A bruxa


“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

A minha tradutora é a Clarice Lispector.

Primeiro vieram os sustos, lá atrás. Eu lia e pensava gente, essa mulher é uma bruxa! Como ela pode saber? Aí segui um pouquinho mais adiante e percebi que Clarice sabia da gente - e das mulheres, em especial. Clarice parecia saber tudo sobre as confusões de quem percebe os muitos dramas da linguagem. Descobri-la foi um alento enorme para mim que, aqui e ali, sentia muita angústia ao perceber que nunca conseguiria dizer tudo: não há como dizer tudo, há tanto que a linguagem não alcança...

Clarice via isso e ia além: explorava essa lacuna em sua escrita, com maestria. Sofria os limites até forçá-los e enfim quebrar as fronteiras - sua escrita desafiava a linguagem, desnudava as palavras, revelava a farsa da expressão precisa. E que coisa boa foi ler aquele turbilhão de conflitos expostos de forma tão rica e tão cheia de camadas. Ao mesmo tempo em que Clarice expunha os dramas dos limites das palavras, mostrava que conseguia extrair delas muito mais do que se supunha possível.

Ler Clarice foi irreversível: de certa forma, nunca mais me senti sozinha; e nunca percebi de maneira tão clara a imensidão da solidão de cada um, preso que estamos aos nossos laços com a linguagem.

(Clarice gostava do silêncio, do não dito, das entrelinhas. Ela sabia que ali pairavam nossas melhores chances de ir além, de chegar mais perto do que sentimos.)

Quando abro um livro de Clarice, recosto-me na cadeira, respiro e deixo o livro entrar. Entrego-me, completamente: “viver ultrapassa todo entendimento”. E vou lendo e curtindo aquela tradução de mundo que está ali. Uma bruxa, essa mulher.

“... mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que Ulisses inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente - mas dessa vez não havia sequer o que contar.” (Em Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres.)

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler ‘distraidamente’.” (Em Para Não Esquecer.)

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. O que te direi? te direi os instantes.” (Em Água Viva.)

“O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.” (Em Água Viva)

***

Não desisti de Stendhal. Pode parecer que nem estou mais lendo, mas estou, sim. É que outubro foi monotemático e novembro tem sido disperso. Mas quero avançar e concluir a leitura de O Vermelho e o Negro nas próximas semanas. Ninguém perguntou, mas eu quis dizer. As coisas por lá são assim:

“Quanto a ela, não o podia olhar sem enrubescer, e não podia passar um segundo sem olhá-lo. Ela percebia a própria perturbação; e o esforço que fazia para escondê-la ainda mais a aumentava. Só uma vez Julien levantou os olhos para ela. A princípio, a Sra. de Rênal admirou-lhe a prudência. Breve, porém, vendo que aquele olhar não se repetia, alarmou-se: “Será que não me quer mais?”, pensou ela.” - Hehehe, ai, ai, as angústias do jogo da conquista. Sem saudades. :-)

7 comentários:

Juliana disse...

Ah, Clariiiice!

Uma Aprendizagem ou o Livro dos prazeres foi a meu manual pra sobreviver À adolescência. hehe

Ei, eu abandonei O vermelho e o negro em algum momento da vida. Me lembrei disso agora. será que devo voltar?

Amanda disse...

Eu tbm amo Clarice e sempre dizia que ela é uma bruxa. Quando li o titulo e vi a fotinho embaixo fiquei tão feliz! :)

Mas eu não consigo ler Clarice a qualquer hora, preciso estar muito preparada. Parece que ela me consome, parece que me canso, que corro uma maratona, sabe? Queimo muitas calorias raciocinando, não consigo de jeito nenhum ler "distraidamente", senão não entendo nada. Por isso prefiro seus contos, curtinhos e intensos. Uma vez até imprimi um e colei na parede do meu quarto, foi o "Por não estarem distraidos", quase decorei ele inteiro.

Uma pena que a palavra de Clarice não possa ser traduzida para outras linguas. Por isso acho que ela não é uma diva internacional, simplesmente não da pra traduzir. Pior é ela dizendo que não revisava os textos! Escrevia uma vez e pronto! Senão ia querer mudar tudo e não terminaria nunca.

Tem uma serie de entrevistas dela no youtube, ja viu?

Borboletas nos Olhos disse...

Não há palavras suficientes pra dizer Clarice. Mas a gente tenta, ah, tenta. Porque, né? Como ela pode nos dizer tanto?

Ela vive aparecendo lá no Borboletas...fui lá ver e você estava lá também, reclamando seu Ulisses ou me contando sobre a Imitação da Rosa...
foi aqui e aqui:
http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/06/pintando-o-sete-segunda-temporada_24.html
http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/09/menina-que-roubava-posts.html

Angela disse...

Preciso reler suas obras um dia. Acho que li muito cedo, e apesar de nao ter sido cedo para noventa e nove porcento do que li na epoca, acho que ela ficou naqueles um por cento. Tenho a impressao de que muito da profundidade me passou batido. Ja Pete leu beeeem mais tarde e deve ter gostado muito, pois quando Clarice apareceu na lista de nomes de Julia, ele falou logo "gosto de Clarice, mas nao sei se pelo nome ou pela Clarice Lispector...". Nao esqueceu nunca.
Bom domingo :)

Rita disse...

Oi, pessoas

Juliana, posso te responder sobre O Vermelho e o Negro depois que acabar? Agora há pouco houve uma reviravolta na história e gostei bem... mas não sei qual será minha impressão final, obviamente. Depois voltamos a isso, beleza? E Clarice: Aprendizado foi o primeiro romance que li dela, depois do encanto dos contos. Tenho um carinho todo especial pelo livro. Bj.

Amandaaaaa, quase inclui um trechinho de Por não estarem distraídos no post! No meu livro, Para não esquecer, escrevi, há muitos anos, a palavra "LINDO!", assim, em maiúsculas e com exclamação, no alto da página do texto. Não costumo riscar meus livros, então deve ter sido um arroubo de alegria ao ler aquilo. :-) Adorei seu comentário, tão boa essa identificação. Bj!

Borboleta, já cheguei a falar que às vezes você escreve "a la Clarice", né? Considere o maior dos elogios, viu? Olha, só, fui lá ver meus comentários: o lance da idade de Clarice na época da publicação de coração selvagem é meio indefinido, né? Acho que ela o escreveu ainda adolescente, mas só publicou mesmo quando já tinha 21 anos, por aí. É isso? Bom, na verdade, não importa muito: a mulher era genial, de qualquer jeito. Beijocas!

Anginha, o Pete leu Clarice em Português? Vocês têm livros dela traduzidos pro inglês? Eu também vou reler Clarice, pro resto da vida. E espero ler o monte de coisa que ainda não li dela, O Lustre, A Maçã no Escuro, etc. Inclusive ainda não li A Hora da Estrela, apenas vi o filme. Mas a vida é longa, né? Né?

Beijos, pessoas, chega de palavras: "Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas". :-) Ai, adoro demais.

Rita

Angela disse...

Nao Rita, foi em ingles. Como eu vi o comentario da Amanda (o que eu nao sabia) suspeito que tenha sido uma das poucas coisas que tenha sido traduzido, e o resultado nao sei qual foi. Pete nao consegue ler nada em portugues. Senao estaria por aqui :) Proxima vez que nos encontrarmos vou pedir para ele ler para o Arthur e a Amanda para voce ver. Prepara o riso!

Rita disse...

Olha, Anginha, eu sinceramente não sei do alcance que Clarice teve em outras culturas, mas vou procurar saber. E quero muito ver o Pete lendo para as crianças, sim!

Bj!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }