Distraída



Ainda não entendi direito o papel que meu pai teve em minha formação. Foi uma relação difícil, cercada por um distanciamento que parecia ignorar o fato de que vivíamos sob o mesmo teto. Não tive um pai que brincasse comigo na sala ou na praça, risadas divididas. Não tive sequer as discussões alimentadas por conflitos de gerações.

Só muito tempo depois, adulta e mais desconfiada de certas obviedades, mudei o ângulo e vi coisas que nunca vira antes. Mas né, a vida. Era meio tarde. Acho que passei tempo demais distraída. 

Hoje já faz dez anos que ele parou de lutar contra a doença que o levou embora. Ainda não desisti de tentar encontrar as tais respostas para os conflitos que nasceram lá na minha infância, até porque, ainda que aos pouquinhos, vou captando uma coisinha aqui, outra ali, então sei que vale a pena procurar.

Ainda outro dia, bem distraída que estava (olha, só), encontrei uma: aquela mania dele de roçar as juntas dos dedos na minha cabeça, quando voltava da rua e passava apressado pela sala, sem muita conversa, não era uma provocação para me irritar; era um jeito bem tímido de me fazer carinho. Eu nunca gostei daquilo, nossa, eu detestava. Mas, se fosse hoje, e ele fizesse aquilo com seus netos, é bem provável que eu explicasse aos meus filhos, assim:

- Ai, esse vovô tem um jeito tão engraçado de fazer carinho, né?

Porque hoje vejo muita coisa com outros olhos. Não sei se "acordei' ou se, na verdade, fiquei ainda mais distraída. O fato é que muitos quadros do passado mudam de cor com o tempo a ponto de, às vezes, eu nem reconhecer que foram pintados por mim.  

"E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te. "
Mário Quintana

15 comentários:

Fabi disse...

Ok, lágrimas aqui.

Borboletas nos Olhos disse...

ok, lágrimas aqui (2).

Ai, Rita, queria ter uma palavra certa pra escrever nesse exato instante. Faz de conta que, tá?

E ao pensar na cena que não existiu, do vovô e do seu jeito torto de acarinhar, só pude pensar no outro poeta:

"Também temos saudade do que não existiu e dói bastante" (CDA)

Um comentário que devia ser um abraço.

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Adorei!

Amanda disse...

Lindo, Rita! Sua mãe vai ficar emocionada quando a amiga chegar com esse textinho pra ela ler. (acho que foi por causa desse post que comecei a seguir seu blog).

HG disse...

Esta sensação que o tempo passou e não fizemos algo que "deveríamos" ter feto, vai nos acompanhar pra sempre!!!
Muitas coisas só vemos com o tempo, com a maturidade...
Beijo, querida.

Claudia Serey Guerrero disse...

lagrimas aqui (3), ... estive contigo no dia do adeus a teu pai, nao sei se lembras... com Dalton e Veronica..beijos, Claudia

Patricia Scarpin disse...

Ai, Rita, relacionamento com pai e mãe é algo que eu acho extremamente difícil...
O meu pai fez tanta m*rda na vida e todas as cacas que ele fez tornaram a minha vida e a do meu irmão mais difíceis ainda. Hoje tento não julgar, mas é impossível não imaginar que tudo poderia ter sido melhor caso ele não tivesse tomado caminhos tão tortuosos. Ai que saudade da minha mãe.

xx

Borboletas nos Olhos disse...

Rita,
tenho uma confissão a fazer. Em dias muito difíceis, eu venho aqui e escolho um post aleatório pra ler. Um qualquer, sem saber, sem comentar, só pra trilhar um tantinho desta estrada que me põe um calorzinho no peito. Hoje (que é um daqueles difíceis de enfrentar, mas que é preciso passar por ele todo e por todos os textos e imagens e depoimentos)conheci sua tia Maria. Conheci o aconchego, o amor de uma vida partilhada, a gentileza. Conheci que ser um tantinho distraída, ter histórias looongas, exagerar nas coisas, tomar decisões assim, meio nada a ver, são aspectos amáveis...e isso fez aquele calorzinho que encontro aqui, sempre, ser - hoje - praticamente a temperatura solar. Obrigada.

Danielle Martins disse...

Lagrimas aqui (4)...
Sei bem do que você fala, minha relação paterna não é muito diferente e ainda luto pra que melhore, pra ver "diferente".
Beijos carinhosos!

Joana Faria disse...

Lindo e comovente.
Me faz pensar e querer ser uma pessoa mais paciente e prestar mais atenção naqueles que me rodeiam.
Amei.

beijos de Lisboa! xx

Rita disse...

Olá, pessoas.

