Adolescência cheirando a leite

  
Não chora, Amanda. Conversa, filha. Con-ver-sa.

Tenho medo de projetar expectativas sobre meus filhos. E mesmo agora, quando eles ainda têm três e cinco anos, procuro não planejar demais, fantasiar demais, esperar demais, já que eles podem ser meus filhos, mas não são minhas fotocópias. O exercício não é dos mais fáceis: orientar sem escolher por eles, impor limites sem tolher a criatividade, respeitar gostos pessoais sem ceder a caprichos, ouvir sem deixar que levantem o tom, levantar o tom quando for preciso sem assustar ou inibir. E nisso tudo errar de vez em quando, acertar de vez em quando.

Nos últimos dias tenho tentado rever meu modo de lidar com a mais nova, Amanda, de três anos. Descrevê-la com algum grau de honestidade inclui adjetivos como birrenta, teimosa, chorona, brava, manhosa e brigona. Também é engraçada, espertíssima, desenrolada, independente, corajosa, bem resolvida (em alguns aspectos - vejam o tamanho da minha noção ao usar "bem resolvida" para descrever uma criança de três anos), decidida, florzinha, pititica. Mas é da primeira lista que quero falar agora.

Amanda tenta ganhar no grito. Com ela não tem muito papo ou argumento, quando ela quer, ela grita. E, claro, ninguém cede. Então ela grita mais. Daí que ninguém tem medo de grito e tenta mostrar que não é assim que a banda toca. E ela grita mais. Grita até perceber que não vai conseguir nada, quando então chegam a frustração e o choro. E em matéria de choro, leitoras e leitores, o repertório dela é longo, variado, multifacetado e ensurdecedor. Mas a gente também não tem medo de choro, e... pois é, tá ficando chato. O que acontece é que Amanda está em uma fase em que a considero nova demais para certos papos e já grandinha demais para que eu possa aceitar certas reações como se fossem "normais".

Mas eu estava falando das expectativas. Pois bem, antes de me descobrir grávida da Amanda, eu não queria ter filhas, apenas filhos. Achava que não lidaria bem com o lado "frufruzice" das meninas, aquele monte de fita e laçarote, o mundo rosa e cheio de frescuras. Amanda veio, aprendi que nem tudo é preto no branco, que uma menina pode ser moleca a não mais poder e amar rosa ao mesmo tempo. Amanda me ensina muitas outras coisas todos os dias, assim como seu irmão, de cinco anos, mas esse lance dos estereótipos ligados ao mundo das meninas é um ponto que destaco. Ainda não lido muito bem com DVDs da Barbie - que nunca sugeri, mas atualmente são seus preferidos na locadora, não me perguntem como nem por quê - mas respeito porque seu lado moleca permanece ali, vivíssimo, e isso me acalma... (péééén!! Alerta das expectativas projetadas - preciso me preparar para o fato de ela optar em ser uma patricinha - dedos cruzados). Mas aí é que as coisas se complicam: na minha cabecinha tola, eu imaginava que bom mesmo seria se minha menina fosse forte, cheia de personalidade e vontade, determinada e com capacidade de se impor, algo bem distante da menininha meiguinha e docilda, sempre pronta a seguir atrás da primeira sugestão - logo eu não deveria estar reclamando. Mas o que me esqueci de desejar foi que essas características se manifestassem de forma mais branda na primeira infância. Porque agora é hora de aprender limites e como cargas d'água ensinamos limites a uma pessoa tão cheia de determinação e vontade? (Não adianta sugerir palmadas, não vou seguir.)

Então a ordem agora é partir do princípio de que ela já consegue entender mais do que parece (afinal, não é tão esperta?) e iniciar a onda dos papos-cabeça. Porque ignorar a birra, impor o castigo no "cantinho da reflexão", confiscar o brinquedo, levantar a voz, nada disso tem surtido o efeito que eu esperava. Gente, longos papos, com uma menina de três anos. Não avisem ao Conselho Tutelar, tá?

