A madame perdida e as piadas sem graça



Então voltei. No trecho do voo entre Curitiba e Florianópolis senti-me como se estivesse percorrendo uma estrada esburacada a bordo da charrete que a Madame Bovary usava para ir ao encontro de seu amante, tal a intensidade das turbulências. Mas o que são as turbulências provocadas por uma chuvinha de nada, não é verdade? Então, também acho. Cheguei a Floripa em uma madrugada fresquinha e úmida, para um abraço inteiro e quente. Em casa, beijei rostinhos que dormiam, tentei adivinhar sonhos, arrumei os lençóis e saí de fininho.

Ainda estou a meio quilômetro por hora, engatinhando rumo à rotina, tentando superar aquela sensação de que, olha, as coisas nem são assiiiiim tão importantes - acho bom superar essa sensação, ou pelo menos torná-la menos intensa, para não correr o risco de me transformar em uma pessoa irresponsável e absolutamente desleixada. Porque se há uma verdade que os fatos da semana que passou reforçaram em mim é a de que hoje valorizo ainda mais uma escolha que dei para cultivar de uns tempos para cá, aquela de não buscar tanto, de contemplar o simples. Pois é. Mas sei que anestesia também é um risco, então sonho com uma utopia chamada... como é mesmo... ah, lembrei: equilíbrio. Isso.

***

Mas eu falava da Ema Bovary. Concluí a leitura da obra prima do Flaubert antes de desembarcar para a conexão no Galeão e ainda preciso de um tempo para olhar para ela, a Madame, com algo além de pena por sua total alienação e submissão e por sua obsessão por tudo que inspirava luxo, grandiosidade, aventura. Não consigo, ainda, enxergá-la como uma mulher que desafiou os costumes de seu tempo porque, a meu ver, ela não desafiou nada. Só vejo desafio se desconsiderar o fato de que seus atos eram escondidos sob várias camadas de mentira que, no fim das contas, acabam por afogá-la e transformá-la na maior vítima de seu adultério - e acho que isso acontecia porque ela traía, na verdade, a si mesma. De novo, as desventuras de Ema ainda rondam minha cabeça, então pode ser que eu enxergue a história com outros olhos amanhã ou depois, mas admito que durante a leitura eu torci por um arroubo de personalidade mais forte naquela dondoca que a fizesse romper de verdade com aquele estilo de vida miserável, com aquela eterna mendicância por uma migalhinha que fosse de veneração - mas não de qualquer veneração, naturalmente, já que seu marido a adorava; mendigava pela adoração de homens que ela julgava superiores ao infeliz. Hum... é, ainda é pena, ao final do parágrafo.

Nem considerando que o divórcio não era uma opção, Rita? Hum, não, nem assim. Porque nem estou falando da traição em si, mas da submissão aos amantes. O adultério não a ensinava nada e ela seguia mendiga de amores falsos ao invés de rebelde ou revolucionária.

Claro que o mesmo que digo sobre a personagem Ema não se aplica à obra, essa, sim, ousada e deliciosamente construída. E olha que boa parte da minha leitura se deu em dias em que eu tinha a cabeça pesada e o coração apertado, mas mesmo assim Flaubert prendeu minha atenção em bem vindos momentos de descanso. Mas tenho cá comigo que, muito mais que a audácia de se construir e expor uma mulher que se arriscava em aventuras amorosas no século XIX, talvez o rebu criado em torno da história tenha sua origem mesmo nas várias críticas feitas à religião. Li que Madame Bovary rendeu a Flaubert um processo por "ofensa à moral pública e religiosa"; bem, a "ofensa à moral" tem suas consequências trágicas na própria história, o que me deixa com uma leve sensação de lição moralista (viram, ladies, comportem-se); já os debates entre ciência e fé, de carona nas falas do farmacêutico Homais e do eclesiástico Bournisien, esses, sim, devem ter tirado o sono de muita gente grande da época.

Recomendo a leitura com força e torço para mudar minha opinião sobre personagem tão venerada. Porque adorei o livro, mas fiquei com uma vontade danada de telefonar para a Ema e lhe dar uns bons puxões de orelha e perguntar: escuta aqui, você é uma mulher ou um rato? Roda essa baiana de uma vez, vai trabalhar e, helloooo, você tem uma filha! Fiquei mesmo. (Gente, nunca vi mãe mais desnaturada que aquela, um horror! Do tipo: o amante é quem pergunta, enquanto combinam a fuga, e a sua filha?, ao que Ema responde ah, é, tem isso também... mais ou menos assim; só que nas palavras de Flaubert, não nas minhas)  Vou torcer para que o pessoal que costuma passear por aqui, e que já tenha lido o livro, ajude-me a enxergar a coitada com outros olhos porque, ai, tadinha, já sofreu muito e não precisa que eu fique por aí falando mal dela.

