Acho.

Queridíssima Ju, a única dica à qual me apego com fervor é: torça para não precisar fazer a transição no inverno. Ninguém merece. Se escapa um xixizinho da Amanda, eu lavo uma calcinha e, no máximo, um shortinho ou calça de tecido leve. Com o Arthur, no inverno de 2007, lavava uma cueca, uma calça grossa, um par de meias e um par de sapatos, a cada escapada. E as escapadas são inevitáveis.

E acho que é quase desnecessário dizer que não adianta ralhar com a criança. Ela está aprendendo a controlar algo que, para ela, é muito abstrato. No início, o xixi só existe para a criança quando sai e ela o vê. Somente com o treino é que vai se familiarizar com a sensação de que algo está para acontecer e que ela tem certo poder sobre aquilo. Talvez ajude deixar que ela veja  alguém usar o banheiro: a Amanda começou a pedir para usar o trono "como a mamãe", "como o mano". Pode ser um incentivo, por que não?

Ju, querida, tente relaxar. Se a coisa anda muito complicada e a Raquel não apresentou nenhum progresso, talvez o tempo dela seja outro. Vou torcer muito para que várias leitoras (ou papai leitores) apareçam por aqui e dividam com você as experiências deles, talvez ajude. Nem que seja para mostrar que você está passando por uma fase que parece durar  uma eternidade, mas que logo será lembrada com risos e a boa sensação de missão cumprida. Tenha paciência.

Quando o Arthur nasceu e depois começou a comer papinhas, andar, falar, pensei: meu, no fim das contas, não há nenhuma razão para ansiedades do tipo "espero que meu filho comece a andar com nove meses, falar com um ano e nadar com dois". No futuro, que diferença fará? Então talvez a Raquelzinha precise de mais um tempinho... ela é baiana, não é? Sorry!! Não resisti à brincadeira!!

Então, em suma: oferecer o trono a curtos intervalos; elogiar muito os avanços, por menores que sejam (um xixi "certo" para cada cinco no tapete); ser firme, não sucumbir à tentação de voltar às fraldas (salvo em casos evidentes de que a coisa está ainda muito distante do entendimento da criança); contar com o apoio de todos que têm contato com a criança; torcer muito; comprar muitas calcinhas; sempre sair de casa com mudas de roupas, hehehe - até quando já estão craques, a escapada no shopping, no restaurante ou no supermercado é um clássico; torcer mais; ser otimista; não chorar; e, por fim, comemorar!