Hoje funcionou. Diante do choro sem fim, retirei a Amanda de cena e a levei para o quarto. Cantei baixinho para me acalmar até que ela parasse de chorar (o que aconteceu rapidamente), iniciei a conversa, que foi devidamente interrompida por várias recaídas choríferas, sempre recorrendo à canção para acalmar os ânimos, o meu e o dela. Quando enfim o choro cedeu de vez, convidei-a para um abraço e uma conversa em voz baixa, explicando o cansaço que tem sido lidar com tanto choro e tanta birra, que todos a amamos e mil etecéteras; que não haverá espaço para vozes levantadas, gritos e escândalos, que ela sempre será afastada das brincadeiras quando isso acontecer (o horror dos horrores, já que uma criança de três anos brinca o dia inteiro), bla bla bla; que uma pessoa que fala sempre gritando desagrada todo mundo e que ninguém precisa aceitar que ela grite e se descabele para conseguir o que quer que seja. A tudo ela ouviu e com tudo concordou, provavelmente mais por ansiedade para voltar ao brinquedo do que por reflexão, mas o que posso fazer? Selado o pacto do bom diálogo em substituição às birras, arrumei seus impossíveis cabelos, empapados de lágrimas e suor, e permiti que voltasse à disputa do balanço com o irmão. A tarde transcorreu sem novas recaídas e a hora do jantar foi marcada por vários "po favô" e "licença". Uma lady, a minha pirralha. Vamos ver até quando. Espero que a gente consiga logo impor uma rotina livre de birras, porque eu quero uma longa trégua antes da adolescência oficial. Ai, meus sais. (Não parece nada muito revolucionário, eu sei: conversar é o óbvio. Mas até agora, minhas conversas se limitavam ao urgente do momento, como "você não vai me convencer a te dar isso gritando assim"; agora estou partindo para coisas mais abrangentes como "uma pessoa não pode tentar resolver as coisas no grito". Parece a mesma coisa, mas não é: não vou mais lidar apenas com cada caso especificamente, mas tentar mostrá-la de que seu comportamento tem desagradado e que ela precisa desistir da tática do grito. Na pior das hipóteses, talvez eu a vença pelo cansaço, já que os papos devem ficar cada vez mais chatos, hohoho.)

Eu ainda prefiro uma menina cheia de personalidade a um poço de candura e meiguice, mas a verdade é que as duas coisas não são excludentes. Dá para ser meiga sem ser pastel, e é isso que vou tentar ensinar à minha pequena: que ela pode expor suas vontades desde que perceba que é preciso conversar e negociar, que o mundo não é só dela e que paciência é uma virtude.

É claro que tenho expectativas em relação aos meus filhos: desejo cidadãos socialmente conscientes, generosos e empolgados com os caminhos escolhidos, mas tento evitar especificidades como "que gostem do Palmeiras" ou "que queiram ser astronautas". Espero que amem, respeitem e construam. E que saibam conversar. É muito?

(Paralelamente, vou tentando eu mesma reaprender a lição porque, olha, há momentos em que a paciência vai aqui, ó. Campanha eleitoral, que nada. O que tira a gente do sério mesmo é Amanda com sono.)


11 comentários:

Iara disse...

Desculpe a insolência de dar palpite sem nem ter experiência na área, mas a amiga q eu menciono no meu último post conversa com o filho dela assim, nesses termos, desde que ele era bem pequininho (note que o danado só tem 15 meses). Explica tudo, como se ele tivesse plena capacidade de compreender. Como ela é psicóloga, eu boto fé, viu? Como você falou, talvez ela não reflita sobre aquilo naquele momento, mas duvido muito que ela não guarde nada.

Liliane disse...

Pois Rita,
O que fazer quando o mais velho (o meu completará 5 em fev.)entra nesse modo eu grito para connseguir... Olha a gente conversa muito mas, as vezes a mãe aqui surta também...
Minha filha que vai completar 3 em Dezembro... É bem gritalhona, e toda vez que alguém se mete com ela a primeira reação é berrar, ai haja ouvido... Enfim gostei do seu aproach e vou tentar aqui para ver se funciona!
bjos

Angela disse...

Ai querida, Jujuba vai no mesmo caminho. Max tambem gritava, mas era diferente pois falou muito tarde da idade de Julia ainda vivia frustrado coitado. Julia ja poderia ta fazendo comicio desde um ano e meio, entao nao tem desculpa. Mesmo assim eh muito grito, choro e tambem eh muito braba e mandona. Claro que como voce nao cedo. O pior: Pete CEDE! E rapido, por sinal. Imagina o que sera de mim no futuro??? Vou ter que te pedir muitas dicas e muitos conselhos.

Mari Biddle disse...

Rita,
passei por aqui para deixar minha solidariedade e ter um pouco mais de inspiração para lidar com meu pequeno.

Eu queria ter menina justamente para vesti-la de todas as cores menos rosa. Pode uma coisa dessas? Provavelmente ela a cor preferida dela ia ser justamente rosa e eu ia me frustrar talvez. Eu estava vendo a polemica sobre o livro do Monteiro Lobato e dei por mim que 'já montei a biblioteca que EU quero' para o meu menino. Só uma coisa eu ainda penso que vale a pena eu controlar nesse momento - faço questão de que o mundo dele tenha elementos que não seja só carrinhos e motoquinhas. Se somos construidos socialmente então essa é a hora de eu dar uma forcinha ao 'gostos' da minha criança.

Mas uma coisa me deixa meio insone, sou atéia e é provavel que Ethan vai ser louco por Corintios, Deuteronomios e cia.