Bom, ainda restava o trecho Rio-Floripa, com escala em Curitiba. Então, mantendo a tradição, comprei no Galeão um  livro do Luis Fernando Veríssimo, o  Comédias Brasileiras de Verão. Bom, não sei se eu nunca tinha prestado atenção direito ou se só agora o Veríssimo deu para escancarar um machismo inconveniente em algumas crônicas, mas o fato é que detestei algumas coisas como certo texto que tem o sugestivo título "Substituto de mulher". Deplorável. Na boa, nem quero contar aqui para não fazer eco. Daí, sei não, acho que vou abandonar a tradição. Porque até dei duas ou três risadas em outros momentos do livro e continuo achando as crônicas leves do Veríssimo ótima pedida para viagens longas. Mas tudo nessa vida tem limite. E não que eu seja grande fã, idólatra do cara, nada disso. Gosto, só. Mas vou forçar um pouco a barra só para usar uma ótima frase do Flaubert, e dizer que acho que preciso ler menos o Veríssimo. É que, em muitos casos, não devemos chegar muito próximo daquilo que admiramos, para não correr o risco da decepção. Ou, como diz, lindamente, o criador da Ema maluquinha: "Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos". Pois é, Veríssimo. Eu deveria ter comprado o livro do lado. Acho que era do Scliar. Deveria, sim.

***

À torcida mais querida da blogosfera: Tia Berna está bem e manda beijos de agradecimentos.

***

Vocês já devem ter visto que a quarta etapa do 4º concurso de blogueiras do blog da Lola começou, né? Boa sorte, Luci!

Este post acabou gerando outro, muito bom, lá no blog da Amanda. Passem lá, a conversa ficou bem legal.

13 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Como estou votante! Luci já teve meus votos (confesso, votei a segunda vez já que estou no colinho de mamy hoje e, assim, com outro computador).
Também acho o livro incrível e que a Emma ainda precisava comer muito sal (você conhece essa expressão?adoro!)pra ser considerada um mulherão.
Por fim, puxa, gosto tanto do Verissimo que se encostasse e saísse todinha dourada ia direto pra uma escola de samba toda orgulhosa e pronto.
Mas o que eu queria mesmo dizer era: que bom que está de volta ao seu canto e que bom, bom, bom que Tia Berna está bem. Beijos às duas.

Danielle Martins disse...

Leio você visualizando seu voo, sua chegada em casa, o abraço, o beijinho e o arrumado dos lençois... Também gosto do Veríssimo, gosto também das crônicas do Rubem Alves. Mas como diz a Borboleta o importante mesmo é que Tia Berta está bem! Beijos e feliz retorno a rotina!

Caso me esqueçam disse...

mulher doida, voce contou sobre o livro, foi? quando li o nome, parei de ler, soh li a frase em que voce disse que aconselha o livro. que bom! mas nao tou podendo ler nada que nao seja em lingua francesa (como se eu soubesse). maaaaaaaas nao vou reclamar aqui. ja choraminguei no blog, chega.

ai.

ah, e obrigada! :D

=*

Amanda disse...

eu sempre achei o verissimo machista e nao entendia como ninguem via isso. Hoje pela primeira vez alguem concordou comigo espontaneamente! :)

Beijos!!

Iara disse...

Antes demais nada, que bom que sua mãe está melhor. \o/

Fiquei esperando o dia acabar e eu chegar em casa pra fazer um comentário com calma, como o Madame Bovary merece. Eu tô devendo um post porque o livro da Maria Rita Kehl fala dele, e eu já acabei de ler. Mas eu vou tentar só levantar algumas bolas.

Começo pela questão da maternidade. Então, a maternidade não tinha valor social nessa época na França. Ninguém era valorizada por ser boa mãe, nem cobrada por isso. Você, como mãe, pode argumentar que é um absurdo, que não é por conta de cobrança social que você ama o Arthur e a Amanda. Verdade, e duvido que não existissem mães dedicadas naquela época. Mas é que não era uma realização, um projeto, tal qual é hoje. E o cerne do sofrimento da Ema é esse: ela tá em busca desse projeto.
Daí, outro ponto. Na época da Ema, essa realização só podia ser feita ao lado de um homem. Você valia tanto quanto o status do seu marido. Logo, casar-se com um homem sem brilho era fracasso. Do mesmo jeito que eu tento profissões, Ema tentará homens. Não pense no adultério dela como uma questão erótica porque tá longe disso: o que ela busca são novas possibilidades de vida. E por isso há uma diferença muito grande entre o primeiro e o segundo amante: no primeiro, ela é usada e não se dá conta. No segundo, ela aprende como a banda toca e a dinâmica fica outra. E a graça tá aí, na angústia dela em realizar algo que a gente sabe que ela não vai realizar mesmo. Porque ela não tem esse espaço. Você tem razão, ela não desafia nada nem ninguém, nem tem essa pretensão. E é meio como uma tartaruga de barriga pra cima, que sacode as patas e não sai do lugar, então só resta entrar no casco, alienar-se.
Então, assim, é lógico que admiração pela personagem não dá pra ter mesmo. A gente admira é a construção, o quanto ela tem a dizer, o quanto a gente pode pensar a condição feminina através da obra.
Vou tentar fazer o post sobre o livro semana que vem. O seu post tá pedindo. ;-)

Iara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari Biddle disse...

Oiê, a Iara já colocou exatamente o que eu pensei ao ler sua decepção com a madame.

Queria acrescentar que a Ema não tinha como escapar da condição dela. Ela tentou mas como a Iara colocou isso gera uma angústia em quem está lendo porquê a gente sabe que não vai dar certo. Eu acho que ela foi até longe demais para uma mulher no sec. IXX criada naquele ambiente longe da cidade grande e de outros modelos para se olhar e ver o quanto ela era prisioneira da condição feminina de sua época.

Adoro o livro. Postar sobre uma comentadora do Flaubert será divino para mim, Iara.

Bjkas procês!

Rita disse...

Luciana, e se eu te disser que uma das frases do livro do LFV é mais ou menos assim: "a boneca inflável é a mulher aperfeiçoada"? :-(
Bj!

Danielle, obrigada, querida. Está tudo bem, sim. A recuperação de D. Berna segue firme e eu estou curtindo a barulheira toda com alegria. Beijo!

Luci, não contei da história, não! Quer dizer, acho que cerquei a história, mas não dá para dizer que contei o livro. Por via das dúvidas, fica aí e lê depois. Beijos!

Nossa, Amanda, eu ainda vou reler os outros livros que tenho dele só para confirmar... será que eu nunca tinha percebido nada assim? Mas dessa vez foi gritante! Eu, hein.

Rita

Rita disse...

Iara e Mari (vou falar com as duas de uma vez, por causa da linha semelhante nos cometários). Meu post nem é digno do seu supercomentário, Iara. Sim, admito que meu lado materno contaminou completamente minha falta de empatia com a madame. Mas, sendo bem sincera mesmo, levei em conta o contexto social dela, sim, a imensa distância que existe na relação mãe-filhos no nosso meio brasileiro HOJE e na França de Flaubert. Mas, ai, meus sais, difícil euzinha ler aquilo e não pensar na coitadiiiiinha da filhota dela. hehehe, eu sei, profundidade acadêmica de um pires, mas, né?

Bom, consigo ver nitidamente que o adultério dela vai bem além da questão erótica, tanto que falei no deslumbre dela pelo que é grandioso, porque vi que era a frustração social mesmo, sabe? E ai, Mari, também acho que peguei pesado como se ela tivesse mesmo no horizonte a possibilidade de se declarar independente. Quer dizer, uma personagem que o fizesse, seria fabulosa, MAS aí é que está o x da história e é pela impossibilidade de revolução que Flaubert consegue lindamente retratar o inferno da mulherada na época. Okay, meninas. Vamos continuar o papo no blog da Iara, assim que o post dele pipocar. E que bom que as coisas mudaram um tiquinho, né? Depois de amanhã é domingo, quero dizer. ;-)

Beijocas!

Rita

Angela disse...

Tao bom saber que a condicao da mamae melhorou, e que deu tudo certo com a viajem de volta. Beijao!!

Rita disse...

Deu tudo certíssimo, Ângela! Muito obrigada pela superforça, viu? Foi como se você estivesse aqui, me empurrando pra frente.

Bj
Rita

Juliana disse...

ei, rita!! Seu post sobre a emma não me saiu da cabeça. Daí, vim olhar os comentários e vi que a Iara disse o que eu queria dizer.
Mas esquecendo todas essas questões, pensando só na Emma como " pessoa", eu fiquei o livro todo com muita pena dela, muita mesmo. Dá vontade de puxar a " nossa amiga " num canto e dar uns conselhos.
bejo

Rita disse...

Juliana, passa lá no blog da Amanda (pus o link no final do post). O papo ficou bem bom.

Beijos

Rita

 
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