Gente fina, queijo quente e salada de frutas


O importante é não perder a fé. Hoje concluí a leitura d'O Vermelho e o Negro, de Stendhal - comecei em setembro, acho. Uma eleição e muitas digressões depois, hoje conheci o destino final de Julien Sorel. E o livro que fui empurrando com a barriga por boa parte da história transformou-se, no final, numa sequência de amores e horrores dignos de... romances do século XIX, hehe. Pretendo interromper a vibe "a França é meu país", depois de ter lido Flaubert e Stendhal in a roll: chega, por ora, de damas enlouquecidas em amores proibidos, desmaios histéricos e marqueses em crise; chega de guilhotinas, bailes luxuosos e títulos disputados como se deles dependesse o sentido da vida.

Imagino que o impacto do livro de Stendhal ao ser lançado, em 1830, tenha sido marcante, já que ele se esbalda na hipocrisia e superficialidade reinantes entre os franceses bem nascidos da época. Stendhal expõe com requintes de crueldade toda frivolidade e ambição daqueles que não olhariam duas vezes para quem não fosse duque ou marquês, rei ou membro das altas rodas da igreja. E a gente segue lendo e imaginando se, afinal, o filho de um carpinteiro que despreza a futilidade das classes abastadas e sonha em subir na escala para curar seus traumas de plebeu e, de quebra, humilhar os esnobes aristocratas com sua cultura de leitor voraz e latinista (uia) exemplar, vai ou não encontrar seu lugar ao sol. Mas, para mim, os melhores momentos da história ficam mesmo por conta da ironia com que Stendhal expõe os ares "democráticos" do convívio entre gente tão "phyna":

"Mesmo neste século entediado, ainda é tamanha a necessidade de divertimento que mesmo nos dias de jantares, logo que o marquês deixava o salão, todos fugiam. Contanto que não pilheriassem a respeito de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas de posição, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo o que está estabelecido; contanto que não falassem bem de Béranger, nem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de todos os que se permitiam certa linguagem franca; contanto, sobretudo, que nunca falassem em política, podiam comentar tudo livremente." - hehehe - aah, a aristocracia... (juro que me lembrei da demissão da Khel). 

E nem vou falar muito dos romances de Julien com suas escolhidas, no melhor estilo puxa-encolhe: quando se afasta um pouco das cenas políticas e reais dos donos do dinheiro, Stendhal escancara a mania que o ser humano tem de desejar o que não pode - até poder para, em seguida, parar de desejar. E aí a história, apesar de recheada por vocábulos dos tempos de Napoleão, torna-se bem atual... a gente muda o século, o endereço e alguns costumes, mas, lá no fundo, somos um povinho bem difícil desde sempre, aqui ou na França, em qualquer tempo. E aqui Stendhal não deixa ninguém com fome: os amores de Julien têm olhares, cartas de amor, volúpia, ciúmes, vidas em risco, drama, ironia, caminhadas no jardim ao luar *suspiros*, prisão, traição, escada na sacada, suborno, honras de donzelas e senhoras jogadas ao vento e mais não digo.

Gostei de ter lido, o livro é um marco na literatura francesa e nos ajuda a perceber o ridículo das ganâncias que tantas vezes determinam o destino de povos e países - o que é sempre útil. 

E a fila andou, ufa.

p.s. Talvez eu volte a falar do livro para tratar um pouco da mulherada da história, num dia em que eu não estiver com sono e derretendo de calor sem poder ligar o ar-condicionado porque minha mãe não gosta.

***

Enquanto isso, ainda no hospital:

- Mãe, vou pedir um lanche pra mim.
- Tá.
triiiimm, triiimmm
- Copa, boa tarde.
- Oi, posso pedir um lanche pro 502?
- Sim, o que você quer? (Atenção, ela me perguntou o que eu queria!)
- Humm, quais as opções?
- Só temos queijo-quente.
- ... Então eu quero um queijo-quente.  

O que me fez lembrar daquele dia, na praia, quando eu e minha amiga avistamos uma barraca de salada de frutas. Jamais imaginávamos que a coisa fosse ainda melhor e que eles servissem a salada com leite condensado, yummy!!

- Moço, duas, por favor!
- Com ou sem leite condensado?
- Uau! Leite condensado?! Com, bastante!
- Hoje não tem, só tem sem leite condensado.

É mole? Alô, Salvador! :-)

8 comentários:

Jux disse...

heuaheuaheuaheau
rachei o bicão com esse lance das mil e UMA OPÇÃO de lanche: queijo quente OU queijo quente!

mais beijos na mamã e em você!!!

Angela disse...

Como nao deu para ligar hoje, mandei email entao. Va la, va la, va la. :) Te amo.

Borboletas nos Olhos disse...

1. Daí eu acordo, passo por aqui e deduzo que o bom da vida é o direito de escolha...

2. Passei a gostar mais de O Vermelho e o Negro agora que VOCÊ o leu...rsrs. Gostei muito das suas colocações (ficou parecendo frase de movimento estudantil, só faltou o companheira)

3. Indo pra casa? Torcendo aqui, beijos

Sara disse...

Oi Ritinha,
Entro na torcida atrasada, com os olhos embaçados... desde quinta não "te" lia, não lia ninguém... só dormia. Para colocar o sono em dia serve bem uma cirurgia de miopia, nos dois olhos de uma vez só. Voltei ao mundo ontem. Hoje estou abusando na frente do computador...
Espero que a recuperação de sua mãezinha esteja indo bem.
Saúde para todos.
Bjk

disse...

Oi Rita, tô enroladona com os prepativos da nossa viagem pro Brasil, mas tô aqui na torcida pra sua mãe. Espero que ela esteja melhor.

Puxa, nunca li Stendhal. Anotei na minha listinha de livros para ler, que atualmente, não para de crescer.

Beijos!

HG disse...

Copa de hosital... acontece!

Boa recuperação a sua Mãezinha.
Bjs

HG disse...

*hospital

Rita disse...

Gente, obrigada pela torcida. Vocês são demais.

bj
Rita

 
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