Olha, queria que vocês soubessem que recebi cada comentário como um abraço, tá? E que não tenho a menor intenção de romantizar a péssima relação que eu tive com meu pai, mas é verdade que o tempo mostra muita coisa. E que viver é um troço dificílimo e que comentemos inúmeros erros vida afora; mas que analisá-los e repensá-los nos ensina muita coisa, sempre.

Fabi, obrigada por partilhar.

Borboleta, seu carinho sempre chega do lado de cá em doses generosas. Ah, minha Tia Cebolinha vai ficar toda fofa com seu comentário. Aff, ninguém vai aguentar. :-)

Rebeca e Jota Cê, obrigada.

Amanda, vai, sim, com certeza. A amiga é a Verônica e é outra que também vai ficar boba quando eu disser que o post pra ela trouxe você pra cá. :-)

HG, a vida é assim, né? Sempre aprendendo, é o que importa.

Claudinha, bonitinha, claro que lembro de vocês por lá. E, olha, aproveitando o gancho, ando com uma saudade danada de ter amigos daquele tempo por perto. Deve ser a velhice. :-D

Patricia, nem tenho como pensar em como as coisas poderiam ser diferentes, não tenho. Mas quero que você saiba que pensei em você e em sua mãe quando voltei a ler o post depois de publicá-lo. Beijinho.

Danielle, é tudo tão difícil às vezes, né? Boa sorte em sua caminhada! Bj!

Joana, ter paciência é uma arte! Ai, como eu queria ter, aos montes, muita paciência nessa vida, viu... não é o meu forte, infelizmente. :-(

Beijocas, queridas pessoas docinhas.

Rita

Juliana disse...

Rita, eu fiquei arrepiada MESMO lendo o texto pela beleza dele e também porque eu estava ontem justamente num dia de me pegar com essas questões familiares e tinha me acabado de chorar quase o dia todo por isso.
eu fiquei espantada com a coincidência. Tava conversando com um amigo exatamente sobre o assunto, quando abri o Estrada. Foi ... interessante! hehe

Tô aprendendo a trancos e barrancos que faz parte do processo de crescer dar novos significados a relacionamentos que não foram ideais, mas que foram,né? Fazer o quê?

Ainda não consigo transformar mágoas em palavras bonitas como vc fez, mas chego lá um dia. hehe

Texto bonito! ( Acho que já disse isso) Mostrei prum monte de gente!

Um beijão

Rita disse...

Obrigada, Ju, você é um amor.
Olha, parar de idealizar relacionamentos deveria, na minha humilde opinião, ser exercício diário nosso. Ninguém é perfeitinho e feito sob medida para nossos anseios, né? Nós também não somos para aqueles que convivem conosco... enfim. Mas é complicado pra caramba, às vezes.

Fico feliz com nossa sintonia. :-)

Beijinhos.

Angela disse...

Ai Rita, painho era um baita de um problema quando estava crescendo e praticamente a minha vida inteira. Era muito brabo, altissimas expectativas e muito rigido... Minha mae era so suavidade, e balanceava. Hoje em dia me acho sortuda por ter tido os dois. Qualquer pingo de garra que eu possa ter devo a ele, e qualquer pingo de estabilidade emocional devo a minha mae. Hoje tambem entendo perfeitamente o seu "tough love", acho que ele poderia ter pego um pouco mais leve porem entendo por que ele nao o fez devido a sua vida tao dificil, nada com a minha. Hoje admiro a sua exuberancia total completa e constante em todos os niveis que uma pessoa o possa ser. Admiro o seu senso de sobrevivencia extremo, altissima inteligencia intelectual... o vejo hoje com clareza a falta total de inteligencia emocional, pessimo em relacionamentos. Um horror de marido, coitada da minha mae. Mas vejo hoje claramente que ele foi um baita pai.
Essa parte da vida relacionada a perda de nossos pais foi tao parecida, lembro que quando conversavamos tinha a sensacao que o que voce falava tinha sido dito por mim mesma a outros quando passei pelo mesmo poucos anos antes... Assim como esse post. Um beijao.

Rita disse...

Oi, Anginha

pois é, sempre que penso na morte de meu pai, lembro de você também. Senti que foi um troço meio revolucionário na sua vida todo aquele processo tão doloroso. Eu acho que ainda tenho muito a aprender em relação a vários pontos do passado,mas não sei até onde meu fôlego vai me permitir ir, sabe. Não sei se quero revisitar tudo não. Talvez certas coisas fiquem melhor lá onde estão. Outras podem esclarecer outros conflitos... enfim, pra frente, né.

Beijão e, assim bem atrasada, feliz thanksgiving!! :-)

Rita

 
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