Blue



Eu tinha meus momentos de tristeza quando era criança. Tinha muitos, na verdade. Minha infância fácil e com relativo conforto tinha lá suas nuances azedas e me lembro daquela tristeza que hoje já tem cara de antiga (ui). Era relativamente fácil me esconder dela, eu adorava falar sozinha, brincava o tempo inteiro, até quando parecia que eu estava apenas almoçando ou indo tomar banho. Mas a tristeza estava ali, esperando; de vez em quando eu me esquecia de brincar e ela me pegava.

Quando a adolescência chegou zombando das tristezinhas da infância e me mandando sentar porque vinha mais, eu já sabia me esconder. Não falava mais sozinha (tanto), mas os livros estão aí pra isso. E a vida era boa e tal, eu me satisfazia com pouco, era feliz traduzindo letras das músicas do Elton John com ajuda de um dicionário ruim. And I guess that's why they call it the blues... (sem constrangimentos)

Na minha cabeça, a ideia do que é sofrimento esbarra nos velhos conflitos dos limites da linguagem (que às vezes caímos na besteira de achar que expressa tudo). Mas para mim nunca fez muito sentido associar a mesma palavra que usamos para descrever o momento em que descobrimos que o ladrão roubou o CD do Smashing Pumpkins para descrever a certeza de que aquela pessoa não volta mais. E é tudo tristeza, em maior ou menor grau. Mas o tal maior ou menor grau não é detalhe e ah se tivéssemos palavras para cada sensaçãozinha de perda; talvez a coisa ficasse meio caótica e o entendimento fosse prejudicado a limites impensáveis, mas seria mais justo assim - sempre achei um milagre a gente conseguir se entender anyway

Eu ainda me escondo das tristezas. Crescer não muda tudo. E tem uma coisa que rola comigo que não sei se é mero jogo do contente ou acúmulo de angústias. Quando o bicho pega, presto atenção em cantinhos protegidos que cultivo dentro de mim; logo depois olho pro lado e não demoro, nesse mundo, a ver dores maiores. É horrível, eu sei. Não é nobre nem motivo de orgulho, mas não consigo evitar. Vem de longe, da infância, e acho que faz parte do que sou. Eu procuro ver o bom e às vezes os caminhos são bem tortuosos.

Não faz muito tempo meus filhos me ligaram: ele disse que sabe que penso nele porque é "o melhor filho"; ela avisou que ia fazer xixi. Na TV a novela é péssima. Leio blogs, comento por aí na tentativa de mudar de assunto. Mas, na real, taí uma forma de detonar os assuntos: hospital. E quase acho que "tristeza" define tão bem quanto definia os medos da infância e que é melhor que seja assim. Se tem uma coisa que esse mundo nunca vai ser é justo.

***

É, eu sei, ninguém merece mimimi. Mas eu não mando em nada.

***

A viagem foi tranquila. Stendhal de companhia, a pior coxinha do mundo, pão de queijo velho. No aeroporto vi um cartaz que dizia que na China há mais estudantes de inglês do que há pessoas na Inglaterra. And I couldn`t care less.

5 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Ia ser um post, talvez ainda seja. Tá lá, no rascunho:
E há vezes que se sente um frio pro dentro que não há Nordeste que resolva. E se fica miudinha, miudinha, mas não de ser criança, só de não ser capaz. Se isso te acontecer, baby, you know, i'm here.

Eu tenho várias estratégias, mas hoje, pra variar, nada de mim. Bjs

Jux disse...

puxa... antes de ter lido os comentários seus no post anterior, já sabia o que se passava...
queria poder falar bobagenzinhas pras duas rirem, que o riso e o sorriso fazem o corpo e coração reagir... quero abraçar e segurar a mão das duas, agora...

Amanda disse...

Puxa Rita, que texto bonito o seu! E triste. Ja viu aquele filme Onde vivem os monstros? Acordou todas as minhas tristezas de infância e eu tive que chorar cada uma delas novamente. Não é que as tristezas vão ficando maiores quando crescemos, mas nos que achamos que, agora sim a vida séria chegou. Mas a verdade é que quando eramos crianças sentiamos tanto quanto hoje, mesmo que os motivos tenham sido mais leves.

Estou torcendo daqui. Fala, quer que eu mande uma foto com toalha enrolada na cabeça no meio da neve pra te arrancar um sorrisinho xoxo?

Ana disse...

Rita, estou torcendo e orando para q tudo melhore por ai. Que bom q fez boa viagem, ja eh algo bom ne!
Beijos e forcas ai, se cuida!
Ana
Ps: as vezes nao comento muito mas saiba q leio seu blog todos os dias e estou aqui torcendo por voce e q sua maezinha melhore logo!

Rita disse...

Borboleta, e virou. Post. Bj.

Jux, sua docinha, obrigada! Fico sempre muito feliz em ver tanto apoio vindo de tudo quanto é lado. As coisas estão caminhando, devagar e sempre... mas ainda temos pela frente uns bons dois dias de hospital, pelo menos. Respira. Bj.

Amanda, não lembro de ter visto o filme que você mencionou, mas fiquei supercuriosa. Eu vivo remoendo umas coisinnhas de vez em quando; às vezes faz bem revisitar umas ideias mal alocadas, umas cismas antigas, né? Mas tal qual você, há vezes em que choro tudo outra vez. Mas também as libertações e aí quase grito "viva a terapia!" :-) Obrigada, viu?

Ana, você aqui e eu lá: tô sempre espiando seu blog e babando com seus dotes culinários. Muito obrigada pela torcida. Beijo grande!

Valeu, pessoas doces. Obrigada demais.

Rita

 
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