Bjkas

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, no meio do texto eu estava toda animada..."ahá, vou dar uma sugestão legal pra Rita, quem sabe ela conversa com a filhota, não sobre cada situação mas de forma geral, como dizia meu pai com criança a gente trata no atacado e não no varejo porque elas são muuiiitttooo espertas"..
Daí que você traz a pergunta e a resposta, rsrs, quase acaba com meu comentário. Bom, só pra dizer que o meu Samuel tem 13 anos e - agora - adolescente, temos tido uns arranca-rabos mesmo, mas na infância ele sempre foi decidido sem birra nem chororô e acho que muito se deve a uma sucessão de papos como esse. Até hoje ele curte conversar, chega pra mim ou pra meu pai ou minha mamys e diz: ei, vamos falar dos planos da família? Um amor, ai, vou ali dar um cheirinho na cabeça dele. Bjs pra você e força na peruca, que os longos papos estão só no começo...

Tina Lopes disse...

Tentei fazer um comentário enorme mas seria desnecessário, você tem tudo. Bem, eu já fiz todo tipo de pacto com a Nina e ela só lembra de dois: 1) se ela grita, eu grito também, e ninguém quer isso (modo nada exemplar de resolver as coisas, eu sei) 2) ela sempre vai me dar beijinhos e abraços, mesmo quando eu for velhinha.

disse...

Acho que é por ai mesmo Rita. Em casa sempre foi assim e espero poder seguir o exemplo da minha mãe com o Rafael. O grande problema é controlar a propria raiva e frustração, né? E' um exercicio e tanto. Por enquanto estou curtindo essa fase deliciosa do 1 ano e pouco, mas ja' começo a me preparar psicologicamente para o quem vem a seguir... desconfio que nao va' ser tao dificil, pq o Rafael é um doce de menino. Veremos, veremos...

Boa sorte com a pequena!

Daniela disse...

Ai ai ai.Quem dera todas as mães fossem assim. Porque eu tenho alunos de 12, 13, 14 e 15 anos que ainda tentam resolver tuuuuudo na porrada e no grito.

Agora eu, ao contrário de você, quando penso em ter filhos só quero ter meninas, adotar meninas. Meninas, sempre meninas. Me recuso a pensar em nomes de meninos, veja você.

Rita disse...

Ois!

Iara, zero insolência, dear, meu post é um pedido de socorro, hahahaha. Pois é, na real, na real, eu e principalmente o Ulisses sempre papeamos partindo do princípio que eles sempre captam alguma coisa, mas agora vou ser mais caprichosa nos papos com a Amanda pra ver se reverto essa "tendência". Valeu!

Liliane, vamos juntas, uma socorre a outra, nem que seja com pitacos. :-) Boa sorte aí...

Anginha: ai, ai, ai, seu Pete, deixa ele, vou puxar as orelhas. :-) Imagine, se nem tu estás conseguindo controlar o papai da Jujuba... menina, é dose de leão essa choradeira, viu. Mas vamos lá, quando algo funcionar por aqui, te falo e vice-versa... ;-)

Mari Biddle, hoje a tarefa do Arthur é descrever atitudes de respeito que precisamos ter em "lugares sagrados". Vi e lembrei de ti na hora! Hahahahaha Menina, esse papo de ensinos religiosos rende muito pano pra manga. Quanto aos livros, vamos comprando um pouco do que ele pede, outro tanto do que gostamos. Ele já tem vários livros que ele mesmo escolheu e muitos outros que nós compramos e ele acaba curtindo um monte. Mas, claro, vai rolar uma influenciazinha básica, como não... né? Ora, enquanto a gente consegue... hehehe Bj, linda!

Luciana, aguarde-me. Quando a adolescência dos meus chegar, vou gritar muito! E você vai ter de me ouvir! Pleeeease!! :-)

Tina, eu quero o seu comentário grandão, sem regular, tá?? :-) Ó, vou hoje mesmo fazer esse pacto com a Amanda e o Arthur. Se bem os conheço, o Arthur vai dizer "claro, mamãe", enquanto a Amanda vai perguntar se vi o urso rosa dela. :-) Bj!

Dé, a Amanda também tem seus momentos superdocinhos; mas o forte dela mesmo é a atitude de independência. Vamos ver como amanso essa fera. :-D

Dani, esse é justamente meu maior receio: futuros adolescentes que não têm paciência com nada. Mas vou me manter otimista. Até porque desistir não é uma opção. Beijão!

Valeu, pessoas! Beijos procês.

Rita

Patricia Scarpin disse...

Adorei o texto - vc tem o estilo da minha mãe, que era doce toda vida, conversava. Uma vez ela apelou pras palmadas, mas já estava doentinha, tomava muita morfina, fazia coisas que não fazia em outras época. Eu me lembro, inclusive, do meu pai ficando meio p*to por achar a minha mãe "mole demais" pra educar a gente. :D

Te falei, querida, que me emocionei, e é verdade.
xx

Rita disse...

Patricia, esse seu comentário tem um significado enorme pra mim, viu? Pelas coisas que conversamos e tal. Fica aqui meu abração pra você, cheio de carinho.

Beijão,

Rita

 
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