Arte, beleza e felicidade



Blue dancers, Degas

A Nardele perguntou o que faz a gente feliz pra valer - não aquela felicidade momentânea de comer sushi, mas aquela que nos dá a sensação de que a vida vale a pena. Eu falei por lá, entre outras coisitas, que fico feliz de verdade com a criação, e é mesmo.

Não preciso ser a criadora, eu me contento em admirar os feitos alheios. E a pergunta da Nardele, que li cedinho, antes de sair pro trabalho - as crianças esticaram o soninho hoje, embaladas pela chuva tilintando na janela - passou o dia na minha cabeça, tilintando também. E por causa disso, tive vários meio-sorrisos desenhados no rosto ao longo do dia. Porque toda vez que eu pensava em coisas que me fazem ver sentido na vida, sentia uma pontinha do prazer que sinto ao me colocar diante dessas mesmas coisas.

Dans la prairie, Monet

E como o mundo é vasto e a história da humanidade já vai aí com seus arquivos bem gordinhos, a fonte da alegria é infinita. Há um prazer que carrego comigo que vem lá da infância e preservá-lo causa quase tanta alegria quanto aquela que sinto diante de uma obra de arte que me encanta: a capacidade de me deslumbrar. Porque a verdade é que sem ela, eu sequer enxergaria a tal beleza que, para mim, dá sentido à vida. Então eu ainda ando por aí chorando à toa, encantada com canções, filmes, versos, histórias bem contadas, palavras bem combinadas, desenhos impossíveis, telas, passos esvoaçantes, sinfonias de outros mundos, textos que nos desnudam, construções que me embasbacam. E esse deslumbramento todo é feito daquela mesma matéria que gera o amor pelas pessoas, é o que trago de melhor em mim. A arte me faz feliz. Pertencer à raça humana que carrega consigo sua inesgotável capacidade criadora me faz feliz. Eu gosto de ver criações, coisas que antes do Fulano ou da Fulana não existiam. Eu me encanto e me emociono com o trabalho dessas pessoas. Gosto de arte porque gosto de gente.

Esse deslumbramento infantil que alimento todo dia me permite cair de amores de novo, de novo, de novo. E me faz viajar ad infinitum. Então quando vejo o quadro, imagino que antes ele era uma tela branca; uma tela branca que o artista transformou naquilo. E fico pensando que o mundo ficou mais bonito porque Rafael existiu, porque Bach compôs, Marquez escreve e Gaudí desenhou. E também porque Lily Allen tem aquela voz, Morrissey canta aquelas coisas e o cara do Cake usa aquele timbre. E meu marido faz umas canções tão lindas que dão dor no coração e aquela amiga faz aqueles bolos bonitos, aquele cara conta umas historinhas que fazem a gente querer a infância outra vez, alguém pega um pedaço de pano e transforma em uma roupa linda e uns caras um dia inventaram a internet. A beleza invade nossa vida toda hora, se a gente puder ver.

The Lady of Shallot, Waterhouse

Então é isso, o que me faz feliz é o encantamento.

E chuva tilintando na janela, também.

Tá tocando no nosso carro. Há dias.

***

A Borboleta está a mil na campanha da semana. Passem lá. ;-) 

14 comentários:

HG disse...

Ah Rita... Que agradável ler este post. Deu até vontade de escrever sobre o mesmo tema. Sou dessa laia de gente que cria... sou atriz e diretora teatral e fico toda boba a cada novo trabalho! A reação do público, a luz, o canário, o figurino e acima de tudo... o ator em cena!

Bia, Desperate Housewife disse...

*faz coraçãozinho com as mãos* é o nosso BELO interno que precisa se alimentar. Uma vez fiz um post sobre isso, mas nem de perto chegou no seu, nem de perto *.*
Verdade é que nós PRECISAMOS disso, da arte.
Meu fraco é música e poesia. Passei um ano chorando, na graduação, por conta dum professor de literatura brasileira, que me fez ler coisas lindas e reler outras tantas.

Beijoka

Joana Faria disse...

Lindo post, Rita. E concordo completamente. O encantamento me faz feliz também assim do jeitinho que você descreveu. E a inspiração principalmente (minha ou alheia tanto faz, o importante é que exista :).
beijinhos de Lisboa e boa semana!

Amanda disse...

Aiai, Rita. So vc mesmo pra me fazer pensar num assunto que me toca tanto e que evito ao maximo: o que me faz feliz? Vou ficar so numa historinha. Ja falei la no blog o quanto foi dificil minha volta pra casa depois da australia. Foi um ano realmente muito duro pra mim, a ponto de eu pensar que nunca mais seria feliz novamente. Tentava me conformar com minha nova condição de infeliz, quando o cheri me arrastou para uma viagem de três meses no sul da america latina e eu mal tinha colocado o pezinho na estrada e me dei conta "ei, olha so como estou feliz!!!".

O problema é que agora MORRO DE MEDO de voltar pra casa de novo.

Caso me esqueçam disse...

ai, como senti saudade desse blog. alias, sinto, né, porque sei que falta ler um monte de coisa ainda que eu deixei passar.

mas respodendo à pergunta, claro que eu pensei em mil coisinhas que me deixam feliz. até ver que voce nao tava falando delas. mas de algo maior. entao pensei em todas as coisas que eu ja vivi e que me fizeram feliz em dado momento. ou que me fazem ainda. e... acredite. nao achei nada. simplesmente nao consegui pensar em nada. quer dizer, "viajar" eh uma coisa que me deixa feliz. nao soh o momento em si, mas toda a experiencia com outras pessoas, a reflexao da vivencia que voce soh encontra quando esta longe da vida da qual voce estah acostumada etc... entao fui pensando mais em algo que me deixa feliz e completa e... pensei no meu melhor amigo. e vou te dar essa resposta. meu melhor amigo faz a minha vida ser completa. faz com que eu me sinta sempre acompanhada. faz com que eu nao sinta medo nunca. acho que posso definir em uma palavra nossa amizade: segurança. eu nunca vou estar perdida. e isso me faz feliz.

Juliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliana disse...

Antes de tudo , eu devo comentar o comentário que vc fez no outro post, aquele de que sou uma menina. Eu ri tanto. Ah, uma menina com cara de quem apronta. Coitada de mim! kkkkkkkkkkkk Bem, não sou exatamente uma menina faz teeempo, viu! Tenho 26.

Que poético esse post, hein? Tô pensando aqui no que me faz feliz. Nesse sentido amplo de que vc falou, o que me faz sentir que a vida vale a pena é a esperança. Eu tenho sempre muita esperança de que tudo vai ficando cada vez melhor sempre, mesmo que a mudança seja lenta. Acho que o melhor está smepre vindo, que é um processo; que se hoje tá uma merda, amanhã será mais legal, porque afinal ontem e anteontem existiram e foram bom.

Nem sei se isso é esperança mesmo, mas é o que tem me mantido com vontade de viver e com alegria de viver, principalmente.

xi, será que respondi certo? =p

Agora vou ver o vídeo.

Iara disse...

Rita!

Lindo seu post! Olha, arte realmente é uma das coisas que me deixa encantada. Aliás, quando penso nas atrocidades que o ser humano é capaz de fazer ao ser semelhante, em tudo que existe de perverso no mundo, penso que só a arte justifica a passagem da espécie humana pela terra.
Mas tem uma que pra mim, empata: carinho. Mas não essa coisa de ser super meloso o tempo todo, sabe? Essa coisa de pensar no outro. Quando eu voltei do almoço e vi no twitter vocês perguntando: "cadê a Iara?", eu abri um sorrisão. Esse sorrisão de quem foi lembrada por gente que nem conhece pessoalmente, mas por quem já sente muito carinho.

Bjo!

Mari Biddle disse...

O que me deixa feliz? Ler post como esse é uma dessas coisas que põe um sorriso no meu rosto.bjs

Nardele disse...

Rita! Isso me fez muito feliz!

Verdade. Me faz feliz saber que posso tocar o coração de alguém, que alguém que leu algo que escrevi vai parar um segundo pra refletir sobre a vida dela, sobre as coisas boas que imprimem um sorriso em seu rosto. As pessoas se deixam tocar tão pouco que quando isso acontece é tão legal, e raro, que me faz feliz. E tantas outras coisas! Sabe uma coisa que me deixa feliz? Uma coisa doida? rs Trancar a porta de casa quando a última pessoa da família chega à noite. Pronto! Agora estamos todos juntos de novo. Agora vamos tomar banho, descansar, comer juntos, ficar perto, rir um pouquinho, sentar lado a lado e ler um livro em silêncio, ou fazer qualquer outra coisa. Mas estou tranquila porque todos estão em casa, bem, em paz. Isso deve ser coisa de canceriano! hahaha

Obrigada pela citação no post. Beijo enorme!

Rita disse...

Oi, almas leves!

HG (estou em dívida com você, não pense que não esqueci), escreve! Escreve que vou lá ver e papear. Eu não sabia que você era atriz - menudete, sim; atriz, não, hehe. Que legal, HG! Teatro, né? Putz, que sonho1 Como faz pra ver você em cena, só na Zoropa? Chique, você, hein?

Bia, você aqui-i! Tão bom quando a gente acha um professor que nos empurra textos bons, né? Ai, que saudade, de verdade... mas sem mimimi, vamos pra frente. :-) Beijocas!

Joana, sabe que quase incluí seu blog no post? Quase, menina. Adorei os desenhos, estou encantada com aquilo lá. Fiquei muito feliz de você ter comentado aqui. :-) Beijocas.

Amandinha, nossa, esse assunto é tão delicado. Sempre rola um certo choque cultural, não tem jeito. Depois de minha primeira viagem à Inglaterra também amarguei um certo banzo quando voltei e entendo do que você fala. Já na última vez, adorei voltar, a situação era bem outra. Bom, a gente ainda vai papear muito sobre isso. :-) Bj!

Luciana, seu cometário fofinho.. adorei. Amigo é tudo nessa vida, viu. Tudo de tudo. Eu também colocaria viajar ali nos top five das coisas boas do mundo, mas umas das coisas que mais curto - além de babar com certas paisagens naturais - é apreciar o de bonito o homem espalhou por aí, então... tá no post. :-) Beijinhos.

Juliana, cara de que apronto SIM. :-) Ah eu também gosto de pensar que as coisas melhoram. Já fui bem pessimista, em relação ao nosso país, por exemplo, mas recuperei muito dessa esperança nos últimos anos e isso é ótimo. Bj!

Iara, sua linda. Carinho, sempre. Ih, rolou o maior papo lá na hora do almoço e faltou você, sim. O assunto era simples: reunir pessoas que estão na França, em Fortaleza e em Floripa - e em SP. Ou seja, fácil. :-P

Mari Biddle, sua bonitinha, adorei seu comentário! Claro, né?

Obrigada, gente!

Papo bom me faz feliz demais!! Adorocês tudin!

Bjs,
Rita

Rita disse...

Nardele, eu que agradeço, linda: ficar navegando para escolher um quadro do Renoir para incluir no post não foi exatamente um sacrifício... :-D

E essa corrente é que é boa, né? Papo bom gera papo bom.

Obrigada, de verdade!

Rita

HG disse...

Escrevi, Rita. Ontem mesmo!
Beijos

Rita disse...

HG, vou ver.

 
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