Os dias


Depois que voltei a Florianópolis alguma coisa mudou dentro de mim. A dor ficou mais pungente, a distância de sua casa, e agora também de seu túmulo, parece ter outra dimensão em um espaço novo, diferente. Não são só os quilômetros, mas também esse abismo diluído em meus pensamentos. Eu penso, sinto, experimento, mas não consigo descrevê-lo muito bem: é como se o conjunto de coisas e pessoas que compõem o meu mundo girasse de forma diferente agora, mais disforme, mais indefinida, como uma enorme esfera de geleia se mexendo de maneira imprevisível.

Tentei voltar ao trabalho, mas não consegui. Até fiquei por lá, mexendo aqui e ali, resolvendo pequenas pendências, mas era só parar por um segundo e meu rosto se banhava de novo nas lágrimas que não param de brotar cada vez que alguma quietude me permite pensar só em você. E, sabe, eu não vou bancar a forte, não ainda. Eu dou sorrisos e abraços às crianças e tenho imenso prazer na companhia do Ulisses, tenho meus momentos de papo jogado fora, mas não vou tentar mais do que isso, não agora. Meu coração e minha cabeça são um poço de sensações e pensamentos que me levam a você o tempo inteiro. E eu quero isso.

Você. Onde está? O que aconteceu com o que você sentia e pensava e achava das coisas? O que restou daquilo tudo que formava você? O que é essa coisa absurda e impressionante que arranca as pessoas do nosso mundo?

Então eu me volto às arrumações que me envolvem e me fazem tocar os dias. Os 21 dias. Eu abri as caixas, espalhei seus copos decorados pela minha sala. Pus os azuis com flores, cujas primeiras lembranças se confundem em minha memória com as primeiras lembranças que trago de minha infância, ao lado de outros copos coloridos e você iria gostar. As cores suaves são alegres e eles são lindos mesmo. Os outros, alaranjados, mais delicados, ficam em outro pequeno armário embaixo da escada porque só lá consegui encaixar a grande jarra que acompanha os três copos sobreviventes - um deles colado por você, certamente o mais valioso deles (obrigada, Ulisses, por garantir que ele também viesse). A chaleira de vovó Alice está na cozinha, assim como o conjunto de xícaras de café que morou em sua cozinha por tantos anos. E eu trouxe os pratos que você tinha pedido que eu trouxesse. Guardei e vou usar seu faqueiro, sua bandeja, sua fruteira. Guardei seu vestido preto e branco e duas de suas blusas e eles se parecem tanto com você que meu coração se contrai inteiro quando os toco. Guardei seus documentos, nossas correspondências que você guardou com tanto zelo e aquela pasta rosa em que você arquivou todos os meus boletins, diplomas, certificados, toda minha história assistida por você que vibrava a cada prova, cada teste tolo, cada passinho. Olho aquilo e sinto tanto carinho, mãe. Obrigada.

Pus em ordem cronológica os cartões e cartas que lhe mandei e vi que os anos de 1999 e 2000 foram campeões, estávamos bem tagarelas. Há alguns sem data, mas posso imaginar a época com alguma precisão, pela minha caligrafia, minhas letras tortas de menina confusa. Também abri meus próprios arquivos e reli suas cartas e pude ouvir sua voz; ouço sua voz quando me concentro, fecho os olhos e o eco vem. Eu não quero me esquecer de sua voz. Você começava as frases assim: "ô, minha filha..." Antes de ontem eu quis muito ligar para você e o que senti virou minha referência de saudade.

O ano acabou e será para sempre o ano em que você foi embora. 2010. Você não sofre mais. Nós não temos mais você por perto. Mas Ulisses insiste na indiscutível evidência de que você continua na gente, em mim, nos seus netos. A vida é estranha, mãe. Que coisa louca isso. Nós entramos o ano juntas e hoje vejo minha vida dividida em antes e depois de você.

*** 

Sempre gostei da imagem que nos une às estrelas. Ser pó de estrelas. Nascemos delas; em um tempo qualquer no futuro voltaremos a elas no ciclo infinito que mantém o universo vivo. No dia de Natal levamos flores ao seu túmulo e as crianças desmancharam o ramalhete e arrumaram as flores brancas e amarelas por sobre todo o túmulo. Eram flores frágeis, isoladas em talos que devem ter secado um dia depois ou no seguinte, mas ficaram lindas do jeito que as crianças arrumaram, balançando com a brisa tranquila do final de tarde. Por um momento elas pareceram infinitas porque me lembraram da continuidade da vida. Olhei para as outras florzinhas que estão plantadas lá, muitas ainda botões, e vi que seu corpo as alimenta, que os insetos as visitam e espalham vida por aí. Olho para meus filhos e sinto como se uma mão enorme pousasse sobre meu coração tristonho reforçando minha certeza de que o que fiz de maior em minha vida foi ter Arthur e Amanda. As crianças, as flores. É assim que a vida se renova, que você ressurge neles.

Não sei ainda como me comportar nessa fase de minha vida, agora que habito um mundo onde você é invisível. Mas sei que vou me reencontrar em algum momento e espero ter mais de você dentro de mim a cada dia.

***

Gostei tanto de ler uma de suas cartas hoje: você estava toda animada, escrevendo sobre amenidades, fazendo graça. Vou reler essa carta inúmeras vezes e fazer de seu sorriso minha estrela.

11 comentários:

Bia, Desperate Housewife disse...

Ô Rita, que dor!... Fico besta com isso de todo um universo que é uma pessoa se acabar...
Grande abraço.

Caso me esqueçam disse...

ai, rita, nao sei como você pode aguentar isso tudo. nessas horas ser sensivel parece ser um mal. pensei em tu hoje, me perguntando como tu poderia estar. que bom que escreveu. bom, sempre me sinto inutil diante dessa situacao. soh fico choramingando aqui, sentindo o incomodo que a tristeza dos outros que gostamos provoca. no mais, gostei de ver que voce vai tomar seu tempo e viver essa dor ao teu modo.

um abraço grande!

Graziella disse...

Minha florzinha, nunca sei o que dizer nessas horas, mas me comovi imensamente com o seu relato, a sua dor e todo o amor de suas palavras. Só posso mandar um abraço imenso pra você e desejar que a saudade se torna possível de suportar em breve.

Wonderwoman disse...

Eu não consegui terminar de ler. Comecei a chorar no meio. Quando passei por algo assim nada parecia confortar, talvez só abraços faziam os gritos pararem um pouco dentro do coração.
Esse comment queria ser um abraço. Sabendo que as lágrimas serão muitas, a dor também. Que a dor não vai embora nunca, mas que o sofrimento um dia diminui.
[abraço]

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, querida. Queria ter mais palavras, muitas mesmo. Só tenho esse bem querer imenso que envio pra você.

Iara disse...

Ontem falamos de você no twitter. Eu queria poder dividir a sua a dor. Acho que todas nós. A gente pegava cada uma um pedacinho, doía um pouquinho em cada, e ficava mais leve pra todo mundo. Mas não dá. Então, como disse antes, se sinta abraçada.

Tina Lopes disse...

Gente, que pessoa mais especial, tua mãe, eu fico querendo ser como ela. E queria te dar um abraço também.

Ana Duarte disse...

Rita, mais uma vez seu post me emocionou muito!
Me fez lembrar da época em que meu pai foi embora. Eu tb me perguntava as mesmas coisas: onde ele estava? onde podia ter ido? eu nao entendia, e passei anos sem entender, e nem sequer sei se hoje eu entendo. Mas posso te dizer que hoje ela me faz muito mais rir que chorar...pois lembro dos bons momentos! E como diz teu marido, eles continuam vivendo dentro da gente.
Ela é mesmo sua estrela Rita!
Bjao, grande abraço!

Liliane disse...

Tanto para te dizer... Que voce não pode ouvir. O som de uma despedida como essa é assim longo. Acostumar com o silencio do outro lado é um exercício diario e nos custa tanto. Sigo, aqui, com o pensamento em voce! Querida fica bem, um beijo e um abraço apertado...

Deborah Leão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deborah Leão disse...

Estava atrasada no meu Reader, e fui ler todos os últimos posts de uma vez. Sempre me impressiona quando alguém consegue transformar dor e perda em lirismo. Quanta delicadeza na relação com a sua mãe, quanta ternnura em cada palavra.

Viva mesmo, sem medo e sem vergonha, essa fase difícil. Não deixe ninguém ditar quando ela deve acabar.

Estou aqui em lágrimas, pensando em como as despedidas e as lembranças são tão difíceis de corporificar, mesmo.

 
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