O Haiti e a fé





Uma das coisas boas de não se ter muito tempo livre é o pouco desperdício de tempo. Não vou falar das crises devido ao desperdício de tempo no trabalho para não soar repetitiva demais, agora quero me ater às horas verdadeiramente disponíveis ao uso como me aprouver. Então com pouco tempo, vejo pouca ou nenhuma TV. O pouco que sobra para a telinha acaba sendo gasto com os eternamente repetidos filmes da TV a cabo, melhor assim. Porque TV aberta fica difícil, às vezes beira o insuportável. Mas admito que eu gosto de um noticiário, nem que seja para xingar as manipulações da imprensa, acompanhar a notícia sobre algo que já vi na web ou mesmo para ver como o William fica mais e mais grisalho a cada dia sem que ninguém se importe com isso – quero ver a Fátima grisalha, quero ver. Eu sei, existem os canais de notícias a cabo também, mas não me perguntem o porquê, quando decido “hoje vou ver o Jornal”, pimba, lá vou eu para o Jornal Nacional, provavelmente o mais questionável de todos os telejornais disponíveis. Mas não era disso que eu queria falar.
Queria dizer que, por andar assistindo muito pouca TV, somente ontem parei para ver o noticiário sobre o terremoto do Haiti. Eu já tinha lido sobre o fato, obviamente, em alguns sites, notícias cortadas aqui e ali. E minha mãe, antenadíssima com o que acontece mundo afora, já tinha me deixado por dentro do terror todo. Mas ontem eu quis ver. E vou dividir com vocês o que mais me impressionou.
Um terremoto no Haiti me parece uma terrível brincadeira da Natureza, de muito mau gosto. Parece humor negro do pior tipo. Nenhum povo precisa de um terremoto, obviamente, mas em um país como o Haiti a coisa extrapola a minha noção de má sorte. É como um incêndio numa favela muito, muito pobre, ou uma enchente em uma comunidade miserável. Tudo bem, existem os fatores sociais que favorecem as tragédias em alguns lugares e já li repetidas vezes que as frágeis construções do Haiti contribuíram em muito para os números absurdos da tragédia. Mas isso não invalida a tese: é justamente por ser pobre que o país ostenta as tais más condições de moradia, é justamente por isso que seu destino me parece ir além da má sorte.
Mas ligo a TV e o que vejo? No meio dos escombros, não muito longe de pilhas de cadáveres, em meio ao horror da morte e da destruição de um país já miserável, há um aglomerado de pessoas. Elas estão entre as "sortudas" que apenas perderam parentes e casas, mas estão vivas para continuar suas vidas miseráveis, em seu país semidestruído. Então elas rezam. O aglomerado de pessoas assiste a uma missa, cujo altar improvisado foi montado no meio da rua, uma mesa, um crucifixo, um padre sortudo, porque sobrevivente, temos a missa. E eu me calei diante daquela cena e minha cabeça entrou em parafuso, é muita, muita fé. Inevitavelmente me perguntei "o que eles pedem, agradecem pelo quê?"; e, consequentemente, "como acreditam que alguém olha por eles?" Suas vidas foram sacudidas como se nada valessem, suas casas caíram sobre suas cabeças sem que nenhum governo desmiolado tivesse bombardeado o lugar, seus velhos estão abandonados em asilos esquecidos - ei, eles tiveram sorte! o asilo não caiu! - suas crianças estão órfãs porque seus pais estão soterrados, outros estão sem filhos que não podem enterrar porque, na era dos aceleradores de partículas, o Haiti não tem escavadeiras para remover os entulhos e permitir a retirada dos corpos. E eles rezam, no meio do inferno, eles rezam. 
Eu não tenho essa fé. Minha fé é abalável, questionada, enfrentada, eu quero entender. Eu não renovo a fé quando vejo uma foto da criança salva e entregue à mãe - "milagre!", gritam - não, eu me ponho no lugar das milhares que ainda nem choram pela casa destruída porque perderam os filhos. Então a missa me deixou profundamente impressionada. Foi como um soco na minha barriga me mostrando que, no lugar deles, eu já teria sucumbido, quem sabe. Mas a falta de questionamento deles os mantêm de pé. Eles rezam e encontram algum conforto. O meu único conforto egoísta é olhar para o lado e ver meus filhos em segurança. Mas isso não afasta o pânico por saber que ninguém está imune ao sofrimento. Nem a desconfiança de que a fé não me serve de consolo.
Eu poderia me ater ao pensamento puramente científico e ver que as falhas geológicas estão ali e os tremores virão, cedo ou tarde, azar. Ou eu poderia me prender a uma análise sociológica e pensar o porquê de o Haiti não ser tecnologicamente desenvolvido como o Japão - algo que não impediria de todo o sofrimento, mas em muito ajudaria na recuperação do país e, consequentemente, mitigaria os sofrimentos que ainda estão por vir para os famintos e desabrigados haitianos.
Mas nada disso. Muda de tristeza, eu só me perguntava "quem ouve aquelas preces?". E de repente eu soube. Não importa, na verdade. Em meio ao meu espanto, pensei: que bom que eles acreditam. Porque não lhes resta muita coisa.   

Just Jack



Eu adoro Jack Johnson. E daí, né? Como não gostar? É mais ou menos como chocolate. Sabedor disso, meu respectivo me presenteou, na noite de Natal, com o DVD Jack Johnson en concert. Hoje pela manhã, finalmente, parei para assistir com a devida atenção e, ai, que delícia.

Jack Johnson en Concert traz alguns momentos de sua turnê pela Europa, no verão de 2008, e mostra trechos de shows em Paris, Berlim, interior da Alemanha, da Holanda e da Inglaterra e, finalmente, Londres. Mas os shows poderiam ter sido feitos no quintal da casa dele, estaria tudo certo. Porque o bom de Jack é mesmo sua música. E sua simplicidade. É claro que é legal ver aqueles lugares todos lotados de gente babando - eu fico feliz por ele, talentosíssimo, sendo acolhido com tanto carinho por seus fãs mundo afora. Deve mesmo ser um deleite. Mas o que mais gosto é de vê-lo sem qualquer afetação, sem performances ensaiadas para causar efeito, sem figurinos produzidos: o show do Jack tem Jack, de camiseta e calça jeans, e sua música. E não precisa mais. 

Tem música velha, música nova (nova para mim, que ainda não tenho o último CD, aff), algumas participações especiais, shows cancelados por causa do mau tempo no interior da Inglaterra (não fiquei com inveja de quem tinha ingresso para esse show em particular), Jack surfando, Jack tocando, Jack cantando e eu dançando no tapete da sala (essa parte só passa aqui em casa). Tudo simples, em preto e branco, bem feito, bem executado, bem cantado.

E Paris é linda, eu sempre fico com vontade de visitar Berlim quando vejo cenas por lá, eu gosto de to-das as músicas, mas o melhor, para mim, foi mesmo o ponto alto da turnê: o Hyde Park lotadinho, a tarde caindo sobre Londres e aquela gente toda ali, cantando We're Better Together. E nem importava se estava ou não nublado na capital inglesa, porque quando a noite veio, todo mundo viu que o palco já estava estrelado. Simples e bonito. Vou assistir até ficar velhinha, vocês vão ver.



Eu vivo dizendo que morro de saudades das minhas velhas bandas dos anos 80 e 90, que bom mesmo é ouvir Robert Smith e Morrissey. Mas o Jack Johnson preenche um pouco as lacunas para quem ficou mal acostumado duas ou três décadas atrás. É uma beleza para curtir hoje e sentir saudades depois. Não percam.

Thanks, Odisseus. Love.





Dá um minutinho?

 

Para abrir aos poucos.
 
Amanda, dois anos, no troninho, lendo gibis.
 
Eu: Deu, filhota?
Ela: Nãããão, mamãããããeeee... tô lendo vitinhaaaa....
Eu: Filhota, você já tá aí há um tempão, não é legal. Vamumbora dormir?
Ela: Não, mamãããããe, só um poquiiinhoooooo...
Eu, apaixonada e tola (ah, aqueles cachinhos e aquela carinha): Ó, tá bom, mas vou te dar só mais um minutinho (sou durona!).
 
E aí ela me estende a mão, toda feliz, para receber o tal minutinho que eu ia dar: - Tadê?*
 
Ah, filhota, se fosse assim, daria séculos a você, embalados em lindos pacotinhos coloridos, para você ir abrindo e usando a seu gosto. Muitos minutinhos.
 
____
 
*Em amandês, tadê = cadê; cacaruga = tartaruga; t = c. Simples.

Ou não



 Talvez eu tente as pétalas: faço, não faço, faço, não faço...

Eu queria me reinventar. Não toda eu, mas queria dissolver parte de mim e me juntar de novo em outra forma. Não falo do corpo, falo da vontade. Não: um passo além, falo da coragem. Porque tem coisas que só mesmo respirando fundo e chutando forte; alguns baldes são bem pesados. É preciso coragem. Mas me falta. Quase não me reconheço nessa frase, sem coragem, nem sou eu. Mas baixo a cabeça, encolho os ombros e humildemente reconheço que me falta aquele fogo indispensável às grandes mudanças. Que pena, eu costumava ser bem destemida. Onde foi que isso abrandou, alguém viu? Não sei.

Em outros tempos, outras décadas, as das minhas avós, alguém diria resigne-se, eu diria sim, pois não. Em outros tempos meus, só meus, eu diria avante! e seguiria saltitante quase rindo dos medrosos. Hoje, porém, paro no abismo e me encolho diante do desconhecido. Como me diminuí assim? Em que curva recuei, eu, senhora das ousadias?  Não são os filhos, esses me servem de estímulo a peripécias, aquelas carinhas sapecas cheias de queros e possos e sous. Não é meu marido, que esse me olha e me vê forte. Sou eu mesma, sei. Um lado esquisito que venho cultivando ultimamente que tudo pesa, pondera, mede, eca.
E quanto mais adio e rodopio em torno das ideias já quase velhas, mais me dou conta do tamanho do desperdício. Mas as idéias, coitadas, não passam disso e seguem embaralhadas por entre meus miolos preguiçosos de quem pensa e não faz. Que coisa, isso, não? E o caminho me parece tão obviamente torto que acho mesmo espantoso que eu nele permaneça. Devo estar louca. Ou quem sabe é só comodismo mesmo. Vou dormir. Quem sabe amanhã vejo tudo diferente e já me sinto reinventada. É bem capaz.

Vida longa, amor imenso


Eu e Ulisses, em 2070, fazendo planos para o sábado.

Arthur, 4 anos:

- Papai, você vai morrer?
- Filho, não pensa nisso não, papai vai estar sempre com você.
- Mas você vai morrer?
- Vai demorar muuuuuuuuuuuito para isso acontecer, filho. Não precisa se preocupar com isso.
- Você vai viver muito?
- Muuuuuuuuuuito.
- E a mamãe?
- Também. Vai viver tanto ou mais que o papai.
- E a Amanda?
- Nossa, ela então, vai viver mais ainda.
- E eu?
- Muito, muito, muito, não precisa ficar se preocupando com isso.
- Eu gosto muito de você. Não quero ficar com saudade.
- O papai também gosta de você demais. Não precisa se preocupar, vou estar sempre com você.

Longo abraço.

- Boa noite, filho.
- Boa noite, pai.

No dia seguinte, Odisseus me contou do papo. E eu o abracei bem forte também. E logo ele soube que eu não estava apenas cumprimentando-o pelas boas respostas dadas ao pequeno ou simplesmente fazendo-lhe um carinho, não. Eu estava compartilhando os medos do Arthur.

Mas tudo bem, é normal de quem ama. Sem neuras.

Eu não queria contar isso aqui, para não parecer que estou dando um tom sombrio ao blog, deixar o clima pesado. Mas quis registrar o pequeno questionamento apaixonado do Arthur, que ainda não filosofa sobre os mistérios da vida, mas já começa a perceber que o mundo gira. Agora que escrevi, o que quero, de verdade, é: que daqui a muitas décadas, a gente leia isso junto, cada um com sua bengala, o Odisseus olhando para o senhor Arthur e dizendo "Eu não disse?". Amém.

Já?

 

Tchau, vida mansa
 
Acabaram as férias e com elas lá se vão minhas horas a mais de sono, minhas leituras ininterruptas (ou quase isso), minhas partidas de imagem & ação (adoro!), meu cineminha à tarde. Também as horas em casa com as crianças, as visitas aos parentes, a preguiça sem culpa.
 
Voltam a preguiça com culpa, as leituras interrompidas e adiadas, assim como os filmes que todos comentam e eu não vejo. Paciência.
 
Tudo correndo bem, nosso próximo intervalo deve ocorrer em abril, mas disso falarei depois, quando dispuser de detalhes relevantes. Por ora há tantos "se" "talvez" e "quem sabe" que mais parece que não haverá intervalo algum.
 
Mas cada coisa no seu tempo.
 

Dona Lindu, a mãe do Brasil.






Uma mãe muito pobre, com não sei quantos filhos pequenos, vende o pouco que tem no sertão nordestino e segue em viagem de 13 dias em um pau-de-arara para encontrar o marido alcoólatra, que a abandonara anos antes, no interior de São Paulo. Chegando lá, depara-se com a segunda família de seu digníssimo, conhece a forma urbana da miséria e empurra seus filhos para a escola, filhos esses que ela alimenta com restos de grãos catados no chão do porto onde seu embriagado marido trabalha como estivador. Cansada de vê-lo espancar seus filhos, abandona-o e muda de cidade. Vejam bem, estamos falando de uma retirante nordestina, cheiiiiiinha de filhos pequenos, em um lugar que ela praticamente desconhece. Eu tenho medo de baratas e vendo essa mulher sinto-me uma. Continuando: a dona Valente da Silva enfrenta enchentes e outras mazelas, e segue criando seus filhos, obrigada. A vida melhora, porque seus filhos estudam, e ela conhece várias alegrias: um deles se forma torneiro mecânico e ela sente aquele orgulho bom de mãe coruja, a mãe retirante. Aí o mundo gira e ela vira amparo forte para as dores do filho que tem a mão mutilada, perde esposa e filho de uma só vez. A velhice chega, mas ela ainda assiste seu filho transformar-se em líder de sua classe e vê que a força que ela sempre trouxe consigo tem nele a forma de carisma. O mundo enlouquece e ela ainda enfrenta o pavor de ver seu outro filho ser levado pelos militares durante a ditadura. E como esse mesmo mundo não é um lugar justo, ela se vai muito antes de ver seu teimoso filho (como ela o ensinou a ser) tornar-se presidente de seu país. Duas vezes.


Justo cartaz

Lula, o Filho do Brasil, tem muitos pontos fracos. Algumas atuações são limitadas, o filme não nos engole e permanecemos o tempo todo conscientes de que é um filme. Além disso, incomodaram-me um pouco todas aquelas falas brandas do Lula, "nem de direita, nem de esquerda", a-hã. Fiquei com a impressão de que os produtores queriam agradar a todos... como se estivessem partilhando daquele medinho que os tucanos plantaram em campanhas passadas, lembram? Ora, filme sobre o Lula não ia falar que o Lula é o maior nome que a esquerda brasileira gerou?? Pois não falou. Vá entender.

Mas Glória Pires está lá, em sua atuação salvadora que me levou às lágrimas quinhentas vezes (eu choro em Avatar, não vou chorar em Lula...) e eu acho que vale muito a penar ver. Ah, você não gosta do Lula? Vai lá ver por ela então. Mulherão. Dá gosto.

 
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